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terça-feira, 2 de abril de 2019

Uruguai demite cúpula militar que acobertava torturas


O Brasil é uma vergonha!


O amigo navegante viu que nenhum país membro da "Operação Condor" comemora golpes militares.

Também deve ter visto que foi o próprio Presidente da República quem vazou um vídeo pirata que elogia - na companhia do notável militante William Waack - o Golpe de 1964, que matou (oficialmente) 434 brasileiros.

O Brasil é o único pais da "Operação Condor" cuja Comissão da /1/2 Verdade não exigiu o fim da anistia à Lei da Anistia.

Na Argentina, TODOS os governantes da Ditadura estão ou morreram na cadeia!

O Brasil é uma vergonha, como demonstra o Uruguai:

Cúpula militar uruguaia cai após revelação de crimes da ditadura

O ministro da Defesa do Uruguai, Jorge Menéndez, seu vice-ministro e três generais, entre eles o novo chefe do Exército, José González, foram destituídos nesta segunda-feira pelo presidente Tabaré Vázquez, em um novo episódio de uma crise institucional com poucos precedentes no país sul-americano, que também coincide com o ano eleitoral. O destino dos membros de alto escalão do Governo e dos militares foi decidido após um novo escândalo relacionado a um caso de violação dos direitos humanos cometido durante a ditadura uruguaia (1973-1985).

O conteúdo das atas de um tribunal militar, reveladas no final de semana pelo jornalista Leonardo Haberkorn, mostram que um coronel (Jorge Silveira) confessou o desaparecimento de María Claudia García de Gelman, nora do poeta Juan Gelman, presa em 1976 primeiro na Argentina e depois no Uruguai enquanto grávida de sua filha, Macarena, que foi dada para adoção no Uruguai. Além disso, outro importante membro da repressão, o tenente-coronel José Nino Gavazzo, reconheceu que lançou às águas do rio Negro o guerrilheiro tupamaro Roberto Gomensoro em 1973 e que mentiu sobre isso à Justiça civil.

Apesar dessas confissões, o tribunal militar (conhecido também como Tribunal de Honra) feito no ano passado, integrado por sete generais, considerou que esses fatos não eram uma afronta à honra dos militares acusados. Estes, entretanto, foram punidos por permitir que outro militar, o coronel Juan Carlos Gómez, pegasse três anos de cadeia pelo assassinato de Gomensoro, quando sabiam que era inocente. Gómez por fim foi declarado inocente em 2013.

Em algum dos meandros da complexa Justiça Militar, os responsáveis de alto escalão do Ministério da Defesa não viram as dura confissões incluídas nas atas e as deixaram passar, o que causou a ira do presidente e custou o cargo a todos eles.

As confissões de Gavazzo e Silveira são excepcionais no Uruguai, onde um férreo pacto de silêncio entre militares tornou impossível o esclarecimento da maioria dos casos de mortos e desaparecidos da ditadura. Nesses anos, alguns militares foram presos por ficar em silêncio (agora se sabe que até mesmo sendo inocentes) e o muro nunca foi rachado.

O novo comandante em chefe do Exército, José González, nomeado há quinze dias, também deixará o cargo, assim como outros três generais, todos integrantes do júri militar que não considerou um crime à honra da instituição os desaparecimentos relatados pelos militares. Anteriormente havia sido demitido Guido Manini Ríos, ex-número um do Exército uruguaio, por suas duras críticas à Justiça civil e ao Governo.

A promotoria abriu uma investigação sobre o que aconteceu nos tribunais militares, que deveriam ter comunicado a existência de crimes a instâncias superiores quando as confissões foram feitas. É preciso esclarecer se funcionários públicos (incluindo militares), foram omissos.

Os principais dirigentes do partido de esquerda Frente Ampla (FA), a coalizão de partidos governista, parabenizaram a contundência de Vázquez após um final de semana agitado, em que as bases do FA exigiram mudanças no Exército. Na oposição, vários dirigentes também pediram que o ocorrido tivesse consequências políticas.

“Eu o coloquei no veículo, eu dirigi o veículo, eu o levei ao local, o desci, o coloquei em um bote, o tirei do bote. Eu sozinho”, teria dito o ex-membro da repressão José Gavazzo — atualmente em prisão domiciliar — sobre o desaparecimento de Gomensoro. Essas confissões podem não ser as únicas e agora as atas do julgamento militar serão examinadas minuciosamente.



Tabaré Vazquez revela a consciência estratégica que faltou aos governos do PT e à esquerda

Pensar um projeto de poder, em especial 1 projeto contra-hegemônico de poder, sem tem a devida apreciação sobre o papel das Forças Armadas, é uma ingenuidade que não poderia ter sido repetida depois do golpe de 1964.

A burguesia é atavicamente conspirativa, anti-democrática, e as Forças Armadas desempenham-se na função de guardiões da ordem burguesa.

A atitude do presidente Tabaré é alentadora, porque observa-se no Uruguai a mesma escalada de eventos que ocorreram no Brasil nos últimos anos, em especial em 2013, e que culminaram na eleição fraudada do Bolsonaro.

Temas estranhos à longa tradição republicana do país vizinho saíram do porão sombrio e passaram a frequentar a paisagem pública, com muita semelhança com o processo acontecido no Brasil.

São temas como: a proliferação de igrejas neopentecostais, a histeria anti-corrupção, discursos incentivadores de ódio e intolerância, ativismo dos militares, defesa de intervenção militar, a guerra cibernética e a demagogia do outsider.

Jeferson Miola, Integrante do Instituto de Debates, Estudos e Alternativas de Porto Alegre (Idea), foi coordenador-executivo do 5º Fórum Social Mundial

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Pepe Mujica: "Faço apologia à liberdade, não à pobreza"



"Dizem que sou um velho pobre, mas pobres são eles que andam desesperados pagando contas e se tornam consumidores de coisas secundárias", diz Mujica. Ex-presidente uruguaio também afirmou que integração na América Latina não é "sonho bolivariano", mas um grito de "socorro"

Segue artigo extraído do Pragmatismo Político:


“Não faço apologia à pobreza, faço apologia à liberdade. Dizem que sou um velho pobre, mas pobres são eles que andam desesperados pagando contas e se tornam consumidores de coisas secundárias”, afirmou o ex-presidente do Uruguai José ‘Pepe’ Mujica em evento na Colômbia.
A declaração do líder uruguaio — conhecido pelo seu estilo de vida austero — ocorreu durante a sétima edição da Clacso (Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais) na cidade de Medellín, na Colômbia.

Durante seu discurso, Mujica pediu que os governantes não sejam “fracos” na hora de tomar decisões políticas e sublinhou que há uma “crise colossal” no mundo que só pode ser solucionada com medidas em favor da “igualdade”, contra a “pobreza” e pela sustentabilidade.

No evento, ele também defendeu que a a integração é “imprescindível” para o desenvolvimento da América Latina e para protegê-la de “monstros” como os Estados Unidos e a Europa.

A um público de milhares de pessoas, Mujica lamentou que “apenas” 20% do comércio exterior na América Latina seja “interregional”. Aos seus olhos, não se trata de um “sonho bolivariano”, mas de um grito de “socorro”, pois a América Latina precisa de “algo comum que nos defenda”.

“Passamos 200 anos fazendo comércio com todo o mundo e de costas para nós mesmos. Fazemos muitos discursos de integração, mas, no ponto de vista prático, fazemos muito pouco”, comentou o ex-presidente uruguaio.

O tema da integração regional tem sido recorrente nos discursos de Mujica nos últimos tempos. No fim de outubro do ano passado, o líder uruguaio disse, em palestra em Paris, que a Europa estava centrada em seus próprios problemas internos e apresentava uma “falta de vontade” para estabelecer um acordo comercial com a América Latina. “A Europa não está à altura da civilização que criou”, sintetizara, na ocasião.

EFE e Opera Mundi

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

O discurso de Pepe Mujica e a ofensiva norte-americana


Do Observatório da Imprensa:

MÍDIA & GEOPOLÍTICA

O discurso de Mujica e a ofensiva norte-americana

Por Maria Luiza Franco Busse em 01/10/2013 na edição 766


28 de setembro de 2013. Deu na primeira página do jornal uruguaio La República:
Biden le aseguró a Mujica que visitará Uruguay – El vicepresidente norteamericano transmitió a Mujica que propondrá en las esferas diplomáticas un plan de apoyo para que Uruguay pase a ocupar una silla en el ámbito del Consejo de Seguridad de la ONU em el período 2015-2016.
A reação estadunidense ao discurso do presidente uruguaio pronunciado na 68ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas confirma a tese de que o sistema se apropria de tudo, com especial interesse no que o desnuda e sugere outra roupagem. Pois assim foi o pronunciamento de Pepe Mujica. Com o vigor das palavras, evocou a totalidade, conclamou o coletivo e celebrou a vida. (...) “devemos entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, mas da humanidade toda, e esta deve, como tal, globalizada, empenhar-se em seu desenvolvimento para que possam viver com decência de maneira autônoma. Os recursos necessários existem, estão neste depredador esbanjamento de nossa civilização”, diz em um ponto, para ir adiante.
“Estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e para continuar nos transformando. (...) De um lado a outro sobram ativos para vislumbrar essas coisas e para vislumbrar o rumo. Mas é impossível para nós coletivizar decisões globais sobre isso porque a cobiça individual triunfou largamente sobre a cobiça superior da espécie (humana).”
Num tempo nascido do efeito de um fracasso histórico e que por conta disso a política foi fragmentada em identidades, não é pouco falar do que não se fala mais. Coisas como capitalismo, imperialismo, ideologia, classe, Estado, modo de produção, distribuição e igualdade, exemplos de totalidade que fazem a diferença na vida prática, mas perdeu-se a significação desse fato porque, como já disse um importante teórico de esquerda inglês, captar a forma da totalidade exige raciocínio rigoroso e cansativo incompatível com a ambiguidade e a indeterminação, ícones do chamado pós-modernismo.
Mujica, em seu aparente coração simples, acusou o dilema observando que a” globalização de olhar para todo o planeta e para toda a vida significa uma mudança cultural brutal” e que é preciso pensar “nas causas profundas, na civilização do esbanjamento, na civilização do usa-joga fora que o que joga fora é o tempo da vida humana, mal gasto em questões inúteis”.
Novo tempo
Depois de criticar a política da guerra levada pelas grandes potências, Mujica não poupou a ONU, “a nossa ONU” que, segundo ele, “se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e, sobretudo, de democracia para com o mundo mais fraco que constitui a maioria esmagadora do planeta”. E pediu aos seus pares que pensassem sobre a grandeza que é viver. (...) “Nada vale mais que a vida”, disse o um dia chefe da guerrilha tupamara que passou 13 anos preso, dez dos quais numa solitária.
O discurso impactou. Tenha sido pela transgressão, pelo realismo, ou pela ousadia do realismo. Mas o fato é que testemunhas contaram não se lembrar de tamanho silêncio no plenário da Assembleia da ONU. Em resposta, o governo dos Estados Unidos, na pessoa de seu vice-presidente Joe Biden, transmitiu ao presidente Mujica que vai propor nas esferas diplomáticas um plano de apoio para que o Uruguai passe a ocupar um assento no Conselho de Segurança da ONU no período de 2015-2016. O chanceler uruguaio Luis Almagro aproveitou para lembrar que há tempos seu país solicita um lugar como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O jornal La República, de apoio à Frente Ampla que forma o governo, comemorou a proposta estadunidense. Daqui, de nossa parte, vale sonhar que a evocação totalizante de Mujica contemple o Mercosul e o bloco tome os assentos do Conselho de Segurança dando início a um novo tempo inspirado no coletivo de homens e mulheres que vêm do Sul.
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Maria Luiza Franco Busse é jornalista e doutora em Semiologia