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quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Pesquisa realizada pelo grupo Opinião Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) durante o último protesto do dia 16 revela a incoerência dos manifestantes

Manifestantes de BH revelam incoerências sobre golpe e situação econômica do país

Maioria dos que foram ao centro da capital mineira no domingo era de classe A e B. Metade já votou no PT, maioria votou em Aécio Neves no segundo turno de 2014, mas menos de metade votaria de novo

por Rodrigo Gomes, da Rede Brasil Atual RBA publicado 18/08/2015 


WILLIAN MARQUES/PHOTO PRESS/FOLHAPRESS
antipete
Apesar do apelo de que o país está afundando na crise, dois terços dos manifestantes não têm conta atrasada

São Paulo – Pesquisa realizada pelo grupo Opinião Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), durante os protestos pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, no último domingo (16), em Belo Horizonte, revela, por exemplo, incoerência dos manifestantes quando se posicionam sobre um golpe militar para tirá-la do poder ou quanto à piora nas condições de vida. Como em abril, a pesquisa de agora constata que é grande a aversão aos programas sociais do governo federal, como o Bolsa Família, as cotas raciais e o Mais Médicos. Novos dados trabalhados foram os sentimentos de aversão, raiva e tristeza relacionados ao PT.
Embora o discurso mais aguerrido de defesa de uma intervenção militar tenha se reduzido em relação às primeiras manifestações, apenas 13% dos manifestantes entrevistados ainda dizem que esta seria "a melhor saída" neste momento. Porém, quando questionados sobre qual seria a melhor ação para livrar o país de uma situação de desordem social, 46,8% são favoráveis à intervenção militar – demonstração de que, embora não defendam diretamente, muitos também não se opõem a um golpe de Estado para tirar o PT do poder.
A mesma incoerência é registrada quando o assunto é a crise econômica: 93,1% dos entrevistados consideram que a situação do país está ruim ou péssima. Perguntados sobre como está a situação financeira pessoal, comparada com dez anos atrás, 66,6% responderam que está pior. No entanto, quando questionados se têm alguma conta em atraso, há pelo menos 30 dias, 67,5% dizem não ter nenhuma dívida atrasada.
"O que percebemos é que, apesar da alta renda e do grau de instrução, os manifestantes não têm coerência ao apontar problemas ou soluções. Está tudo ruim, mas as contas estão em dia. Não aceitam a pecha de golpistas, mas são favoráveis a intervenção militar se houver 'desordem'", destacou a professora Helcimara de Souza Telles, do programa de pós-graduação em Ciência Política da UFMG.
Os manifestantes também se mostraram indecisos quando o assunto é o direito à terra rural. Quando questionados sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os defensores do impeachment foram majoritariamente avessos à entidade: 78,6%. Ao mesmo tempo, 57,7% se disseram favoráveis à reforma agrária, principal objetivo da luta do MST. Para a professora, o que pesa neste caso é que os sem terra são frequentemente associados, pela mídia tradicional, ao PT e à baderna, representada no imaginário dos entrevistados pela ocupação de propriedade privada, sem considerar o fim social da terra. "Mas a reforma agrária ampliaria a possibilidade de obter propriedade, o que é bem visto por eles", explica a professora.

Perfil

Os pesquisadores realizaram 434 entrevistas durante todo o dia, na Praça da Liberdade, centro da capital mineira, onde pelo menos 7 mil pessoas realizaram um dos protestos pelo impeachment da presidenta Dilma.
O recorte socioeconômico medido foi semelhante ao da manifestação de abril, com 56,6% dos manifestantes com renda superior a cinco salários mínimos, enquanto 30,6% têm renda superior a dez mínimos. Quanto ao grau de instrução, 52,3% tinham ensino superior completo e 12,2% ingressaram neste nível sem terem completado os estudos.
Pelo menos um terço deles participava pela primeira vez de uma manifestação organizada pela direita após as eleições do ano passado. Do total, 29% disseram protestar contra a corrupção e 41,7% tinham como alvo direto o governo petista. Para 77,2% dos manifestantes, a melhor saída para o país seria a renúncia ou o impeachment de Dilma. Outros 73,3% consideram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva "um dos maiores malfeitores do Brasil".
Embora a manifestação fosse claramente contra o PT, Helcimara destacou que 53,7% dos manifestantes declararam ter votado no partido de Lula pelo menos uma vez. E uma proporção muito próxima, entre 53% e 56%, dão nota máxima, em uma escala de zero a dez, aos sentimentos de "aversão", "raiva", e "tristeza" em relação à legenda.
A mesma relação se aplica quando o questionamento envolve a presidenta Dilma. "É possível que muitos tenham votado em Lula para presidente. Isso me parece um alerta ao PT. As pessoas demonstram se sentir traídas", afirma a professora.
De acordo com a pesquisa, os principais motivos de oposição ao PT entre os manifestantes de Belo Horizonte são os programas sociais. Para 74,5% deles, o Bolsa Família deixa as pessoas preguiçosas. Outros 61,3% são contra a vinda de médicos cubanos ao país. E 64,7% defendem a extinção das cotas raciais.
Além disso, os pesquisadores observaram um sentimento de superioridade quanto a outras classes ou regiões do país. Para 52,1%, "os nordestinos têm menos consciência política na hora de votar do que as pessoas de outras regiões do país" e para 74% "os pobres são mais desinformados na tomada de suas decisões políticas".
Apesar do perfil conservador, os manifestantes também se mostraram divididos quando perguntados sobre porte de armas para "cidadãos honestos" (53% favoráveis), legalização do aborto (46,5% favoráveis), pena de morte (41,5% favoráveis).
Os itens em que o posicionamento foi mais definido entre os manifestantes mineiros foram a redução da maioridade penal (74,5% favoráveis), a liberação do consumo de maconha (67,5% contrários) e casamento entre pessoas do mesmo sexo (61,1% favoráveis).
Já em relação à reforma política, houve expressivo apoio ao fim do financiamento privado de campanhas eleitorais (61,3%) e ao fim da reeleição (73,9%). Quanto à chamada Agenda Brasil, 60,3% se mostraram contrários ao aumento do tempo de trabalho para a aposentadoria, mas 43% se disseram favoráveis à cobrança no Sistema Único de Saúde para os mais ricos.
Mesmo estando presente na manifestação – também pela primeira vez –, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) já não encanta tanto os manifestantes mineiros, segundo dados colhidos pelos pesquisadores.
Dos entrevistados, 78,6% dizem ter votado no tucano no segundo turno da última eleição, mas somente 48,6% afirmam que votariam nele hoje. Entre os demais, 6% disseram que votariam no ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e outros 6,7% no deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ). E 19% não têm candidato.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Pesquisa feita por alunos da UFMG revelou que maior parte dos manifestantes anti-Dilma tem ojeriza a temas de expansão de direitos de minorias e uma postura elitizada



Belo Horizonte: Manifestação contra o governo tem perfil conservador e intolerante a políticas sociais


Belo Horizonte: Manifestação contra o governo tem perfil conservador e intolerante a políticas sociais


Pesquisa feita por alunos da UFMG revelou que maior parte dos manifestantes tem ojeriza a temas de expansão de direitos de minorias – como mulheres, negros e LGBT – e ainda uma postura elitizada, como a de acreditar que pobres são mais desinformados na hora de tomar decisões políticas; pesquisadora atenta para um público mais à direita que o próprio PSDB 



Por Ivan Longo 


Um estudo realizado por um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) trouxe dados fundamentais para entender a parte da conjectura política do país. Coordenada pela professora Helcimara Telles, do departamento de Ciência Política da universidade, a pesquisa “Perfil Ideológico e Atitudes Políticas dos Manifestantes em 12 de Abril” , feita no ato contra o governo de Belo Horizonte, revelou um perfil de manifestante movido pelo sentimento antipetista, mas ainda mais conservador que a própria agenda política do PSDB, principal opositor do governo.
“Não é nem o PSDB que agarra esse público. Observe que mais de 80% disseram ter votado no Aécio no segundo turno. Mas quando perguntados em quem votariam se as eleições fossem agora, apenas 59% disseram que votariam. Aí surgiram nomes como o de Joaquim Barbosa, Bolsonaro, Marina… A gente ainda não sabe se é o PSDB quem vai herdar esse segmento, que é mais conservador e de direita. Pode haver espaço para o nascimento de novas lideranças conservadoras”, analisou a coordenadora da pesquisa.
Ao todo, foram entrevistadas 348 pessoas, entre 8h e 17h ao longo do protesto em BH, que reuniu cerca de 5 mil manifestantes. A margem de erro é de 4,8 pontos percentuais e a confiança é de 95%.
manifesta bh1Entre os dados, há alguns que revelam o espírito preconceituoso e elitista de parte dos manifestantes. Do total, 75% dos presentes, por exemplo, acreditam que os pobres são mais desinformados na hora de tomar decisões políticas. Além disso, 56,8% daquelas pessoas acham que os nordestinos têm menos consciência política na hora de votar.
Para Helcimara Telles, essa visão é fruto de uma profunda intolerância a todo e qualquer tema ligado aos direitos de minorias ou políticas sociais.
“Eles possuem, em geral, um perfil bastante conservador. Aderem à democracia participativa, mas possuem resistência aos temas de expansão de direitos de minorias, como mulheres, negros, pobres… Há uma intolerância em relação às políticas de avanços sociais”, constatou.
Outros dados que provam esse pensamento é o fato de que 70,1% dos manifestantes se mostraram contra as cotas raciais e 77,8% deles disseram acreditar que programas como o Bolsa Família tornam as pessoas mais “preguiçosas”.
A corrupção, naturalmente, foi a causa mais apontada pelos manifestantes como o motivo principal por terem saído às ruas (33%). Outras motivações bizarras, no entanto, também foram citadas, como simplesmente o “anticomunismo”, o “fora PT” ou “o Brasil está virando Cuba”.
Para a pesquisadora, apesar desses jargões terem sido extraídos da campanha da oposição, o movimento vem sendo manifesta bh2tomado por forças mais intolerantes e radicalizadas. Pouco mais que a maioria (50,5%), por exemplo, apoiam uma intervenção militar no caso de uma desordem política.
A lógica punitiva também esteve presente. Cerca de 81,5% dos manifestantes disseram ser a favor da redução da maioridade penal e 61,4% são a favor do porte de armas.
“É um perfil que aceita democracia participativa, mas, em caso de desordem, os militares podem intervir. Eles são permeados por uma lógica punitiva, apoiam o porte de arma, a redução da maioridade penal. Há um limite em relação a essa ‘democracia’ que apoiam”, explicou Telles.
Uma outra revelação que chama a atenção é a incoerência ao falar da situação política e social do país de uma maneira geral. Em relação à vida pessoal, por exemplo, uma minoria (39%) acredita que ela tenha piorado nos últimos dez anos. Quando a questão se expande para o país todo, no entanto, a situação já é diferente: 78% acha que o Brasil está pior do que há dez anos.
“Eles querem falar pelos outros. Aí teria até que fazer um cruzamento para saber de quem que eles estão falando, já que foi a vida dos outros que piorou”, brincou a pesquisadora.
A pesquisa completa estará disponível ainda nesta semana no site do grupo coordenado pela professora, o Opinião Pública. Um resumo com os principais dados do estudo pode ser conferidoaqui.
Fotos: Marcelo Sant’Anna / Fotos Públicas 

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A relação de Jesus com as mulheres e o aspecto feminino de Deus

Reflexões sobre o Jesus Histórico, parte 2

Anotações, Comentários e Resumos baseado em capítulos do livro de Gerd Theissen e Annette Merz, professores da Universidade de Heidelberg

“O Jesus Histórico”





Jesus e as mulheres

Carlos Antonio Fragoso Guimarães

I - Introdução

Dando prosseguimento ao estudo sobre o Jesus histórico tal qual as pesquisas acadêmicas o apresentam atualmente, destacaremos aqui a relação de Jesus com as mulheres em sua atividade pública, o que podemos perceber de socialmente revolucionário nesta interação e como ele entendia o lado materno de Deus.
           
            Comecemos por lembrar que a tradição posterior das comunidades cristãs de onde surgiram os evangelhos (escritos décadas após a crucificação e durante a crise das guerras judaicas contra Roma e da dupla perseguição aos cristãos por Roma e pelo Sinédrio), ao elaborarem as narrativas sobre a vida de Jesus, não deixaram de contaminar os relatos com a visão patriarcal dominante na época, o que também é encontrado, por exemplo, em Paulo de Tarso, principalmente na epístola (provavelmente não escrita por ele) aos colossenses. Convém, contudo, lembrar que a tradição que se constituiu sobre Jesus são formas de interpretação de Jesus, muitas vezes encobrindo parte de sua mensagem que, contudo, pode ser reconstituída de acordo com a análise das fontes, de onde é possível extrair “a linguagem” e as ideias de Jesus, e com o contexto histórico-social de sua época.

Assim, com este esclarecimento em mente, os professores Gerd Theissen e Annette Merz em seu livro “O Jesus Histórico”, (2002) ao introduzirem o estudo da relação de Jesus com as mulheres a partir de uma análise de seu contexto, começam por destacar que...

“(...) a tradição de Jesus tem um caráter androcêntrico e ambivalente em relação às mulheres. Por um lado, esta tradição é dominada por uma linguagem androcêntrica e por um patriarcalismo inabalável; por outro, pode-se reconhecer, tanto na tradição dos ditos como na tradição narrativa, uma surpreendente e múltipla participação de mulheres e relações com o mundo feminino” (op. Cit. p. 243).

Os elementos patriarcais que foram postos e/ou se desenvolveram com a tradição cristã posterior a Jesus – muito em especial após Constantino e sua transformação do movimento original de uma expressão popular dos oprimidos para uma religião dominada pelos opressores, através da oficialização de uma comunidade de teólogos comprometidas com a antiga visão do homem – já são conhecidos. Sabe-se o quanto foram utilizados, ou melhor, torcidos e reinterpretados para justificar uma cultura excludente e machista durante séculos. Não será este aspecto, de todo modo estranho à mensagem original de Jesus, como veremos, o objeto de estudo aqui. O que nos importa é exatamente aquele outro lado, mais luminoso e, por isso, mais “perigoso” para o status quo tradicional (político e religioso), qual seja, os elementos inclusivos da ação pública de Jesus, que resgatava a dignidade e o valor da mulher durante seu ministério público, pondo em questão a visão patriarcal convencional.

Citando ainda Theissen e Merz, no mesmo contexto social e a partir das fontes sobre a ação de Jesus frente à comunidade de pessoas que o conheceram, é bastante visível que...

“Diante dos elementos patriarcais, existem também elementos inclusivos na tradição de Jesus. Na tradição narrativa encontram-se muitas mulheres, em parte em papeis não típicos de seu gênero. Podemos mencionar como exemplo a unção do Messias em Mc 14, 3-9. A tradição dos ditos está cheia de “formação de (dizeres em) pares simétricos”, ditos duplos, nos quais há protagonistas masculinos e femininos e/ou seus âmbitos de vida e de trabalho são postos lado a lado. Podemos citar a parábola dupla (com mensagens semelhantes) do grão de mostarda e do fermento (lc. 13, 18s.20. par.), da ovelha e da moeda perdida (Lc 15,3-7; 8-10). Também podemos mencionar a parábola do amigo inoportuno e da viúva insistente (Lc 11,5-8; 18; 1-8). (...). O mundo do trabalho masculino e feminino são mencionados em Mt 24,40s (trabalho no campo e moer no moinho); Mc 2,21 (trabalho têxtil e produção de vinho), Mt 6,26.28 (fiação e trabalho no campo)” (Op. Cit., p. 243).

Portanto, fica claro que Jesus não se dirigia apenas a homens, mas sim a homens e mulheres e que estas faziam parte, senão em número igual ou superior ao dos homens, das pessoas que simpatizavam com ele e/ou o seguiam. Os autores citados acrescentam ainda que deve-se levar em consideração, nos ensinos de Jesus, as imagens metafóricas (em especial nas parábolas) em que se utilizam imagens do mundo feminino. Se ele o fez, é porque tais imagens foram consideradas pelo nazareno como mais apropriadas para dar uma ideia do trabalho e  cuidado de Deus – aliás, o colérico, ciumento e muitas vezes “infantil” deus de Moisés transforma-se, em Jesus, em Abba, “papai” amoroso e compreensivo -, ao mesmo tempo em que, assim fazendo, Jesus também promove uma crítica social contra a visão patriarcal: “a partir da mensagem do reino, cotidiano e atribuição de papeis femininos são relativizados” (Op. Cit., p. 244).

II – Mulheres no contexto de Jesus

Jesus não via as mulheres como “inferiores” aos homens. Várias passagens dos evangelhos sinóticos indicam isto, bem nos evangelhos não canônicos, como no de Tomé (por exemplo, no logion 114) e no de Maria Madalena, o primeiro redescoberto em 1945 e o segundo, em 1897. Aliás, são elas, as mulheres, segundo os textos canônicos, as primeiras a terem contato com a ressurreição. No evangelho de João, a primeira pessoa a ver e falar com o Cristo póstumo foi Maria Madalena. Deste modo, as mulheres se apresentam como destinatárias da mensagem de Jesus tanto quanto os homens. Ou melhor, são compreendidas por Jesus como pessoas responsáveis por si mesmas e em várias passagens elas apresentam uma coragem e fidelidades a Jesus superiores mesmo a dos apóstolos.  Além do mais, diante do já conhecido posicionamento crítico de Jesus frente às injustiças sociais, que promovem exclusões e opressões impostas, transformando pessoas em párias, convém refletir que

“A mensagem de Jesus dirige-se especialmente também às mulheres economicamente mais pobres e socialmente desprezadas, as prostitutas. Em Mt 21,31s ele promete a elas e aos cobradores de impostos acesso ao reino de Deus (...)” (Op. Cit., p. 244-245).

Nos relatos evangélicos (embora nem sempre bem compreendido, especialmente por evangélicos), grande parte das curas efetuadas por Jesus se dão sobre mulheres. Mas estas curas não foram efetuadas sem que não servissem em si como uma ilustração, sem que carreassem uma mensagem. A atenção dada por Jesus a elas nestas ações demonstra que a cura física seria a contrapartida e expressão da integridade e dignidade corporal das mulheres - tantas vezes vilipendiada pelas "regras de pureza" das escrituras veterotestamentárias e, portanto,  frequentemente desprezadas pelo patriarcalismo vulgar -, as inserindo na comunidade dos que foram tocados pelo reino de Deus. Em outras palavras, Jesus questiona tudo aquilo no Antigo Testamento que reduz a humanidade a "coisa" - e as mulheres são metade da humanidade -, o que já por si demonstra a relativização do conceito de "sacralidade" dada às escrituras, textos escritos por pessoas em um contexto histórico específico.

Uma das passagens mais singulares dos evangelhos - que, alias, é a única em que Jesus se deixa convencer por alguém, ou seja, a única em que, em um diálogo, ele não domina a argumentação -, é a que relata o encontro de Jesus  com uma mulher sírio-fenícia, em Mc 7,24-30. Nela, uma não judia implora a Jesus que cure sua filha enferma. Na narração Jesus parece resistir, usando uma argumentação nacionalista (que parece ter sido usada de propósito para chamar a atenção dos circunstantes à cena), mas, diante da sinceridade da estrangeira, ele cede e cura, à distância, a menina. Fica claro que a ocasião foi usada para mostrar que o direito ao reino é posto para todas as pessoas, independente de origem, sexo ou nacionalidade.

          Outra passagem célebre - e bastante incisiva na crítica ao patriarcalismo - é discutia por Theissen e Merz:

“A mulher com hemorragia (Mc 5,25-34), além de sua enfermidade, tinha de sofrer marginalização social e cúltica, que a faz carregar sempre consigo sua impureza, uma forma acentuada de separação que atingia todas as mulheres menstruadas. Ela rompe com o tabu do toque, o que é tornado público por Jesus e interpretado como expressão (positiva) de sua fé” (Op. Cit. p. 245).

Entre os seguidores de Jesus, especialmente os que o acompanham até Jerusalém e que, após a sua morte, continuaram seu ministério, contavam-se mulheres, o que é reconhecido mesmo por Paulo (Rm 16,12 e Fl 4,2s). Ademais, muitos dos ditos sapienciais e éticos de Jesus apresentam imagens que são próprias de atividades domésticas (femininas) e laborais externas (masculinas): A exortação para não preocupar-se a (Mt 6,25ss / Lc 12,22ss) compara os ouvintes a pássaros e lírios do campo, que não fiam, não semeiam, nem colhem . A audiência, portanto, era formada por seguidoras e seguidores considerados iguais.

III – O mundo das mulheres e o lado materno de Deus

Citações e imagens, nos ensinos de Jesus, que apresentam figurações próprias do mundo das mulheres se tornam significativas porque representam uma corajosa exceção em uma cultura dominada por preconceitos machistas.

“Cada referência explícita faz com que as mulheres sejam visíveis e dessa forma tematiza obrigatoriamente seu valor, contra os dogmas básicos da cultura patriarcal. A inclusão do mundo feminino na linguagem do anúncio tem como causa uma sensibilidade aguçada de Jesus e dos que o seguiam para com o clamor dos marginalizados, a quem a mensagem do reino de Deus vindouro é primeiramente dirigida, e à participação ativa das mulheres no movimento de Jesus” (Op. Cit.,  p. 247).

                Contudo, existe um outro efeito ainda mais revolucionário da apresentação do universo feminino nas parábolas de Jesus. Ela é usada tanto para destacar a humanidade das mulheres quanto para mostrar o aspecto materno de Deus:

                “A escolha de mulheres como atrizes nas parábolas e em formas parabólicas as transformam em figuras de identificação para mulheres e homens. Se na parábola do amigo que pede (Lc 11, 5-8) outra é posta ao lado, a da viúva que luta insistentemente por seu direito (Lc 18,1-8), isto significa que uma mulher representa um comportamento adequando ‘de homens’ diante de Deus. Tal uso de imagens é um protesto implícito contra a imanente equivalência entre ser humano e homem, imanente na linguagem.

                “As parábolas do fermento (Lc 13,20/Tomé 96) e da moeda perdida (Lc 15,8-10) apresentam a mulher e seu mundo como imagem para a ação de Deus. A mulher que busca a moeda necessária para a aquisição do que é indispensável, as mãos de mulher que preparam o pão essencial para a sobrevivência são imagens transparentes do cuidado de Deus com o ser humano e para o cumprimento do reino prometido. Tal uso de imagens é um protesto implícito contra a simbolização frequente (e ainda usual) de Deus em categorias masculinas” (Op. Cit., pp. 247-248).

Bibliografia consultada:


Theissen, Gerd & Merz, Annette (2002). O Jesus Histórico – um manual. Editora Loyola, São Paulo.

João Pessoa, Paraíba, 06 de janeiro de 2015

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Os Evangelhos e outros documentos gnósticos de Nag Hammadi



  Em 1945 uma série de papiros antigos foram descobertos em Nag Hammadi, Egito. Entre eles, o fantástico Evangelho de Tomé. O seguinte documentário (em espanhol) versa sobre a importância desta descoberta, implicações e possibilidades....


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As lembranças da Vida Após a Morte - Estudo sobre as EQMs



40% de todos os pacientes que tiveram morte clínica têm lembranças da 'vida após a morte’, de acordo com o maior estudo já realizado sobre o tema

Da BBC

Fonte: http://www.jornalggn.com.br/noticia/as-lembrancas-da-vida-apos-a-morte

Imagem ao lado: quadro "A Ascenção dos Abençoados", do pintor renascentista alemão Hyerominous Bosch, feita em 1490. Apresenta elementos, como o famoso túnel de luz e a presença sentida de seres benfazejos, muito relatadas por quem viveu uma Experiência de Quase Morte (EQM).

Pesquisa mostra que 40% têm lembranças da 'vida após a morte’


Pacientes relataram 'luz brilhante' durante morte clínica

O maior estudo já feito sobre experiências de quase morte mostrou que cerca de 40% dos pacientes têm algum tipo de lembrança sobre o período em que estiveram clinicamente mortos e sugeriu que uma pessoa pode continuar com atividade cerebral por até três minutos após seu coração parar completamente.

Durante quatro anos, cientistas da Universidade de Southampton, na Inglaterra, analisaram os casos de 2.060 pessoas que sofreram paradas cardíacas em 15 hospitais da Grã-Bretanha, Estados Unidos e Áustria.

Entre os 330 que sobreviveram, 140 puderam ser entrevistados e, desses, 55 (39%) disseram ter alguma percepção ou lembrança do período em que estavam tecnicamente mortos.

Entrentanto, apenas duas pessoas relataram lembranças precisas sobre suas experiências de quase morte.

Luz

Uma delas, um homem de 57 anos, relatou que, de um canto da sala, observou enquanto os médicos faziam o procedimento de reanimação em seu corpo.

"Ele descreveu de forma precisa as pessoas, som e atividades de sua reanimação. Os registros médicos corroboram seu relato", diz o estudo.

Baseado nos sons que ele diz ter ouvido, é possível estimar que o homem tenha ficado consciente por 3 minutos entre a parada cardíaca e a reanimação - o normal, segundo o estudo, é a ocorrência de atividade cerebral residual entre 20 a 30 segundos após a parada cardíaca.

A maior parte dos entrevistados não lembrava detalhes, mas descreveu sensações e imagens que se repetiram nos relatos. Cerca de 20% dos entrevistados disseram que se sentiram em paz, e 27% disseram que o tempo desacelerou ou acelerou.

Alguns lembraram de ver um luz brilhante, outros relataram medo, sensação de afogamento ou de ser sugado para águas profundas. Do grupo, 13% disseram que se sentiram separados de seus corpos e o mesmo número disse que seus sentidos ficaram mais aguçados que o normal.

Além disso, 8% disseram ter encontrado algum tipo de presença mística ou voz identificável, e 3% viram espíritos religiosos ou de pessoas mortas.

Ninguém relatou ter vivido experiências do futuro.

O estudo destaca que, apesar de os pacientes terem aparentemente mais tempo de consciência durante a morte clínica, as memórias deles podem ser afetadas pelo impacto do processo de reanimação no cérebro ou pelos sedativos usados.

Os autores do estudo apontaram ainda algumas limitações na pesquisa, como a dificuldade para identificar se as memórias que os pacientes que diziam ter tido durante a parada cardíaca refletiam sua percepção real.


Eles também apontaram o baixo número de paciente com memórias explícitas sobre o momento da morte clínica, o que impediu que houvesse análises mais profundas.



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Datafolha, e a própria Folha de São Paulo, sonhando com a volta da Ditadura

A Datafolha e a  própria Folha sonhando com a volta da Ditadura



Extraído do Tijolaço  (abaixo, o link para o questionário da pesquisa Datafolha)

Demorou mais do que a chuva no Sudeste, mas finalmente o Datafolha registrou no TSE uma pesquisa eleitoral em todo o Brasil.
O eleitoral é o de sempre: A disputa para valer, entre Dilma, Aécio e Eduardo campos e as especulações com Lula, Marina e Joaquim Barbosa candidatos.
Mas o mais interessante são as perguntas que vem depois da opção eleitoral.

Vá seguindo, na ordem:

Você é a favor ou contra a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil?
Você é a favor ou contra os protestos que estão ocorrendo em várias cidades brasileiras desde junho do ano passado?
E você é a favor ou contra que ocorram protestos de rua DURANTE a Copa do Mundo que será realizada no Brasil?

Calma, vem mais, tem o momento Sheherazade:
A tortura é ou não aceitável “se for a única forma de obter provas e punir criminosos” ?
Movimentos sociais precisam ou não respeitar a lei e a ordem para reivindicar seus direitos?
Os direitos humanos devem ou não valer para criminosos?

Uma pausa para um momento Higienópolis, para saber do “voto diferenciado”:
Analfabeto pode votar?

Uma pitada de ameaça do totalitarismo comunista:
O melhor para a sociedade é que as pessoas sejam vigiadas ou não?

E agora, o penúltimo ato, o “que saudades da ditabranda”…
É melhor ou pior a democracia que a ditadura, ou tanto faz?
Há alguma chance de ocorrer uma nova ditadura no Brasil?
A Ditadura Militar que governou o país de 1964 a 1985 deixou mais realizações positivas do que realizações negativas para o Brasil ou deixou mais realizações negativas do que realizações positivas para o Brasil?
Você diria que os principais responsáveis pelos problemas econômicos e sociais que o Brasil enfrenta hoje são os governos militares ou os governos civis que vieram depois?

Mas não acabou. tem mais, e tem pior ainda.

Bem, devidamente controlados os engulhos que o post anterior provocou, vamos ao gran finale da pesquisa Ditafolha, digo, Datafolha.

Como o enojado leitor e a repugnada leitora perceberam, a pesquisa “vai levando” o entrevistado  pelos círculos do inferno e chega, afinal, aonde quer.
Veja o que o Datafolha sugere ao eleitor:

Você concorda ou discorda que o governo brasileiro deva ter o direito de:
Proibir greves?
 Intervir nos sindicatos? 
 Proibir a existência de algum partido? 
Censurar jornais, TV e rádio? 
Fechar o Congresso Nacional? 
Prender suspeitos de crimes sem a autorização da Justiça?
Torturar suspeitos para tentar obter confissões ou informações?

Claro que, além do simples sim ou não, o questionário oferece a opção “ditabranda” ao gosto da Folha, com uma resposta de “sim, parcialmente“.

O que, afinal, significa isso senão “pesquisar” a implantação de uma ditadura?

Mesmo que sejam 15, 20, ou 25% as respostas positivas a estas perguntas, isso é ou não combustível para legitimar os grupos autoritários que, à sombra do “coxismo” de direita e do blackbloquismoselvagem e estúpido de uns idiotas (levei uma bronca hoje por chamá-los de idiotas, mas vou teimar)?

Alguém ainda acha que se exagera quando se diz que se estavam abrindo caminhos para o autoritarismo?
Nenhum destes quesitos oferecidos como “ações de governo” jamais esteve, nem de longe, na pauta do governo.
Estará na pauta de quem, das manifestações do “padrão Fifa” , do combate à corrupção,  do #naovaiterCopa ou, ao menos, as acompanhará como uma sombra sinistra.

Há outras baboseiras facistóides na pesquisa, como a de criticar as indenizações aos presos, perseguidos, torturados e mortos na ditadura e, claro, a de que sejam também julgados os militantes das organizações que resistiram ao regime fascista. Aquela linha, sabe, que teria levado a Nuremberg também o pessoal da Resistência Francesa que, afinal, também pegou em armas.
Mas o essencial, o grave, o inaceitável é que se trata de um levantamento de encomenda para reacender o apetite autoritário, que é a fome que dá na barriga de quem não tem voto.