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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Bob Fernandes sobre a mentalidade da Direta: “Vai pra Cuba, bolivariano, comunista”... Crônicas da ascensão fascista





Bob Fernandes / “Vai pra Cuba, bolivariano, comunista”... Crônicas da ascensão fascista



Protesto paralisa rodovias em 12 estados. Ação de caminhoneiros que se anunciam "independentes" de sindicatos, contrários a aumentos nos impostos e preços de combustíveis e...pela saída de Dilma.

Via WhatsApp, mensagens outras buscam espalhar pânico. Dizem que petroleiros querem provocar desabastecimento de gasolina e gás.

No domingo, 8, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, foi hostilizado em um restaurante em Belo Horizonte.

Ministro responsável pela implantação do Bolsa Família nos governos Lula, de 2004 a 2010, Patrus não tem acusações de corrupção contra si.

"Petista, ladrão, safado, bolivariano", gritaram cidadão, que diz ser empresário, e um amigo. O ministro e um amigo não deixaram pra lá, reagiram. Patrus cobrou:

-Escreva, põe isso no papel para que eu possa processá-lo...

Confrontado, o empresário recuou e confessou: "Sou ladrão, sou corrupto igual ao PT... e sonego para não dar dinheiro para partido ladrão".

Filmada e exposta nas redes sociais, a cena entra para a História como clássico do moralismo caolho e hipócrita. De gente que sonega impostos, rouba, enquanto aponta para corrupção alheia.

Na segunda vez em que foi chamado de "ladrão" o ex-ministro da Fazenda, Mantega não deixou pra lá. Processou, e dois tipos pediram desculpas publicamente.

Na Califórnia, outro tratou a presidente Dilma como "assassina" e "ladra". Repetiu-se o habitual "Deixa pra lá, é só um oportunista..."

Na mesma Belo Horizonte, no velório do ex-senador José Eduardo Dutra, há um mês, vaias, e panfletos pregando:

-Petista bom é petista morto...

Outra vez, "deixa prá lá, são só oportunistas..."

Há semanas, em São Paulo, Eduardo Suplicy e o prefeito ouviram berros:

-...comunista, bolivariano, Haddad vagabundo...

Também o vídeo dessa cena viralizou nas redes sociais. Nos dias seguintes, os registros impressos do fato. Assépticos, acríticos, já que tratavam de "bolivarianos" que devem "ir pra Cuba"... etc.

Isso numa livraria chamada "Cultura". Aquela metáfora se completou com o berreiro se dando próximo a pilhas do livro "Como conversar com um fascista", de Marcia Tiburi.

Então, mais uma vez, o habitual: "Deixa pra lá, são só oportunistas".

Sim, são oportunistas, mas é preciso lembrar: a escalada começa sempre da mesma forma. E já sabemos como termina.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Mauro Santayana sobre o avanço da direita fascista.....



   "As ameaças de neonazistas ao Papa Francisco, às vésperas de sua viagem aos Estados Unidos, e as cenas de uma cinegrafista, de emissora ligada ao partido de extrema direta Jobbik, dando coices, como uma mula ensandecida, em crianças de menos de dez anos, e derrubando com rasteiras pais desesperados, carregados de bebês, que tentavam escapar das agressões da polícia na fronteira da Hungria, sob aplausos, na internet, dos mesmos brasileiros — "Se alguém com coragem tivesse feito isso nos paus de arara que chegavam em SPO (sic), hoje a cidade seria mais bonita e melhor pra se viver. Congratulations pra mocinha!" — que defendem também a ditadura, a tortura e assassinato por agentes do Estado, como no caso da chacina de Osasco, não são mais do que diferentes ângulos de um novo despertar: o do Fascismo, que emerge, por todos os lados, como uma praga de vermes, favorecida por um mundo dominado, ainda, em sua maior parte, por um sistema baseado no egoísmo, no preconceito, na hipocrisia." - Mauro Santayana

A Mula e os Vermes


Texto de Mauro Santayana


O reerguimento despudorado da extrema direita em todo o mundo, como reação tardia à descolonização da África e da Ásia, à vitória de regimes nacionalistas e de esquerda na América Latina, à resistência de países como a Rússia contra o cerco ocidental, e ao fortalecimento dos BRICS, que estão criando um banco internacional de fomento que reúne alguns dos principais credores dos EUA e um fundo de reservas no valor de 100 bilhões de dólares, tem sido pródigo em cenas dantescas e episódios emblemáticos, que poucos imaginariam possíveis, em sua sordidez e brutalidade, neste primeiro quarto do século XXI.

Na Alemanha, dois neonazistas invadem uma cabine de trem, e, aos gritos de Heil Hitler!, depois de fazer a saudação nazista, urinam sobre uma imigrante e suas duas crianças pequenas.

Na Suécia, um imigrante romeno, cigano e sem teto, é atacado com ácido no rosto, enquanto dormia em um parque de Estocolmo.

Na Ucrânia e em vários países do leste do Velho Continente, os ciganos se encontram acossados, em seus próprios bairros, que tem sido invadidos por milícias racistas e fascistas.

Na França e em outras nações, judeus de classe média, profissionais liberais, artistas e empresários, fazem fila para emigrar para Israel, assustados com o recrudescimento de um virulento antissemitismo, por parte daqueles que também sempre atacaram árabes, negros e outras minorias.

As ameaças de neonazistas ao Papa Francisco, às vésperas de sua viagem aos Estados Unidos, e as cenas de uma cinegrafista, de emissora ligada ao partido de extrema direta Jobbik, dando coices, como uma mula ensandecida, em crianças de menos de dez anos, e derrubando com rasteiras pais desesperados, carregados de bebês, que tentavam escapar das agressões da polícia na fronteira da Hungria, sob aplausos, na internet, dos mesmos brasileiros — "Se alguém com coragem tivesse feito isso nos paus de arara que chegavam em SPO (sic), hoje a cidade seria mais bonita e melhor pra se viver. Congratulations pra mocinha!" — que defendem também a ditadura, a tortura e assassinato por agentes do Estado, como no caso da chacina de Osasco, não são mais do que diferentes ângulos de um novo despertar: o do Fascismo, que emerge, por todos os lados, como uma praga de vermes, favorecida por um mundo dominado, ainda, em sua maior parte, por um sistema baseado no egoísmo, no preconceito, na hipocrisia.

Um sistema que, no entanto, se sente cada vez mais pressionado, e que é responsável pelas consequências e contradições que ele mesmo estabeleceu, ao longo dos últimos 500 anos, ao permitir organizar-se e crescer, e continuar se expandido, com base na mais impiedosa exploração de países por outros países, de povos por outros povos, de homens por outros homens, indefinidamente.

Toda vez que o Capitalismo se sente ameaçado — já lembramos isso outras vezes aqui — ele abre a porta do canil e sai para passear com o Fascismo.

É preciso esmagar os vermes quando os ovos eclodem, para não ter que decepar, depois, uma a uma, as cabeças de seus exércitos de serpentes, como ocorreu na Primeira e na Segunda grandes guerras, ao custo de milhões de vítimas, civis e militares, nos campos de concentração e de extermínio, e também nos campos de batalha.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O #CarnaCoxinha na Av. Paulista




 "A cada manifestação contra Dilma Rousseff a oposição irracional e despolitizada coloca menos gente nas ruas. A 'qualidade' dos manifestantes também está se tornando cada vez mais estranha: nazistas de braços levantados, moçoilas com os peitos de fora, meninos mostrando seus ânus, velhos com os fundilhos sujos, malucos fantasiados e idiotas usando a camisa da CBF para protestar contra a corrupção como se a própria CBF não fosse um antro de corruptos." - Fábio de Oliveira Ribeiro


O #CarnaCoxinha na Av. Paulista e o desgaste da oposição

Por Fábio de Oliveira Ribeiro - extraído do Jornal GGN
A cada manifestação contra Dilma Rousseff a oposição irracional e despolitizada coloca menos gente nas ruas. A qualidade dos manifestantes também está se tornando cada vez mais estranha: nazistas de braços levantados, moçoilas com os peitos de fora, meninos mostrando seus ânus, velhos com os fundilhos sujos, malucos fantasiados e idiotas usando a camisa da CBF para protestar contra a corrupção como se a própria CBF não fosse um antro de corruptos.
200 mil Margaridas em Brasília não despertaram a mesma atenção jornalística que 40 mil espinhos na Av. Paulista dia 16 de agosto. A oposição e a crise (artificialmente criada para permitir a entrega do Pré-sal às petrolíferas norte-americanas) só existem por causa da imprensa. Mas a própria imprensa está derretendo econômica e politicamente. A reeleição de Dilma Rousseff contra a vontade dos donos de quase todos os meios de comunicação prova a força popular do PT. Prova também a incapacidade dos jornalistas de fabricar consensos.
Entre o consenso sacramentado nas urnas e aquele desejado pela oposição há um abismo. E este abismo não pode mais ser transposto pela imprensa. Quantas pessoas o PT colocará na ruas no dia 20 de agosto? 400 mil, 4 milhões ou 14 milhões? Os jornalistas provavelmente não darão o mesmo destaque que deram à manifestação anti-PT nas passeatas pró-Dilma que irão ocorrer em breve. Mas isto não mudará o quadro político.
Um golpe de estado não pode ser dado pela minoria, especialmente se esta não tem o apoio das Forças Armadas. A falta de apoio nos quartéis talvez seja a grande fragilidade da oposição.
Durante oito anos FHC fez tudo o que pode para sucatear o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Lula retomou os investimentos nas três armas e revitalizou a indústria bélica nacional. Dilma Rousseff preservou estas duas diretrizes. Isto explica porque os governos petistas se tornaram mais confiáveis entre militares da ativa do que os carcarás da terra arrasada travestidos de tucanos. Também explica porque o PSDB se tornou cada vez mais escravo de alguns grupelhos nazistas. Todavia, o nazismo canarinho se caracteriza pelo ódio manifesto o povo brasileiro. Em razão disto, os nazitucanos não podem nutrir qualquer esperança de criar um movimento de massas ou de contar com um golpe de mão semelhante ao de 1964.
As massas que rejeitam as prioridades dos barões da mídia, por outro lado, estão na internet. O fenômeno mais importante neste domingo foi a hashtag #CarnaCoxinha no Twitter, que cresceu de maneira consistente durante o dia até se tornar a tópico mais discutido mundialmente naquela rede social. O que fazer quando a gozação virtual é maior do que o próprio movimento golpista? Neste ponto cedo a palavra aos eloquentes “canetas” do Cachoeira na Veja e aos demais apoiadores do golpe-Titanic que afundou no Rio Tietê junto com a revista da Abril Cultural.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Madame indo bater panelas contra o PT


 Faço minhas as palavras de Rodrigo Vianna sobre o "panelaço" - elitista e cada vez mais pífiio - de ontem:

Vizinhos, na zona sul de São Paulo, resolveram bater panelas enfurecidos.

O barulho vem de casas que valem mais de 1 milhão de reais. Gente que jamais bateu panela contra fome, dengue, falta d'água, ou corrupção de Maluf/Quércia/PSDB.

Tenho críticas ao PT. Mas, desde 2005, cada vez que vejo a histeria seletiva da classe média antipovo (que tem ódio de bolsa família e detesta pobre em avião), sinto vontade de votar no PT de novo. E de novo… E de novo.

Que batam panelas até furar.

Para além de 2018!

Não desistam… O Brasil é grande. Cabe até paneleiro ignorante nesse país.

Somos generosos com a ignorância de vocês.

Mas não se equivoquem: panela não é urna, respeitem meu voto!

Golpe nunca mais!

Viva a Democracia!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Luciano Martins Costa discute pesquisa da USP e Unifesp que mostra a formação da mentalidade fascista da extrema-direita elitista que saiu do armário

 "A base que os defensores do impeachment da presidente Dilma Rousseff chamaram de “apoio popular” é formada por cidadãos de perfil extremamente conservador, propensos a acreditar em mitos urbanos e com baixo grau de cultura política. Sob orientação do filósofo Pablo Ortellado, da USP, e da socióloga Esther Solano, da Unifesp, dezenas de pesquisadores organizados pelo núcleo de debates Matilha Cultural, de São Paulo, entrevistaram 571 participantes da manifestação de domingo (12/4/2015), em toda a extensão da Avenida Paulista. O resultado é estarrecedor. E esclarecedor."



Palavras racistas seguidas de suásticas são encontradas em um muro de São Paulo


  Houve uma pesquisa com 571 participantes da manifestação do domingo 12 de abril de 2015, em toda a extensão da Avenida Paulista.  Vejam os resultados e o comentário de Luciano Martins Costa:


Breviário do perfeito midiota



Por Luciano Martins Costa em 16/04/2015 - Observatório da Imprensa


  A base que os defensores do impeachment da presidente Dilma Rousseff chamam de “apoio popular” é formada por cidadãos de perfil extremamente conservador, propensos a acreditar em mitos urbanos e com baixo grau de cultura política. Sob orientação do filósofo Pablo Ortellado, da USP, e da socióloga Esther Solano, da Unifesp, dezenas de pesquisadores organizados pelo núcleo de debates Matilha Cultural, de São Paulo, entrevistaram 571 participantes da manifestação de domingo (12/4), em toda a extensão da Avenida Paulista. O resultado é estarrecedor. E esclarecedor.


 Por exemplo, 71,30% acreditam que Fábio Luís Lula da Silva, um dos filhos do ex-presidente Lula, é sócio da gigante de alimentos Friboi; 64,10% acham que o Partido dos Trabalhadores pretende implantar uma ditadura comunista no Brasil; 70,90% entendem que a política de cotas nas universidades gera mais racismo; 53,20% juram que a facção criminosa PCC é um braço armado do Partido dos Trabalhadores; 60,40% acham que o programa bolsa-família “só financia preguiçoso”; 42,60% acreditam que o PT trouxe 50 mil haitianos para votar em Dilma Rousseff nas últimas eleições; 55,90% dizem que o Foro de São Paulo quer criar uma ditadura bolivariana no Brasil e 85,30% acham que os desvios da Petrobras são o maior caso de corrupção da história do Brasil.

  A lista das perguntas permite traçar um perfil muito claro da matriz dos protestos, como preferências partidárias, confiança na imprensa, em partidos  e entidades civis e, principalmente, adesão a teses improváveis que, no entanto, são muito populares nas redes sociais digitais. O resultado mostra, por exemplo, que a maioria (57,80%) confia pouco ou simplesmente não confia (20,80%) na imprensa. No entanto, o mais alto grau de credibilidade é dado à apresentadora do SBT Raquel Sheherazade, considerada entre os comentaristas políticos: 49,40% disseram “confiar muito” nela, seguindo-se o colunista Reinaldo Azevedo (39,60% dizem confiar muito nele).

  A maioria (56,20%) declarou usar como principal fonte de informação política os sites da mídia tradicional (jornais, TVs, etc.), vindo em seguida o Facebook (47,30%). No campo da imprensa propriamente dita, o veículo em que os manifestantes declaram ter mais confiança é a revista Veja (51,80% confiam muito); entre os jornais, destaca-se O Estado de S. Paulo (40,20%).

  Rejeição à política

  Foram entrevistados apenas manifestantes com idades acima de 16 anos, ou seja, cidadãos aptos a votar. O perfil médio corresponde ao que foi identificado pelo Datafolha (ver aqui): na maioria (52,70%) homens, brancos (77,40%), com educação superior completa (68,50%), idade acima de 45 anos e classes de renda A e B. Apesar de uma tendência a afirmar que não confiam em políticos, a maioria declarou considerar, como lideranças mais confiáveis, pela ordem, o senador Aécio Neves, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o PSDB, o governador Geraldo Alckmin, vindo em seguida a ex-ministra Marina Silva e o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ); José Serra (PSDB-SP) perde para Ronaldo Caiado.


  Nada menos do que 73,20% dizem não confiar nos partidos políticos em geral, contra apenas 1,10% que confiam muito e 25,20% que confiam pouco.

  Os maiores índices de rejeição vão, evidentemente, para o PT (96% não confiam), seguindo-se o PMDB (81,80% não confiam). A presidente Dilma Rousseff (com 96,70%), seguida do ex-presidente Lula da Silva (95,30%) são os políticos em que os manifestantes menos confiam, seguidos pelo prefeito petista de São Paulo, Fernando Haddad (87,60%). O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), conta também com alto grau de rejeição (73,40% não confiam nele).

  Os números da pesquisa (ver aqui) permitem fazer uma análise bastante clara do recorte da população que saiu às ruas na última manifestação de protesto contra o governo federal. Os participantes são, majoritariamente, eleitores do PSDB, de uma extração específica da população paulista formada por indivíduos de renda mais alta, brancos, com baixa educação política a despeito da alta escolaridade, muito influenciados por jornalistas comprometidos com a agenda da oposição e propensos a acreditar em rematadas bobagens que proliferam nas redes sociais.

  A “base popular” que o senador Aécio Neves apresenta como fonte de legitimidade para seu projeto de impeachment da presidente da República é a fração mais reacionária de seu próprio eleitorado, primor de analfabetismo político. A maioria se encaixa exatamente na definição do perfeito midiota.

  Passarão?

terça-feira, 17 de março de 2015

Professor da USP comenta sobre a insanidade do dia 15 de março e a hipocrisia da elite paulista: "Não vi um cartaz contra a corrupção em São Paulo"

 

 "Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras; um 'Fora, Alckmin', grande timoneiro de nosso 'estresse hídrico', um 'Fora, Eduardo Cunha' ou 'Fora, Renan', pessoas da mais alta reputação. Nada."
 Professor Vlademir Safatle





quarta-feira, 11 de março de 2015

Quando o ódio elitista caminha lado a lado com o analfabetismo político



Como pessoas inteligentes e bem informadas podem se deixar cegar por sua própria inconsequência política? Como é possível contribuir com o impeachment de um presidente, sem sequer avaliar as consequências que tal passo terá amanhã?
Por Luiz Carlos Azenha, no Viomundo
Nunca a classe média militou tanto politicamente quanto em tempos recentes. Nas eleições de 2014, atuou diuturnamente nas redes sociais e, mesmo sem ser convocada, saiu voluntariamente por aí com reproduções da Veja para buscar votos.
Tudo isso deve ser saudado como um passo positivo. O processo de criação de novas lideranças é prolongado e atuar em defesa de seus interesses de classe é não só legítimo, como pode servir de escola.
Porém, as eleições acabaram. Não está previsto um terceiro turno. E a classe média, agora, quer ganhar no grito. Literalmente.
Ela confunde o desabafo apaixonado do torcedor que grita gol de seu clube na sacada com o “fazer política” através de panelas e buzinas. É o barulho que cala o adversário e impede o diálogo. “Vaca”, “vadia” e “filha da puta” fazem parte do repertório de quem, no grito, quer negar ao outro o direito de se expressar.
A classe média, neste sentido, consegue ser ainda pior que o Jornal Nacional, que também cerceia a liberdade de expressão alheia, enquanto privilegia os seus — mas pelo menos o faz de maneira politicamente correta.
Existe um cordão umbilical entre ambos. Há quase 50 anos o JN, com suas mentiras, distorções, omissões e meias verdades, é o principal instrumento para moldar o analfabetismo político no Brasil.
Os governos do PT, como sabemos, quase nada fizeram para mudar isso. José Dirceu, lembrem-se, foi aquele ministro que acreditou que a Globo “era nossa”.
A classe média não quer saber de criar sindicatos, partidos, associações de moradores e movimentos sociais, nos quais um integrante pode tudo, menos ganhar no grito.
Até mesmo na reunião de condomínio é preciso argumentar, perder uma, ganhar outra e seguir a vida, do jeitinho que é na Política com pê maiúsculo.
Porém, os analfabetos políticos não conseguem alcançar intelectualmente a ideia de que conviver com o diferente está no cerne de qualquer democracia. Perder faz parte do jogo.
O GAFE — Globo, Abril, Folha e Estadão — faz o trabalho inverso daquelas máquinas de diálise e cada vez mais envenena o sangue dos desvairados.
O veneno é potencializado pelo organismo do analfabeto político. Lembrem-se, ele é um ser a-histórico, alimentado por doses diárias de informação descontextualizada.
Justamente por isso, vicejam neste ambiente as teorias conspiratórias mais desconexas. A acreditar nelas, o filho do Lula é dono de uma fazenda cuja sede é a Escola de Agronomia Luís de Queiroz (ESALQ), de Piracicaba. Tropas estrangeiras, vindas da Venezuela, já teriam invadido o Brasil com o objetivo de apoiar um golpe de esquerda de um governo cujo ministro da Fazenda é Joaquim Levy. Os médicos cubanos, devidamente infiltrados, estariam apenas esperando um sinal de Dilma para espalhar o vírus vermelho da comunização.
Estes absurdos não parecem absurdos a uma parcela considerável dos analfabetos políticos. Eles acreditam em tudo o que de alguma forma se encaixa em seus preconceitos.
Nesta manhã um colega narrou a seguinte experiência. Ele estava em casa quando ouviu a gritaria e o panelaço vindos, especialmente, de um prédio luxuoso, cujo condomínio custa 5 mil reais mensais. Saiu de casa e manifestou sua opinião contrária. Recolheu-se e foi dormir. Ao acordar, os vidros da porta principal de seu prédio estavam quase todos destruídos.
Este é o nível ao qual chegou o ódio irracional, capaz de fazer muito mais danos à democracia quando se espalha feito fogo pelas redes sociais. Marx talvez nunca tenha imaginado que chegaríamos a tal ponto: a guerra de classes instantânea.
No twitter, chamou minha atenção a mensagem de um internauta dizendo que a classe média brasileira tem sorte de não morar na Venezuela, onde falar mal do governo leva à cadeia. Eu o corrigi. Não é verdade. Pelo menos não enquanto Nicolas Maduro conseguir contemporizar com os militares à esquerda, que podem dar, sim, um golpe preventivo, caso a decisão de Obama de considerar Caracas uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos resulte no isolamento da Venezuela.
Lá, o maior legado de Hugo Chávez foi ter politizado como nunca a população do país. Tendo vivido uma guerra cruenta de Independência, ao contrário de nosso arranjo à brasileira nas margens do Ipiranga, os venezuelanos tem uma relação com a História muito diferente da dos brasileiros. O problema, lá, é que a elite militar que sobreviveu à guerra de extermínio dos espanhóis estabeleceu uma tutela sobre o poder civil, que ainda se manifesta nos dias de hoje.
Nosso problema, pelo menos o mais evidente, é que a famosa “modernização conservadora” nos impõe um pacto muito parecido com o de Punto Fijo, através do qual as elites venezuelanas fizeram um arranjo pelo qual se sucederiam no poder. Tal pacto, lá como aqui, é incompatível com a democracia. Lá, foi detonado por Hugo Chávez. Aqui, persiste, agora em crise profunda.
Se o PT não mexeu nos fundamentos dele, por outro lado ameaça ganhar outra eleição em 2018, impondo aos tucanos uma secura de 20 anos!
Em junho de 2013, a explosão difusa nas ruas chegou a ameaçar o nosso pacto. O analfabetismo político ficou explícito na incapacidade dos atores daquele movimento de tirar um saldo das manifestações de rua. A reação conservadora não tardou, na forma da criminalização dos protestos. Avança, com um Congresso mais conservador que o anterior, liderado por gente como Renan Calheiros e Eduardo Cunha.
Mas, a tensão continua no ar. A verdadeira elite, não a dos batedores de caçarola, parece dividida: “Ruim com Dilma, pior sem Dilma?” ou “Podemos dispensar a Dilma, fatiar a Petrobras e viver de rendas”.
Hoje, duas conhecidas — uma votou na Dilma e a outra em Aécio — falavam sobre seu desconsolo com a situação do Brasil. Reclamaram do preço do dólar, do possível desemprego, do petrolão e da inflação. Concordei com tudo. Acrescentei minhas próprias críticas ao aparente isolamento de Dilma, à sua inépcia política, ao discurso distante no Dia Internacional das Mulheres, ao ministério medíocre, às medidas econômicas que primeiro punem os trabalhadores.
Não disse, mas deveria ter dito, que se o Brasil tivesse uma Constituição como a da Venezuela, que prevê o recall, Dilma poderia ser submetida a um referendo na metade do mandato, cumpridas as exigências de assinaturas etc. Chávez enfrentou um e venceu por 60% a 40%.
Ainda que tão desgostoso quanto elas com o quadro atual, propus um exercício.
“Ok, vamos derrubar a Dilma. Mas, o que virá em seguida? Temer? Cunha? Novas eleições? Intervenção militar? É possível consertar a economia com passes de mágica? Não seria melhor esperar por novas eleições, já que Dilma acaba de ser reeleita?”
Ambas me pareceram confusas depois de todas as minhas perguntas. É como se tivessem escolhido Dilma para desabafar, o que pode ser positivo do ponto-de-vista psicanalítico, mas não é recomendável quando estamos falando do futuro do Brasil.
Fiz as perguntas só para provocar. Fui embora intrigado: como pessoas inteligentes e bem informadas podem se deixar cegar por sua própria inconsequência política? Como é possível dar um passo de tal envergadura, como contribuir com o impeachment de um presidente, sem sequer avaliar as consequências que tal passo terá amanhã?
Tenho comigo que é o poder do ódio provocando uma epidemia de cegueira, equivalente àquela que o Saramago inventou.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Venezuela só é aqui na grande mídia comprometida com seus próprios interesses e com aloprados golpistas

"O que há é um esforço de representantes do estrato mais conservador da sociedade para colocar o bode na sala e obrigar a presidente reeleita a negociar o bloqueio de qualquer projeto que se aproxime da regulação da mídia, nem que seja para cumprir o que determina a Constituição sobre a concentração dos meios de comunicação."

Segue texto de Luciano Martins Costa, extraído do Observatório da Imprensa:

DEMOCRACIA & ‘BOLIVARIANISMO’

A Venezuela não é aqui

Por Luciano Martins Costa em 04/11/2014 na edição 823


A mídia tradicional do Brasil está relegando a segundo plano a pauta da corrupção, que predominou durante a campanha eleitoral no rastro de reportagens, declarações, vazamentos e alguma ficção maquinada para alimentar debates e propaganda política.

A nova palavra de ordem da agenda que os jornais tentam impor ao campo político é: “bolivarianismo”. A expressão foi destacada na primeira página da edição de segunda-feira (3/11) da Folha de S.Paulo,em artigo do colunista Luiz Felipe Pondé e em entrevista do ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, e ganhou as redes sociais na terça-feira (4).

No caso do articulista, pode-se arquivar o texto na “cesta seção”, onde um dia os arqueólogos do besteirol reacionário irão identificar os protagonistas que a imprensa classificava como “intelectuais” nas primeiras décadas do século 21. O problema cresce quando a imprensa se serve de um ministro da Suprema Corte para alimentar teorias conspiratórias.

O Brasil não é a Venezuela, não ocorreu no passado recente o advento de um líder caudilhesco que se possa comparar ao presidente Hugo Chávez, morto em 2013, e a política nacional inaugurada em 2003 com a ascensão da aliança liderada pelo Partido dos Trabalhadores não guarda a mais remota similaridade com o processo venezuelano.

O que há é um esforço de representantes do estrato mais conservador da sociedade para colocar o bode na sala e obrigar a presidente reeleita a negociar o bloqueio de qualquer projeto que se aproxime da regulação da mídia, nem que seja para cumprir o que determina a Constituição sobre a concentração dos meios de comunicação.

Assim age o cartel da imprensa: primeiro ameaça com uma crise por meio de boatos, especulações e meias-verdades, depois propõe a negociação. No caso que se evidencia nesta semana, trata-se de exacerbar os ânimos da massa de manobra que não aceita o resultado das urnas, com a tese de que a presidente vai transformar o Brasil numa ditadura em seu segundo mandato.

Por mais insano que possa parecer, esse é o mantra que vem sendo recitado na redação da revista Veja nos últimos dias. Os editores da revista dizem a quem quiser ouvir que estão empenhados em uma cruzada contra o fantasma de Hugo Chávez.

Jogo perigoso

A revista que já foi a joia da coroa do editor Victor Civita está preparando uma entrevista com um empresário venezuelano do setor de mídia para que ele diga como seria a imprensa num Brasil “bolivariano”. Depois das páginas amarelas de Veja, o conteúdo será reproduzido pelos jornais e provavelmente comentado pela TV Globo, no Fantásticoou no Jornal Nacional.

Protagonistas ensandecidos como o colunista da Folha acreditam piamente que “está em curso um processo de destruição da liberdade de pensamento no Brasil”. Ele chama Dilma Rousseff de “presidente bolivariana reeleita”.

O leitor fiel e de boa fé da Folha de S.Paulo pode argumentar que essa é apenas uma das muitas opiniões no diversificado cardápio de leituras que o jornal oferece diariamente. Afinal, personagens assim destrambelhados podem trazer alguma graça ao cotidiano da imprensa, para temperar a sisudez de um Clovis Rossi ou um Janio de Freitas. Mas não é possível dissimular que se trata de um texto de encomenda, ou seja, que faz parte da estratégia de edição.

Senão, vejamos: o assunto foi levantado na segunda-feira (3) em entrevista do ministro Gilmar Mendes, mas qual seria a oportunidade para transformar o jurista em notícia, se nada o destaca entre seus pares neste momento? Se ele estivesse dirigindo o Tribunal Superior Eleitoral, haveria aí uma pauta natural, uma vez que o principal partido da oposição questiona oficialmente o resultado das urnas. Fora isso, entrevistar Gilmar Mendes é apenas uma manobra para colocar na boca dele o que os editores querem dizer: que em dois anos o novo governo deverá nomear novos ministros do STF, e Mendes e os jornais acham que isso irá transformar a Suprema Corte em um “tribunal bolivariano”.

Não importa o argumento segundo o qual um tribunal formado por maioria de ministros nomeados por governos petistas condenou à prisão a antiga cúpula do PT. A imprensa teme que o tribunal se torne permeável ao cumprimento da regra constitucional sobre a concentração da mídia. O objetivo da manobra é dar credibilidade ao desvario sobre intenções totalitárias da presidente da República.

Com os aloprados golpistas assanhados nas ruas, trata-se de um jogo muito perigoso.