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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Pastor Ricardo Gondim: Deus nos livre de um Brasil evangélico

 

    Afirmo que o sonho é que haja um “avivamento” religioso que leve uma enxurrada de gente para os templos evangélicos. Não reside entre os teólogos do movimento qualquer desejo de que valores cristãos influenciem a cultura brasileira. Eles anelam tão somente que o subgrupo, descendente distante dos protestantes, prevaleça. A eles não interessa que haja um veloz crescimento numérico entre católicos romanos; que ortodoxos sírios, russos, armênios ou gregos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Charge de Carlos Latuff

Deus nos livre de um Brasil evangélico



Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles em avenidas da cidade com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação à bobagem estampada publicamente; hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. Antes explico: eu gostaria de ver o Brasil permeado com a elegância, solidariedade, inclusão e compaixão do Evangelho. Mas a mensagem subliminar dos outdoors, para quem conhece a cultura do movimento evangélico, é outra. Os evangélicos sonham com o dia em que cidade, estado e país se convertam em massa, e a terra dos tupiniquins tenha a cara de suas denominações.

Afirmo que o sonho é que haja um “avivamento” religioso que leve uma enxurrada de gente para os templos evangélicos. Não reside entre os teólogos do movimento qualquer desejo de que valores cristãos influenciem a cultura brasileira. Eles anelam tão somente que o subgrupo, descendente distante dos protestantes, prevaleça. A eles não interessa que haja um veloz crescimento numérico entre católicos romanos; que ortodoxos sírios, russos, armênios ou gregos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse a tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra calvinista brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo não inglês, mas moreno. Caso acontecesse, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Respondo: seriam execrados como diabólicos, devassos e pervertedores dos bons costumes. Não gosto nem de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Um Brasil evangélico empobreceria, já que sobrariam as péssimas poesias do cancioneiro gospel. As rádios tocariam sem parar músicas horrorosas como “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”.

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos calvinistas provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse Charles Darwin como “alucinado inimigo da fé”. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos. Derridá nunca teria uma tradução para o português. O que dizer de rebeldes como Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, seriam pesquisados como desajustados. Ganhariam rótulos para serem desmerecidos a priori como loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. A alegria do futebol morreria; alguma lei proibiria ir ao estádio ou ligar televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada de várzea, aconteceria quando? Haveria multa ou surra para palavrão?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu. Basta uma espiada no histórico de Suas Excelências da bancada evangélica nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para se apavorar. Se, ainda minoria, a bancada evangélica na Câmara Federal é campeã em faltas e em processos no STF, imagina dominando o parlamento.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura estadunidense. Obcecados em implementar os “valores da família”, tão caros ao partido republicano dos Estados Unidos, recrudesceria a teologia de causa-e-efeito, cármica, do “quem planta, colhe”. Vingaria o sucesso como aferidor da bênção de Deus.

Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica. Uma nova elite religiosa (os ungidos) destilaria maldição contra os “inimigos da fé”, os “idólatras”, os “hereges”, com mais perversidade do que aiatolás iranianos. Ficaria mais fácil falar de inferno e mandar para lá todo mundo que rejeitasse algumas lógicas tidas como ortodoxas.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro perguntando: Como seria uma emissora liderada por evangélicos? Adianto: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, os textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado, a qualquer livro da série “Deixados para Trás” do fundamentalista de direita, Tim LaHaye. O demagogo Max Lucado (que abençoou a decisão de Bush bombardear o Iraque) não calça o chinelo de Mário Benedetti.

Toda a teocracia um dia se tornará totalitária. Toda a tentativa de homogeneizar a cultura precisa se valer de obscurantismo. Todo o esforço de higienizar os costumes é moralista e hipócrita.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Jesus jamais pretendeu anular os costumes de povos não-judeus. Daí ele celebrar a fé em um centurião, adorador no paganismo romano, como especial e digna de elogio. Cristo afirmou que, entre criteriosos fariseus, ninguém tinha uma espiritualidade tão única e bela como daquele soldado que se preocupou com o escravo.

Levar a Boa Notícia – Evangelho – não significa exportar cultura, criar dialeto ou forçar critérios morais. Na evangelização, fica implícito que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, como sempre fizeram. O evangelho convoca à pratica da justiça; cria meios de solidariedade; procura gestar homens e mulheres distintos; imprime em pessoas o mesmo espírito que moveu Jesus a praticar o bem.

Há estudos sociológicos que apontam estagnação quando o movimento evangélico chegar a 35% da população brasileira. Esperemos que sim. Caso alcançasse a maioria, com os anseios totalitários e teocráticos que já demonstra, o movimento desenvolveria mecanismos para coibir a liberdade. Acontece que Deus não rivaliza a liberdade humana, mas é seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Soli Deo Gloria

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Ricardo Gondim, teólogo evangélico, implora: Deus nos livre de um Brasil evangélico


 "Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse Charles Darwin como “alucinado inimigo da fé”. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos. Derridá nunca teria uma tradução para o português. O que dizer de rebeldes como Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, seriam pesquisados como desajustados. Ganhariam rótulos para serem desmerecidos a priori como loucos, pederastas, hereges."



Deus nos livre de um Brasil evangélico


Ricardo Gondim

(publicado originalmente no site do autor em 01/07/2015)

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles em avenidas da cidade com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação à bobagem estampada publicamente; hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. Antes explico: eu gostaria de ver o Brasil permeado com a elegância, solidariedade, inclusão e compaixão do Evangelho. Mas a mensagem subliminar dos outdoors, para quem conhece a cultura do movimento evangélico, é outra. Os evangélicos sonham com o dia em que cidade, estado e país se convertam em massa, e a terra dos tupiniquins tenha a cara de suas denominações.

Afirmo que o sonho é que haja um “avivamento” religioso que leve uma enxurrada de gente para os templos evangélicos. Não reside entre os teólogos do movimento qualquer  desejo de que valores cristãos influenciem a cultura brasileira. Eles anelam tão somente que o subgrupo, descendente distante dos protestantes, prevaleça. A eles não interessa que haja um veloz crescimento numérico entre católicos romanos; que ortodoxos sírios, russos, armênios ou gregos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse a tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra calvinista brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo não inglês, mas moreno. Caso acontecesse, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Respondo: seriam execrados como diabólicos, devassos e pervertedores dos bons costumes. Não gosto nem de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Um Brasil evangélico empobreceria, já que sobrariam as péssimas poesias do cancioneiro gospel. As rádios tocariam sem parar músicas horrorosas como  “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”.

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos calvinistas provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse Charles Darwin como “alucinado inimigo da fé”. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos. Derridá nunca teria uma tradução para o português. O que dizer de rebeldes como Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, seriam pesquisados como desajustados. Ganhariam rótulos para serem desmerecidos a priori como loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. A alegria do futebol morreria; alguma lei proibiria ir ao estádio ou ligar televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada de várzea, aconteceria quando? Haveria multa ou surra para palavrão?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu. Basta uma espiada no histórico de Suas Excelências da bancada evangélica nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para se apavorar. Se, ainda minoria, a bancada evangélica na Câmara Federal é campeã em faltas e em processos no STF, imagina dominando o parlamento.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura estadunidense. Obcecados em implementar os “valores da família”, tão caros ao partido republicano dos Estados Unidos, recrudesceria a teologia de causa-e-efeito, cármica, do “quem planta, colhe”. Vingaria o sucesso como aferidor da bênção de Deus.


Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica. Uma nova elite religiosa (os ungidos) destilaria maldição contra os “inimigos da fé”, os “idólatras”, os “hereges”, com mais perversidade do que aiatolás iranianos. Ficaria mais fácil falar de inferno e mandar para lá todo mundo que rejeitasse algumas lógicas tidas como ortodoxas.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro perguntando: Como seria uma emissora liderada por evangélicos? Adianto: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, os textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado, a qualquer livro da série “Deixados para Trás” do fundamentalista de direita, Tim LaHaye. O demagogo Max Lucado (que abençoou a decisão de Bush bombardear o Iraque) não calça o chinelo de Mário Benedetti.

Toda a teocracia um dia se tornará totalitária. Toda a tentativa de homogeneizar a cultura precisa se valer de obscurantismo. Todo o esforço de higienizar os costumes é moralista e hipócrita.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Jesus jamais pretendeu anular os costumes de povos não-judeus. Daí ele celebrar a fé em um centurião, adorador no paganismo romano, como especial e digna de elogio. Cristo afirmou que, entre criteriosos fariseus, ninguém tinha uma espiritualidade tão única e bela como daquele soldado que se preocupou com o escravo.

Levar a Boa Notícia – Evangelho – não significa exportar cultura, criar dialeto ou forçar critérios morais. Na evangelização, fica implícito que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, como sempre fizeram. O evangelho convoca à pratica da justiça; cria meios de solidariedade; procura gestar homens e mulheres distintos; imprime em pessoas o mesmo espírito que moveu Jesus a praticar o bem.

Há estudos sociológicos que apontam estagnação quando o movimento evangélico chegar a 35% da população brasileira. Esperemos que sim. Caso alcançasse a maioria, com os anseios totalitários e teocráticos que já demonstra, o movimento desenvolveria mecanismos para coibir a liberdade. Acontece que Deus não rivaliza a liberdade humana, mas é seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Soli Deo Gloria

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Pastor Ricardo Gondim: “o Brasil pode dar os primeiros passos rumo a um neonazismo”



Pelo twitter, Ricardo Gondim disse estar com nojo de todo e qualquer crente que embarcou nessa empreitada moralista, bolsonarista.

da Revista Fórum:




Em artigo em seu blog, o pastor progressista Ricardo Gondim, presidente do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos, compara o cenário atual no Brasil com o da Alemanha na era pré-Hitler e dispara: “o Brasil pode dar os primeiros passos rumo a um neonazismo”.
Para Gondim, o caminho para o autoritarismo tem seis passos. “Primeiro, criam-se inimigos. Segundo, culpam-se esses inimigos por todos os males da sociedade. Terceiro, um salvador da pátria se apresenta como alguém fora do sistema, eleito por Deus para redimir a todos. Quarto, demonizam-se a imprensa e a liberdade de expressão. Quinto, reprimem-se os desordeiros com violência. Sexto, eliminam-se (desaparecem) os opositores ao avanço do progresso e do esplendor da pátria”, relata.
Segundo o pastor, a ruptura e o arrebatamento foram as técnicas usadas por Adolf Hitler para a expansão das ideias nazistas na Alemanha. “Ruptura, porque a perseguição e o esforço de eliminar os judeus exigiram quebra da experiência humana mais básica: o reconhecimento da dignidade do outro. Arrebatamento, porque a euforia política, o fanatismo em relação ao líder, o culto à personalidade, provocaram a suspensão da racionalidade”, declara.
Gondim diz que para isso acontecer houve “um acordo tácito entre a sociedade civil, os centros do saber e a própria igreja”. “A morte sistemática de judeus, ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová necessitava de uma racionalidade. As rupturas não acontecem de forma abrupta. O fanatismo nunca é súbito”, relata.
Nojo
Em sua conta no Twitter, o pastor ainda diz estar com asco do momento vivido no País. “Sou pastor. Há mais de 40 anos lido com o movimento evangélico. Estou com nojo de todo e qualquer crente que embarcou nessa empreitada moralista, bolsonarista”.
Sou pastor. Há mais de 40 anos lido com o movimento evangélico. Estou com nojo de todo e qualquer crente que embarcou nessa empreitada moralista, bolsonarista. Talvez outra expressão seja asco.

Presidente da Igreja Betesda, Gondim ainda tece comentários sobre a eleição legislativa que, segundo ele, elegeu um dos mais vergonhosos parlamentos da nossa história. “Loucura absoluta. Não existe esforço contra corrupção, apenas estupidez”.

domingo, 29 de maio de 2016

Ricardo Gondim: "Estou fora do movimento evangélico"





  "As aberrações que esse movimento, que se diz cristão, produz ficam cada dia mais horrorosas. Sua credibilidade está no chão. Não há mais remédio que o salve, ou unguento que o cure. Suas lógicas teológicas se tornaram estranhas, seus posicionamentos políticos, questionáveis e suas posturas éticas, uma vergonha."

Leia mais abaixo:

Estou fora do movimento evangélico

Ricardo Gondim, teólogo
O movimento evangélico (ou evangelical, permita-me o anglicismo)  é barco que faz água. As aberrações que esse movimento, que se diz cristão, produz ficam cada dia mais horrorosas. Sua credibilidade está no chão. Não há mais remédio que o salve, ou unguento que o cure. Suas lógicas teológicas se tornaram estranhas, seus posicionamentos políticos, questionáveis e suas posturas éticas, uma vergonha.
Há algum tempo, afirmei que não me considero mais parte do movimento evangélico. Causei espanto entre os meus pares. Não volto atrás. Cada dia que passa, quanto mais notícias ruins sobem dos porões denominacionais, e quanto mais o Youtube viraliza piadas sobre o besteirol de seus líderes, mais me convenço de que não sobra, em mim, nenhuma identificação com ele. Pretendo manter-me evangélico por acreditar no Evangelho. Quero, entretanto,  distanciar-me do movimento. Já me enxergo em outro acampamento.
Minha auto-excomunhão do movimento evangélico acontece por não conseguir conviver com os auto-proclamados “teólogos”, que guardam doutrinas e conceitos como verdadeiras vacas sagradas. Alguns leram alguma teologia rala, e se acham aptos para sentar na cadeira de Moisés. Não aceito o clima de caça às bruxas, que apedreja e queima os que ousam mexer nas “cláusulas pétreas” de doutrina produzida por gente falível.
Não tolero a intolerância. Não engulo a exclusão de gente por questões de gênero ou por identidade sexual. Não me sinto bem com o discurso fundamentalista que se arvora único interprete dos textos sagrados. Acredito que toda interpretação é interpretação.  Nada mais. Ninguém – nem Santo Agostinho, nem Calvino, nem Armínio, nem eu  mesmo – tem a última palavra a respeito da verdade.
Minha auto-exclusão do movimento evangélico acontece porque estou cansado de tentar dialogar com quem lê a Bíblia literalmente. Sinto-me fatigado por ter que fazer ginástica na exegese de textos que discriminam a mulher em Deuteronômio, ou que mandam apedrejar meninos e meninas desobedientes aos pais. Não consigo justificar, factualmente, o trecho da Bíblia em que um espírito de mentira sai de Deus para confundir alguns profetas. Não me imagino fazendo contas para explicar, a adolescentes, como a arca de Noé teve espaço para caber todos os insetos, todos os mamíferos, todas as aves, todos os répteis e todos os batráquios do planeta.
Minha auto-exclusão do movimento evangélico acontece porque não tenho estômago para ouvir sermão do tipo “Deus é poderoso, ele vai fazer milagre hoje à noite”; e depois fechar os olhos para os migrantes do Sudão e da Síria. Como propagar cultos milagrosos enquanto brasileiros, iguais a mim, esperam em filas de ambulatórios imundos por algum atendimento médico? Não quero viver uma fé ensimesmada. Não desejo privatizar, em meu individualismo, as ações de Deus. Na verdade, não consigo orar pedindo bênção, proteção, imunidade, prosperidade ou livramento se sei que muitos terão que conviver com o silêncio de Deus. Não pretendo exercitar fé para “ver Deus abrir as janelas do céu” em meu favor sem mudar a realidade social.
Minha auto-exclusão do mundo evangélico acontece porque tenho sede de ser íntimo de Deus. Vejo, todavia, que o movimento se contenta com chavões rasos. Intuitivamente percebo que a Bíblia possui uma riqueza imensamente maior do que é propagandeada no púlpito de muitas igrejas. Desejo viver na liberdade do Espírito e o clero não hesita em aprisionar. Um movimento que sobrevive devido ao medo e à culpa não me encanta.
Minha auto-exclusão do mundo evangélico se deve ao fato de eu estar apaixonado por Deus. Minhas premissas, entretanto, são diferentes do movimento. O alicerce que sustenta a minha espiritualidade é estranho à maioria dos que se dizem evangélicos. Estou cada vez mais curioso com as dimensões do divino. Quero nadar nas águas profundas do Espírito. Reconheço, entretanto, que os pastores e crentes, colados no movimento evangélico, não entenderão a minha sede. Tenho ânsia de ler como nunca; de rir como nunca; de dançar como nunca; de orar como nunca. Minha espiritualidade busca leveza. Estou farto da paranóia dos crentes, constantemente encurralados pelo diabo. Não vivo aturdido com pesadelos de que, se der brecha, serei castigado com rigor por um Deus carrancudo.
Minha auto-exclusão do mundo evangélico acontece porque considero o próximo como amado de Deus. Não me relaciono com as pessoas fora da minha igreja como danadas ou filhas da ira divina. Percebo a graça de Deus como amor que se espalha sobre a terra, semelhante ao sol que, indiscriminadamente, aquece a todos.
Tento desvencilhar-me da linguagem intolerante dos crentes. Já não tenho medo de dizer que aprecio música secular; que considero Médicos Sem Fronteiras como uma bela expressão do grande amor; que gosto de um bom vinho; e que sou louco por correr. O moralismo dos crentes não me alcança mais.
Não me defino por qualquer outro movimento. Anelo ser um livre pensador. Considero as instituições religiosas necessárias, mas nenhuma, sagrada – ou eterna. Muitas tradições cristãs desapareceram ao longo da história, outras se tornaram irrelevantes e inúmeras empobrecem os fieis. Não defendo uma teologia específica. Não estou fechado com a teologia relacional, ortodoxa, clássica ou pentecostal. Não acredito que elaboração humana alguma seja suficiente para explicar o Eterno. Concordo com Paul Tillich: Deus está sempre para além de Deus.
Para onde vou daqui pra frente? Anseio caminhar humildemente com meu Senhor, rodeado de amigos. Tento ser justo. Desejo um coração solidário. Busco parecer, em meus atos, com o Nazareno. Isso me basta.
Soli Deo Gloria

domingo, 4 de outubro de 2015

Ricardo Gondim sobre os pretensos "salvos" pastores mercadores da fé...



  "Ao contrário do que a maioria pensa, os religiosos são os primeiros a carecerem de salvação. O fermento que pode estragar o projeto de Deus para a humanidade pode vir, prioritariamente, dos autoproclamados salvos. Da arrogância de quem se vê eleito, o veneno da hipocrisia pinga devagar. E entre os religiosos, maior tentação sofre quem se considera ungido." - Ricardo Gondim


Jesus salva – primeiro, os religiosos 

Entre as parábolas que Jesus contou, uma inquieta bastante. Eis a narrativa de Lucas 18.9: “Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu em pé, orava silenciosamente: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’.
O arremate de Jesus veio como um cruzado de esquerda no queixo dos religiosos: Eu lhes digo que este homem [o indigno publicano] e não o outro [o moralista religioso] foi para casa justificado diante de Deus.
Ao contrário do que a maioria pensa, os religiosos são os primeiros a carecerem de salvação. O fermento que pode estragar o projeto de Deus para a humanidade pode vir, prioritariamente, dos autoproclamados salvos. Da arrogância de quem se vê eleito, o veneno da hipocrisia pinga devagar. E entre os religiosos, maior tentação sofre quem se considera ungido.
Por isso Jesus quer salvar televangelistas, pastores, apóstolos e bispos. O evangelho promete redimir, inclusive, estrelas de primeira grandeza da religião. Mesmo difícil, o clero profissional pode ser alcançado pelo amor de Deus. Nenhum burocrata da fé está irremediavelmente perdido. Jesus salvou gente bem escolada no bê-a-bá da religião como Nicodemos, Zaqueu e Saulo de Tarso. Depois, o Novo Testamento lembra que o juízo divino começa pelas sacristias e gabinetes pastorais.
A grande mensagem do evangelho é que Deus ama a todos, incluindo, embusteiros, charlatões, exorcistas e cambistas do templo. Jesus deseja resgatar os cínicos que mantém seus colarinhos clericais alvejados no polvilho do oportunismo institucional. Milagreiros podem ser tocados e se arrependerem. Se é verdade que todos podem herdar a vida eterna, o que seria necessário para a salvação de um religioso?
Salvação chega à casa do religioso se ele se dispor a calçar as sandálias do pobre. Discursos idealizados, sem conexão com a realidade, se esvaziariam caso o sacerdote fosse obrigado a esperar por atendimento no banco enferrujado do ambulatório público. O evangelista, que gasta milhões alugando horário na televisão, precisa sentir o drama da mãe solteira, negra e subempregada, que não acha creche para deixar o filho. Desses que viajam de helicóptero, todo o apóstolo deveria se dispor a passar um mês ao lado de um pai que tenta proteger o filho de traficantes. A mensagem do evangelho é simples: Jesus, um dia, há de separar os bodes das ovelhas. As ovelhas serão conhecidas pela compaixão e os bodes, pela leviandade com que encaram a sorte do pobre.
Todo o que ostenta em nome do Nazareno precisa de salvação. Luxúria, desde a Idade Média, é pecado capital. Anéis, relógios e automóveis caríssimos apontam para um desvio grave: vários pastores e bispos embarcaram no carreirismo religioso. Muitos, vindos de infância pobre, usam a Bíblia para compensar a marginalização econômica que experimentaram um dia.
Cristo pode salvar o pastor que se mostrar sensível diante do que amarga horas em sessões de hemodiálise, da família que espera por transplante de pulmão para o familiar, do mutilado e paraplégico que reaprendem a andar em clínicas de fisioterapia, da crianças com câncer das Unidades de Tratamento Intensivo.
Os que vivem da oratória podem ser resgatados caso aprendam a se solidarizar com os refugiados de guerra. Há esperança para o sacerdote que valoriza o esforço dos Médicos sem Fronteiras – eles cuidam do refugo humano em grotões miseráveis mundo a fora. Enquanto um pastor tagarelar doutrina, no máximo, gera prosélitos – mas condena a si e seus seguidores ao inferno duplo da carolice.
Jesus pode libertar televangelistas desde que se resguardem de espoliar motoboy que arrisca a vida para ganhar um salário minguado, empregada doméstica que se submete a semi-escravidão, carvoeiro que vive na boca das fornalhas ou enfermeira que enfrenta longos plantões em hospital público. 
Pastor que insiste em propagandear superstição como milagre deve saber que está se comportando como o cego que guia cego.
Deus não tem prazer na perdição de nenhum religioso. Jesus insiste: Eis que estou à porta e bato. Ele quer entrar e cear na casa do piedoso que se fechou para ele. Enquanto perdurar o sistema que legitima a falsa piedade e pessoas se valerem do sagrado para confundir alucinação religiosa com esperança, é preciso voltar à parábola de Jesus. O fariseu, que se orgulhou de ser mais piedoso do que o pecador, saiu sem ser justificado e ainda ouviu: Pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.
Soli Deo Gloria

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Poder e política, além da exploração pentecostal televangélica, no documentário “O Capital da Fé”



Texto de Wilson Roberto Vieira Ferreira - do Cinegnose

Pastores retirando sacos de dinheiro dos templos ou maquininhas de cartão de crédito passando pelos fiéis nos cultos tornaram-se imagens habituais nas críticas às novas igrejas neopentecostais. Mas o documentário “O Capital da Fé” (Gabriel Santos e Renan Silbar, 2013) vai muito além disso, ao mostrar que, paradoxalmente, essas críticas alimentam um mito que apenas dá força a um gigantesco negócio que está sendo montado:  capital e fé unidos não apenas pela exploração da fé de pessoas simples, mas pela financeirização e liquidez que lava tão branco quanto paraísos fiscais e que constrói lentamente uma forte sustentação política parlamentar que quer chegar ao Poder. As novas igrejas há muito tempo abandonaram o clichê do Tio Patinhas. Hoje estão confortáveis no mundo pós-moderno da liquidez.
Ao som da ópera Carmina Burana, e com cortes ao ritmo da música, assistimos a um verdadeiro vídeo clipe de socos, chutes, sangue e fraturas dos combates do MMA de Jesus – um evento chamado Reborn Strike Fight 5 promovido pela Igreja Renascer. Lutadores clamam em nome de Cristo pela vitória.
Essas são as cenas iniciais de O Capital da Fé, documentário de curta metragem que aborda a nova Igreja Evangélica brasileira, suas contradições, a espetacularização da fé com inusitadas cristianizações de coisas como micaretas e esportes de luta, assim como as ambições políticas de seus dirigentes – assista ao documentário abaixo.
A espetacularização da fé e a exploração financeira praticadas pelas igrejas evangélicas são denúncias sem nenhuma novidade, recorrentes desde nos anos 1990 quando a TV Globo comprou briga com a Igreja Universal com uma série de matérias sobre a exploração dos dízimos dos fiéis. E o bispo Edir Macedo ameaçou em represália colocar no ar o documentário proibido sobre a Rede Globo Muito Além do Cidadão Kane na sua emissora, a TV Record.
O Capital da Fé teria tudo para repetir esses temas, mas foi além: máquinas Cielo de cartão de crédito passadas entre os fiéis nos cultos, a construção de gigantescos templos, cultos que são verdadeiros shows de stand ups e as gigantescas marchas por Jesus seriam apenas a fachada mais aparente da consolidação de um gigantesco plano de negócio – lavagem de dinheiro e a conquista da hegemonia política parlamentar.

O Documentário

Os diretores Gabriel Santos e Renan Silbar pareciam saber que estavam lidando com um tema já diversas vezes revisitado, mas que sempre foi tratado de uma forma moralista que sempre martela na mesma tecla: o povo que é enganado na sua fé e é explorado por pastores mentirosos e oportunistas que pensam somente em enriquecer.
Mas o documentário quer ir além desse lugar comum, e por isso deve conduzir o espectador aos poucos até chegar ao ponto pretendido. Na primeira metade o documentário revisita as denúncias clássicas contra as igrejas neopentecostais: a cristianização generalizada de esportes de luta, micaretas e lambadas como formas de propaganda, a precária formação teológica dos seus pastores (invariavelmente formados em Teologia em cursos ministrados pela própria igreja), a espetacularização da fé, o foco na teologia da prosperidade e o incentivo do consumismo no interior dos cultos como forma de propagar a glória de Deus – o sucesso pessoal do crente.
Formas de cristianismo corporativo cuja fórmula é emprestada de empresas de marketing de rede como Herbalife ou Tupperware que transformam os seus produtos em religião cujos ícones exteriores do sucesso econômico dos seus vendedores (o carro, a casa etc.) passam a ser a propaganda da própria marca.
Dos verdadeiros shows de stand up que os pastores promovem nos cultos ou nos estúdios de TV evangélica às imagens do dízimo sendo recolhido nas igrejas por meio de máquinas de cartão da Cielo (“preferimos cartões de crédito”, ouve-se a certa altura), aos poucos o documentário vai conduzindo o espectador ao tema mais explosivo: o engajamento dessas igrejas não busca apenas supostas salvações, curas e libertações de um rebanho sofrido e carente. Atualmente o engajamento modificou-se – incita-se os fiéis com o lema “irmão vota em irmão” com o evidente propósito de uma ação política.

De onde vem o dinheiro?

Vemos imagens das Marchas com Jesus que se transformaram em eventos de demonstração de força política com a presença de deputados da bancada evangélica que incitam nos fiéis o ódio aos seus críticos, além da presença de autoridades laicas – aparecem imagens do governador de São Paulo Geraldo Alckmin em um desses eventos.
Construções faraônicas como o Templo de Salomão em São Paulo (com pedras trazidas de lugares tidos como sagrados em Israel) a aquisição de canais de TV e a demonstração de força das Marchas com Jesus são reivindicadas como “Vitórias de Cristo”.
Aos poucos, O Capital da Fé vai chegando a uma questão simples e óbvia que o viés mais moralista da questão parece ignorar: mas tudo isso é pago apenas com o dinheiro dos dízimos e contribuições espontâneas de fiéis? Por que essas igrejas querem tanto explicitar esse suposto engajamento financeiro dos crentes?
No documentário vemos duas declarações de Ricardo Gondim, pastor da Igreja Betesda, supeitando que o funcionamento desse tipo de negócio é muito mais complexo: “Morei nos EUA, lidei com igrejas ricas (batistas e presbiterianas), mas lá não existe essa quantidade de dinheiro que corre aqui no Brasil” e “A minha experiência como pastor diz o seguinte: essa dinheirama toda que banca canais de TV, mega-construções e frotas de aviões, essa dinheirama não existe no bolso dos crentes… o povo brasileiro é pobre”.
Se os dízimos dos fiéis é um mito alimentado tanto pelos críticos como pelas próprias igrejas para demonstrar o poder da fé de seus crentes, então como a Fé e o Capital aproximam-se nesse tipo de negócio?


As declarações mais contundentes são de Devair Lucas (autor de livros e denúncias envolvendo perseguição e violência de pastores e políticos em Minas Gerais) “Não tem igreja no mundo que sobreviva com dinheiro de dízimo e oferta... como a Receita Federal, Ministério Público e Polícia Federal não olham para essas igrejas, o dinheiro que foi desviado de verbas públicas, roubo de cargas e tráfico de drogas circula pelas igrejas de 90 dias a quatro meses passando pelo nome dos pastores. Depois volta para os deputados sob a forma de doação”.

Como alimentar um mito


O Capital da Fé termina de uma forma perturbadora ao mostrar que as conexões atuais entre fé e capital não é constituída apenas pelo dinheiro em espécie, mas principalmente pela liquidez de uma intensa lavagem de dinheiro. Sem a necessidade de prestar contas as autoridades fiscais, as igrejas neopentecostais se tornariam o canal ideal de contravenção financeira.

Fica claro no documentário que o objetivo não é apenas o mero enriquecimento pessoal dos pastores ou o exibicionismo dos mega-templos.

Está sendo construído no País uma nova conjuntura política que é impossível de ser pensada sem a presença do ativismo político e partidários desses grupos religiosos. Igrejas que já se fundamentam na eleição de deputados e senadores que comprovam a conexão entre poder político e financeiro.


Por exemplo, a chegada do cantor gospel e bispo Marcelo Crivella ao Ministério da Pesca e Aquicultura no governo Dilma em 2012 mostra que a ambição desse fluxo financeiro e político vai para além do próprio parlamento – um dia chegará ao Executivo.

Após assistirmos ao Capital da Fé podemos concluir que os próprios críticos reforçam o poder dessas igrejas ao alimentar um mito de que capital e fé aproximam-se por meio da mera exploração do dinheiro dos fiéis. Essa é apenas a fachada de um gigantesco negócio.

Talvez agora possamos compreender o porquê dessas igrejas se deixarem ser filmadas nos momentos de recolhimento dos dízimos, a inacreditável esteira rolante que recolhe os dízimos no Templo de Salomão para quem quiser ver  e as imagens de pastores retirando sacos cheios de dinheiro dos templos.

Ingênuos, acreditamos que essas imagens são autênticas denúncias. Mas o descalabro é muito maior: as igrejas neopentecostais há muito tempo evoluíram do imaginário Tio Patinhas de entesouramento e pão-durismo. Hoje são pós-modernas e se integraram ao sistemas financeiro que lava tão branco quanto o negócio da religião.

 

Ficha Técnica


Título: O Capital da Fé
Diretor: Gabriel Santos e Renan Silbar
Roteiro: Gabriel Santos e Renan Silbar
Elenco: entrevistas com Ricardo Mariano, Paulo Siqueira, Ricardo Gondim, Lanna Holder, Rosania Rocha, Devair Lucas
Produção: 35 Pixels
Distribuição: on line
Ano: 2013
País: Brasil

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Neopentecostais fundamentalistas trabalham explicitamente para chegar ao Poder, afirma o pastor Ricardo Gondim

Extraído do blog de Paulo Lopes, publicado em 23 de abril de 2011:


Neopentecostais querem o poder do Brasil, alerta pastor Gondim



"O objetivo é, se possível, eleger um presidente da República"

   O objetivo do movimento neopentecostal é assumir o poder político do Brasil, com a eleição, se possível, de um presidente da República já nas próximas eleições. 

   Essa avaliação é de Ricardo Gondim, 54, da Igreja Betesda, mestre em teologia da Universidade Metodista e, entre os pastores, o mais contundente crítico do movimento neopentecostal brasileiro. 

  Gondim afirmou que o projeto político dos neopentecostais tem ficado mais evidente na Igreja Universal do Reino de Deus, que tem pastores em diversas instâncias do poder, incluindo um no Senado, o bispo Marcelo Crivella. 

  O pastor disse que a obtenção do poder político possibilitará que as igrejas evangélicas se expandam com mais facilidade. 

  No começo do ano, Gondim deixou pastores abismados com um texto publicado em seu blog no qual afirmou que “Deus nos livre de ter um Brasil evangélico”.

   Ele escreveu que, se a maioria da população se tornar evangélica, o efeito do puritanismo na cultura seria devastador, colocando em risco, por exemplo, o Carnaval, o futebol, a música de Ney Matogrosso, Caetano e Chico e o folclore. 

  Agora, em entrevista à Carta Capital, o pastor afirmou que, que houvesse essa hegemonia, “seria a talebanização do Brasil”, em uma referência aos fundamentalistas islâmicos dos Talibãs. 

  Gondim disse à revista que, em termos de fundamentalismo, a maior influência no movimento evangélico brasileiro vem dos Estados Unidos.

  “Nos Estados Unidos, a igreja se apega a três assuntos: aborto, homossexualidade e a influência islâmica no mundo. No Brasil, não é diferente. Existe um conservadorismo extremo nessas áreas, mas um relaxamento em outras. Há aberrações éticas enormes.” 

  Mas antes que os evangélicos transformem o Brasil em um país de comportamento fundamentalista, é possível que os brasileiros acabem transformando as igrejas evangélicas, o que já estaria ocorrendo, de acordo com o pastor. 

  Ele afirmou que já existem evangélicos que pertencem a comunidades católicas ou espíritas. “Já se fala em um ‘evangelicalismo popular’, nos modelos do catolicismo popular, e em evangélicos não praticantes, o que não existia até pouco tempo atrás.” 

  O pastor observou que há no movimento evangélico duas tendências aparentemente contraditórias: de um lado absorção de elementos religiosos da tradição brasileira, o sincretismo, e, de outro, radicalização na oposição a questões como o aborto e direitos dos homossexuais. 

  No entendimento do pastor, o ‘evangelicalismo popular’ está descaracterizando a religião. “O rigor doutrinário e os valores típicos dos pequenos grupos estão se dispersando.”



domingo, 23 de fevereiro de 2014

Mensagem aos fundamentalistas que se dizem conscientes "cristãos", do pastor Ricardo Gondim: "Deus nos livre de um Brasil evangélico"



Deus nos livre de um Brasil evangélico

Ricardo Gondim
Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles em avenidas da cidade com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.
Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação à bobagem estampada publicamente; hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. Antes explico: eu gostaria de ver o Brasil permeado com a elegância, solidariedade, inclusão e compaixão do Evangelho. Mas a mensagem subliminar dos outdoors, para quem conhece a cultura do movimento evangélico, é outra. Os evangélicos sonham com o dia em que cidade, estado e país se convertam em massa, e a terra dos tupiniquins tenha a cara de suas denominações.
Afirmo que o sonho é que haja um “avivamento” religioso que leve uma enxurrada de gente para os templos evangélicos. Não reside entre os teólogos do movimento qualquer  desejo de que valores cristãos influenciem a cultura brasileira. Eles anelam tão somente que o subgrupo, descendente distante dos protestantes, prevaleça. A eles não interessa que haja um veloz crescimento numérico entre católicos romanos; que ortodoxos sírios, russos, armênios ou gregos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).
Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse a tal levedação radical do Brasil.
Imagino uma Genebra calvinista brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo nãoinglês, mas moreno. Caso acontecesse, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Respondo: seriam execrados como diabólicos, devassos e pervertedores dos bons costumes. Não gosto nem de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Um Brasil evangélico empobreceria, já que sobrariam as péssimas poesias do cancioneiro gospel. As rádios tocariam sem parar músicas horrorosas como  “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”.
Uma história minimamente parecida com a dos puritanos calvinistas provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?
Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse Charles Darwin como “alucinado inimigo da fé”. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos. Derridá nunca teria uma tradução para o português. O que dizer de rebeldes como Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, seriam pesquisados como desajustados. Ganhariam rótulos para serem desmerecidos a priori como loucos, pederastas, hereges.
Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. A alegria do futebol morreria; alguma lei proibiria ir ao estádio ou ligar televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada de várzea, aconteceria quando? Haveria multa ou surra para palavrão?
Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu. Basta uma espiada no histórico de Suas Excelências da bancada evangélica nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para se apavorar. Se, ainda minoria, a bancada evangélica na Câmara Federal é campeã em faltas e em processos no STF, imagina dominando o parlamento.
Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura estadunidense. Obcecados em implementar os “valores da família”, tão caros ao partido republicano dos Estados Unidos, recrudesceria a teologia de causa-e-efeito, cármica, do “quem planta, colhe”. Vingaria o sucesso como aferidor da bênção de Deus.
Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica. Uma nova elite religiosa (os ungidos) destilaria maldição contra os “inimigos da fé”, os “idólatras”, os “hereges”, com mais perversidade do que aiatolás iranianos. Ficaria mais fácil falar de inferno e mandar para lá todo mundo que rejeitasse algumas lógicas tidas como ortodoxas.
Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro perguntando: Como seria uma emissora liderada por evangélicos? Adianto: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.
Prefiro, sem pestanejar, os textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado, a qualquer livro da série “Deixados para Trás” do fundamentalista de direita, Tim LaHaye. O demagogo Max Lucado (que abençoou a decisão de Bush bombardear o Iraque) não calça o chinelo de Mário Benedetti.
Toda a teocracia um dia se tornará totalitária. Toda a tentativa de homogeneizar a cultura precisa se valer de obscurantismo. Todo o esforço de higienizar os costumes é moralista e hipócrita.
O projeto cristão visa preparar para a vida. Jesus jamais pretendeu anular os costumes de povos não-judeus. Daí ele celebrar a fé em um centurião, adorador no paganismo romano, como especial e digna de elogio. Cristo afirmou que, entre criteriosos fariseus, ninguém tinha uma espiritualidade tão única e bela como daquele soldado que se preocupou com o escravo.
Levar a Boa Notícia – Evangelho – não significa exportar cultura, criar dialeto ou forçar critérios morais. Na evangelização, fica implícito que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, como sempre fizeram. O evangelho convoca à pratica da justiça; cria meios de solidariedade; procura gestar homens e mulheres distintos; imprime em pessoas o mesmo espírito que moveu Jesus a praticar o bem.
Há estudos sociológicos que apontam estagnação quando o movimento evangélico chegar a 35% da população brasileira. Esperemos que sim. Caso alcançasse a maioria, com os anseios totalitários e teocráticos que já demonstra, o movimento desenvolveria mecanismos para coibir a liberdade. Acontece que Deus não rivaliza a liberdade humana, mas é seu maior incentivador.
Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.