terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Datafolha, e a própria Folha de São Paulo, sonhando com a volta da Ditadura

A Datafolha e a  própria Folha sonhando com a volta da Ditadura



Extraído do Tijolaço  (abaixo, o link para o questionário da pesquisa Datafolha)

Demorou mais do que a chuva no Sudeste, mas finalmente o Datafolha registrou no TSE uma pesquisa eleitoral em todo o Brasil.
O eleitoral é o de sempre: A disputa para valer, entre Dilma, Aécio e Eduardo campos e as especulações com Lula, Marina e Joaquim Barbosa candidatos.
Mas o mais interessante são as perguntas que vem depois da opção eleitoral.

Vá seguindo, na ordem:

Você é a favor ou contra a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil?
Você é a favor ou contra os protestos que estão ocorrendo em várias cidades brasileiras desde junho do ano passado?
E você é a favor ou contra que ocorram protestos de rua DURANTE a Copa do Mundo que será realizada no Brasil?

Calma, vem mais, tem o momento Sheherazade:
A tortura é ou não aceitável “se for a única forma de obter provas e punir criminosos” ?
Movimentos sociais precisam ou não respeitar a lei e a ordem para reivindicar seus direitos?
Os direitos humanos devem ou não valer para criminosos?

Uma pausa para um momento Higienópolis, para saber do “voto diferenciado”:
Analfabeto pode votar?

Uma pitada de ameaça do totalitarismo comunista:
O melhor para a sociedade é que as pessoas sejam vigiadas ou não?

E agora, o penúltimo ato, o “que saudades da ditabranda”…
É melhor ou pior a democracia que a ditadura, ou tanto faz?
Há alguma chance de ocorrer uma nova ditadura no Brasil?
A Ditadura Militar que governou o país de 1964 a 1985 deixou mais realizações positivas do que realizações negativas para o Brasil ou deixou mais realizações negativas do que realizações positivas para o Brasil?
Você diria que os principais responsáveis pelos problemas econômicos e sociais que o Brasil enfrenta hoje são os governos militares ou os governos civis que vieram depois?

Mas não acabou. tem mais, e tem pior ainda.

Bem, devidamente controlados os engulhos que o post anterior provocou, vamos ao gran finale da pesquisa Ditafolha, digo, Datafolha.

Como o enojado leitor e a repugnada leitora perceberam, a pesquisa “vai levando” o entrevistado  pelos círculos do inferno e chega, afinal, aonde quer.
Veja o que o Datafolha sugere ao eleitor:

Você concorda ou discorda que o governo brasileiro deva ter o direito de:
Proibir greves?
 Intervir nos sindicatos? 
 Proibir a existência de algum partido? 
Censurar jornais, TV e rádio? 
Fechar o Congresso Nacional? 
Prender suspeitos de crimes sem a autorização da Justiça?
Torturar suspeitos para tentar obter confissões ou informações?

Claro que, além do simples sim ou não, o questionário oferece a opção “ditabranda” ao gosto da Folha, com uma resposta de “sim, parcialmente“.

O que, afinal, significa isso senão “pesquisar” a implantação de uma ditadura?

Mesmo que sejam 15, 20, ou 25% as respostas positivas a estas perguntas, isso é ou não combustível para legitimar os grupos autoritários que, à sombra do “coxismo” de direita e do blackbloquismoselvagem e estúpido de uns idiotas (levei uma bronca hoje por chamá-los de idiotas, mas vou teimar)?

Alguém ainda acha que se exagera quando se diz que se estavam abrindo caminhos para o autoritarismo?
Nenhum destes quesitos oferecidos como “ações de governo” jamais esteve, nem de longe, na pauta do governo.
Estará na pauta de quem, das manifestações do “padrão Fifa” , do combate à corrupção,  do #naovaiterCopa ou, ao menos, as acompanhará como uma sombra sinistra.

Há outras baboseiras facistóides na pesquisa, como a de criticar as indenizações aos presos, perseguidos, torturados e mortos na ditadura e, claro, a de que sejam também julgados os militantes das organizações que resistiram ao regime fascista. Aquela linha, sabe, que teria levado a Nuremberg também o pessoal da Resistência Francesa que, afinal, também pegou em armas.
Mas o essencial, o grave, o inaceitável é que se trata de um levantamento de encomenda para reacender o apetite autoritário, que é a fome que dá na barriga de quem não tem voto.



sábado, 15 de fevereiro de 2014

Leonardo Boff sobre as manifestações, Black Blocs e o entendimento do que é, de fato, terrorismo


Para uma definição do terrorismo


14/02/2014


Leonardo Boff

Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com/2014/02/14/para-uma-definicao-do-terrorismo/






As manifestações massivas de junho/julho de 2013, em grande parte pacíficas e as outras havidas neste ano de 2014 que mostraram a atuação violenta dos black blocs que, mascarados, quebram agências de bancos, vitrines de lojas e depredam edifícios públicos, atacam violentamente policiais, culminando com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, suscitaram o tema do terrorismo.


É importante que se entenda que o terrorismo não é um fenômeno da guerra, mas da política. O terrorismo irrompe no seio de grupos insatisfeitos com os rumos da política do país ou da economia e que já não acreditam nas instituições, nem no diálogo e muito menos em mudanças sociais significativas. Pode até ocorrer que se opõem de tal maneira ao sistema mundial e nacional vigente, o capitalismo neoliberal, que investem contra seus símbolos, danificando-os. Ilusoriamente pensam que destruindo-os atingem o coração do sistema. Esse não se muda pela violência puntual mas por um processo histórico-político, por mais prolongado que seja. Tais grupos vem carregados de ressentimento, de amargura e de raiva. Dão vasão a este estado de ânimo através de ações destrutivas.

Paradigmático foi o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001 contra os Estados Unidos. Num lapso de uma hora, os símbolos maiores da ordem capitalista no nível econômico as duas Torres Gêmeas em Nova Iorque, no nível militar o Pentágono e no nivel político a Casa Branca (o avião destinado a ela foi derrubado antes) foram diretamente golpeados.

A partir de então se instalou o medo em todo o país. E o medo produz fantasmas que desestabilizam as pessoas e a ordem vigente. Assim, por exemplo, um árabe, em Nova York, pede uma informação a um policial e este o prende, imaginando ser um terrorista. Depois se verifica ser um simples cidadão inocente. Com frequência o Governo norte-americano, especialmente, sob o Presidente Bush, assustava a nação inteira, anunciando a iminência de atentados. Embora não tenham acontecido até agora, acabam alimentando a paranóia generalizada.

Esta fenomenologia mostra a singularidade do terrorismo: a ocupação das mentes. Nas guerras e nas guerrilhas como na Colômbia precisa-se ocupar o espaço físico para efetivamente se impôr. Assim foi no Afeganistão e no Iraque. No terror não. Basta ocupar as mentes e ativar o imaginário através da ameaça de novos atentados e do medo que então se internaliza nas pessoas e nas instituições.

Os norte-americanos ocuparam fisicamente o Afeganistão dos talibãs e o Iraque de Saddan Hussein. Mas a Alqaeda que perpetrou os atentados, ocupou psicologicamente as mentes dos norte-americanos. Fizeram dos EUA uma nação refém do medo, do Governo ao simples cidadão.

A profecia do autor intelectual dos atentados de 11 de setembro, o então ainda vivo Osama Bin Laden, feita no dia 8 de outubro de 2001, infelizmente, se realizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”. Ocupar as mentes das pessoas, mantê-las desestabilizadas emocionalmente, obrigá-las a desconfiar de qualquer gestou ou de pessoas estranhas, eis o que o terrorismo almeja e nisso reside sua essência.

Para alcançar seu objetivo de dominação das mentes, o terrorismo segue a seguinte estratégia:


(1) os atos têm de ser espetaculares, caso contrário, não causam comoção generalizada;

(2) os atos, apesar de odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada;

(3) os atos devem sugerir que foram minuciosamente preparados;

(4) os atos devem ser imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis;

(5) os atos devem ficar no anonimato dos autores (usar máscaras) porque quanto mais suspeitos, maior o medo;

(6) os atos devem provocar permanente medo;

(7) os atos devem distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o terror. Basta ver alguém das comunidades pobres da periferia, ou os rolezinhos entrando nos shoppings e já se projeta a imagem de um assaltante potencial.

Formalizemos uma compreensão suscinta do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada com o propósito de ocupar as mentes com medo e pavor.

O importante não é a violência em si, mas seu caráter espetacular, capaz de dominar as mentes de todos.

Um dos efeitos mais lamentáveis do terrorismo foi ter suscitado o Estado terrorista como os EUA. Criou-se uma legislação que fere os direitos humanos, impõe vigilância sobre toda a população, criou o organismo de segurança nacional com altas verbas para sua implantação em todo o pais, projetou a “guerra infinita” contra o terrorismo em qualquer parte do mundo com a ameaça de utilização de qualquer tipo de arma, não excluidas as armas nucleares. E organizou uma rede de espionagem eletrônica global que tudo e a todos controla.

Está em debate no Ministério da Justiça, nos órgãos de segurança do Estado e no Parlamento uma legislação visando tipificar os atos destrutivos dos black bocs de terrorismo. Sem dúvida, os atos obedecem à lógica terrorista mas não significa ainda um terrorismo articulado e organizado. Há o risco, já advertido pelo Ministro da Justiça Eduardo Cardoso, de não instaurarmos o medo na sociedade que acaba inibindo as manifestações populares, legítimas no regime democrático. O próprio povo com medo acaba se retraindo e terá dificuldade em apoiar estas manifestações legítimas.

Mais importante em saber quem cometeu e comete atos de terrorismo é saber o porquê se recorre a ele. Ai a importância do acompanhamento dos órgãos de informação, do diálogo aberto com todos os estratos da sociedade, especialmente, com aqueles mais penalizados pelo tipo de sociedade que temos, altamente desigual e discriminatória. Difundir mais e mais a educação e infundir confiança, amor às pessoas e cuidado de uns para com os outros como o disse, exemplarmente, a esposa do cinegrafista Sebastião Andrade e o enfatizou recentemente a ministra Maria do Rosário da Secretaria Nacional de Direitos Humanos num encontro na OAB do Rio a propósito da Comisão da Verdade.

São caminhos de outro tipo de estratégia política, certamente mais eficazes que a pura e simples repressão policial que ataca os efeitos mas não atinge o coração do problema deste terrorismo ainda inicial.

Veja do autor, Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz, Vozes, Petrópolis 2009.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A violência e a mídia: as duas faces da Barbárie

Excelente texto de Sylvia Debossan Moretzsohn. Extraído do Observatório da Imprensa:

ÉTICA JORNALÍSTICA

Duas faces da barbárie cotidiana

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 11/02/2014 na edição 785




“Para mim não há diferença entre os justiceiros do Flamengo e os defensores da ‘violência como método’. Prisão para os homicidas. E vigilância estrita e severa aos que vão às ruas praticar ou pregar violência.”

O professor Weden Alves, da Universidade Federal de Juiz de Fora, fez esse comentário no Facebook, em meio à enxurrada de postagens a seguir ao anúncio da morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band. Santiago havia sido atingido na cabeça por um rojão aceso por um manifestante na quinta-feira (6/2), nas imediações da Central do Brasil, durante protesto contra o reajuste das passagens de ônibus no Rio. Weden vinculava o episódio ao do adolescente negro preso nu a um poste no bairro do Flamengo, depois de agredido por uma gangue de jovens justiceiros de classe média que, depois se soube, têm o costume de fazer “rondas noturnas” para caçar suspeitos de cometerem crimes na região.


O apelo à prisão há de chocar os defensores do abolicionismo penal, entre os quais me incluo, embora com a devida reserva: porque os próprios teóricos do abolicionismo reconhecem que essa proposta não é exequível numa sociedade de classes, de modo que o que podemos fazer agora é reduzir ao máximo o apelo ao encarceramento, embora esta seja uma discussão difícil – e impertinente aqui –, pois se trata de definir que tipo de crime seria punível com cadeia. Porém, na vida cotidiana as práticas tipificadas como crime precisam, ou devem, ser punidas na forma da lei que temos hoje, que é a maneira pela qual as pessoas podem ser responsabilizadas.


A associação entre o ato de barbárie cometido contra o jovem negro e a ação pirotécnica que resultou na morte do cinegrafista faz sentido porque em ambos os casos a ação direta toma o lugar da política. No primeiro, é uma forma de substituir o Estado, acusado de omisso e ineficiente – e de, por tabela, destilar um ódio histórico de classe e raça. No segundo, é uma tentativa de se impor pela força, por mais que as forças em jogo sejam tão desiguais, sem a percepção de que essa ação pode acarretar uma tragédia e ter nefastas consequências políticas.



O pelourinho pós-abolição


De todas as cenas de “mundo cão” que ocorreram recentemente no Rio e circularam nas várias mídias na semana passada, a mais significativa foi a do adolescente nu atado a um poste, pelo pescoço, por uma trava de bicicleta. Mais do que as agressões que ele sofreu, importa a humilhação de ter sido exposto daquele modo, como nos tempos dos escravos no pelourinho.


Nas redes sociais houve quem se recordasse da foto que Luiz Morier fez para o Jornal do Brasil em 1982, premiada com o Esso daquele ano (ver aqui), em que vários homens negros, que depois se comprovou serem trabalhadores com ficha limpa, aparecem amarrados pelo pescoço, conduzidos por um policial, após uma das conhecidas “operações” numa favela.


O rapaz no poste transformado em pelourinho reproduziu essa suprema humilhação documentada há mais de 30 anos.


A cena, que só poderia provocar indignação e repulsa, mereceu aplauso de uma apresentadora do SBT. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio e sua Comissão de Ética reagiram com uma notacondenando enfaticamente a “grave violação de direitos humanos e ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros” praticada pela apresentadora, que considerou “compreensível” a “atitude dos vingadores”, classificada de “legítima defesa coletiva”, e terminou cinicamente com um apelo a que os defensores de direitos humanos fizessem o favor de adotar um bandido. Foi uma forma de ecoar o bordão que se tornou comum entre o público favorável ao extermínio de marginais: “Tá com pena? Leva pra casa”.


A repercussão negativa do episódio levou a apresentadora a tentar se explicar, dizendo que não tinha considerado “aceitável”, apenas “compreensível”, a ação dos agressores. Esforço inútil: compreensível poderia ser uma agressão no calor da hora, em reação a uma tentativa de assalto. Nunca uma ação premeditada como aquela.



A ética e o mundo cão


Como apontou Janio de Freitas, na Folha de S.Paulo, jornalistas simplesmente não podem incitar ao ódio e estimular justiçamentos (ver aqui). Jornalistas existem – pelo menos em tese – para representar e esclarecer o público. Isso às vezes causa contradições, porque o público não é homogêneo: nesse caso mesmo, muita gente se identificou com os “vingadores” e gozou com a situação. Porém, jornalistas precisam respeitar certos valores fundamentais para o convívio social. Precisam se comprometer com o respeito aos direitos humanos e, no caso, mostrar o grau de barbárie que essa cena simboliza.


A condenação da atitude da jornalista do SBT foi muito importante e oportuna, mas o que essa moça fez não difere muito do que se pratica sistematicamente nos programas policiais, cujos apresentadores sempre incorporam a condição de justiceiros, ou nos jornais popularescos, que, conforme a linguagem, exacerbam na exposição do mundo cão ou carregam nas tintas do grotesco. O que dizer, por exemplo, do apresentador que, aos berros, convoca a sua “poliçada” a “sentar o dedo” na “bandidagem”? O que dizer das inúmeras manchetes do diário Meia Hora que tratam conflitos urbanos graves com escárnio e frequentemente legitimam o extermínio de criminosos, como apontei neste Observatório? (Ver “Os mortos bons e os maus”.)


Bem a propósito, a manchete desse jornal na quarta-feira (5/2), sobre a investida policial numa favela, é muito significativa: destaca os seis mortos, chama os traficantes de “manés”, diz que a polícia “sacode o Juramento e deita seis suspeitos”.


Chacina no morro “pacificado”



Este foi, aliás, outro dos episódios que marcaram a semana “mundo cão” no Rio: a operação policial numa área dita “pacificada”, após o assassinato de uma soldado lotada na UPP local, precisamente nos mesmos moldes de sempre, deixando os corpos enfileirados. Os jornais nos pouparam das cenas mais chocantes, preferiram exibir o rastro de sangue na calçada. Mas as fotos circularam pela internet: em tudo semelhantes às dos velhos tempos da política de confronto adotada pelo governo.


Também, como nos velhos tempos, a mesma legitimação da ação policial, como na manchete do Globo deterça-feira (4/2) – “Polícia reage e monta megaofensiva contra crime” – e uma página inteira aberta ao secretário de Segurança, como se o jornal pudesse fazer – e recorrentemente faz – esse papel de porta-voz, sem levantar dúvidas quanto à “pacificação” que volta e meia produz tiroteios e cadáveres.


No dia seguinte, diante do previsível resultado, a reportagem menciona o discurso oficial de praxe – “as circunstâncias das mortes serão investigadas” – e publica matéria com um legista que aponta indícios de execução. Mas é claro que não se cogita de qualquer relação entre a chacina e o apoio à “reação ao tráfico” da edição da véspera.


Exploração do mórbido


Na mesma semana o jornal Extra (quinta, 6/2) dedicou a capa inteira a uma cena de justiçamento na Baixada Fluminense: um homem negro de calção e sem camisa aponta a arma para a cabeça de outro homem negro de calção e sem camisa que, sentado ao chão, tenta se proteger. Manchete: “Num dia é tranca [alusão ao pelourinho], no outro é bala”. Antetítulo: “E ainda tem muita gente que aplaude”. O site do jornal reproduzia o trecho do vídeo que documentava o assassinato, com o tradicional alerta para as “cenas fortes”. No dia seguinte, mantém o tema na capa, com a manchete “Justiceiro bom é justiceiro preso” e a pergunta: “Olho por olho é o que queremos”?


É uma questão interessante: o jornal denuncia a violência, mas ao mesmo tempo atrai a atenção pela exploração das imagens que atiçam o gozo mórbido do público. Deveríamos ser expostos a essas cenas?


Entra aqui de novo a discussão sobre o Código de Ética e as suas possibilidades de aplicação.


O senso comum cristalizado


Para completar a semana “mundo cão”, O Globo (quarta, 5/2) destacou matéria sobre o quase linchamento de um adolescente que foi flagrado tentando roubar comida de um supermercado em Copacabana. Muito reveladora da excitação do público contra os marginalizados, mereceu o comentário do sociólogo Michel Misse, pesquisador de vasta experiência nessa área: “As pessoas acham que o cara, por ser menor, não recebe punição suficiente (...). Deviam levar essas pessoas para ver como é a internação desses menores. É pior que cadeia”.


Nem precisaria tanto, bastaria insistir sistematicamente nessa pauta. Ainda assim, seria necessário muito cuidado com o enfoque, para vencer a resistência do público acostumado a crenças que a própria imprensa ajuda a consolidar. Mesmo diante de evidências, a mudança de opinião leva muito tempo. Quando ocorre.


O desprezo pela vida


Essas dificuldades ficaram claras no episódio que resultou na morte do cinegrafista Santiago Andrade, da Band, a primeira vítima entre jornalistas desde que começaram os protestos contra o aumento das passagens de ônibus, em junho do ano passado, e também a primeira provocada pela ação de manifestantes. Inicialmente, a notícia era de que o cinegrafista havia sido atingido pela polícia, o que foi sustentado inclusive por um repórter da Globo News que cobria a manifestação. A repercussão foi imediata nas redes sociais. Em seguida, com a profusão de imagens de vários ângulos, essa versão foi desmentida. Mas muitos continuaram a duvidar, suspeitando de montagens. E quando a Globo exibiu a entrevista com um dos rapazes envolvidos na história, houve quem sugerisse que se tratava de alguma armação.


Foi um exemplo muito claro e curioso dessa crença seletiva: os que se creem muito críticos costumam dizer que não acreditam na grande imprensa, mas utilizam essa fonte quando surgem informações que lhes interessam. Não deixa de ser engraçado, mas é pior, porque demonstra que acreditam apenas no que lhes ajuda a confirmar seus preconceitos. E é trágico, porque assim nunca serão capazes de aceitar nada que não corrobore suas crenças.


O açodamento da mídia, em especial dos veículos das Organizações Globo, em disseminar um depoimento do advogado do rapaz preso que insinuava a ligação de seu cliente com o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), provocou muitos protestos nas redes sociais. No dia seguinte o advogado voltaria atrás, mas o estrago já estava convenientemente feito, nesse ano de eleições. Ao mesmo tempo, o próprio deputado, ex-presidente da CPI das Milícias, verificou que esse advogado havia trabalhado para um ex-deputado que acabou preso por chefiar uma milícia. Seria “a peça que faltava no quebra-cabeças destas acusações absurdas”.


Porém, esta descoberta abriu um novo quebra-cabeças: por que um advogado de miliciano – por mais que saibamos que advogados, em princípio, não se comprometam com a causa de seus clientes – seria contratado por um militante que poderia ter à sua disposição o serviço dos “advogados ativistas” que trabalham nessas ocasiões? Esta é uma pauta que não poderia ser desprezada e que talvez descobrisse um fio de meada em todo esse novelo tão complexo e contraditório no qual atuam militantes – ou provocadores – que adotam a violência como método.


Não é que a violência seja condenável em princípio, evidentemente. Mas como método ela se torna uma rotina, um espetáculo, uma performance. E quem a pratica demonstra o mais absoluto desprezo pela vida humana, como ficou claro no episódio que vitimou o cinegrafista. Por isso não há diferença entre eles e os que perpetraram a suprema humilhação contra o adolescente negro atado ao poste. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A confiança na grande mídia em questão

Extraído do Observatório da Imprensa:

O questionamento da confiança na imprensa

Por Carlos Castilho em 12/02/2014





Durante décadas a confiança do público na imprensa era uma questão acima de qualquer suspeita, mas desde a virada do século a quase unanimidade está desaparecendo rapidamente. Não se trata de uma discussão estatística sobre oscilações dos índices de confiança no noticiário, mas de verificar em que medida mudou o contexto que envolve o que é publicado ou transmitido.

A questão a ser vista não é se a cobertura de eventos como o da morte do cinegrafista Santiago Andrade está sendo isenta ou enviesada, mas de analisar a conjuntura em que o trabalho da imprensa vem sendo desenvolvido. O foco é menos uma preocupação com erros ou acertos e mais com a constatação de que os mesmos problemas que estamos sentindo em matéria de desorientação informativa, no caso do cinegrafista da TV Bandeirantes, tendem a se repetir sempre que um evento provocar comoção pública.

A identificação de manipulações do noticiário é essencial, mas as investigações da morte de Santiago ainda estão carregadas de muita emoção, o que aconselha mais cuidado e equilíbrio na hora de apontar os responsáveis e as consequências possíveis. O que, sim, já pode ser analisado é que cada fato, número ou evento noticiado pela imprensa contempla inevitavelmente várias versões – até porque o ditado popular garante: “Em cada cabeça, uma sentença”.

Na era da abundância noticiosa, onde cada versão pode se tornar viral na internet, não é mais possível falar de um único enfoque ou abordagem. A dúvida e incerteza passam a ser as sensações mais comuns em que assiste a telejornais, lê revistas, jornais e paginas Web. A maioria das pessoas não gosta de conviver com a dúvida e incerteza porque isso as obriga a pensar e admitir que os outros podem ter mais razão.

A imprensa alimentou durante décadas essa confortável posição de milhões de leitores e telespectadores ao prometer-lhes só a verdade e apenas a verdade. Era uma questão de princípio e também uma necessidade comercial, porque as pessoas pagam pela verdade, mas dificilmente fazem o mesmo com a dúvida.

Acontece que hoje é impossível oferecer a certeza absoluta. Não há como se prometer algo que não existe. O máximo que a imprensa pode oferecer são versões, que inevitavelmente são parciais, na reconstrução do que aconteceu. Se há um equívoco na postura da imprensa, este é o de induzir o público a acreditar que existe algo inquestionável quando o mais adequado seria assumir a relatividade de todos os depoimentos, fotografias e vídeos.

No caso da morte de Santiago Andrade, a única coisa certa é que ele pagou com a vida o preço de ser um profissional que não fugiu dos desafios de seu trabalho. Mas com relação às investigações, em especial a indicação de autoria, as empresas jornalísticas transmitem ao público a ideia de que tudo vai ser resolvido rapidamente quando de fato estão atropelando a dúvida e a incerteza.

A morte de mais um jornalista não está sendo aproveitada para discutirmos mais profundamente as causas e consequências das manifestações de rua que se espalharam de forma viral pelas cidades grandes e médias do país. A cobertura da imprensa está toda focada na apresentação de um ou mais culpados, num processo cirúrgico cuja preocupação é minimizar toda e qualquer controvérsia e apontar responsáveis exclusivos, num cenário onde o componente político eleitoral não pode ser desprezado. 

A imprensa está perdendo uma oportunidade fundamental para transformar a morte de Santiago em algo realmente histórico. Em vez de empenhar-se na pressa por punições pouco convincentes e decidisse jogar o que lhe resta de confiança junto ao público para mostrar-lhe como conviver com a dúvida, com a controvérsia e com a incerteza, porque elas são a marca dos tempos que começamos a viver.
 

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Bob Fernandes, o assassinato de Santiago e a violência nas ruas e na mídia


Excelente Video de Bob Fernandes, para a TV Gazeta, que deveria fazer Rachel Sheherazade parar para pensar (se isso fosse possível):

Obs.: a transcrição das palavras de Bob Fernandes está logo abaixo do vídeo

 Fonte: Terra Magazine/Bob Fernandes

O assassinato de Santiago: a lógica da violência está nas ruas… e nas mídias





O cidadão Santiago Ilídio Andrade, colega cinegrafista da Band, foi assassinado. Segmentos mais doentios da sociedade, e da baixa política, buscam um mártir desde junho passado.


Santiago, atingido por aquele rojão ao cobrir uma manifestação no Rio de Janeiro na última quinta-feira. Um dia antes tratamos aqui da violência que se espalha.
Violência que têm causas seculares. E que tantos fazem de conta ser produto apenas do aqui e do agora. Como fazem de conta ser produto apenas da ação do Outro, dos Outros.
A violência é produto também do aqui e do agora. Mas não apenas. Não cansaremos de repetir: nas últimas 3 décadas, a média de 50 mil brasileiros têm sido assassinados a cada ano.
Em todo o país, no fim de semana, mais de uma centena de homicídios.


No estado de São Paulo, em dezembro, 436 mortes por violência. A violência está ai, num país que tem toque de recolher quando escurece e já nem se dá conta disso.
A violência está, esteve num dos pilares da formação da sociedade brasileira. Ou a escravidão por 380 anos, quatro quintos da nossa história oficial, não é violência?
O menino pobre e preto preso a um poste por "justiceiros", no Rio de Janeiro, não é só violência. É uma assombrosa revisita ao passado dos Pelourinhos.
A violência não está só nas ruas. Quem viaja pelo país sabe qual é o prato servido, em cada cidade, antes do almoço ou do jantar: violência em estado bruto.
Aqueles programas policiais com cenas cruas da barbárie nas ruas são mera informação? Ou terminam sendo uma fórmula, também comercial, de retroalimentação da violência?
E isso em espaços, Tv e rádio, que são concessões do Estado. 


Há quem se valha da violência que está aí para pregar ainda mais violência; filme já visto aqui e mundo afora e que sabemos como termina: com o fascismo no poder.
Há quem, mesmo sem perceber, esteja alimentando essa caminhada. A violência, antes e depois de tudo, pode estar também na palavra, e nas linguagens todas.
 O banditismo é violência. Como é violência a ação de "justiceiros", "milícias", e a ação de polícias ainda treinadas com o receituário das ditaduras.


Discursos de ódio induzem à violência, e tanto faz se nos parlamentos ou em púlpitos. Não importa se na mídia das redes sociais ou nas mídias tradicionais, chamadas de 'Grande". Ódio é ódio.
O verniz, seja ele real ou simulação, não esconde ódios e recalques, o ressentimento e o oportunismo que embalam a lógica da violência.


Tanto faz se em nome da pátria, religião, do futebol ou de ideologias. Assim como miséria pode alimentar a violência, os ódios, todos eles, fomentam essa lógica da violência.
O cidadão Santiago Andrade morreu nas ruas. A lógica daquela violência mais refinada, a da linguagem, quase sempre travestida, já opera nos espaços midiáticos. Os operadores supõem ter encontrado seu mártir.

O Depoimento de Edward Snowden (censurado nos EUA) para a TV alemã




Extraído do site Luis Nassif Online:

A recente entrevista de Snowden à TV alemã foi censurada pela mídia dos EUA
- "Não há dúvida de que os EUA estão envolvidos em espionagem econômica" - Snowden
Snowden, comentou, em entrevista à ARD, TV alemã [ironia aqui é bobagem] como os programas de vigilância tirânicos corroem os direitos humanos e a liberdade individual.
O YouTube removeu os vídeos sobre a entrevista, com duração de 30 minutos, concedida ao documentarista Hubert Seipel, da German Television Channel NDR, disponibilizada no dia 29 de janeiro de 2014.
A matéria foi ao ar na noite de domingo, dia 2 de fevereiro, na rede pública de televisão ARD.
"Se eu sou traidor, o que traí?", perguntou Snowden. "Eu dei todas as minhas informações para o público americano e aos jornalistas americanos que estão relatando sobre as questões americanas. Se eles veem isso como traição, acho que as pessoas precisam, realmente, considerar sobre o que eles pensam que estão avaliando. O público é suposto ser o seu chefe; não o seu inimigo. Além disso, quanto à minha segurança pessoal, eu nunca vou estar, totalmente, seguro até que estes sistemas mudem."
Ele disse que, apesar de se sentir ameaçado, não perde o sono porque acredita que ele fez a coisa certa.
Trechos da entrevista publicada pelo NYT


- "Nós temos muito mais a temer de um governo federal tirânico, do que Edward Snowden. É inacreditável quando traidores ocupam posições de poder, enquanto aqueles que, simplesmente, expõem as suas condutas criminosas, são considerados culpados de traição." - Tim Brown
A entrevista completa publicada pelo site LiveLeak
- "Foi a coisa certa a fazer e eu não tenho medo." - Snowden

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Máfia de Branco brasileira, elitista, conservadora e exclusivista, reage contra o Programa Mais Médicos, com a ajuda de Ramona e o Caiado por fora








Extraído do Brasil 247:

Entidades declaram guerra ao programa Mais Médicos

 

 

    O Conselho Federal de Medicina, a Federação Nacional dos Médicos e a Associação Médica Brasileira divulgaram, neste domingo, uma carta de repúdio às condições de trabalho dos profissionais que atuam no âmbito do programa Mais Médicos; pretexto foi o caso da cubana Ramona Rodríguez, que desertou e disse ter trabalhado como "escrava"; nesta segunda, o Ministério Público do Trabalho toma o depoimento da médica, que foi contratada por uma dessas entidades.

   9 de Fevereiro de 2014 às 19:41

   Aline Valcarenghi - Repórter da Agência Brasil 

   Entidades médicas divulgaram hoje (9) carta de repúdio às condições de trabalho dos profissionais, cubanos ou não, que atuam no Programa Mais Médicos. O Conselho Federal de Medicina, a Federação Nacional dos Médicos e a Associação Médica Brasileira alegam que o contrato fere direitos individuais e trabalhistas.
   As entidades querem que todas as denúncias e os "indícios de irregularidades" no processo de contratação de intercambistas e de médicos brasileiros sejam apurados pelo Ministério Público Federal, pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pelo Supremo Tribunal Federal.

  (10), o MPT ouvirá o depoimento da médica cubana Ramona Rodriguez, que abandonou o programa na semana passada, alegando que recebia menos de 10% do valor pago aos médicos inscritos individualmente.
Amanhã 

  Desde o lançamento do programa, em julho do ano passado, as entidades médicas defendem que a solução para a falta de profissionais em regiões carentes é a criação de uma carreira federal, semelhante à dos magistrados, para médicos do Sistema Único de Saúde, além da estruturação dos locais de atendimento.

   Os profissionais inscritos individualmente no programa recebem bolsa formação no valor de R$ 10 mil para trabalhar na atenção básica de regiões carentes que não conseguem atrair médicos. Eles não têm vínculo empregatício com o Ministério da Saúde, pois, segundo a pasta, participam de uma especialização na atenção básica, nos moldes de uma residência médica.

   Já os cubanos, que são 5.378 dos 6.600 profissionais do programa, chegam ao Brasil por meio de um acordo entre os governos dos dois países, intermediado pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). O governo brasileiro faz o pagamento à Opas e a organização repassa para Cuba, que fica com parte da verba.

Familia de Caiado mantém trabalho escravo em suas fazendas :

http://reporterbrasil.org.br/2010/08/fazenda-de-primo-de-ruralista-mantinha-trabalho-escravo/ Fazenda de família de Ronaldo Caiado mantém trabalhadores escravizados.

http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/09/os-escravos-do-ruralista-caiado.htmlOs escravos
de Ronaldo Caiado.

http://www.brasildefato.com.br/node/1482 Familia Caiado e seus escravos nas Fazendas.

http://mateusbrandodesouza.blogspot.com.br/2013/09/ronaldo-caiado-e-contra-o-trabalho.html Ronaldo Caiado votou contra a PEC do Trabalho Escravo.


Texto de Fernando Britto, do Tijolaço:

CFM quer que cubanos “escravos” deixem de atender doentes e sirvam cafezinho para “médicos livres”


Chega a ser nojenta a notícia de que o Conselho Federal de Medicina fará uma campanha entre os médicos brasileiros para que ofereçam “empregos administrativos” em seus consultórios e hospitais para os médicos cubanos que “desertem” e abandonem seus postos de atendimento na periferia e no interior do Brasil.
— Vamos dar apoio aos cubanos, mas eles não poderão trabalhar como médicos. Primeiro, eles terão de buscar refúgio e asilo em embaixadas não alinhadas ideologicamente com Cuba. Enquanto isso, com a rede de 400 mil médicos brasileiros, vamos conseguir contratos de trabalho administrativo, para que eles então tentem o Revalida — afirmou neste domingo o presidente do CFM.
O que estes “doutores” querem? Não se contentam em ser desprezados pelo povo brasileiro, querem levar as pessoas pobres que viram um médico pela primeira vez na vida, de volta ao abandono total?
Afinal, quem quer reduzir quem à condição de escravos, de seres inferiores e incapazes senão de servir aos senhores?
Vão lhe servir cafezinho e vocês tolerarão, por isso, que usem a roupa branca?
Vão ser os seus “negrinhos”? Como aquela imbecil que disse que as médicas cubanas tinham cara de “empregada doméstica”.
E que beleza, não é, nem direitos trabalhistas terão, porque não têm visto de trabalho no Brasil para nada senão o que são: médicos de família, doutores em medicina social.
Ou será que os estão provocando até que um deles, em nome de sua dignidade, lhes esbofeteie?
E aqueles brasileiros que estão lá, onde vocês não querem ir, nem ganhando quatro vezes mais do que os cubanos?
É gente simples, que não tem ninguém que olhe por ela, que suplica, implora , se ajoelha, até, para que se cuide de um filho doente.
Os dirigentes destas instituições não fizeram o Juramento de Hipócrates?
Não é possível que tenham prometido nunca  ”causar dano ou mal a alguém.”
A mesquinhez e a crueldade de parte da elite brasileira chegou ao extremo.
Já não lhes basta viver na abundância: é preciso que os pobres morram na doença e no abandono.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Paulo de Tarso, que determinou as linhas gerais da teologia atual, deturpou a mensagem original de Jesus





Carlos Antonio Fragoso Guimarães

                Embora quase sempre desconhecido do grande público – em parte devido à resistência dos chamados “líderes religiosos”, especialmente os mais conservadores, que buscam fundamentar sua autoridade em uma aura de verdade absoluta em cima dos chamados textos sagrados -, o estudo crítico, histórico e acadêmico da Bíblia e, em especial, do Novo Testamento, desde o século XIX vêm trazendo à luz novas perspectivas de entendimento das chamadas escrituras sagradas. Entre as mais importantes descobertas existe a crescente percepção da contradição entre as mensagens de Jesus, ética e de cunho fraterno tal como encontrada nos evangelhos, especialmente em Mateus e Lucas, e o cristianismo de mera adesão proposto por Paulo de Tarso, o real fundador do cristianismo como sendo uma religião independente e um seguidor posterior que não conviveu com Jesus e, em vários pontos, contradiz a mensagem conhecida do nazareno.

                Pela análise do estilo literário e das colocações sociais de cada texto -  que é uma das formas de se estudar o material que dispomos, já que não existem originais do século I, sendo as mais antigas cópias disponíveis, já datadas, do século II -, percebe-se que as chamadas “cartas paulinas” constituem o conjunto de textos cristãos mais antigos, as atribuídas como autênticas, redigidas provavelmente cerca dos anos 50 da era comum. Os evangelhos propriamente ditos são, contudo, historicamente, em determinados pontos, mais precisos que as observações de Paulo. Constituem eles  compilações de fontes orais e de, possivelmente, registros escritos perdidos (como, por exemplo, a fonte Q, tão citada pelos estudiosos acadêmicos e que pode ser, em parte, reconstituída, pelo material dos chamados evangelhos sinóticos: Marcos, Mateus e Lucas), compostas  entre os anos 65-70 (data provável da composição do evangelho de Marcos) a até aproximadamente 95 ou 100 da era cristã (quando provavelmente foi escrito o evangelho atribuído a João, mas que de fato é uma compilação de interpretações posteriores de uma comunidade de cristãos tardios, provavelmente baseadas muito levemente em tradições orais que remontam a algum discípulo de João, e que, em grande parte, é uma teologia Paulina em forma narrativa).

              Apesar de serem 13 o número de epistolas atribuídas a Paulo na maioria das Bíblias ocidentais, hoje a maior parte dos pesquisadores considera que apenas seis destas epístolas tenham sido formuladas pelo próprio, pois apresentam o mesmo estilo e pontos de semelhança, sendo as demais meras composições posteriores de discípulos que queriam validar sua importância como documentos atribuindo-os a Paulo. O pesquisador Pedro Vasconcelos, da PUC, afirma que "Elas (as cartas não-paulinas) são muito diferentes em estilo literário e conteúdo". Para o conservadorismo das igrejas mais ligadas a uma concepção tradicional da Bíblia, no entanto, toas as cartas encontradas nas edições correntes da mesma são consideradas autênticas. As epístolas consideradas realmente originais pela maior parte dos experts são: aos Romanos, 1 e 2 aos Coríntios, aos Gálatas, aos Filipenses, a primeira à Tessalônica e a endereçada a Filêmon.

          Por sua ação missionária em meios não judeus, a figura de Paulo de Tarso teve uma importância indiscutível na constituição do cristianismo (especialmente do cristianismo “paulino”) em sua ansiedade em construir uma teologia sobre a figura Cristo (e não da mensagem de Cristo), o que causou impacto na formulação da teologia ortodoxa posterior - inicialmente no Império mas, bem depois, mais especialmente na teologia protestante. O problema, contudo, surge quando comparamos os dizeres e visões teológicas de Paulo com os que são atribuídos ao próprio Jesus, pelos evangelhos, especialmente o de Mateus.

          Igualmente digno de nota é de que certamente Paulo não pensava que suas cartas acabariam por ir parar na Bíblia (ao menos naquilo que se transformaria Bíblia cristã, dois séculos depois). Elas eram produtos do interesse de Paulo em esclarecer problemas e situações das comunidades que ele tinha ajudado a criar, e não súmulas teológicas indiscutíveis a serem tomadas como regra. Existe, numa leitura atenta destas cartas, um esforço de Paulo para se apresentar como "apóstolo", titulo que não lhe foi dado por nenhum dos reais discípulos de Jesus, nem mesmo Lucas, que não o chama assim nos Atos, embora Lucas seja um discípulo de Paulo e os Atos, uma forma de engrandecer Paulo. Só muito mais tarde alguém com alguma influência política as julgariam apropriadas para formarem parte do cânone do Novo Testamento.

         Paulo, como todos sabem, foi um aspirante a doutor da Lei (sacerdote graduado). Um judeu do século I, contemporâneo de Cristo, mas que nunca o vira pessoalmente durante seu ministério, e que, profundamente zeloso da ortodoxia judaica, de início foi perseguidor implacável dos primeiros cristãos. Contudo, esta atitude agressiva iria mudar radicalmente após Paulo (na época, Saulo) ter uma visão do Cristo pós-morte. Isso o abalou o suficiente para que passasse por uma crise religiosa, se convertendo ao cristianismo e se transformando de perseguidor a divulgador. 

          Contudo, apesar do que diz supostamente Lucas nos Atos dos Apóstolos (escrito muitos anos após a morte de Paulo, provavelmente em torno do ano 75), Paulo não procurou nas fontes apropriadas, ou seja, nos discípulos diretos de Jesus, a base da sua própria mensagem. Ao invés disto, após um contato muito superficial com alguns discípulos menores – e não com os apóstolos, o que só se daria após três anos -, Paulo se afastou para pensar sobre sua experiência da visão que teve do ente que antes perseguira. Com estas reflexões ele também questionou sua herança formal judaica, para voltar três anos depois com toda uma visão pessoal já sedimentado do seria ou deveria ser o cristianismo, moldada com elementos judaicos e gregos (Paulo era cosmopolita). Só então, depois, teve contato (por várias vezes tenso) com alguns dos apóstolos diretos de Jesus e, nas suas palavras, destes mais precisamente apenas Pedro e Tiago, “irmão do Senhor”, sem que este contato tivesse qualquer  grande impacto na sua já cristalizada visão do cristianismo. Assim, lemos pela pena do próprio Paulo em Gálatas 1:16-20:

     “Não consultei carne nem sangue, nem subi a Jerusalém aos que eram apóstolos antes de mim, mas fui à Arábia e voltei novamente a Damasco. Em seguida, após três anos, é que subi a Jerusalém para avistar-me com Pedro e fiquei com ele por 15 dias. Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o irmão do Senhor. Isso vos escrevo e asseguro diante de Deus que não minto.”
           E mesmo depois que Paulo encontrou os discípulos direto de Jesus, o relacionamento dele com estes não pareceu muito bom. Apesar de toda tentativa de o autor dos Atos dos Apóstolos (que deveria ser chamado Atos pretendidos de Paulo, já que os demais Apóstolos são citadas apenas na medida em que preparam a aparição de Paulo) em fazer da relação do antigo fariseu com os discípulos de Jesus algo positivo, não é isso que sei infere da leitura das cartas de Paulo, ao contrário.

         "Paulo tem especial desprezo pelo triunvirato Tiago, Pedro e João, com sede em Jerusalém" (antes da revolta judaica de 66 d. C. e da destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C.), "ele os ridiculariza como 'os chamados pilares da Igreja' (Gálatas 2:9). 'Seja o que forem, não faz diferença para mim', escreve. 'Os líderes não contribuíram em nada para mim' (Gálatas 2:6). Os apóstolos podem até ter andado e falado com o Jesus o vivo.  (ou, como Paulo desdenhosamente o chama, 'Jesus em carne e osso). (...) Os apóstolos podem  ter sido escolhidos à dedo por Jesus (...). Mas Jesus escolheu Paulo antes dele nascer: ele foi, segundo diz aos Gálatas, chamado por Jesus para o apostolado quando ainda estava no ventre de sua mãe (Gálatas 1:15). O que Paulo está sugerindo é que ele não é o décimo terceiro apóstolo. É o primeiro apóstolo", escreve muito à propósito o erudito Reza Aslan, especialista em Novo Testamento, em seu livro Zelota (Jorge Zahar editor, 2013, p. 203).

         O estudo crítico das epístolas junto com os novos textos descobertos no século XX, daquela época, mostra que ante o que pareciam ser elementos próprios de Paulo em muitas de suas cartas, as descobertas de textos antigos, como os famosos Manuscritos do Mar Morto (que, ao contrário do que muitos pensam, nada têm de cristãos) mostrou serem elementos de discussão comum entre a classe judaica mais instruída na época, especialmente as interpretações apocalípticas dadas ao que se esperava do “messias” e que foi adaptada à singularidade da vida e obra de Jesus (o apocalipsismo era uma mentalidade constante entre os judeus oprimidos da época). Porém, muito mais sério do que isso, uma parte da visão “cristã” de Paulo parece chocar de frente com os próprios ensinamentos de Jesus. Isso fica mais grandemente visível no núcleo do pensamento paulino de que a simples justificação pela fé em Jesus, especialmente nos fatos de seu sacrifício e ressurreição, serem os únicos elementos que justificariam a salvação de um crente, doutrina arduamente abraçada pela maioria das igrejas e seitas evangélicas, mas que bate frontalmente com o que Jesus diz em Mateus em 25:31-45:

«Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há-de sentar-se no seu trono de glória. 32Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes. 33À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os bodes.
34O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. 35Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me, 36estava nu e destes-me que vestir, adoeci e visitastes-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’
 37Então, os justos vão responder-lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?38Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? 39E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ 40E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes.’
41Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o mal e para os seus anjos!42Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, 43era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes, doente e na prisão e não fostes visitar-me.’ 44Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ 45Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.’”

            O conhecido especialista em Novo Testamento Bart D. Ehrman reflete que esta passagem de Mateus “sugere que a salvação não é apenas uma questão de crença, mas também de ação, uma idéia absolutamente ausente do raciocínio de Paulo”. Poderíamos dizer ausente não apenas de Paulo, mas de toda a tradição que se moldou a partir das igrejas “paulinas”, especialmente as atuais igrejas televangélicas, de cunho paulino-fundamentalista.  Na passagem de Mateus acima transcrita se percebe mesmo que os escolhidos (as “ovelhas”) podem sequer ter tomado conhecimento da vida de Jesus (“Senhor, quando foi que te vimos...”). Nos dizeres de Bart D. Ehrman,

            “As ‘ovelhas’ ficam perplexas (de terem sido escolhidas como herdeiras do Reino). Elas não se lembram sequer de ter encontrado Jesus, o Filho do Homem, quanto mais de fazer essas coisas por ele. Mas ele diz a elas: ‘Cada vez que fizeste a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’. Em outras palavras, é cuidando dos que têm fome, sede, estão nus, doentes e encarcerados que é possível herdar o Reino de Deus.
           “Como essas palavras se coadunam com Paulo? Não muito bem. Paulo acreditava que a Cidade eterna era dada àqueles que acreditavam na morte e ressurreição de Jesus. No relato de Mateus sobre as ovelhas e os bodes, a salvação é dada a quem nunca havia falar de Jesus. É dada a quem trata os outros de forma humana e carinhosa no momento de maior necessidade. É uma visão  da salvação inteiramente diferente” (Bart D. Ehrman, “Quem foi Jesus? Quem Jesus não foi”, Ed. Ediouro, 2010).

             Esta mesma ideia, em Jesus, de que são os atos de amor, compreensão e solidariedade que justificam o ser humano também está bem clara na Parábola do Bom Samaritano onde é um "herege", um samaritano (os samaritanos romperam com os sacerdotes oficiais do judaísmo, controladores do Templo de Jerusalém - que é exaltado por Jesus e não o sacerdote e o levita, considerados "homens de Deus".

          Portanto, segundo alguns pesquisadores – e até mesmo alguns teólogos mais esclarecidos – ,existe material suficiente para suspeitar que Paulo  divulgou uma doutrina “paulina” em franco contraste com a mensagem de Jesus. Paulo ajudou a cristalizar uma religião sobre Cristo e não de Cristo. Edgar Jones, autor do livro Paulo: O Estranho, diz que "Jesus de Nazaré deve ser cuidadosamente diferenciado do Jesus de Paulo. Gerações e séculos passaram até que a corrente paulina com seu forte apelo em favor do Império Romano ganhasse ascendência sobre a corrente apostólica".

          O fato é que, até o século 4, existiam várias correntes de cristianismo, cada uma com uma forma de interpretar a mensagem original de Jesus e, em linhas gerais. eram divididas entre as que eram lideradas pelos discípulos de Paulo e outras atreladas, pelos seguidores, à tradição mais ligada aos apóstolos de Cristo. Uma que dava ênfase à transformação pessoal calcada na preocupação ética com o próximo a partir das mensagens éticas do evangelho e outra mais voltada para a conversão ideológica à própria figura de Jesus. Sobre essa divisão veja-se, por exemplo, a ênfase que está na epístola atribuída ao apóstolo Tiago, o irmão do Senhor – e que portanto, se for dele mesmo conheceu e conviveu com Jesus. Ainda que provavelmente a epístola não seja do Tiago apóstolote pessoalmen, parece ser de alguém que conhecia melhor os ensinos de Jesus que Paulo e muitos pesquisadores a consideram autêntico documento cristão da comunidade de Jerusalém, presidida por Tiago. Esta epístola dá a grande ênfase à caridade e às obras humanistas, criticando quem acha que apenas a fé o ajudará a purificar a alma e atingir o nível do Reino dos Céus, o que está concorde com o trecho de Mateus que já vimos. Na epístola a Tiago atribuída, que não se encontra em algumas bíblias protestantes, lê-se o seguinte:


“14 Que aproveitará, irmãos meus, a alguém que tem fé, se não tiver obras? Acaso podê-lo-á salvá-lo a fé? 15 Se um irmão, porém, ou uma irmã estiverem nus e lhes faltar o alimento diário, 16 e lhes disser algum de vós: Vá em paz, aquentai-vos e farte-se, e não lhes deres o que é preciso para o corpo, de que lhes aproveitará estas palavras? 17 Assim também a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma”.

“18 Poderá logo alguém dizer: Tu tens a fé e eu tenho as obras. Mostrai-me tu a tua fé sem obras e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras. 19 Tu crês que há um só Deus, fazes muito bem, mas também os demônios o crêem e tremem. 20 Queres tu, pois, saber, oh homem vão, que a fé sem obras é morta? (...) 24 Não vedes como é que é pelas obras que um homem é justificado e não somente pela fé? (...) 26 Porque bem como um corpo sem espírito é morto, assim também a fé sem obras é morta.”

          Este é igualmente o diferencial que muitos dos acadêmicos têm sobre o diferencial da corrente paulina e da corrente apostólica (veja-se que nos Atos dos Apóstolos Paulo não é chamado de Apóstolo, embora ele mesmo o faça em suas epístolas). O professor Bart Ehrman, resumindo o pensamento da maioria dos pesquisadores e do que é mesmo ensina na maior parte dos centros de formação teológica de grandes universidades, chega mesmo a enfatizar que, de acordo com os indícios das palavras ou, ao menos do pensamento, do Jesus histórico:

         “ As ‘ovelhas’ recebem sua recompensa celestial e eterna por todas as coisas boas que fizeram: alimentar os que tinha fome, vestir os despidos, cuidar dos doentes; os ‘bodes’ são punidos por não terem feitos boas ações. Um cristão posterior inventaria tal tradição? Após a morte de Jesus, seus seguidores alegaram que a pessoa se tornava justa perante Deus e receberia sua recompensa eterna ao [simplesmente] acreditar na morte e na ressurreição de Jesus, não fazendo boas ações. Portanto, essa hsitória (encontrada em Mateus 25) rema contra a corrente desse ensinamento, ao indicar que a pessoa será recompensada por suas boas ações. Logo: isso tem de remontar a Jesus.
         “Em síntese, Jesus ensinou (...) que as pessoas (...) deveriam mudar seu comportamento e viverem como Deus esperava que vivessem. Isso envolvia o amor desinteressado pelos outros. Assim, Jesus teria cidade as Escrituras: ‘Amarás a teu próximo como a ti mesmo’ (Mateus 22:39, citando Levítico 19:118). Sua formulação da idéia é a Regra de Ouro: Tudo aquilo, portanto, que querei que os homens vos façam, fazei-o vós a eles” (Mateus 7:12). É difícil afirmar, de forma mais concisa, as exigências éticas da lei de Deus” (EHRMAN, 2010, “Quem foi Jesus, Quem Jesus não foi?”, PP. 177-178).

         Quando o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano, especialmente com Teodósio, a corrente paulina saiu-se vitoriosa, especialmente porque uma das cartas (Romanos) de Paulo diz textualmente que os cristãos deveriam se submeter às autoridades constituidas, no caso, Roma.  "As idéias de Paulo, afáveis aos dominadores, foram definitivamente incorporadas à doutrina cristã", diz Fernando Travi, teólogo evangélico. Ora, essa submissão passiva ás autoridades políticas soa estranha a um seguidor de um revolucionário morto por estas mesmas autoridades, com o aval das autoridades religiosos locais, por seu potencial perigo político. O teólogo franciscano Jacir de Freitas Faria, mestre em exegese bíblica pelo Pontifício Instituto Bíblico (PIB), de Roma, comunga da mesma opinião: "Paulo é uma figura basilar do cristianismo, mas não podemos deixar de ser críticos a ele nessa relação com o Império Romano".

      Outro ponto de controvérsia clássico sobre Paulo é a sua clara (ou a ele associada) e nem sempre sutil opinião sobre as mulheres. Na carta, provavelmente espúria, endereçada à comunidade cristã de Colosso, encontramos a seguinte passagem machista:

"Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia. (...) Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Não permito que a mulher ensine, ou domine o homem".