Mostrando postagens com marcador tortura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tortura. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Crimes contra a humanidade: Superior Tribunal Militar escondeu áudios que provam que ditadura torturou opositores, por Edson Teles

 

Observa-se que a democracia manteve um modo de governar que favoreceu a combinação estratégica da razão neoliberal com os valores e as estruturas racistas e classistas historicamente constituídas no país.

Cena do filme Corte Seco, de Renato Tapajós, mostra como o pau de arara era usado pela ditadura militar para torturar presos políticos

do Holofote

Superior Tribunal Militar escondeu áudios que provam que ditadura torturou opositores


O som da tortura


Por Edson Teles

“Lícia Lúcia Duarte da Silveira desejava acrescentar que quando esteve presa na Oban foi torturada, apesar de grávida, física e psicologicamente, tendo que presenciar as torturas infligidas a seu marido.”

Este trecho é a transcrição de um dos áudios do Superior Tribunal Militar (STM), ouvidos e pesquisados pelo historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Mesmo quando o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou o acesso ao advogado Fernando Augusto Fernandes, o STM simplesmente, ao arrepio da lei, não obedeceu.

No país em que militares têm privilégios das mais variadas estirpes e são destinados “à garantia (…) da lei e da ordem” (Art. 142, Constituição Federal) não é surpreendente que órgãos ligados às Forças Armadas, ou militarizadas, não cumpram a lei.

Os áudios da tortura comprovam não só o que já se sabia sobre a ditadura, um regime cuja razão de governo era a tortura, seja diretamente sobre os corpos aprisionados nas instituição de segurança nacional e pública, seja como a tortura psicológica que o terror dos agentes públicos produziam no cotidiano da sociedade.

Mas os áudios comprovam algo também gravíssimo: um órgão superior de justiça se calou e acobertou os crimes contra a humanidade cometidos pelos militares.

Como se pode ouvir nos áudios, os ministros do STM sabiam da prática comum da tortura e ainda conversavam sobre ela abertamente em suas sessões secretas.

A cena transcrita no início deste artigo se refere a torturas cometidas por militares na Oban, protótipo do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), instituição de repressão política coordenada pelo Exército brasileiro.

O militar que comandou este órgão de repressão foi o então major do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador condenado pela Justiça em 2008, com confirmação da sentença pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em 2012.

O torturador Ustra é hoje o herói do presidente da República, o que mostra a atualidade da descoberta desses áudios e a importância política de se conhecer essas histórias.

Sob o comando de Ustra dezenas de pessoas foram sequestradas e assassinadas, sendo que mais de 40 deles ainda foram vítimas de desaparecimentos forçado.

O governo Bolsonaro, aos moldes do que fez o STM, esconde arquivos ao decretar sigilo de 100 anos sobre seus atos.

Os trabalhos de identificação de pessoas desaparecidas na Vala de Perus, realizados no Centro de Antropologia e Arqueologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (CAAF/Unifesp), a cada identificação realizada, comprova que os corpos identificados perderam a vida no DOI-Codi e foram levados para o IML de São Paulo, onde recebiam laudos falsos de acobertamento das torturas.

Em seguida, em atos criminosos combinados entre polícia, IML e cemitérios, estes corpos eram enterrados ou como “não reclamados”, ou com nomes falsos.

Contudo, infelizmente, as ligações entre o passado de torturas escondido nos áudios do STM e o presente de um governo negacionista e adorador de criminosos vai além de aspectos discursivos.

Uma razão de governo, no sentido de tecnologias de terror contra populações, coletivos e toda a sociedade, permaneceu como prática cotidiana.

As rupturas entre ditadura e democracia não atingiram o modo violento como o Estado continua a lidar com os seus “inimigos”.

Desde o entre guerras até o fim da Guerra Fria, testemunhou-se a emergência da teoria e do pensamento neoliberal visando evitar a ingovernabilidade de uma democracia popular.

A solução encontrada passou pela construção de um Estado forte, através da aliança entre as normas de mercado e o autoritarismo.

Essa foi a forma mais eficaz de proteger a democracia liberal da política das massas.

No Brasil, como em outros países da América Latina, a opção para se combater o inimigo, aqueles que defendem e lutam por uma radicalização da democracia, foi a montagem de uma ditadura militarizada e extremamente violenta.

Dessa forma, as diferenças de violências, como as que experimentamos entre as ditaduras e as democracias na América Latina, se configuram como graus de uma mesma prática e não divergências quanto à natureza do Estado.

Para o neoliberalismo, entre a ditadura e a democracia não há diferença de valor, mas de eficácia na garantia do direito privado das corporações e grandes interesses econômicos e da ordem de mercado.

A violência de Estado atua para fortalecer a racionalidade capitalista contra os seus inimigos, sejam os que se auto declaram opositores, sejam os que oferecem, pelo caráter originário e cotidiano de uma experiência coletiva, risco para a manutenção da normativa imposta.

A violência que se libera não é necessariamente a legitimada pelas leis do Estado de Direito, mas a da brutalidade que se utiliza do Estado para atacar os esforços de democratização.

Constrói-se um Estado forte e violento para retirar o caráter político da decisão em democracia, depositando o governo efetivo nas mãos de algum conselho de tecnocratas e no suporte da força militar.

Toda a violência acionada pelo Estado, somada a de milícias e grupos de intolerância, manifesta uma forma de combate distinta de uma guerra civil clássica.

Utiliza-se de divisões antigas e tradicionais, de sociedades nascidas de práticas de dominação e expostas a cisões culturais, sociais e políticas.

O enraizamento desses conflitos nas várias camadas de sociabilidade permite às estratégias de controle uma maior capilarização para os mecanismos de controle e vigilância.

Esse modelo de governo dos corpos tem direcionado os diversos dispositivos policiais, militares, jurídicos, médicos, tecnológicos para a atividade da guerra contra o inimigo.

Controlar o inimigo e garantir a segurança concede ao governo as intervenções de exceção, desviando-se dos limites estabelecidos pelas leis.

É a exceção autorizada como permanente, fazendo da militarização a autoridade de governo e dos grupos de direita e das milícias os despachantes da violência liberada.

Atualmente, o presidente Bolsonaro navega em uma política econômica de mercado destruindo o que é bem público e favorecendo as corporações e o agronegócio, ao mesmo passo em que elogia a ditadura, homenageia torturadores e, em nome de Deus, autoriza a ação policial ilícita.

Com um modelo de governo transbordando os limites de um Estado de Direito e pisoteando a Constituição em vários aspectos, o Estado se fortalece ainda mais.

Observa-se que a democracia manteve um modo de governar que favoreceu a combinação estratégica da razão neoliberal com os valores e as estruturas racistas e classistas historicamente constituídas no país.

A violência de Estado, com as características de uma guerra civil, se justifica como ação de legítima defesa contra os inimigos maiores do país: opositores, classe dos sem propriedades, corpos negros ou anti-patriarcais, sujeitos atípicos, gêneros não-binários e todes que escapem à normalidade da ordem imposta.

Lembro-me e trago à tona o lema de uma campanha do início dos anos 2000, de movimentos de direitos humanos: é preciso desarquivar o Brasil!

Edson Teles é professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e coordenador do CAAF (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense).

Leia também:

Mourão ri de áudios sobre torturas: “Vai trazer os caras do túmulo de volta?”

Postura de Mourão é ‘coerente’, segundo Miriam Leitão

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Joe Biden entregou pessoalmente provas de torturas, mortes e outros crimes contra a humanidade praticados na ditadura e negados por Bolsonaro

 


Documentos oficiais foram entregues às mãos da então presidente Dilma Rousseff em 2014. Os dados são os considerados os mais detalhados sobre técnicas de tortura e assassinato na Ditadura Militar

Jornal GGN Além de se encontrarem em polos politicamente opostos, o presidenciável Joe Biden e o presidente brasileiro Jair Bolsonaro mostram visões divergentes em outras questões, como aqueles relacionados ao período da ditadura militar brasileira.

Biden não apenas criticou a devastação da Amazônia e considerou colocar sanções econômicas ao país, como está no centro de um dos pontos mais menosprezados por Bolsonaro: a apuração dos crimes cometidos pelos agentes públicos durante a ditadura militar brasileira, entre 1964 e 1985.

Reportagem publicada pela BBC Brasil mostra que, em 2014, Biden veio ao Brasil com um HD com 43 documentos produzidos pelas autoridades norte-americanas entre 1967 e 1977, onde eram detalhadas informações sobre censura, tortura e assassinatos ocorridos durante o regime militar.

Esses documentos eram considerados secretos, já que o governo norte-americano colaborou com a ditadura na maior parte do tempo – e, inclusive, são considerados os registros mais detalhados sobre os métodos de tortura cometidos pelo regime no país.

Cinco anos depois, Bolsonaro desqualificou as revelações feitas pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), afirmando que era “balela”.

Na ocasião, o presidente respondia a uma questão que atingia o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, ao afirmar que poderia esclarecer como seu pai, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, havia desaparecido.  “A questão de 64 não existem documentos se matou ou não matou, isso aí é balela, está certo?”, disse Bolsonaro.

 

Leia Também
Bolsonaro é pressionado a dar dinheiro do Fundeb a escolas ligadas a igrejas evangélicas
“Acabei com a Lava Jato”: as medidas de Bolsonaro
Celso de Mello vota para Bolsonaro prestar depoimento presencial à PF
Trump e Bolsonaro desconstroem a lógica do Papai Noel na Propaganda, por Wilson Ferreira

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

ASSINE AGORA


terça-feira, 2 de abril de 2019

Uruguai demite cúpula militar que acobertava torturas


O Brasil é uma vergonha!


O amigo navegante viu que nenhum país membro da "Operação Condor" comemora golpes militares.

Também deve ter visto que foi o próprio Presidente da República quem vazou um vídeo pirata que elogia - na companhia do notável militante William Waack - o Golpe de 1964, que matou (oficialmente) 434 brasileiros.

O Brasil é o único pais da "Operação Condor" cuja Comissão da /1/2 Verdade não exigiu o fim da anistia à Lei da Anistia.

Na Argentina, TODOS os governantes da Ditadura estão ou morreram na cadeia!

O Brasil é uma vergonha, como demonstra o Uruguai:

Cúpula militar uruguaia cai após revelação de crimes da ditadura

O ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menéndez, seu vice-ministro e três generais, entre eles o novo chefe do Exército, José González, foram destituídos nesta segunda-feira pelo presidente Tabaré Vázquez, em um novo episódio de uma crise institucional com poucos precedentes no país sul-americano, que também coincide com o ano eleitoral. O destino dos membros de alto escalão do Governo e dos militares foi decidido após um novo escândalo relacionado a um caso de violação dos direitos humanos cometido durante a ditadura uruguaia (1973-1985).

O conteúdo das atas de um tribunal militar, reveladas no final de semana pelo jornalista Leonardo Haberkorn, mostram que um coronel (Jorge Silveira) confessou o desaparecimento de María Claudia García de Gelman, nora do poeta Juan Gelman, presa em 1976 primeiro na Argentina e depois no Uruguai enquanto grávida de sua filha, Macarena, que foi dada para adoção no Uruguai. Além disso, outro importante membro da repressão, o tenente-coronel José Nino Gavazzo, reconheceu que lançou às águas do rio Negro o guerrilheiro tupamaro Roberto Gomensoro em 1973 e que mentiu sobre isso à Justiça civil.

Apesar dessas confissões, o tribunal militar (conhecido também como Tribunal de Honra) feito no ano passado, integrado por sete generais, considerou que esses fatos não eram uma afronta à honra dos militares acusados. Estes, entretanto, foram punidos por permitir que outro militar, o coronel Juan Carlos Gómez, pegasse três anos de cadeia pelo assassinato de Gomensoro, quando sabiam que era inocente. Gómez por fim foi declarado inocente em 2013.

Em algum dos meandros da complexa Justiça Militar, os responsáveis de alto escalão do Ministério da Defesa não viram as dura confissões incluídas nas atas e as deixaram passar, o que causou a ira do presidente e custou o cargo a todos eles.

As confissões de Gavazzo e Silveira são excepcionais no Uruguai, onde um férreo pacto de silêncio entre militares tornou impossível o esclarecimento da maioria dos casos de mortos e desaparecidos da ditadura. Nesses anos, alguns militares foram presos por ficar em silêncio (agora se sabe que até mesmo sendo inocentes) e o muro nunca foi rachado.

O novo comandante em chefe do Exército, José González, nomeado há quinze dias, também deixará o cargo, assim como outros três generais, todos integrantes do júri militar que não considerou um crime à honra da instituição os desaparecimentos relatados pelos militares. Anteriormente havia sido demitido Guido Manini Ríos, ex-número um do Exército uruguaio, por suas duras críticas à Justiça civil e ao Governo.

A promotoria abriu uma investigação sobre o que aconteceu nos tribunais militares, que deveriam ter comunicado a existência de crimes a instâncias superiores quando as confissões foram feitas. É preciso esclarecer se funcionários públicos (incluindo militares), foram omissos.

Os principais dirigentes do partido de esquerda Frente Ampla (FA), a coalizão de partidos governista, parabenizaram a contundência de Vázquez após um final de semana agitado, em que as bases do FA exigiram mudanças no Exército. Na oposição, vários dirigentes também pediram que o ocorrido tivesse consequências políticas.

“Eu o coloquei no veículo, eu dirigi o veículo, eu o levei ao local, o desci, o coloquei em um bote, o tirei do bote. Eu sozinho”, teria dito o ex-membro da repressão José Gavazzo — atualmente em prisão domiciliar — sobre o desaparecimento de Gomensoro. Essas confissões podem não ser as únicas e agora as atas do julgamento militar serão examinadas minuciosamente.



Tabaré Vazquez revela a consciência estratégica que faltou aos governos do PT e à esquerda

Pensar um projeto de poder, em especial 1 projeto contra-hegemônico de poder, sem tem a devida apreciação sobre o papel das Forças Armadas, é uma ingenuidade que não poderia ter sido repetida depois do golpe de 1964.

A burguesia é atavicamente conspirativa, anti-democrática, e as Forças Armadas desempenham-se na função de guardiões da ordem burguesa.

A atitude do presidente Tabaré é alentadora, porque observa-se no Uruguai a mesma escalada de eventos que ocorreram no Brasil nos últimos anos, em especial em 2013, e que culminaram na eleição fraudada do Bolsonaro.

Temas estranhos à longa tradição republicana do país vizinho saíram do porão sombrio e passaram a frequentar a paisagem pública, com muita semelhança com o processo acontecido no Brasil.

São temas como: a proliferação de igrejas neopentecostais, a histeria anti-corrupção, discursos incentivadores de ódio e intolerância, ativismo dos militares, defesa de intervenção militar, a guerra cibernética e a demagogia do outsider.

Jeferson Miola, Integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Sra. Desembargadora que liberou as comemorações do golpe, sabe por que torturadores da ditadura encapuzavam os torturados?, por Djefferson Ferreira


Numa palavra final: a tortura é tão insuportável, que até o torturador, para não se deparar com o olhar do torturado e ser invadido pela vergonha de seu ato, encapuza-o.


Monumento 'Tortura Nunca Mais', em Recife

Desembargadora: sabe por que torturadores da ditadura encapuzavam os torturados?

por Djefferson Ferreira, no GGN

Diante da decisão da Desembargadora, que derrubou a proibição imposta pela corajosa Juíza, que proibia o Governo de comemorar a ditadura, resolvi fazer este texto para explicar à Desembargadora – psicanaliticamente – por que os torturadores encapuzavam os torturados e as torturadas.
Afinal: não entendo – ou melhor: entendo, mas não compreendo – como há quem, ainda nos dias de hoje, questione a existência da ditadura.
Justo porque nada conhecem, nada leram e dela somente ouviram falar, supõem que, por jamais a terem presenciado, isto lhes possibilitaria dela duvidar tal e qual aqueles que acreditam que o oxigênio somente passou a existir depois de “descoberto” por Carl Wilhelm ScheeleJoseph Priestley e Antoine Lavoisier, respectivamente.
Pois muito bem.
Há quem diga (não sem razão), embora não com toda, mas com alguma razão, que o capuz serve para que o torturado não identifique o torturador. Essa é a faceta do consciente, da racionalidade ou, simplesmente, do dito.
Só que esse dizer, se tiver a pretensão de dizer a verdade, não pode se ater apenas ao campo da racionalidade, dado que isto é pouco, muito pouco, quando se quer algo para além do senso comum – o campo do dito.
Necessário, portanto, voltar os olhos ao não dito, isto é, aquilo que verdadeiramente o torturador buscava evitar: o contato com a vergonha. Explico.
Se se sabe que torturar alguém é errado (e nada, absolutamente nada!) justifica a tortura, há(via) algo que era – e é – insuportável a qualquer torturador: o olhar do torturado.
Dizendo de outra maneira: mais do que evitar ser descoberto, o capuz serve para evitar o confronto do torturador com o olhar do torturado, já que o olhar dos torturados, inconscientemente, trazia à tona a vergonha e, consequentemente, a impossibilidade dos torturadores darem prosseguimento à tortura.
Estudando os instrumentos de tortura, pude perceber que sempre houve, inconscientemente, uma tentativa de isolar o torturado e o instrumento, como se pudesse transferir toda a responsabilidade apenas ao instrumento.
É nesse contexto, como bem lembra Alfredo Naffah – um de meus autores favoritos –, que alguns instrumentos de tortura permitiam que o torturador se sentisse desonerado de qualquer responsabilidade, já que o ato de torturar passava a ser, para ele, de total responsabilidade do instrumento.
Reparem que os instrumentos e as formas da antiguidade, tais como o chicote, algemas, apedrejamento, crucificação, fogueira, açoite, quebra-joelhos, berlinda, entre outros, vão sendo substituídos por instrumentos que, mais do que impor mais sofrimento, visavam também (ou, sobretudo, de acordo com nossa posição) tentar desonerar o torturador de qualquer contato direto com o torturador e, consequentemente, de qualquer responsabilidade.
É o que ocorre, por exemplo, com a cadeira elétrica e o pau de arara que, em tese, exigem menos participação direta do torturador. Poderíamos acrescentar, com Naffah, “que aquele que tortura sob as ordens de um outro deve também sentir suas ações como que comandadas por outra mente, o que também o eximiria de qualquer responsabilidade.”[1]
Numa palavra final: a tortura é tão insuportável, que até o torturador, para não se deparar com o olhar do torturado e ser invadido pela vergonha de seu ato, encapuza-o.
Eis porque – e já concluindo – é interessante notar como há muita coisa em comum entre torturadores, inquisidores e estupradores, posto que a vitória de todos eles é sempre (e sempre) uma derrota.
Sobre isso Jacinto Coutinho vai dizer – e a ele não posso deixar de me referir – que o torturador, inquisidor e estuprador, quando vencem, sempre perdem.
Isto porque, tal como se dá com o estuprador, “que na impossibilidade de obter o que pretende pela sedução da palavra, escancara sua mediocridade e incapacidade arrancando da vítima uma verdade que não é dela, e sim dele, (estuprador),[2] o mesmo acontece com os inquisidores e torturadores, que arrancam dos acusados uma verdade que não está com o acusado, mas sim com eles.
Só posso, concluindo com Cyro Silva, fazer-lhes votos de que a Constituição seja referência; referência sem dúvida alguma imprescindível para que as naus não fiquem sem rumo[3] e a memória não seja apagada, tal como se viu na decisão da Desembargadora que desconsiderou não só a Constituição, mas também (ou, sobretudo) a história.
[1] COUTINHO, Jacinto Nelson Miranda de. Observações sobre os sistemas processuais penais. Org: Marco Aurélio Nunes da Silveira e Leonardo Costa de Paula. Observatório Mentalidade inquisitória. Curitiba, p. 45-46.
[2] NETO, Alfredo Naffah. Poder, vida e morte na situação de tortura. São Paulo, Hucitec, 1985, p. 25.
[3] SILVA, Cyro Marcos da. Meritíssimo… Por que tantos méritos? Florianópolis: Empório do Direito, 2016, p. 31.

Aos que lutam, por Cilene Victor



A capacidade de ver e de compreender a realidade é só para os que têm a coragem de viver a vida bravamente.
Não, nunca houve porão. Metaforicamente, tudo aconteceu em praça pública, no térreo. Não viu, quem não quis ver!

Aos que lutam

por Cilene Victor

“Vivi durante a ditadura e nunca soube dessa história de censura, de tortura, de presos políticos ou de perseguição”.
Li isso agora há pouco e fiquei pensando que não devo duvidar desse tipo de relato. Essas pessoas realmente não viram nada. Essa visão da realidade é a que remete à ideia equivocada de que houve porão na ditadura. “Se aconteceu isso, não sei, deve ter sido nos porões da ditadura”.
Não, nunca houve porão. Metaforicamente, tudo aconteceu em praça pública, no térreo. Não viu, quem não quis ver!
Este hoje, em breve, será um futuro e muitos dirão que viveram neste final da segunda década do século XXI e não viram a barbárie ser construída e fomentada diariamente no nosso país.
Vão negar o genocídio da juventude negra e dos povos indígenas, vão negar a homofobia e transfobia, vão negar o feminicídio, vão negar a existência de milhões de brasileiros vivendo na extrema pobreza, vão negar a perseguição aos intelectuais, acadêmicos e à imprensa. Vão negar a intolerância e o obscurantismo.
E, novamente, terei de reconhecer que essas pessoas não estarão erradas em dizer que não viram nada.
A capacidade de ver e de compreender a realidade é só para os que têm a coragem de viver a vida bravamente, lutando contra todo o tipo de barbárie que ameaça o nosso tímido projeto civilizatório.
Muita gente não saiu da escuridão e por isso segue celebrando fatos que nós combateremos, brava e ternamente.
Em memória de todas as vítimas da barbárie de ontem e de hoje.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Do El País: Bolsonaro elogia ditador paraguaio Alfredo Stroessner em público



Do El País:


Presidente brasileiro tratou militar, responsável por crimes contra a humanidade, de “estadista”



Jair Bolsonaro nesta terça-feira, em Itaipu (Paraguai).
Jair Bolsonaro nesta terça-feira, em Itaipu (Paraguai).  AFP

O presidente Jair Bolsonaro viajou nesta terça-feira para a fronteira com o Paraguai para anunciar, ao lado de seu homólogo, Mario Abdo Benítez, a nomeação das novas autoridades de Itaipu, a hidrelétrica que os dois países compartilham no rio Paraná. O discurso do brasileiro não foi protocolar: quando ninguém esperava, se desfez em elogios ao ditador Alfredo Stroessner, o homem que com mão de ferro controlou o Paraguai entre 1954 e 1989, responsável por milhares de prisões arbitrárias, torturas e desaparecimentos. A hidrelétrica só foi possível, disse ele, “porque do outro lado havia um homem com visão, um estadista que sabia perfeitamente que seu país, o Paraguai, só poderia continuar progredindo se tivesse energia”. “Então, aqui está minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner”, acrescentou em português, pouco antes de ficar em silêncio para ouvir os aplausos do público e o olhar imóvel de seu colega paraguaio.


Abdo Benítez assumiu em 15 de agosto do ano passado, depois de uma campanha em que tentou se distanciar de seu passado stroessnerista. Seu pai, Mario Abdo, foi o braço direito do ditador por mais de 30 anos. Bolsonaro parecia confortável diante de seu interlocutor e continuou com citações da Bíblia. “A verdade nos libertará”, disse a Abdo, que insistiu em chamar de Marito, como fazem seus correligionários do Partido Colorado, o movimento político que deu sustentação à ditadura. Para o brasileiro, seu colega paraguaio é “um cristão, conservador, homem de família”. E que por “esses valores” decidiu ir à fronteira para apertar sua mão. “Será um prazer recebê-lo em Brasília nos próximos dias, onde aprofundaremos outras discussões para o bem-estar de nossos povos. Esquerda nunca mais!”, acrescentou o brasileiro. Bolsonaro, capitão reformado, elogiou em várias circunstâncias a ditadura brasileira (1964-1985).
Por sua vez, Abdo agradeceu Bolsonaro pelo encontro e lembrou que vai visitá-lo em 12 de março para promover a construção de duas novas pontes entre os dois países. Também destacou o “importante desafio” que têm pela frente ambas as nações, que em 2023 devem renegociar o tratado bilateral que dispõe sobre a divisão de energia de Itaipu, que desde 1984 fornece 74% de toda a energia consumida pelo Paraguai e 17% da do Brasil. “É iminente, razão pela qual é prioridade agilizar as consultas e os estudos técnicos internos necessários para alcançar resultados que satisfaçam as legítimas aspirações de ambos os países”, disse Abdo.
A agenda energética, no entanto, não foi o destaque do evento. O Paraguai vive um constante debate social pela recuperação e normalização da memória da ditadura, especialmente desde a chegada ao poder de um presidente de sangue stroessnerista. Mário Abdo sempre afirmou que tem poucas lembranças da ditadura porque era muito jovem na época. Mas, ao mesmo tempo, fez vários gestos polêmicos, como quando visitou o túmulo de seu pai no dia da eleição que o levou ao poder. Um grupo de veteranos do Partido Colorado, além disso, pretende trazer dos restos do ditador de Brasília, onde jazem desde sua morte no exílio.
Para a historiadora paraguaia e professora da Universidade Católica de Assunção, Margarita Durán Estragó, cada homenagem que os políticos rendem ao ditador faz sangrar as feridas deixadas pelo stroessnerismo. “A nós que continuamos vivos, machuca muito. Eles se aproveitam de que os jovens não se lembram mais das atrocidades da ditadura porque não viveram o que vivemos. É preciso promover a memória, mas nossos vizinhos tampouco ajudam”, disse a pesquisadora, referindo-se a Bolsonaro. “Quem diria que 30 anos depois da queda de Stroessner teríamos como presidente um rebento do stroessnerismo, o filho do próprio secretário particular do ditador”, acrescentou.
Na semana passada, em uma cerimônia oficial em uma escola por ocasião do primeiro dia de aula, a diretora homenageou o ditador diante do presidente e seus acompanhantes. No início do mês, quando a queda do ditador completou 30 anos, Abdo escapou das perguntas da imprensa com uma gargalhada quando lhe perguntaram sobre o que faria para comemorar a chegada da democracia. O presidente paraguaio não realizou nenhuma cerimônia de acompanhamento ou memória das vítimas e viajou para as comemorações do aniversário de Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil. Ciudad del Este já se chamou Puerto Stroessner, em homenagem ao ditador.
O saldo de 35 anos de ditadura foi muito duro para os paraguaios. Quando um golpe palaciano expulsou Stroessner do poder em 1989, 336 pessoas estavam desaparecidas, 19.862 pessoas haviam sido presas e outras 20.000 haviam sido torturadas. O Governo militar enviou 3.479 paraguaios ao exílio, segundo números da Comissão da Verdade e Justiça que investigou o passado com a chegada da democracia.