Mostrando postagens com marcador retrocessos sociais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador retrocessos sociais. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Mídia brasileira, representante dos interesses da Casa Grande, se deixa humilhar na era Bolsonaro. Por Denise de Assis





Estávamos em 2016. A dois anos, portanto, das eleições regulamentares, previstas em lei. Estimulado por uma articulação urdida no seio do PSDB – que já vislumbrava a sua total incapacidade de fazer o próximo presidente – e de um vice do PMDB, ressentido e ambicioso, (com certeza de olhos no fórum privilegiado do cargo) o Congresso atropelou a Constituição e aprovou um impeachment sem crime configurado, sem provas concretas para justificá-lo.

O país trocou os pés pelas mãos. Tal como em "Alice no país das Maravilhas" – (Lewis Carrol), encantou-se com o exotismo de um coelho que falava e usava relógio. Entrou em sua toca sem refletir que descer seria fácil. Difícil mesmo era encontrar a saída.

O que faltava na conta da presidenta Dilma, para levá-la ao impeachment, sobrava na do vice: fortes indícios das suas falcatruas. E o que importava isto, naquele momento, se havia o perigo do retorno de Lula? Tudo, menos a volta de Lula, pareciam concordar a elite, a classe média intolerante e até a corte suprema, que se omitiu em fazer valer a letra da lei em momentos cruciais. Nada disto contou. Havia um plano de reformas a ser levado adiante, de interesse do mundo empresarial. Porém, o papel decisivo foi o da mídia, orquestrando manifestações e levando para a rua o discurso do ódio ao governo legalmente eleito.

Eis que, Dilma deposta, vieram à tona os malfeitos do vice. Os índices de aprovação da presidenta - um dos argumentos para o seu impeachment -, ainda na casa dos dois dígitos, nunca foram alcançados pelo seu sucessor, que desde que pisou no palácio ouviu o coro de "fora Temer". O que fez a mídia? Não fez. Não apurou verdadeiramente, ignorou denúncias e manobras, movidas a farta distribuição de emendas para impedir que o presidente ilegítimo – nunca é demais lembrar – virasse réu.

Michel não foi incomodado. Entregou o que esperavam dele. O pré-sal, a reforma trabalhista, e quase fez o gol de placa, a tão sonhada reforma da Previdência. Por conta disto, foi deixado em paz, não foi devidamente investigado, não houve apuração, de fato, dos seus malfeitos. Saiu do Planalto pela rampa principal.

Na descida, deu posse ao candidato que se não foi o escolhido dos meios de Comunicação, foi o acolhido. Valia qualquer um, desde que o PT fosse escorraçado de Brasília. E a mídia lá, omissa. Não cobraram do candidato da ultradireita participações em debates, não respeitaram o tempo de TV estipulado para a campanha, na cobertura do atentado sofrido pelo candidato; não se debruçaram, de fato, sobre a vida pregressa do candidato e suas "ramificações"; não cobraram dele projetos, plataforma de governo, nada.

Eis que agora, no vazio que se evidencia o seu governo (?), com três meses no posto, esta mesma mídia se dá conta de que é barrada em coletivas, é acusada de persegui-lo e é tratada a pão e água. Perplexa, entra em um processo de esquizofrenia. Nos editoriais, cobra a ausência de ações efetivas, acusam-no de jogar o país num "deserto de ideias", e de não ter aptidão para o cargo. Na linha editorial, em suas coberturas, continua passando a mão sobre a sua cabeça, para não atrapalhar o desenrolar da reforma da Previdência, o samba de uma nota só em que se transformou o discurso dos meios tradicionais. Todo apoio ao mercado financeiro!

Nunca antes na história deste país os jornalões e os principais canais de TV foram banidos dos salões do poder. Assim mesmo, humilhados e escorraçados, seguem com o rabinho entre as pernas, dando uma no prego outra na ferradura, à espera da manchete dos sonhos: "Aprovada a reforma da Previdência". Enquanto isto, escrevem editoriais raivosos, mas não contribuem no trabalho de apuração para esclarecer as muitas perguntas que deveriam ajudar a responder.

Quem mandou matar Marielle? Onde está Queiroz? Para onde foram tantos depósitos feitos pelo chefe de gabinete do filho do presidente? E outras tantas, que gostaríamos de ver respondidas. Por onde anda Adriano, o miliciano? Por exemplo...

Denise AssisJornalista há 43 anos, vencedora dos prêmios Esso e Ayrton Senna de Jornalismo, pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade, autora dos livros "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", e membro do Jornalistas pela Democracia

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Bob Fernandes, no Jornal da TV Gazeta: Bolsonaro e sua falange do mal anunicam há anos o que farão.... e é isso...





Palavras antecedem, autorizam atos, ações e consequências.
Segunda, 22, o Supremo defendeu-se da ameaça de "fechamento". Feita por Eduardo, filho de Bolsonaro e deputado federal.
Terça-feira ministros do Supremo tiveram que defender a ministra Rosa Weber.
Com modos do "Homem de Neandertal", certo coronel da reserva chamou a ministra Rosa Weber de "corrupta, salafrária, incompetente"...
...E Ministros do STF de "corruptos, vagabundos". Haddad seria "um safado". Se eleito presidente, crianças de 4 anos nas creches "teriam que segurar pênis de adultos".
O tal coronel é Bolsonarista radical. Despejou grunhidos logo que vazado vídeo com Eduardo Bolsonaro pregando "fechar o Supremo".
Supremo que Bolsonaro já ameaçou aumentar com indicação de mais "10 ministros".
No domingo Bolsonaro escancarou: eleito fará uma "limpeza". Varrerá, banirá (para o exílio), ou prenderá adversários, "marginais vermelhos".
Bolsonaro ataca verbalmente a Folha de São Paulo. Que pediu à Polícia Federal investigação contra ameaças à jornalista Patrícia Campos Mello...
.... A autora da reportagem: empresários pagaram, via Caixa 2, ilegal, campanha contra Haddad/PT via WhatsApp.
Bolsonaro ameaça retirar o Brasil do Acordo de Paris.
O compromisso Mundial para contenção da mudança climática.
O jornal Washington Post alertou: "Como Bolsonaro ameaça o Planeta".
O Financial Times emendou: mineradores, madeireiros e fazendeiros agirão fora da lei na Amazônia.
Edson Duarte, ministro do meio ambiente do Brasil, aposta:
-Vai ser uma "Corrida do Ouro", todos terão certeza de que não serão incomodados (na Amazônia).
Neste outubro assassinados dois indígenas e um líder camponês. Resistiam a madeireiros em suas terras.
Em 2017, 110 indígenas assassinados.
Sexta e sábado passados equipes do IBAMA e Instituto Chico Mendes atacadas. Em Buritis, Rondônia, três ônibus do Ibama incendiados.
Em Trairão, Pará, trabalhavam agentes do Instituto Chico Mendes. Uma ponte queimada e tiros.
Palavras antecipam, autorizam atos, ações e consequências. Bolsonaro e falanges anunciam há anos o que farão...E é isso aí..

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Brasil em transe pela midiotia e o desmonte generalizado, duas constatações, por Bruno Lima Rocha


 "Lado a lado com a violência simbólica dos discursos de ódio, galvanizados pelo atingido em Juiz de Fora (MG), temos a negação do direito ao reconhecimento e, concomitantemente, a perda progressiva dos direitos coletivos que vinham num crescendo desde 1932 e se consolidaram como política pública permanente na Constituição de 1988. Trata-se de restauração burguesa e liquidação da soberania popular e, por tabela, a soberania nacional."




Brasil em transe e o desmonte generalizado, duas constatações
por Bruno Lima Rocha, no GGN
Às vésperas do sete de setembro de 2018 houve um atentado contra Jair Messias Bolsonaro, candidato do PSL, deputado federal no sétimo mandato e aquele que encarna a “grande esperança branca” da Casa Grande do país governado por um baronato rentista e seus aliados dentro e fora de nossas fronteiras. Desde então abundam teorias especulativas e uma evidência: tal fato tem relação total com o contexto vivido pelo Brasil desde o início do terceiro turno de 2014.
Lado a lado com a violência simbólica dos discursos de ódio, galvanizados pelo atingido em Juiz de Fora (MG), temos a negação do direito ao reconhecimento e, concomitantemente, a perda progressiva dos direitos coletivos que vinham num crescendo desde 1932 e se consolidaram como política pública permanente na Constituição de 1988. Trata-se de restauração burguesa e liquidação da soberania popular e, por tabela, a soberania nacional.
O fim da proteção ao mundo do trabalho é o velório da Nova República?
Vale alguma reflexão. O STF autorizara a terceirização para atividades fim em todas as empresas. Ou seja, entendo que eu na maioria das Pessoas Jurídicas, a classe trabalhadora do Brasil está diante de uma “Pejotização” galopante. Óbvio que a direita afirma que isso é "da nova economia", ou que "a terceirização já existe, logo é preciso autorizar ou regular". Me recorda o debate sobre transgênicos, que acabou sendo liberada a circulação de sementes assim no primeiro governo Lula utilizando um pouco da política do fato consumado. "As sementes vêm de contrabando da Argentina e assim fica impossível ilegalizar todo um setor e blablabla e cumpra-se". Não custa lembrar. Sementes não são animados com mobilidade própria, logo, foram trazidas e o contrabando - a prática centenária de chibeiros - seria bastante controlável nas barrancas do rio Uruguai. Enfim, tal como o fato consumado das sementes, o mesmo se dá com a desagregação social que avança no país.
Em parte, essa é a dimensão substantiva do golpe em andamento e agora, especificamente, rastejando pelas sarjetas da pior política possível. Era esperado e os discursos literalmente se repetem em toda América Latina. Durante o auge dos escândalos do governo Priista de Enrique Peña Nieto, no México, "colonistas de economia" repetiam a ladainha de que o salário mínimo (ou seja, o salário social) é uma "ilusão econômica", pois "primeiro é preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo". A ladainha perfeitamente falsificável era a mesma. Não exagero, as analogias eram idênticas do guru da modernização conservadora da ditadura, agora travestido de parlamentarista, Antônio Delfim Netto.
Uma observação vinda do nosso campo, pode afirmar que sempre houve desagregação social no período republicano, "desde que o povo bestializado assistiu a tal proclamação". Não há contestação possível desta afirmação. A "tal da república" nunca foi inclusiva e incorporou um governo nacional com reconhecimento para os trabalhadores urbanos somente no varguismo, isso após completarem o trabalho sujo de Arthur Bernardes e Washington Luís, dizimando a liderança sindical de orientação anarquista no Brasil. Em termos de maioria afro-brasileira, a repressão sempre se fez presente, e se faz, na distribuição espacial da mesma, cortando na ausência de direitos civis e sociais da maior parte de nossa população.
Logo, se nada disso é "novidade" (infelizmente), quais as características prevalentes de nosso momento histórico? Ou, falando em termos mais diretos, como liquidaram com a Nova República e quais suas consequências?!  
Que tipo de crise é essa? Quando os setores não se protegem do entreguismo visceral
Sabemos a dificuldade de qualquer tipo de tabelamento de preços ter algum fôlego; o próprio Plano Cruzado e o congelamento de preços básicos levou a um aumento da sonegação e do crime contra a economia popular. Mas, isso é diferente de afirmar em termos de "modelo" que as "regras da economia" - ou seja, da balela neoclássica - vai ajeitar o excesso de oferta pelo crédito do BNDES durante o período lulista diretamente implicado no consequente aumento da frota de caminhões. Resumindo: ou o setor de transporte de carga tem alguma forma de proteção para os caminhoneiros autônomos, ou cerca de 500 mil caminhoneiros - e pelas contas, dois milhões de pessoas - serão atingidos. As empresas de agroindústria que têm crédito agrícola vão se defender do jeito que dá, incluindo o protelamento da execução de suas dívidas e quem vive no trecho vai engrossar o desemprego nas cidades.
Como pano de fundo, o que a laia quer fazer crer ao povo brasileiro? Que devemos quebrar o monopólio fático da Petrobrás, pois esta foi quebrada em função da “artificialidade” dos preços praticados anteriormente e também pelo modelo de partilha do Pré-Sal. Sobre a perda de causa e o seguido acordo com a Justiça dos EUA na defesa dos especuladores aglutinados como acionistas minoritários, óbvio que os “consultores” não dizem. Logo, a “solução” apresentada é liberar a importação de diesel, gasolina e demais derivados por todas as transnacionais do setor de óleo e gás. E, também para a obviedade, a cambada nunca diz que existem 16 traders mundiais forçando os contratos futuros e incidindo diretamente na cotação do barril Brent. Logo, desejam expor ainda mais a sociedade brasileira às oscilações forçosas dos especuladores. Como se chama isso em português? Em castelhano os países Hermanos denominam “vende pátria”. Concordo com o conceito.
08 de setembro de 2018
Bruno Lima Rocha é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política, professor de relações internacionais e de jornalismo.
(estrategiaeanaliseblog.com / blimarocha@gmail.com)

domingo, 29 de abril de 2018

Luta de classes, Globo e fascismo, por Maria Luiza Quaresma Tonelli


A imagem pode conter: 19 pessoas, pessoas sorrindo

"A Globo apoiou o golpe de 64 e todo o regime militar que durou 21 anos. Apoiou o golpe de 2016 que tirou Dilma do poder para colocar na presidência alguém que implantasse um projeto derrotado nas urnas. Por que não apoiaria outro golpe, seja pela via civil, pela via da toga, seja pela via militar, para impedir que Lula ou qualquer candidato de esquerda seja eleito em 2018, nem que para isso corra muito sangue?"

Obs.: Assista primeiro ao vídeo abaixo, da televisão pública do Qatar, Al Jazeera, antes de ler o texto de Maria Luiza Q. Toneli, publicado pelo GGN.




Do Jornal GGN:
Luta de classes, Globo e fascismo
por Maria Luiza Quaresma Tonelli

A luta de classes é inerente às sociedades capitalistas, uma vez que as classes sociais são antagônicas entre si. Umas mais, outras menos, uma vez que grande parte da classe média não antagoniza com a elite do dinheiro porque se acha parte dela, por isso lhe serve como massa de manobra. É a parte da classe média (que não é homogênea) que odeia os pobres.
A mídia, Globo à frente, é o instrumento de poder da elite do dinheiro que não admite e nunca admitiu neste país tão profundamente desigual um Estado social. Foi assim com Getúlio, com Jango, com Lula e com Dilma. 
O ódio a Lula e ao PT é um ódio latente de classe, não é um ódio criado pela mídia, Globo à frente. É o ódio autorizado a se manifestar de forma explícita e orgulhosa. Um ódio cultuado, cultivado, alimentado diariamente, dia após dia, ano após ano desde que Lula foi eleito pela primeira vez e continua com sua prisão na masmorra de Curitiba. 
A Globo e o resto da mídia dominante deste país manipulam os fatos e sonegam informação. A mídia, como um bando de abutres, televisionou a prisão de Lula, mas em nenhum momento informou as proibições das visitas ao ex-presidente Lula, inclusive a visita de um prêmio Nobel e a visita do médico pela juíza da Vara de Execuções Penais. 
A caravana de Lula sofreu um atentado a balas em um dos ônibus. Marielle foi assassinada. Lula está sendo mantido preso em uma solitária. Hoje o acampamento em Curitiba sofreu um ataque por atiradores que gritavam o nome de Bolsonaro. Duas pessoas foram feridas. Coisas piores podem acontecer e sabemos que a Globo não vai noticiar esse fato como algo de extrema gravidade. Talvez nem noticie. 
Talvez o que a Globo pretenda, ao envenenar o telespectador contra Lula, o PT e a esquerda em geral, seja provocar uma guerra civil a fim de que uma intervenção militar ocorra e suspenda as eleições. 
A Globo apoiou o golpe de 64 e todo o regime militar que durou 21 anos. Apoiou o golpe de 2016 que tirou Dilma do poder para colocar na presidência alguém que implantasse um projeto derrotado nas urnas. Por que não apoiaria outro golpe, seja pela via civil, pela via da toga, seja pela via militar, para impedir que Lula ou qualquer candidato de esquerda seja eleito em 2018, nem que para isso corra muito sangue? 
Não adianta protestar contra Moro, contra o STF, contra Temer, contra os partidos de direita. É contra a Globo, que sempre esteve no comando. Todo o resto é café pequeno.
Em tempo: a Globo não está nem aí para aí possibilidade de Bolsonaro ser eleito. Não está nem aí para um governo fascista, pelo simples fato de que o fascismo é seu método preferencial. Acordemos, pois.

domingo, 22 de abril de 2018

CNBB: quando a diplomacia diante de retrocessos não combina com a profecia ( no sentido original de denúncia de erros) e o Evangelho



"Sabemos que não é fácil chegar ao consenso dentro de uma Conferência Episcopal tão grande como a brasileira, com tendências, mentalidades e espiritualidades tão diversas. Porém, quando se escolhe o caminho da diplomacia, do “politicamente correto”, isso nos distancia da profecia e, por consequência, do Evangelho." - Padre Luis Miguel Modino

Do site Caminho pra Casa, de Mauro Lopes


Dom Sérgio da Rocha, presidente da CNBB

Padre Luis Miguel Modino avalia as duas notas lançadas nesta quinta-feira (19) pela CNBB para marcar o encerramento de sua 56ª Assembleia Geral, em Aparecida (SP). Falta profetismo e Evangelho à entidade dos bispos brasileiros; sobram diplomacia e silêncios cúmplices
Por padre Luis Miguel Modino, pároco na Diocese de São Gabriel da Cachoeira*
Sabemos que não é fácil chegar ao consenso dentro de uma Conferência Episcopal tão grande como a brasileira, com tendências, mentalidades e espiritualidades tão diversas. Porém, quando se escolhe o caminho da diplomacia, do “politicamente correto”, isso nos distancia da profecia e, por consequência, do Evangelho.
O episcopado brasileiro publicou neste 19 de abril duas notas nas quais pretende apresentar sua postura diante do momento sócio-político que o país atravessa e das eleições que devem acontecer em outubro. Os textos são resultado dos debates levados a cabo na 56ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reuniu de 11 de abril até hoje (20) os prelados do país.
Eram pronunciamentos esperados, mas em muitos deixaram um gosto agridoce, com palavras temperadas que tentam agradar a todos, mas que acabam produzindo o efeito oposto.
Na primeira nota, sob o título de “Mensagem da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ao Povo de Deus” (veja a íntegra no final), a CNBB começa defendendo-se dos ataques sofridos nas redes sociais, dos quais participam grupos conservadores e reacionários, com o apoio mais ou menos explícito de padres, alguns com grande popularidade, sem qualquer  atitude concreta por parte dos bispos dos quais dependem canonicamente. São estes os mesmos grupos nos quais confluem interesses políticos, econômicos e religiosos, que perseguem os bispos e a CNBB.
Perante esta situação, o episcopado faz um apelo à unidade dentro da Igreja, que eles dizem ser parte do episcopado, ao afirmar que “estamos unidos entre nós por uma fraternidade sacramental e em comunhão com o sucessor de Pedro”. Esta afirmação é colocada em dúvida a seguir,  quando se afirma no texto a CNBB que “não pode ser responsabilizada por palavras ou ações isoladas que não estejam em sintonia com a fé da Igreja, sua liturgia e doutrina social, mesmo quando realizadas por eclesiásticos”. Ao mesmo tempo, os bispos anotam que “a opção preferencial pelos pobres é uma marca distintiva da história desta Conferência”, embora muitos percebam que essa história foi gradualmente diluída.
A nota assinala que “a CNBB não se identifica com nenhuma ideologia ou partido político”, mas, ao mesmo tempo, com base em uma frase da última exortação apostólica do Papa Francisco, critica o “intimismo, suspeitando do compromisso social dos outros e considerando-o superficial e mundano (cf. Gaudete et Exsultate, n. 100-101)”, o que é contraditório.
Os bispos dizem que assumem um compromisso profético em sua nota, o que para muitos permanece num nível teórico, porque falta uma defesa explícita do padre José Amaro Lopes, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT), aprisionado desde 27 de março, como resultado de uma trama de poderes políticos e econômicos no Pará. A mesma omissão acontece em relação à morte de Marielle Franco, a vereadora do Rio de Janeiro assassinada há mais de um mês, cuja família confortada por um telefonema do Papa Francisco. Sobre cuja morte, que provavelmente nunca será resolvida pela polícia e pelo Judiciário, nunca houve um pronunciamento da CNBB, apesar de a Conferência Episcopal começar a nota afirmando estar “em comunhão com o Papa Francisco”.
Na segunda nota, sobreas eleições de outubro, que muitos descrevem como mais profética, enquadra-se na perspectiva da “defesa integral da vida e da dignidade da pessoa humana, especialmente dos pobres e excluídos”, atitude que surge do fato de que “o Brasil vive um momento complexo, alimentado por uma aguda crise que abala fortemente suas estruturas democráticas e compromete a construção do bem comum, razão da verdadeira política”. A nota faz uma crítica à corrupção cada vez mais presente , o que causa “um perigoso descrédito com a política”.
Os bispos denunciam “a falta de políticas públicas consistentes”, que é considerada “a raiz de graves questões sociais, como o aumento do desemprego e da violência que, no campo e na cidade, provoca vítimas entre milhares de pessoas, acima de tudo , mulheres, pobres, jovens, negros e indígenas “, como resultado das decisões de um governo que assumiu o poder como resultado de um golpe de Estado parlamentar e ao qual, por outro lado, nenhuma crítica explícita é feita (nem ao golpe de Estado). Tudo isso é consequência, segundo a nota episcopal, da “perda de direitos e conquistas sociais, resultado de uma economia que sujeita a política aos interesses do mercado”.
Uma das realidades mais preocupantes para os bispos são “os discursos e atos de intolerância, ódio e violência” que impedem “qualquer possibilidade de diálogo”, uma atitude abertamente defendida por alguns políticos, apoiada até mesmo por grupos católicos. Nesse sentido, os bispos definem as eleições como “um passo importante para o Brasil reafirmar a normalidade democrática, superar a atual crise institucional, garantir a independência e autonomia dos três poderes constituídos”.
O episcopado convoca as pessoas a “participarem efetivamente da construção de um país justo, ético e igualitário”, vendo “neste momento difícil uma oportunidade de crescimento, abandonando os caminhos da intolerância, do desânimo e do desencantamento”. A CNBB  também exorta os políticos para  “que anteponham o bem comum aos seus interesses privados” uma realidade cada vez menos presente na política brasileira, onde quase tudo é comprado e vendido.
As duas notas provocam diferentes reações em um país cada vez mais dividido, mas no qual muitos sentem a falta de palavras mais decisivas e contundentes, especialmente aqueles que desejam uma reflexão sobre o momento atual pelo qual o Brasil está passando. Até mesmo alguns bispos, em particular, reconhecem que a profecia é algo cada vez menos presente na CNBB.

Padre Luis Miguel Modino



* Este artigo está sendo publicado simultaneamente em espanhol no site Religión Digital