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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Quando o racismo foi estampado com o aval da Folha de São Paulo endossando a falácia do "racismo reverso"

 

Folha endossa “supremacia branca” com artigo sobre racismo reverso

Intelectuais, artistas, jornalistas e políticos reagem ao artigo de Antonio Risério, na Folha, denunciando o racismo de negros contra brancos


Racismo reverso não existe. Mas Folha de S. Paulo conseguiu transformar a tese do racismo de negros contra brancos em um dos assuntos mais comentados nas redes sociais desde domingo (16), quando publicou o artigo do poeta Antônio Risério, afirmando que o racismo reverso está em alta graças ao identitarismo do movimento negro.

Intelectuais, advogados, políticos, jornalistas, artistas, brancos e negros, reagiram ao artigo e criticaram o jornal pelo espaço dado à teoria fantasiosa.

A deputada federal Talíria Petrone (PSOL) foi uma das vozes mais contundentes na defesa do movimento negro. “O artigo na @folha sobre um suposto ‘racismo reverso’ causado pelo ‘identitarismo’ é absurdo! No Brasil da falsa abolição, que ataca corpos negros e indígenas, esse tipo de matéria endossa a supremacia branca”, disparou.

“Falar de racismo reverso em pleno 2022 é desonestidade intelectual, uma aberração histórica, um desserviço para a luta antiracista!”, acrescentou a deputada estadual do PSOL, Renata Souza, do Rio.

A antropóloga e advogada feminista Debora Diniz também achou o artigo um desserviço da Folha. “Racismo é mais do que afetos negativos: é ter o poder para usar o afeto como poder de destruição. Por isso, não há racismo reverso. Artigo desnecessário da Folha: só para criar controvérsia, intrigas e múltiplas réplicas.”

Um dos intelectuais negros mais respeitados na academia, o professor Silvio Almeida teceu comentários sobre o artigo e rebateu internautas que o cobraram por também ser colunista da Folha. “Tem gente que acha que racismo é performance e não relação de poder”, apontou.

Para Almeida, o texto de Risério integra a lista de “artigos de arruaceiros, nulidades e oportunistas que têm assento na grande imprensa”.

Particularmente, não vou gastar meu tempo e nem minha coluna para lidar com esse tipo de gangsterismo intelectual”, disparou Almeida. “Há polêmicas sérias sobre racismo, há uma situação geopolítica que demanda nossa atenção; há um disputa sobre a identidade nacional que vai se intensificar com o bicentenário da Independência, os 100 anos da semana de arte moderna; pandemia, copa do mundo e eleições cruciais para o destino do país. Muitos livros básicos dementem tudo o que estes articulistas têm escrito, de tal sorte que com eles não se deve gastar energia”, respondeu Silvio Almeida.

Para ele, a Folha, ao abrigar essa “baderna mental”, tenta parecer um espaço plural e democrático, mas se assemelha “a arenas, e na pior, becos de lutas clandestina e sem regras.”

O professor e advogado Thiago Amparo, referência para o movimento negro, avaliou o artigo como “desonestidade intelectual”: “Não existe racismo reverso. Racismo é sistema de poder – econômico, jurídico, midiático, social, físico – fundado na ideia de que não somos humanos. Nunca houve no Brasil negros com poder oprimindo brancos. Afirmar o contrário, com anedotas, é desonesto na medida em que é cruel.”

A cantora e compositora Tereza Cristina se manifestou lembrando que o artigo de Risério faz parte de um contexto político-eleitoral maior: “Polêmica é passas no arroz, maçã na maionese. Um homem branco puxar uma discussão sobre racismo reverso num ano em que renegociaremos as cotas é de uma canalhice sem tamanho. E racista. Tem que gritar, sim.”

A cantora Zelia Duncan também criticou a Folha: “Dar voz ao desserviço, ao que questiona uma luta fundamental e urgente como a luta contra o racismo é ,no mínimo, irresponsável e cínico. Racismo reverso não existe!”

A jornalista Carol Pires explicou que “racismo é violência sistemática e institucionalizada. Se uma pessoa ou um grupo não têm poder sobre você institucionalmente, eles não definem os termos da sua existência. Portanto, racismo reverso não existe.”

Cecilia Olliveira, jornalista do El Pais, compartilhou um vídeo que praticamente desenha para os brancos por que o racismo reverso não existe:

Reação da direita

Já Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares que sapateia em cima da biografia de grandes negros e negras da história brasileira, endossou a tese do racismo reverso. “Não existe lei que defina racismo reverso. A expressão beneficia pretos racistas, garantindo a impunidade. Existe somente o racismo; a cor do racista não importa.”

O cineasta que dirigiu um filme propagando as ideias de Olavo de Carvalho, José Teófilo, também concordou com o sentimento expressado no artigo da Folha: “Não é racismo reverso, é apenas racismo – qualquer um pode ser racista.”

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Vídeo do Meteoro Brasil sobre o racismo estrutural (base do neofascismo brasileiro)

 Do Canal Meteoro Brasil:

Você provavelmente já ouviu o termo "racismo estrutural", mas talvez não conheça a gravidade daquilo a junção dessas duas palavras aponta. Hoje, recorremos à obra de Silvio Almeida para entender o que é racismo estrutural.





segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Cancelamentos históricos, historicidade de conceitos, reavaliação do passado com olhos do presente e o racismo atribuído a Allan Kardec, por Dora Incontri

 

“…do estudo dos seres espirituais, ressalta a prova de que esses seres são de natureza e origem idênticas (…) chega-se à consequência capital da igualdade de natureza e, a partir daí, à igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e à abolição dos privilégios de raça. Eis o que ensina o espiritismo.” - Allan Kardec (Revista Espírita, junho de 1867).


Do Jornal GGN:


Cancelamentos históricos e o racismo de Kardec, por Dora Incontri

Mesmo entre os críticos do sistema e dos que estão trabalhando para mudanças radicais, há um tal patrulhamento e atitudes de cancelamento, que impedem a necessária união para avançarmos.

Cancelamentos históricos e o racismo de Kardec, por Dora Incontri

Na sua Encíclica mais recente, Fratelli Tutti – Todos irmãos, que brilha em sua coerência humanista, em sua crítica ao sistema capitalista e em suas proposições de um mundo mais fraterno, o Papa Francisco toca em várias feridas contemporâneas. Uma delas é o “jogo de desqualificações” no cenário de polarização, que se estabeleceu em toda parte, impedindo um diálogo para um projeto comum para a humanidade.

Mesmo entre os críticos do sistema e dos que estão trabalhando para mudanças radicais, há um tal patrulhamento e atitudes de cancelamento, que impedem a necessária união para avançarmos.

Penso nisso agora, quando estamos no tema inquietante do racismo genocida em nossa sociedade brasileira. Não faltam estudos atuais, dentro da linha do pensamento decolonial, que mostram o quanto o projeto de colonização partiu de premissas, óbvias para o homem branco europeu, de superioridade racial e de domínio e extermínio dos povos colonizados. O primeiro a denunciar isso foi justamente um homem branco, europeu, que havia participado no início de sua vida como proprietário escravocrata na América Central, mas depois, tendo sofrido uma espécie de conversão, passou a defender a causa indígena e a apontar o genocídio que estava sendo perpetrado: o dominicano Bartolomé de las Casas. Entretanto, esse homem branco, europeu, era um homem, do seu tempo, da Igreja do século XVII. Então, se formos fazer sua leitura a partir das perspectivas do século XXI, vamos encontrar inúmeras contradições, que chocam a nossa sensibilidade atual. Em seu livro A Conquista da América, Tzvetan Todorov faz essa leitura, numa brilhante análise histórica. Mostra que, embora Las Casas defendesse a não-agressão e a não-escravização dos indígenas, ainda assim, participava do projeto de colonização religiosa e cultural dos povos originários e, ao mesmo tempo, não era tão claro na defesa dos africanos. Mas então, trata-se de uma leitura histórica, documental, em que Tzvetan desvenda em que aspectos Las Casas se destacava por sua generosidade, sinceridade e em que pontos estava representando a mentalidade colonialista, na qual estava culturalmente enraizado.

Penso que devemos fazer assim com as grandes personalidades da história, que deram alguma contribuição importante em sua época. Apreendê-las em seu contexto, sem praticar anacronismos históricos, mostrando em que avançaram e deram passos na direção de nossa compreensão de hoje e em que não conseguiram escapar de seus condicionamentos e suas contradições humanas.

Digo isso também em relação a Allan Kardec, que tem sido trazido para a discussão, às vezes furiosa, sobre a questão do racismo. Sim, Kardec teve também seus enraizamentos históricos, seus condicionamentos culturais de um homem branco, nascido numa França que tinha colônias na África e isso se reflete em algumas passagens de sua obra, que revelam a ideia de superioridade da “raça branca, europeia, civilizada”… Mas o projeto do espiritismo não é um projeto colonialista e de opressão de povos e etnias, porque o que ressalta do conjunto da obra é uma afirmação firme da igualdade entre todos e todas. Veja-se, por exemplo, essa citação:

“…do estudo dos seres espirituais, ressalta a prova de que esses seres são de natureza e origem idênticas (…) chega-se à consequência capital da igualdade de natureza e, a partir daí, à igualdade dos direitos sociais de todas as criaturas humanas e à abolição dos privilégios de raça. Eis o que ensina o espiritismo.” (Revista Espírita, junho de 1867).

Há inúmeras outras citações nesse sentido nos livros de Kardec e, ao mesmo tempo, outras, com um desagradável ranço etnocentrista, eurocentrista e racista – palavras e conceitos, aliás, que nem existiam em meados no século XIX. Mas o que isso significa? Apenas que Kardec era humano. Como todos nós. Um homem que podia em alguns aspectos enxergar além do seu tempo e dar contribuições que nos servem até hoje – pelo menos àqueles que se identificam com suas propostas – e simultaneamente ainda manifestar, talvez sem perceber, a mentalidade de toda uma época colonialista, em que a ciência, considerada oficial, arranjava teorias racistas para louvar uma suposta superioridade do homem branco.

O cancelamento histórico ou atual – digo com personalidades do passado ou com pessoas do presente – por encontrarmos no meio de boas ideias e atuações positivas e inspiradoras, contradições ou incoerências é o que considero bastante empobrecedor, radical e intolerante em nossos tempos. Fazem isso também por exemplo com Gandhi, Martin Luther King ou qualquer pessoa que se põe em cena para dizer algo. E se alguém tenta fazer uma análise mais serena e mais compreensiva é logo acusado “de estar passando pano”.

É claro que existem seres humanos, que se afastam tanto de um padrão humano, como um Adolf Hitler ou Brilhante Ustra e outros que tais por aí, que não há como aproveitar nada do que disseram ou fizeram a não ser para cumprir um ditado, por coincidência alemão, que diz: “ninguém é tão ruim que não possa servir como um mau exemplo”. Mesmo com esses criminosos, sádicos, que não tiveram outra atitude que a de torturar e matar, não me apetece ter discurso de ódio. Mas sim um lamento, uma perplexidade, uma interrogação filosófica e existencial de como um ser humano pode chegar tão abaixo de sua própria humanidade. Não quero que esses exemplos quase absolutos do mal me piorem por dentro, deixando-me possuir por ódio.

Compreendo que na posição de um negro, de um indígena, assim como na posição de uma mulher – e essa posso assumir no tão propalado “lugar de fala” – podemos nos ressentir, nos indignar, quando fazemos leituras históricas que mostram o que já se sabe sobejamente: que o racismo e patriarcado são estruturais há milênios. Então, não nos cabe destruir as personalidades que trabalharam sinceramente pelo progresso humano, porque ainda tiveram ressonâncias dessas ideias estruturais. Cabe sim, fazer sempre uma leitura crítica, histórica, com equilíbrio. E com nossos contemporâneos, paremos com esse cancelamento burro. Podemos dialogar, sem impor nossas cartilhas ideológicas, cancelando quem delas se afasta uma vírgula!

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quarta-feira, 15 de abril de 2020

Eduardo Moreira, Jessé Souza, Pedro Cardoso e Paulo Kliass em debate: A tragédia do povo pobre, sem ajuda e com o vírus - com Pedro Cardoso, Jessé Souza e Paulo Kliass

Importantíssimo debate entre Eduardo Moreira, Jessé de Souza, Pedro Cardoso e Paulo Kliass sobre a pandemia, a hipocrisia da classe média, o nazi-fascismo bolsonarista e a economia de retrocessos neoliberal no atual Brasil... Incluindo os ataques de Bolsonaro e seu gado fascista à ciência, à universidade, à cultura.....

Do Canal de Eduardo Moreira:


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Aporofobia: o ódio elitista aos pobres em tempos sombrios, por Carlos Eduardo Araújo



   Aporofobia é um neologismo inventado pela filósofa Adela Cortina, professora catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência. A palavra nos parece estranha, seja ortográfica, seja foneticamente, mas tem a proeza de nomear uma realidade nefasta e ignóbil. Foi escolhida a palavra do ano de 2017, pela Fundação Espanhola Urgente.


Do site Justificando:

 Aporofobia: o ódio aos pobres em tempos sombrios

 Aporofobia: o ódio aos pobres em tempos sombrios

 

Imagem: Agência Brasil

Por Carlos Eduardo Araújo

Aporofobia é um neologismo inventado pela filósofa Adela Cortina, professora catedrática de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência. A palavra nos parece estranha, seja ortográfica, seja foneticamente, mas tem a proeza de nomear uma realidade nefasta e ignóbil. Foi escolhida a palavra do ano de 2017, pela Fundação Espanhola Urgente.


O vocábulo, cunhada pela professora Adela e usado em diversos artigos, livros, entrevistas e palestras, é composto pela junção de dois diferentes termos, emprestados da língua grega, e se propõe a identificar uma fobia, um medo, uma patologia social que se manifesta na aversão a alguém que é percebido como portador de determinado atributo, origem, comportamento, aspecto ou traço, como são exemplos a homofobia, a islamofobia, a xenofobia. “Aporofobia”, do grego á-poros, sem recursos, indigente, pobre; e fobos, medo; refere-se ao medo, rejeição, hostilidade e repulsa às pessoas pobres e à pobreza.

A palavra, recentemente incorporada ao léxico da língua espanhola e que já ganha foros globais, vem em um momento propício para nos ajudar a nominar e compreender o fenômeno que se depreende da fala do Ministro Paulo Guedes sobre as empregadas domésticas. Falando para empresários, a elite econômica do país, sobre a alta do dólar, disse que seria algo positivo uma vez que o câmbio baixo, o que se deu durante os governos petistas, possibilitava até empregadas domésticas irem à Disneylândia, o que seria, diz em tom jocoso e de repreensão, uma festa. Essa fala denuncia, às escâncaras e sem peias, um enorme e indisfarçável ódio, intangível mais real, aos pobres ou às classes sociais que se situam na base da pirâmide social. É um preconceito de classe, no qual se identifica um colossal desprezo, repulsa, aversão ou nojo pelos pobres, ao mesmo tempo que visa os colocar “em seu devido lugar”.

Houve um tempo em que os preconceitos, como um carma social atávico, eram objeto de interdições, de um prudente pudor, de uma pátina de civilização. As pessoas se sentiam constrangidas de os ostentar em público, eram fulminados quando expostos à luz do dia, sensíveis a ela como Drácula ao sol. Todavia, nestes tempos esdrúxulos em que vivemos, com a extrema direita no poder, foi aberta da caixa de Pandora, da qual escaparam, entre outros males, o despudor, a ofensa, a indiferença, a insensibilidade, a incivilidade. As virtudes foram subvertidas ou viradas de ponta cabeça. Aqueles preconceitos que até então eram sufocados, em proveito do convívio e de uma ética social, porque era feio, vil e indigno os alardear publicamente, passaram a ser vocalizados, exibidos e legitimados na nova ordem moral impudica, corrompida e iníqua que se instaurou entre nós, hodiernamente, e que ganhou assento no poder.

Todavia, os preconceitos ou ódios de classe não são uma invenção da onda bolsonarista, que ora usurpa o poder. Fazem parte de nossa história, gestados no seio de uma sociedade escravocrata, cujo racismo é um componente estrutural e permanente. Entretanto, não podemos deixar de reconhecer que o atual mandatário do executivo federal e seu séquito os estimulam, legitimam e difundem, por meio de falas, gestos e atitudes.

As camadas médias e altas da sociedade brasileira têm dado provas reiteradas de seu ódio de classe, de seu desprezo, de sua repulsa, de seu nojo aos pobres. Assim, qualquer mínimo progresso material que, virtualmente, as classes populares venham a auferir incomoda e gera uma desmedida aversão, principalmente da classe média, que se sente ameaçada e insegura com essa aproximação, que a obriga a coexistir em determinados espaços públicos, com pessoas egressas ou pertencentes às classe populares. 

Maria Luiza Martins de Mendonça e Janaína Vieira de Paula Jordão, estudando o nojo que as classes médias e altas devotam aos pobres aventam que: “Parece possível supor que a reação de indivíduos das camadas médias e altas frente à “invasão” dos espaços sociais por “seres inferiores” se funda também no temor da contaminação pelo Outro inferior, que se caracteriza pela falta: de capital cultural, de (bom) gosto, de maneiras adequadas de se portar e vestir (no sentido que Bourdieu lhes dá). Talvez sejam essas expressões de nojo parte de uma identidade de classe que se constrói e se mantém em oposição à classe trabalhadora e aos excluídos, uma vez que estes não possuem as condições materiais e culturais de conviver em espaços elitizados”.[1]

Um exemplo eloquente do ódio e do nojo pelos pobres pode ser extraído de um vídeo, que circula há anos no YouTube, retratando a “invasão” das praias da zona sul carioca, nos idos dos anos 80, do século passado, por um grupo de pessoas, moradoras dos subúrbios do Rio de Janeiro, que chegam em ônibus apinhados, para usufruírem de um dia de sol e mar.[2]


No mencionado vídeo desfilam falas de extremo preconceito, repulsa e nojo aos pobres. Uma jovem carioca se sentiu ultrajada pela “invasão” de sua praia: “uns ônibus horrorosos, com pessoas completamente horríveis que saem de dentro dos ônibus e vão lá sujar a praia … É uma gente sem educação mesmo, não pode tirar o pessoal do Meier e do Mangue e levar para ir a Copacabana … Eu não posso conviver com pessoas que não têm o mínimo de educação … É uma gente suja, você olhar para a cara dessas pessoas dá vontade de fugir … Eu tenho horror de olhar para estas pessoas e saber que estão no meu país, um horror, não são brasileiros não, são uma sub-raça”. Outras pessoas ouvidas acham que deveria haver uma demarcação nas praias, impedindo a entrada dos indesejáveis pobres. Outra opina que deveria ser cobrado ingresso dessas pessoas, impedindo-as, assim, de terem acesso à praia, tornando, assim, privativo de “uma elite” aquilo que se situa na esfera pública. Outro diz que está ali na praia para estar com os seus e não para conviver com essa gente mal-educada. Outra sugeri que sejam criados espaços de lazer próximos às comunidades pobres, impedindo, desta forma, que venham invadir sua praia.[3] Portanto, o preconceito de classe e o nojo por outro grupo social, promove uma hierarquização, na qual um dos grupos, no caso o dos pobres, é visto como algo fora do lugar e dotado de inferioridade. 

Com base nos estudos de Willian Ian Miller (The anatomy of disgust), Maria Luiza e Janaína Vieira Jordão depreendem que “o nojo também é considerado algo mais forte do que o sentimento, uma emoção, dado o seu enraizamento no contexto social e cultural, que lhe dá sentido e um intenso significado político, por possibilitar criar e manter hierarquias na ordem política e, inclusive, demonstrar superioridade. Ou seja, o nojo tem relação com o posicionamento superior/ inferior de coisas e pessoas. O inferior pode tornar-se, aos olhos do superior, um risco, um perigo de contágio que demonstra uma vulnerabilidade do superior em relação ao inferior provocada pelo medo de contágio, que impõe distanciamento. A experiência de uma presença indesejada, uma proximidade compulsória, pode provocar sentimentos de repulsa, medo de contaminação que podem ser percebidos por meio de expressões faciais”. [4] As expressões faciais de asco, desprezo e nojo, de representantes da classe média carioca, ficam evidenciadas no vídeo que retrata o passeio à praia de pessoas pertencentes às classes populares. 

A mídia tem sua parcela considerável de contribuição, por meio de suas novelas e “programas de humor”, na difusão de uma visão depreciativa e grotesca do pobre. Geralmente os personagens pobres são figuras estereotipadas: falam alto e com estardalhaço, mastigam de boca aberta e se vestem de maneira extravagante. 

Um programa de “humor” que caricaturava as pessoas das classes populares, com um viés de horror e nojo, era o “Sai de baixo”, produzido e transmitido pela TV Globo. 

Um personagem específico, Caco Antibes, interpretado por Miguel Falabella, frequentemente tinha falas cujos finais eram: “Eu tenho horror a pobre.” 

Seguem algumas:

 – “Palco de pobre é terreiro de umbanda. Eu tenho horror a pobre.”

– [Falando sobre bingo] “Senta as véia pobre e abre, tem um sanduíche de mortadela dentro. Aí elas come enquanto o homem tá cantando as pedra e aí dá uns peidinho assim de lado. Olha pra minha cara!”

– “Pobre é uma coisa triste. Pobre, quando quer falar bem, ficar pernóstico, coloca mais letra que o necessário […]. E termina com aquela frase que caracteriza, é praticamente um crachá de pobre: ‘Desculpe qualquer coisa.’ Eu tenho horror a pobre!”

– “Um pobre espirrou em cima de mim. Espirro de pobre adora uma aglomeração. Aquilo ali, quando ele espirra em cima de você, vem uma van lotada de bactéria. E são umas bactéria pobre, que fala tudo errado: ‘Vou causar um pobrema naquela criatura.’

– “Isto vai ser uma visão do inferno: um ônibus atochado de bicha pobre. Aquelas bicha com a metade do cabelo descolorido, oxigenado, roendo a unha e aquele futum de deocolônia. Eu tenho horror a bicha pobre.” [5]

Como denunciam Maria Luiza e Janaína Vieira Jordão: “O personagem critica modos, cheiros, espirros, associando a escatologia à pobreza, em relação a qual ele sente nojo e horror. O curioso é que, apesar de desqualificar também a linguagem popular, assumindo o lado da linguagem culta, normalmente não utiliza corretamente as normas gramaticais cultas, o que pode representar uma vigilância maior aos “modos” das classes populares e à sua falta de capital cultural”. [6]

Outro evento que escancarou o ódio, a repulsa e o nojo aos pobres foram os “rolezinhos” que ocorreram, entre os anos de 2013/2014, em alguns Shoppings da Capital paulista. Uma figura execrável da extrema direita, Rodrigo Constantino, à época jornalista da revista Veja, deu uma inolvidável contribuição para o incremento do preconceito e ódio de classe. Afirmou que os rolezinhos são um movimento de pessoas invejosas, que: “Não toleram as “patricinhas” e os “mauricinhos”, a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização”.[7]

Como constatam Maria Luiza e Janaína Vieira Jordão: “Talvez um dos aspectos mais importantes do fenômeno acompanhado das reações, que são dirigidas a partir das representações sociais, seja “a confissão de que a sociedade brasileira existe sob a base da divisão de classes”. Talvez podemos, no fundo, estar observando não só um passeio de jovens de classes desprivilegiadas em um shopping. Podem ser os reflexos de um enrijecimento de fronteiras entre diferentes classes, cujos aspectos que nos parecem mais expressivos são o estranhamento, o nojo, a distância e a distinção”.[8]

O desprezo, o desrespeito e o desdém das classes médias em face das classes trabalhadoras e populares, ou seja o povo, foi personificado, recentemente, por uma palestra do jornalista Alexandre Garcia, na qual disse o seguinte: “Digamos que seja possível a gente trocar de população com o Japão, que a gente transferisse 210 milhões de brasileiros para o arquipélago japonês e trouxéssemos os 153 milhões de japoneses para o continente brasileiro. E esperássemos 10 anos para ver o que acontecia aqui – lá eu não quero pensar (…). Alguém teria dúvida de que os japoneses transformariam isso aqui em 1ª potência do mundo em 10 anos?” [9] É o que o sociólogo Jessé Souza vem denominando, inspirado em Nelson Rodrigues, de complexo de vira-lata e poderíamos denominar de demofobia. 

Jessé Souza, em um detido e instigante estudo sobre a classe média, nos diz que “O que está em jogo nessas relações é uma luta de classes muito singular: entre uma que tem tudo e outra que não tem nada. O que está em jogo, na verdade, é uma covarde opressão de classe que tende a se eternizar”. [10]

Dostoiévski denunciou, em sua extensa e extraordinária obra, situações de opressão e exploração social. Já em seu romance de estreia, “Gente Pobre”, publicado em 1846, a problemática da exclusão social está presente. O romance descreve a história, por meio de cartas trocadas, de dois personagens, um modesto escrevente de meia idade, Makar Dievúchkin, que trabalha numa grande repartição pública em São Petersburgo e uma jovem órfã recém saída da adolescência, Várvara Dobrossiélova. Eram parentes distantes e Dievúchkin tenta protegê-la de uma trama, urdida pela vizinha cafetina da jovem, que a “vende” a um jovem ricaço libertino. No decorrer do enredo percebe-se que Makar está timidamente apaixonado por sua protegida, ajudando-a economicamente, o que vai, gradativamente, o levar a penúria e a quase miséria. É um romance que retrata a injustiça social que acomete as pessoas pobres, naquela Rússia pré-revolucionária. A correspondência entre os dois se estende do dia 08 de abril ao dia 30 de setembro, de um ano que não é declinado.


Em uma carta datada de 1º de agosto há um registro digno de ser reproduzido, no qual Makar, já vitimado pela pobreza, diz a Várvara: “E todo mundo sabe, Várienka, que uma pessoa pobre é pior que um trapo e não é digna de nenhum respeito da parte de ninguém, seja lá o que for que escrevam! eles mesmos, esses escrevinhadores, podem escrever o que for! — para o pobre vai ficar tudo como sempre foi. E por que vai ficar na mesma? Porque num homem pobre, na opinião deles, tudo deve estar virado do avesso; porque ele não deve ter nada de secreto, nenhuma vaidade que seja, de jeito nenhum!” [11] Este romance social de Dostoiévski, logo aclamado pelo público, denuncia e ilustra a luta de classes e todo ódio e desprezo reservados aos pobres nesta contenda. 

Merece transcrição e reflexão o trecho da percuciente análise que Joseph Frank faz sobre o enredo do romance “Gente Pobre”. Frank é o autor da mais ampla e detalhada biografia de Dostoiévski publicada entre nós. No Brasil, foi publicada pela EDUSP, em cinco alentados volumes. Acompanhemos sua digressão sobre uma tocante passagem do romance: “No ponto mais crítico da miséria – acossado pela senhoria, humilhado pelos empregados da pensão e atormentado por seu aspecto maltrapilho – Dievúchkin, completamente abatido, se entrega à bebida. Nunca havia se sentido tão degradado e inútil, e é neste momento que uma centelha de revolta se acende em seu coração, naturalmente tão dócil e tão submisso. Caminhando por uma das ruas elegantes de São Petersburgo, cheias de lojas de luxo e de gente vestida com apuro, ele se espanta com a diferença entre esse ambiente e as multidões soturnas e infelizes de seu bairro miserável. E, de súbito, Dievúchkin começa a se perguntar por que razão Várvara e ele estão condenados à pobreza enquanto outros nascem em berço de ouro”.[12] Percebam que o romance foi publicado dois antes do famoso Manifesto Comunista, de Marx e Engels. 

Essa indagação de Dievúchkin me remete ao livro de contos de Rubem Fonseca, “O Cobrador”, no qual o personagem que dá título ao conto e ao livro, é um amálgama de bandido, poeta e revolucionário, o Cobrador seria uma espécie de vingador não apenas da divisão de classes, mas também da violência simbólica a que era submetido, cotidianamente. A certa altura diz: “A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo”. [13]

Como, ao se perceberem em uma situação de absoluta iniquidade, exploração e humilhação, a que são rotineiramente submetidas, as classes proletárias e pobres não se revoltam? Jessé Souza oferece-nos uma hipótese: “Os donos do dinheiro e do poder não podem simplesmente dizer ao restante da sociedade: “Nosso intuito é deixar todos vocês, otários, sem propriedade e sem poder, apenas com a roupa do corpo, trabalhando nas condições mais favoráveis para mim.” Não é assim que acontece. Caso contrário, teríamos revolta e revolução. Não há dominação de poucos sobre muitos sem o recurso à mentira e ao engano. Em consequência, a opressão precisa ser moralizada, difundindo-se a ilusão de que o interesse do dominado é levado em conta e, mais importante, convencendo-o de que a própria dominação é para o seu bem”. [14]

O escritor inglês George Orwell escreveu, além dos romances clássicos que o fizeram mundialmente conhecido, a exemplo de “A Revolução dos bichos” e “1984”, também textos de uma contundente crítica social. Investido de uma visão anticolonialista, denunciou à exploração imperialista inglesa em vários países asiáticos, deixando, também, importantíssimas e graves acusações sobre a situação de pobreza que provocaram. 

O livro “O Caminho para Wigan Pier”, um misto de reportagem realista e manifesto político, publicado originalmente em 1937, retrata de maneira direta e virulenta, as condições miseráveis de vida dos trabalhadores do norte da Inglaterra à beira da Segunda Guerra mundial. A pobreza e o sofrimento pungentes dos mineiros são retratados de forma brutal, desde as condições iníquas de moradia, ao medo das frequentes ondas de desemprego que assolavam a região, colocando em risco extremo a sobrevivência física dos trabalhadores e de suas famílias. Orwell já havia mergulhado a fundo na experiência da pobreza quase absoluta, nos dois anos que viveu perambulando como mendigo e trabalhador desqualificado pela França e pela própria Inglaterra – experiência narrada em seu primeiro livro, Na pior em Paris e Londres.

Neste livro-denúncia Orwell expõe, com crueza e azedume, todo o ódio e desprezo da classe média inglesa à classe operária. Tantas décadas nos separam das contundentes palavras do autor e de seu libelo social, enunciados para outra época e outra sociedade e,  infelizmente, tão atuais: “Toda pessoa de classe média tem um preconceito de classe adormecido que só precisa de qualquer coisinha para despertar; e, se tiver mais de quarenta anos, provavelmente tem a firme convicção de que sua classe social foi sacrificada em prol da classe mais abaixo. Tente sugerir a um homem bem-nascido, do tipo que não pensa muito, e que luta para manter as aparências com quatrocentas ou quinhentas libras por ano, que ele pertence a uma classe de parasitas exploradores — ele vai achar que você está louco. Com perfeita sinceridade, vai apontar uma dúzia de aspectos em que ele está pior de vida do que um operário. Aos seus olhos, os operários não são uma raça submersa de escravos; são uma maré sinistra, isso sim, que vai subindo sorrateiramente até engolir a todos — a ele mesmo, seus amigos e sua família — e varrer do mapa toda cultura e toda a decência. Daí vem essa estranha ansiedade, esse temor de que a classe operária se torne muito próspera. Em uma edição da Punch logo depois da guerra, quando o carvão ainda conseguia altos preços, há um desenho mostrando quatro ou cinco mineiros de cara feia e sinistra, andando em um carro barato. Um amigo que os vê na rua os chama e pergunta onde conseguiram aquele carro emprestado. Eles respondem: “A gente comprou este troço!”. E isso, veja, é suficiente para a Punch; pois que mineiros comprem um carro, mesmo que sejam quatro ou cinco em um carrinho, é uma monstruosidade, uma espécie de crime”.[15]

Episódios eivados de preconceitos de classe, como aquele envolvendo a fala de Paulo Guedes sobre as empregadas domésticas, demonstram como é incômoda para as classes médias e altas da sociedade a presença de pessoas da classe trabalhadora, a coexistir no mesmo espaço físico que elas, gozando de iguais direitos, porque vistas como inferiores. Não é que as classes trabalhadoras não possam frequentar os mesmos espaços destinados às elites: podem, mas dependem de consentimento, de autorização, ou seja, na condição de empregados, balconistas, faxineiros etc., não como iguais. Tudo a escancarar a brutal desigualdade e exploração social a que estão submetidos os pobres e que nos constitui, enquanto uma sociedade, marcada indelevelmente pela escravidão. 

Mais uma vez é Jessé Souza que, com sua contundência crítica, nos diz: “… ao aspecto econômico se soma o sadismo, presente no cerne de toda sociedade fundada no trabalho escravo. Ninguém escraviza o outro sem, ao mesmo tempo, negar-lhe a humanidade. […] É preciso mostrar que o outro é inferior e está ali apenas para servir. […] A classe média brasileira herda o abuso e o sadismo de seus avós, e um dos motivos para isso é que nossa inteligência cooptada e colonizada nem sequer percebe a escravidão como a nossa semente social mais importante. […] Nossa classe média não apenas explora economicamente as classes abaixo dela, ela humilha covardemente os mais frágeis, os esquecidos e abandonados tanto por ela, classe média, quanto pela “elite do atraso”. [16]


Carlos Eduardo Araújo é Mestre em Teoria do Direito (PUC -MG)


Notas:

[1] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[2] Documento Especial – Pobres vão à praia (Melhores Momentos). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=QShr9GpMOEc. Acesso em 17 fev. de 2020.
[3] Documento Especial – Pobres vão à praia (Melhores Momentos). Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=QShr9GpMOEc. Acesso em 17 fev. de 2020.
[4] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[5] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[6] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, 
[7] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[8] MENDONÇA, Maria Luiza Martins de e JORDÃO, Janaína Vieira de Paula. Nojo de pobre: representações do popular e preconceito de classe. Contemporânea.  Ano.12, Vol.1, N23, 2014.
[9] Site Brasil 247 – Redação. Bolsonaro divulga vídeo de Alexandre Garcia menosprezando brasileiros. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/bolsonaro-divulga-video-de-alexandre-garcia-menosprezando-brasileiros. Acesso em 18 de fev. de 2020.
 [10] SOUZA, Jessé. A Classe Média no Espelho: Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade. Estação Brasil. 2008.
[11] Dostoiévski, Fiódor. Gente Pobre. Editora 34, 2009. 
[12] FRANK, Joseph. Dostoiévski: As Sementes da revolta (1821 a 1849). EDUSP, 1999.
[13] FONSECA, Rubem. O Cobrador. Agir, 2010.
[14] SOUZA, Jessé. A Classe Média no Espelho: Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade. Estação Brasil. 2008.
[15] George Orwell. O caminho para Wigan. Companhia das Letras, 2010. 
[16] SOUZA, Jessé. A Classe Média no Espelho: Sua História, Seus Sonhos e Ilusões, Sua Realidade. Estação Brasil. 2008.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

No neofascismo agora dominante no Brasil, um povo dominado pelo racismo e submetido aos interesses dos EUA... Por Jessé Souza (em vídeo)



Do Canal de Jessé Souza:



Hoje encerro a série temática em que apresentei uma prévia do meu próximo livro “A guerra contra o Brasil”, que, em breve, chega às livrarias pela Estação Brasil/Sextante). Nesses vídeos, falo sobre como os Estados Unidos se uniram a uma organização criminosa para destruir o sonho brasileiro por uma sociedade mais democrática e igualitária. Busquei reconstituir aqui o conceito de identidade nacional forjado pelas elites, e, assim, como a dominação simbólica forneceu os elementos para a dominação política e econômica. Ao mesmo tempo, relacionei o campo doméstico à esfera internacional, em especial, os Estados Unidos e sua doutrina imperialista. Uma das perguntas fundamentais é entender por que a influência norte-americana é tão forte e eficaz em países como o Brasil. Para tratar dessa questão, é necessário retomar o debate sobre o racismo. O racismo vai além da cor da pele, e está relacionado à divisão entre humanos e sub-humanos. Ou seja, quando um segmento da população é associado a uma desumanidade. Quer saber mais sobre o assunto? Assista ao meu vídeo e leia meu próximo livro. O vídeo passou por uma edição para atenuar meus vícios de linguagem. Se você gostou do vídeo, não se esqueça de curtir e compartilhar com os amigos. Isso ajuda na divulgação do canal e no aumento das visualizações. Se ainda não é inscrito, inscreva-se agora e clique no sininho para acompanhar em primeira mão os novos vídeos postados. Conheça meus livros: A Classe Média no Espelho: http://bit.ly/AclasseMediaNoEspelho A Elite do Atraso: http://bit.ly/AeliteDoAtrasoJesseSouza Siga minhas redes sociais: Blog: https://jessesouza.com.br Facebook: https://www.facebook.com/jesse.souza.... Instagram: https://www.instagram.com/jesse_souza... Twitter: https://twitter.com/jessesouzaecht

segunda-feira, 18 de março de 2019

Do Justificando: O ódio que você semeia: necropolítica em tempos de cólera, por Marco Aurélio da Conceição Correa



O ódio que você semeia: necropolítica em tempos de cólera

“O ódio que você semeia” é o livro de estreia da escritora negra Angie Thomas. Best Seller, foi adaptado para o cinema com sucesso de crítica e bilheteria
Imagem: Cena do filme “O ódio que você semeia” (2018), baseado no livro homônimo de Angie Thomas.
Por Marco Aurélio da Conceição Correa, no Justificando

Quando acontece

“Faça o que mandarem você fazer […]. Mantenha as mãos à vista. Não faça movimentos repentinos. Só fale quando falarem com você” (THOMAS, 2017, p. 27) [1]. Estas são algumas das recomendações a serem seguidas por qualquer jovem negro caso passe por alguma abordagem policial. E são também os passos presentes na conversa que Starr teve com seu pai logo no início do romance estadunidense O ódio que você semeia (2017) da autora Angie Thomas. Starr, a protagonista, é uma jovem negra de um típico gueto dos Estados Unidos. O que a torna sua vida diferente é estar no local errado na hora certa.
O ódio que você semeia é o livro de estreia da escritora e foi um sucesso em seu lançamento, por sua pertinência em lidar com a questão da violência dos policiais a partir do ponto de vista de uma adolescente negra, questionando toda a brutalidade policial no contexto da atual tensão racial vivida nos Estados Unidos. O livro alcançou o primeiro lugar na lista do New York Times e foi adaptado para o cinema rendendo aclamação da crítica e sucesso nas bilheterias dos Estados Unidos.
A trama da narrativa se desenrola após a súbita morte de Khalil Harris, ao ser alvejado injustamente por um policial em serviço após uma descabida abordagem de transito. Khalil, amigo de infância da protagonista, dava carona para Starr após uma festa quando foi parado pelo policial que, ao exceder a sua autoridade por desconfiança, dispara três tiros mortais no jovem negro. Khalil foi abatido por causa do medo do policial Um-Quinze, foi morto por não seguir o protocolo esperado de jovens como ele, foi assassinado porque o policial confundiu uma escova de cabelos em seu carro como uma arma. Khalil foi morto por causa do “medo, da surpresa e da violenta emoção”.
Assim como Khalil, milhares de jovens negros dos Estados Unidos morrem todos os anos, como Michael Brown dos protestos de Ferguson, Eric Garner do estrangulamento na luz do dia de Nova Iorque e  Oscar Grant, alvejado na virada do ano na Fruitvale Station em Oakland, dentre muitos outros que só recebem atenção devido a comoções públicas como o movimento #BlackLivesMatter.
No contexto brasileiro, apesar das devidas diferenças culturais e sociais, a violência policial causa inúmeras mortes injustas diariamente, como nos casos do pedreiro Amarildo, da auxiliar Cláudia, do dançarino DG, dos meninos de Costa Barros, todos casos que ganharam repercussão pela inocência das vítimas e da impunidade dos policiais irresponsáveis.
O Projeto de Lei Anticrime apresentado pelo então Ministro da Justiça Sérgio Moro traz uma série de alterações nas leis penais como forma de tornar mais “eficaz” os processos judiciais. Dentre o conjunto de alterações que foi amplamente analisado e criticado, o item que mais alerta os especialistas e ativistas dos direitos humanos é justamente o que se relaciona com as abordagens policiais, o risco de morte e o direito de legítima defesa, através do acréscimo da arbitrária expressão “escusável medo, surpresa ou violenta emoção” para caso de vítimas de agentes de segurança pública no exercício da legítima defesa.
Não podemos, é claro, generalizar estas críticas às tentativas de otimização do código penal e acreditar que caibam a toda a instituição de segurança pública ou jurídica – como a polícia militar – já que os próprios policiais sofrem com o descaso público, a má remuneração, o risco de vida e desvalorização social – assim como muitas outras profissões sofrem atualmente, como os professores. Talvez, se estes profissionais recebessem o devido retorno pelo seu arriscado trabalho, casos de mortes desnecessárias como a morte do personagem Khalil por confundir uma arma com uma escova, ou então casos similares ao confundir um guarda chuva, ou uma furadeira ou peça de moto com uma arma, não ocorressem. 
Porém, ao invés de servir e proteger sua população, a polícia brasileira funciona como um aparato estatal para defender os lucros e as propriedades de uma elite. Grupo que através de outros aparelhos de controle consegue disseminar suas ideias entre os segmentos populares da sociedade. Estas concepções são a manipulação consciente de um populismo penal em benefício das atuais elites dominantes e, sobretudo, das elites jurídicas que o formularam – deixando evidente a distância entre uma elite jurídica e o povo que ela deveria servir.
As premissas que “bandido bom é bandido morto” e que a polícia deveria ter “carta branca” para agir permeiam o senso comum de parte da população e, sendo reforçada de maneira enfática, repetidas vezes, acabam proporcionando a consolidação de políticas que ao invés de diminuir a criminalidade focam-se em aumentar as condenações. O que é uma controvérsia já que “a própria eficácia do processo penal, quando medida por sua capacidade de condenar, já é uma asserção equivocada de uma elite jurídica. Essa ânsia pela punição e não pela solução cria um intolerante estado de terror e medo no Brasil contemporâneo.
Capa do livro “O ódio que você semeia” (2017), de Angie Thomas.

O medo das diferenças causa o ódio ao outro

Pac disse que Thug Life, “vida bandida”, queria dizer The Hate U Give Little Infants Fucks Everybody, ou “o ódio que você passa pras criancinhas fode com todo mundo” (THOMAS, 2017, p. 23). Este é um trecho do diálogo entre Khalil e Starr antes dele ser baleado por suspeita do policial Um-Quinze. Este alegou “escusável medo, surpresa” para justificar a sua legitima defesa e inocência. Starr era a única testemunha do assassinato de seu jovem amigo, era ela que podia gritar por justiça, porém o medo das consequências de ser a voz que denuncia a violência urbana a estremeceu e congelou. O medo e o terror da vida urbana fazem mal a todo mundo.
A atual e agravante situação de crises, desempregos, inflações e incertezas proporcionam que cada vez mais as desigualdades sociais se acentuem nos fazendo viver em um constante estado de exceção. Nestes tempos de cólera, cada vez mais as tensões sociais são agravadas criando um estado de intolerância, onde qualquer forma de diferença pode ser vista como uma ameaça a própria integridade.
É impossível se pensar neste crescimento do terror moderno sem abrir as chagas do racismo brasileiro. A desumanização do lucro com o trabalho forçado dos africanos escravizados criou nas sociedades descendentes do colonialismo atlântico um estado de terror, no qual para o grupo dominante manter a sua segurança era preciso decidir quem morreria.
Esta política das mortes baseadas na tecnologia do racismo é fundamentada no conceito de necropolítica do filósofo Achille Mbembe. A necropolítica seria a forma em que os Estados tardo modernos – junto às elites – atuam para manter o controle social através da execução do poder de morte daqueles que representam uma ameaça à seguridade do estado. Ou seja, criando aparatos legais, midiáticos e sociais para justificar o genocídio da parcela preta, pobre e periférica da população. Em tempos de neoconservadorismo, vemos não só uma aclamação popular pela morte, como políticas de institucionalização do necropoder, como no caso da discussão da Lei Anticrime.
O ódio e a morte do outro seriam assim a forma de garantir a segurança da existência de uns, junto com suas concepções morais, epistemológicas e culturais. Como afirma Mbembe:
“Na lógica da sobrevivência, ‘cada homem é inimigo de todos os outros’. Mais radicalmente, o horror experimentado sob a visão da morte se transforma em satisfação quando ela ocorre com o outro. É a morte do outro, sua presença física como um cadáver, que faz o sobrevivente se sentir único. E cada inimigo morto faz aumentar o sentimento de segurança do sobrevivente” (2015, p. 141) [2]
A irracionalidade deste estado de sobrevivência, onde até o porte de armas é visto como uma segurança apesar de inúmeras pesquisas garantirem o contrário, cria um estado de trauma que afeta tanto o oprimido quanto o opressor. Configurando assim um ciclo onde o oprimido traumatizado pela violência do opressor age na lógica da sobrevivência tendo que apelar a crimes para subsistir, enquanto estes delitos traumatizam o opressor que cada vez mais intensifica sua opressão com os outros marginalizados. O ódio que é semeado ferra com a vida de todo mundo. Exemplo deste trauma é o filme Praça Paris (2017) que deixa evidente o quanto o trauma pode ser nocivo para as classes populares como para as classes privilegiadas.
A grande questão deste ciclo é que, por deter os aparelhos tecnológicos e de poder que influenciam o senso comum e a opinião pública, as elites econômicas e políticas brasileiras conseguem disseminar este medo ao diferente para o restante da população desde o período colonial. No exercício de seu poder, subvertem quem seria o oprimido na contemporaneidade:
“No mundo conceitual branco, o sujeito Negro é identificado como o objeto ‘ruim’, incorporando os aspectos que a sociedade branca tem reprimido e transformando em tabu, isto é, agressividade e sexualidade. Por conseguinte, acabamos por coincidir com a ameaça, o perigo, o violento, o excitante e também o sujo, mas desejável – permitindo à branquitude olhar para si como moralmente ideal, decente, civilizada e majestosamente generosa, em controle total e livre da inquietude que sua história causa” (KILOMBA, 2010, p. 174) [3].
“Enquanto o sujeito Negro se transforma em inimigo intrusivo, o branco torna-se a vítima compassiva, ou seja, o opressor torna-se oprimido e o oprimido, o tirano” (KILOMBA, 2010, p. 173-174).
Cria-se, assim, uma suposta ideia de que a pequena elite seria tiranizada pelos direitos humanos das massas minoritárias, idéia que se presta a deslegitimar décadas de lutas e avanços nas causas sociais. É aqui onde entra a importância de uma narrativa como O ódio que você semeia, pois além de denunciar todo este aparato social que justifica a violência policial, a trajetória de Starr nos evidencia como a vida é mais plural e potente do que simples polarizações e falsas dicotomias, afirmando que a voz é o artefato que pode reverter este cenário de desigualdades.
Cena do filme “O ódio que você semeia” (2018), baseado no livro homônimo de Angie Thomas.

A voz que não se cala

“Esse é o problema. Nós deixamos as pessoas dizerem coisas, e elas dizem tanto que se torna uma coisa natural para elas e normal para nós. Qual é o sentido de ter voz se você vai ficar em silêncio nos momentos que não deveria?” (THOMAS, 2017, p. 253). Apesar de todo o trauma vivido pela protagonista Starr ela decide falar. Mesmo com a pressão das gangues locais, com as quais Khalil supostamente tinha um envolvimento, mesmo com a preocupação de seus familiares, mesmo com a desaprovação de seus colegas brancos da escola particular, mesmo com o medo da própria violência policial que ela busca criticar. Starr fala.
É o mesmo que faz a autora Angie Thomas, ela fala, conta e narra em O ódio que você semeia seus próprios traumas e inquietações. Indignada pelos assassinatos de jovens negros que compuseram a insurgência do movimento #BlackLivesMatter, a autora, que tem uma história de vida nos guetos parecida com a sua protagonista, não se cala e dá um grito contra o racismo. Como aponta Fanon: “existe na posse da linguagem uma extraordinária potência”  (2008, p. 34) [4].
A auto inscrição de autoras e autores negros sobre suas vidas, sobre suas experiências, é uma forma de criar uma outra narrativa, uma outra história para as populações negras da diáspora africana. O campo estético das narrativas, sejam literárias ou cinematográficas, é um espaço de disputa de poderes. Denunciar estas estereotipações que contribuem com o racismo é uma forma de combatê-lo. Não ser reconhecido como digno é a própria morte e a necropolítica age não só na morte física mas na morte simbólica, no epistemicídio. Lutar por uma outra representação estética é gritar contra o injustificável.
Cena do filme “O ódio que você semeia” (2018), baseado no livro homônimo de Angie Thomas.

“Para além da evidência das fraturas e da difração, a experiência dos escravos africanos no Novo Mundo reflete uma plenitude de identidade mais ou menos comparável, mesmo que as formas de sua expressão difiram, e mesmo que não haja nenhum livro. Tal como os judeus no mundo europeu, eles têm que “narrar a si mesmos” e “narrar o mundo”, e lidar com este mundo a partir de uma posição na qual suas vidas, seu trabalho e seu modo de falar (langage) são parcamente legíveis, pois estão envolvidos em embalagens fantasmagóricas. Eles têm que inventar uma arte de existir em meio à espoliação, mesmo que agora seja quase impossível invocar o passado e lançar sobre ele algum encantamento, exceto talvez nos termos sincopados de um corpo que constantemente é transformado de ser em aparência” (MBEMBE, 2001, p. 189-190) [5].
Em tempos de cólera e de intolerância é preciso celebrar a vida, criar uma poética insubmissa da existência ao contrário da lógica fascista da sobrevivência. Ao invés de dividir para se consolidar as diferenças em hierarquia é preciso denunciar este esfacelamento e semear a comunhão e as diferenças em harmonia. As narrativas negras como O ódio que você semeia seguem este movimento de se pensar uma outra prática civilizatória.
Marco Aurélio da Conceição Correa é graduado em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Notas:
[1] THOMAS, Angie. O ódio que você semeia. Galera Record. 2017.
[2] MBEMBE, Achille. Necropolítica. Temáticas, n º 32, 2015. 
[3] KILOMBA, Grada. “The Mask” In: Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism. Münster: Unrast Verlag, 2. Edição. Traduzido por Jessica Oliveira de Jesus. 2010. 
[4] FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Bahia: Editora Edufba, 2008. 
[5] MBEMBE, Achille. As formas africanas de auto-inscrição. Estud. afro-asiáticos, vol.23, n.1, pp.171-209. 2001.
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