segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Poltergeist - apresentação de suas características e as teorias gerais que tentam explicá-lo


O Poltergeist

Por

 Carlos Antonio Fragoso Guimarães

(escrito em 1999)



Poltergeist flagrado em ação, na França, em 1955

1º. – Os “Sintomas” gerais de um Poltergeist
2º. – Definição de Poltergeist
3º. – Teorias sobre as causas de um Poltergeist  
4º. - Diferenças entre Poltergeists e Assombrações
5. – Algumas estatísticas  
 Bibliografia

*

1º. Os “Sintomas” gerais de um Poltergeist

            Pense-se uma família comum, com seus filhos, em nada diferente de tantas outras morando em uma casa como tantas outras em um bairro normal de uma cidade qualquer. Toda a rotina comum da família vem se desenrolando sem aparentemente maiores sobressaltos fora aqueles leves incidentes comuns à maioria das famílias, talvez abalados aqui e ali por conflitos familiares que, não obstante, são considerados normais pelos integrantes da família e por seus amigos e vizinhos mais próximos.

             Em um dia qualquer, porém, o roteiro comum da rotina familiar vem a ser estranhamente quebrado. Inicialmente, ouve-se o barulho de pancadas e, talvez, de pedras caindo. Pode até ser que além dos barulhos, pedras e outros pequenos objetos pareçam estão sendo lançados sobre a casa e/ou algum vidro em uma das janelas é estilhaçado. Logo, como é esperado, se pensa que alguma pessoa mal intencionada ou algum moleque traquina na rua ou na vizinhança é o autor da perturbação. Os donos da casa saem, então, em busca do autor da ação. Nada encontram e, então, tentam falar com os vizinhos, mas, não obstante, não encontram o imotivado agressor. Estes vizinhos, por sua vez, intrigados, começam a testemunhas os barulhos e, se for o caso, outros eventos estranhos. Para espanto de todos, começa a “chover” pedras por cima do telhado, sem que se veja de onde elas partem, e outros vidros se quebram. Para complicar a situação, mais tarde alguns móveis são encontrados em locais diferentes onde costumeiramente se encontram, portas se abrem sozinhas, ouvem-se ruídos esquisitos de mesas se arrastando ou, algumas vezes, sons parecidos com vozes ouvidos durante a noite e vêem-se objetos serem lançados longe dos locais onde deveriam se encontrar. A esta altura os vizinhos, que já estão a par e intrigados com os acontecimentos, começam a comentar o caso com outras pessoas e a tensão e excitação emocional logo se espalha pelo bairro.

     De repente, toda a confusão amaina, parecendo cessar, e as pessoas suspiram aliviadas, buscando alguma explicação racional para o ocorrido. Quando tudo parece serenar, espantosamente a balbúrdia volta a ocorrer, agora causando desespero e terror na família e nos vizinhos mais próximos.  Começa uma “caçada” desesperada para saber quem ou o quê está causando toda esta balbúrdia. Algum gato ou cachorro vira suspeito da traquinagem, embora esta explicação, diante de toda a ação, seja mais uma tentativa de se encontrar uma causa lógica para a confusão que uma hipótese realmente convincente. Talvez, supõe alguns, algum ladrão ou mesmo alguém próximo e muito vivo estejam tentando apavorar as pessoas para, quando estas saírem de casa, poderem concretizar o furto mais eficazmente, ou então algum “louco” por perto resolveu infernizar a família por puro deboche. A polícia é chamada, fazem-se novas buscas, mas nada confirma estas suspeitas. 

   Pensa-se depois em prováveis e raras causas naturais, como tremores de terra, mas as casas vizinhas, até mesmo contíguas, nada sofreram. A instalação elétrica é verificada, e tudo está normal. Como para rir-se das pessoas, objetos parecem simplesmente sair de armários ou surgir do nada. Ai, geralmente nesta hora, a polícia é novamente acionada. Presta-se queixa, alguns policiais vão até o local dos fatos, e nada encontram nem presenciam demais, a não ser o estado caótico da casa e das pessoas próximas. Mas algumas vezes, até mesmo os policiais podem ser surpreendidos por alguma pedra que, inexplicavelmente, cai a partir do teto (apport), como se o tivesse atravessado, e ainda podem presenciar outros acontecimentos anormais, como, por exemplo, alguma combustão “espontânea” em algum móvel ou uma xícara ou copo que sai do guarda-louça e vai se espatifar em uma parede situada a vários metros de distância (Andrade, 1989).

             Se você conhece alguma história assim (que, apesar de pouco divulgadas, são mais comuns do que se imagina), contada por algum conhecido, lida em algum jornal ou vivenciada pessoalmente, então provavelmente - caso a fraude, diante das buscas, praticamente tenha sido descartada - o leitor amigo está diante de um fenômeno típico conhecido como Poltergeist.

2º. – Definição de Poltergeist

            “Poltergeist” (pronuncia-se Poltergáiste) é uma palavra alemã, formada pela união de dois vocábulos: poltern = perturbar, fazer barulho, brincar, e Geist = espírito, fantasma. Assim, Poltergeist seria literalmente espírito barulhento, brincalhão, etc. 

     É uma palavra antiga, já citada, por exemplo, por Martinho Lutero, e foi criada pelas pessoas porque os fenômenos pareciam ser causados por fantasmas ou espíritos com a intenção de assustar ou mesmo agredir pessoas. Veja-se bem: o fenômeno parece ser dirigido para chamar a atenção e está ligado a certas pessoas. Muitos pesquisadores atuais, contudo, não aceitam a tese “espiritualista” para explicar o fenômeno e tentam não usar o termo já clássico “Poltergeist”, substituindo-o geralmente pelo termo técnico Psicocinesia Recorrente Espontânea (em inglês, Recurent Spontaneous Psychokinesis, ou RSPK), por acharem que todos os fenômenos do tipo Poltergeist podem ser explicados pela ação mental (inconsciente) sobre o meio físico (psicocinesia), onde, geralmente, um sujeito presente aos locais seria, sem que o saiba, o causador, ou, tecnicamente, o epicentro, do fenômeno.

  Cabe salientar que este tipo de psicocinesia espontânea é bem diferente das tentativas de estudo de psicocinesia (ou PK) em condições de laboratório onde, quando muito, os efeitos registrados são bem modestos, muitas vezes apenas perceptíveis por cálculos estatísticos. Mesmo os supostos epicentros de um Poltergeist tendem a ter resultados nulos ou bem modestos em experimentos de PK. Adicionando-se a isto o fato de que certos casos aparenta uma espécie de planejamento inteligente, obtendo objetos ou provocando ações de alta complexidade, leva outros pesquisadores a acharem que, ao lado do agente inconsciente que pode ser o fornecedor de alguma forma de energia cinética, em muitos casos (mas não todos) existiria sim alguma espécie de intencionalidade e planejamento inteligentes, sugerindo a presença de uma entidade não-física que se utilizaria desta energia, de forma intencional, para provocar os fenômenos. Cabe salientar que mesmo quando o sujeito aparentemente causador, epicentro inconsciente, é encontrado (geralmente devido ao fato de que a sua ausência dos locais onde ocorrem os fenômenos normalmente se correlaciona com a interrupção destes), este muitas vezes, durante os fenômenos, não apresenta qualquer alteração dos estados psicofisiológicos normais, nem fadiga física ou mental  (Andrade, 1989; Playfair, 1975).

3º. – Teorias sobre as causas de um Poltergeist

            Nos fala o Engenheiro e Professor Hernani Guimarães Andrade, fundado do Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísias, IBPP, em seu livro “Poltergeist, Algumas de Suas Ocorrências no Brasil” que:

Os especialistas com formação cientifica materialista questionam a cerca da causa do fenômeno. Eles acham inadequado o termo poltergeist, o qual insinua a intervenção de entidades desencarnadas, ou melhor, Espíritos de pessoas falecidas, de duendes, etc. A maioria dos investigadores admite que o poltergeist seja provocado à custa de certo tipo ainda desconhecido de energia produzida por determinada pessoa viva presente no local dos fenômenos. O presumível agente humano fornecedor da referida energia é tecnicamente chamado epicentro. Segundo esta hipótese de trabalho, o epicentro não só fornece a energia, como também pode comanda-la inconscientemente. (...) Usualmente atribuí-se tal poder a uma pessoa jovem, portadora de problemas de repressão. O poltergeist funcionaria como um meio de exteriorização ou escape da energia represada, energia esta relacionada com o desabrochar da atividade sexual. Decorreria daí uma estimulação da função psi-kappa (psicocinesia). O epicentro aplicaria inconscientemente suas energias para extravasar seus recalques (Andrade, 1989, pp. 5-6).

Esta é a teoria mais discutida, atualmente, mas que não é aceita, em sua totalidade, por todos os pesquisadores. Em especial, ainda resta esclarecer qual tipo de energia é esta que seria manipulada pelo epicentro e até onde esta está realmente ligada a uma ação aparentemente inteligente do inconsciente ou se a “energia” seria de fato doada pelo epicentro mas manipulada realmente por ele, de forma inconsciente. O mesmo autor acrescenta:
 Neste ponto, surge o problema da causa do Poltergeist. Não há, por enquanto, uma opinião unânime. Alguns parapsicólogos negam-se a aceitar a teses espiritualistas, que atribui os fenômenos de Poltergeist à ação de agentes desencarnados usando a “energia” do epicentro para atuarem sobre os objetos materiais. Outros pensam justamente o contrário e acham que o poltergeist é provocado exclusivamente por espíritos de defuntos, por certas categorias de agentes incorpóreos não humanos e, em casos extremados, até mesmo pelo demônio. Finalmente, há aqueles que optam pelo meio-termo e acham que podem dar-se ambos os casos: ação exclusiva psicocinética do epicentro ou a ação combinada compreendendo a iniciativa de um agente desencarnado que aproveita e dirige a “energia” psicocinética do epicentro, provocando os fenômenos físicos (Andrade, 1989, p.7).

Em uma parte considerável dos casos de Poltergeist (mas não em todos), no momento em que se pode, com algum grau de certeza, apontar-se o epicentro do fenômeno geralmente é possível associar a este a uma série características psicossociais encontrados em conjunto:

A)                           Em grande parte dos casos, o epicentro é um adolescente, na maior parte das vezes do sexo feminino. Há, porém, em menor número, casos de adultos. O sujeito em questão parece estar em atrito com parte dos familiares ou pessoas com quem convive;
B)                            O epicentro geralmente passa por uma fase de dolorosa instabilidade emocional, ligada às crises normais da adolescência ou responsabilidades da idade adulta;
C)                           O sujeito (epicentro) é quase sempre reprimido em sua agressividade e/ou sexualidade.

      Como este conjunto de características é normal em qualquer família com adolescentes, é de se estranhar que o fenômeno Poltergeist legítimo apareça tão raramente, embora haja uma estimativa de que todos os anos, surjam um certo número de casos, variando no grau de intensidade.

Nestes casos, o tratamento psicoterapêutico ajuda a reduzir ou eliminar o fenômeno, mas não em todos os casos. Em alguns, devido à influência religiosa, a psicoterapia às vezes é substituída por cultos religiosos, exorcismos, etc. Estas também, algumas vezes, funcionam como um tipo de psicoterapia exercendo alguma influência claramente psicológica, cartática, emocional sobre o epicentro, em especial se este se sente apoiado, amado e fazendo parte de um grupo em que se sinta parte integrante, mas novamente nem sempre funcionam a contento em todos os casos. Algumas vezes se utiliza complementarmente tanto um como outro "tratamento", o que ajuda bastante no controle ou extinção do fenômeno, mas novamente existem casos que continuam apesar disto.

 Convém também lembrar que o Poltergeist, via de regra, é uma ocorrência geralmente de duração limitada, e só em raríssimos casos podem durar por mais de alguns meses, raramente chegando a anos, e, ainda assim, de forma intermitente. O porquê destas variações ainda está em aberto.

 Destaque-se que, se em em geral, é possível determinar um ou mais prováveis epicentros, em certos casos mais complexos de Poltergeist é praticamente impossível achar-se um epicentro definido, ou mesmo mais de um.  Com a palavra novamente o Professor Hernani Andrade:
 Entre 13 e 16 de agosto de 1980, Karlis Osis e Donna McCormick apresentaram um trabalho da Vigésima Terceira Convenção Anual da Parapsychological Association, em Reykjavick, Islândia: “A Poltergeist Case Without na Identifiable Living Agente”.
Trata-se de um caos de poltergeist ocorrido em um velho casarão ao sul de Nova Jersey, o qual fora convertido em uma loja de artigos para presente, em 1970. durante um período de aproximadamente dez anos, a referida casa manteve-se infestada, observando-se ali vários fenômenos recorrentes: desarranjos e mau funcionamento inexplicáveis das instalações elétricas, movimento de objetos, ruídos audíveis e aparições ocasionais. Pelo menos vinte e quatro pessoas, de vários graus de conhecimento e de idade, puderam testemunhar os eventos mais importantes, sendo que inúmeras ocorrências foram presenciadas coletivamente. Entretanto, não houve meios de selecionar-se alguém que pudesse inambiguamente ser apontado como epicentro. Em muitas ocasiões não havia ninguém na casa e, mesmo assim, o sistema de alarme contra assaltos era acionado (Andrade, 1989, pp. 113-114).

4º. - Diferenças entre Poltergeist e Assombração

Apesar de, normalmente, serem os fenômenos de Poltergeist associados com os de assombração, existem características distintas para ambos. Vejamos algumas:

O Poltergeist geralmente ocorre com a presença de uma pessoa, ou algumas poucas pessoas, geralmente de uma mesma família, e costuma acompanhar estas nos locais onde se estabelecerem. A assombração, ao contrário, tende a se ligar a locais como casas, prédios, fazendas, etc.

O Poltergeist quase sempre aparenta ter um objetivo, qual seja o de pertrubar ou molestar certas pessoas, quebrar objetos, assustar. A assombração geralmente parece indiferente a pessoas ou visitantes dos locais onde atua. Apenas em alguns casos se mostra agressiva. Normalmente, o "fantasma" de uma assombração repete atos de forma aparentemente automática.

A duração de um Poltergeist geralmente varia de poucos minutos a alguns poucos anos, de modo flutuante. A assombração, contudo, pode permanecer por séculos. A assombração, em alguns casos, tenta se comunicar com alguém, mas não demonstra intenção de machucar ou causar dano. Neste casos, ela cessa após conseguir seu intento. Ademais, enquanto no Poltergeist existe claramente fenômenos físicos objetivos, nas assombrações os fenômenos são geralmente subjetivos, reduzindo-se quase sempre à aparições e audições de vozes ou ruídos. Entrentanto, em alguns casos, existem ocorrências mistas de todos estes fenômenos, tanto em Poltergeists quanto em Assombrações.

5. – Algumas estatísticas

  Em um levantamento obtido por Alan Guld e A D. Cornell, sobre um total de 500 casos de Poltergeist comprovados, apenas em 197 destes casos foram identificados os epicentros. Destes, 54 sujeitos (27%) eram do sexo masculino, e os outros 143 (73%), do sexo feminino.

 Da totalidade dos 500 casos, 152 deles ocorreram envolvendo pessoas com menos de 20 anos, portanto, em 30% dos casos totais. Agentes prováveis com mais de 20 anos totalizaram 19% dos casos (42 casos). Desta forma, dos 197 casos com epicentros conhecidos, 78% das pessoas tinham menos de 20 anos de idade. Mas o numero de pessoas-foco com mais de 20 anos também e significativo (Gauld & Cornell, 1979, p. 226).

Bibliografia

Andrade,  Hernani Guimarães, 1989. Poltergeist, Algumas de Suas Ocorrências no Brasil. São Paulo, Editora Cultrix/Pensamento.
Andrade, Hernani Guimarães, 2002. Parapsicologia, Uma Visão Panoramica. São
    Paulo, Editora FE.
Flammarion, Camille, 1924. As Casas Assombradas, Rio de Janeiro, FEB.
Gauld, Alan & Cornell, A. D., 1979. Poltergeist. London, Routedge & Kegan Paul.
Playfair, Guy Lyon (1975). The Flying Cow; London, Souvenir Press.

domingo, 11 de outubro de 2015

Willie Wonka satirizando a meritocracia




A derrota de Cunha é a derrota de Moro, da Lava Jato e da mídia. Reflexão de Paulo Nogueira

   O Ministéríio Público Suíço demonstrou a podridão de uma justiça comprometida, uma mídia golpista - que acha uma conta que não existe, e não consegue encontrar quatro que saltam aos olhos - e uma oposição hipócrita no Brasil. Leiam o texto de Paulo Nogueira, extraído do Diário do Centro do Mundo:


A derrota de Cunha é a derrota de Moro, da Lava Jato e da mídia. Por Paulo Nogueira


Agora vai ser difícil rir
Agora vai ser difícil rir
O grande azar de Cunha foi ter ficado ao alcance de quem não está sob seu domínio nem de seus amigos e aliados: a Suíça.
Foi o mesmo azar de Marin.
No Brasil, Cunha permaneceria impune como sempre aconteceu nestes anos todos de uma carreira obscura e cheia de acusações de delinquência.
Nem Moro e nem a Polícia Federal têm alguma ação sobre tipos como Cunha.
Isso mostra a face real do combate à corrupção que se trava no Brasil da Lava Jato.
Quem acredita nos propósitos redentores dessa cruzada demagógica acredita em tudo.
O alvo é um, e ele não inclui figuras como Cunha ou Marin.
Isso significa que, passado o circo da Lava Jato, nada de efetivo terá mudado – a não ser que se alterem profundamente a estrutura de fiscalização a roubalheiras no Brasil de forma que fiquem desprotegidos os plutocratas e amigos seus como Cunha.
O episódio deixa também exposta a imprensa.
O que ela fez para investigar Cunha nestes anos todos, e sobretudo nos últimos meses quando ele acumulou um poder extraordinário no Congresso graças a seu gangsterismo?
Nada. Nada. Mais uma vez: nada.
Não por inépcia, ou não por inépcia apenas. Mas por má fé, por desonestidade.
Cunha era aliado, porque significava um ataque permanente ao governo Dilma.
E aos aliados a imprensa não cobra nada. Veja como Aécio tem sido tratado. Como ele escapou de ser sequer citado como amigo de Perrela no caso (abafado por jornais e revistas) do helicóptero de meia tonelada de pasta de cocaína.
A derrota de Cunha frente às autoridades suíças é, também, a derrota de Moro, da Lava Jato e da imprensa, não necessariamente nesta ordem.
Tanto estardalhaço nas prisões dos suspeitos de sempre, e tanta permissividade em relação a tipos como Eduardo Cunha.
É preciso destacar também o papel patético, nesta história criminosa, do PSDB.
Já eram cabais as evidências contra Cunha e seus líderes, num universo paralelo, diziam que era preciso dar a ele o benefício da dúvida.
Este benefício jamais foi dado a ninguém fora do círculo de interesses do PSDB.
É uma demonstração incontestável de que a lengalenga anticorrupção do PSDB é a continuação da mesma estratégia golpistas que matou Getúlio e derrubou Jango.
É a velha UDN de Lacerda ressuscitada nos tucanos.
Na condição de morto vivo, ou morto morto, Eduardo Cunha cala sobre o que deveria ser dito – a questão das contas – e tagarela sobre o que é ridículo dizer.
Ele está se fazendo de vítima. Diz que está sendo perseguido pelo governo e pelo PT.
Não foi ele que roubou, não foi ele que barbarizou, não foi ele que criou contas secretas expostas pelas autoridades suíças: é o PT que está perseguindo.
A isso se dá o nome de doença.
É preciso louvar, por último, o papel de Janot.
Fosse nos tempos de FHC com seu engavetador geral, sabemos onde ia dar o dossiê dos suíços.
Na gaveta.
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Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Alberto Dines sobre as ousadias de Eduardo Cunha, o "caudilho ensandecido"



    "Ao garantir que permanecerá na presidência da Câmara, Eduardo Cunha não percebe que está oferecendo prova cabal da sua onipotência e periculosidade. Quem é acusado de abusar do poder durante tanto tempo e através de tantos ilícitos não tem credibilidade para garantir doravante um comportamento isento, insuspeito e imparcial." - Alberto Dines


CONJUNTURA NACIONAL > O CERCO A EDUARDO CUNHA

Sobre ousadias: dos patifes e dos decentes

Por Alberto Dines em 21/08/2015 na edição 864 do Observatório da Imprensa

No mesmo dia em que se confirmava a denúncia do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, contra Eduardo Cunha, o presidente da Câmara Federal, a ministra do STF Cármen Lúcia, declarou que o povo brasileiro sabe o que NÃO quer, porém “as pessoas boas” precisam expressar o que querem — com “a ousadia dos canalhas”.
Mineira legítima, a vice-presidente da nossa suprema corte, consegue ser veemente e arrasadora com a naturalidade de quem dá um bom-dia. Impedida de manifestar-se sobre um processo que ainda não examinou, tem sido capaz de oferecer aos vacilantes conceitos certeiros e opiniões inequívocas.
A verdade é que o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é dono de um potencial de ousadias suficiente para transformar a grave crise de governança que atravessamos em impasse institucional. O rol de malfeitorias e as penas solicitadas pelo Ministério Público eram suficientemente fortes para que na denúncia constasse a necessidade de afastar de imediato o acusado da função que exerce.
O procurador Rodrigo Janot preferiu não confrontar o STF antecipando-se ao seu julgamento e, com isso — a contragosto, certamente — garantiu ao denunciado o cenário e a audiência para uma performance de, pelo menos, seis meses num gênero de farsa que o presidente da Câmara de Deputados domina como poucos.
Eduardo Cunha é ousado porque não lhe sobram alternativas. Joga perigosamente porque não conhece outro jogo. Arrisca-se porque não tem o que perder, tal é o seu nível de desapreço por si mesmo. Suas apostas raramente são as mais recomendáveis e os predicados, que o ajudaram a se projetar de forma tão surpreendente, são geralmente mencionados com discrição e/ou eufemismos. Para evitar incômodos e incompreensões.
Impróprio qualificá-lo como kamikaze (do japonês, “vento divino”,) porque aqueles pilotos suicidas nipônicos, celebrizados durante a 2ª Guerra Mundial, se imolavam com pretextos espirituais e místicos. Já o personagem que domina as manchetes nos últimos dias, picado pela ambição e fanatismo só pensa em si mesmo.
Como qualquer cidadão, Eduardo Cunha tem o direito de se defender bem como servir-se dos instrumentos do Estado de Direito para provar a sua inocência. Mas em seu benefício não pode usar o poder que a sociedade lhe conferiu para preservar apenas o interesse público.
Ao garantir que permanecerá na presidência da Câmara, Eduardo Cunha não percebe que está oferecendo prova cabal da sua onipotência e periculosidade. Quem é acusado de abusar do poder durante tanto tempo e através de tantos ilícitos não tem credibilidade para garantir doravante um comportamento isento, insuspeito e imparcial.
Eduardo Cunha não pode continuar no cargo. O país não pode ser submetido à vergonhosa situação de manter no primeiro escalão alguém tão comprometido com a delinquência.
É indecorosa e quase obscena, a ambiguidade da oposição oferecendo um suporte ao denunciado pela facilidade de que dispõe para acionar um processo de impeachment da presidente da República. O que se espera da oposição e especialmente do PSDB é outra espécie de ousadia: a da “gente boa”, os decentes e honrados.
E qual das ousadias preferirá a mídia ?
A ousadia dos pirómanos, apocalípticos, belicistas ou, ao contrário, optará pela prudência e responsabilidade? A mídia terá a audácia de apoiar os delinquentes, aferrados ao projeto de interromper o mandato da presidente Rousseff a qualquer preço ou vai se atrever a apoiar os deputados que pretendem libertar a Casa do Povo do caudilho ensandecido?

Diante da marcha do fascismo no Brasil, a atualidade brutal de Hannah Arendt





  "Por isso, mais do que nunca, é importante revisitarmos a história, para não repetirmos os erros do passado. A direita saiu do armário e perdeu completamente os pudores. A oposição não tem mais vergonha de estimular a violência contra petitas, ou qualquer outro que julguem ser contra suas ideias, sejam eles ciclistas, feministas, homossexuais etc." - Carlos Eduardo


A atualidade brutal de Hannah Arendt


petista-morto
Por Carlos Eduardo, editor assistente do Cafezinho.
Os panfletos atirados nesta segunda-feira (5), durante velório do ex-presidente do PT, José Eduardo Dutra, revelam o nível em que chegou o ódio político no país. Um nível preocupante. Quando nem mesmo a morte de um adversário político é mais respeitada por aqueles que fazem oposição, sinal de que a sociedade está doente.
Qualquer semelhança com o passado não é mera coincidência. A escalada do fascismo no século XX ocorreu de modo semelhante. 
Por isso, mais do que nunca, é importante revisitarmos a história, para não repetirmos os erros do passado. A direita saiu do armário e perdeu completamente os pudores. A oposição não tem mais vergonha de estimular a violência contra petitas, ou qualquer outro que julguem ser contra suas ideias, sejam eles ciclistas, feministas, homossexuais etc.
O momento político atual é propício para assistir ao filme Hannah Arendt - Ideias que Chocaram o Mundo. Como ensinou a filósofa alemã, de origem judaica, e perseguida pelo nazismo, todas as sociedades fascistas têm algo em comum: a banalização do mal.
Abaixo segue artigo do professor Ladislau Dowbor sobre o filme de Hannah Arendt e como suas ideias permanecem atuais.
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hannah-arendt

A atualidade brutal de Hannah Arendt

Por Ladislau Dowbor, no Justificando.
O filme causa impacto. Trata-se, tema central do pensamento de Hannah Arendt, de refletir sobre a natureza do mal. O pano de fundo é o nazismo, e o julgamento de um dos grandes mal-feitores da época, Adolf Eichmann. Hannah acompanhou o julgamento para o jornal New Yorker, esperando ver o monstro, a besta assassina. O que viu, e só ela viu, foi a banalidade do mal. Viu um burocrata preocupado em cumprir as ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão, qualquer pensamento que não fosse o de bem cumprir as ordens. Pensamento técnico, descasado da ética, banalidade que tanto facilita a vida, a facilidade de cumprir ordens. A análise do julgamento, publicada pelo New Yorker, causou escândalo, em particular entre a comunidade judaica, como se ela estivesse absolvendo o réu, desculpando a monstruosidade.
A banalidade do mal, no entanto, é central. O meu pai foi torturado durante a II Guerra Mundial, no sul da França. Não era judeu. Aliás, de tanto falar em judeus no Holocausto, tragédia cuja dimensão trágica ninguém vai negar, esquece-se que esta guerra vitimou 60 milhões de pessoas, entre os quais 6 milhões de judeus. A perseguição atingiu as esquerdas em geral, sindicalistas ou ativistas de qualquer nacionalidade, além de ciganos, homossexuais e tudo que cheirasse a algo diferente. O fato é que a questão da tortura, da violência extrema contra outro ser humano, me marcou desde a infância, sem saber que eu mesmo a viria a sofrer. Eram monstros os que torturaram o meu pai? Poderia até haver um torturador particularmente pervertido, tirando prazer do sofrimento, mas no geral, eram homens como os outros, colocados em condições de violência generalizada, de banalização do sofrimento, dentro de um processo que abriu espaço para o pior que há em muitos de nós.
Por que é tão importante isto, e por que a mensagem do filme é autêntica e importante? Porque a monstruosidade não está na pessoa, está no sistema. Há sistemas que banalizam o mal. O que implica que as soluções realmente significativas, as que nos protegem do totalitarismo, do direito de um grupo no poder dispor da vida e do sofrimento dos outros, estão na construção de processos legais, de instituições e de uma cultura democrática que nos permita viver em paz. O perigo e o mal maior não estão na existência de doentes mentais que gozam com o sofrimento de outros – por exemplo uns skinheads que queimam um pobre que dorme na rua, gratuitamente, pela diversão – mas na violência sistemática que é exercida por pessoas banais.
Entre os que me interrogaram no DOPS de São Paulo encontrei um delegado que tinha estudado no Colégio Loyola de Belo Horizonte, onde eu tinha estudado nos anos 1950. Colégio de orientação jesuíta, onde se ensinava a nos amar uns aos outros. Encontrei um homem normal, que me explicava que arrancando mais informações seria promovido, me explicou os graus de promoções possíveis na época. Aparentemente queria progredir na vida. Outro que conheci, violento ex-jagunço do Nordeste, claramente considerava a tortura como coisa banal, coisa com a qual seguramente conviveu nas fazendas desde a sua infância. Monstros? Praticaram coisas monstruosas, mas o monstruoso mesmo era a naturalidade com a qual a violência se pratica.
Um torturador na OBAN me passou uma grande pasta A-Z onde estavam cópias dos depoimentos dos meus companheiros que tinham sido torturados antes. O pedido foi simples: por não querer se dar a demasiado trabalho, pediu que eu visse os depoimentos dos outros, e fizesse o meu confirmando a verdades, bobagens ou mentiras que estavam lá escritas. Explicou que eu escrevendo um depoimento que repetia o que já sabiam, deixaria satisfeitos os coronéis que ficavam lendo depoimentos no andar de cima (os coronéis evitavam sujar as mãos), pois veriam que tudo se confirmava, ainda que fossem histórias absurdas. Segundo ele, se houvesse discrepâncias, teriam de chamar os presos que já estavam no Tiradentes, voltar a interrogá-los, até que tudo batesse. Queria economizar trabalho. Não era alemão. Burocracia do sistema. Nos campos de concentração, era a IBM que fazia a gestão da triagem e classificação dos presos, na época com máquinas de cartões perfurados. No documentário A Corporação, a IBM esclarece que apenas prestava assistência técnica.
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Banalidade do mal: Panfleto atirado em frente ao velório do ex-senador José Eduardo Dutra, em Belo Horizonte, pede a morte de petistas 
O mal não está nos torturadores, e sim nos homens de mãos limpas que geram um sistema que permite que homens banais façam coisas como a tortura, numa pirâmide que vai desde o homem que suja as mãos com sangue até um Rumsfeld que dirige uma nota aos exército americano no Iraque, exigindo que os interrogatórios sejam harsher,ou seja, mais violentos. Hannah Arendt não estava desculpando torturadores, estava apontando a dimensão real do problema, muito mais grave.
A compreensão da dimensão sistêmica das deformações não tem nada a ver com passar a mão na cabeça dos criminosos que aceitaram fazer ou ordenar monstruosidades. Hannah Arendt aprovou plenamente e declaradamente o posterior enforcamento de Eichmann. Eu estou convencido de que os que ordenaram, organizaram, administraram e praticaram a tortura devem ser julgados e condenados.
O segundo argumento poderoso que surge no filme, vem das reações histéricas de judeus pelo fato de ela não considerar Eichmann um monstro. Aqui, a coisa é tão grave quanto a primeira. Ela estava privando as massas do imenso prazer compensador do ódio acumulado, da imensa catarse de ver o culpado enforcado. As pessoas tinham, e têm hoje, direito a este ódio. Não se trata aqui de deslegitimar a reação ao sofrimento imposto. Mas o fato é que ao tirar do algoz a característica de monstro, Hannah estava-se tirando o gosto do ódio, perturbando a dimensão de equilíbrio e de contrapeso que o ódio representa para quem sofreu. O sentimento é compreensível, mas perigoso. Inclusive, amplamente utilizado na política, com os piores resultados. O ódio, conforme os objetivos, pode representar um campo fértil para quem quer manipulá-lo.
Quando exilado na Argélia, durante a ditadura militar, conheci Ali Zamoum, um dos importantes combatentes pela independência do país. Torturado, condenado à morte pelos franceses, foi salvo pela independência. Amigos da segurança do novo regime localizaram um torturador seu, numa fazendo do interior. Levaram Ali até a fazenda, onde encontrou um idiota banal, apavorado num canto. Que iria ele fazer? Torturar um torturador? Largou ele ali para ser trancado e julgado. Decepção geral. Perguntei um dia ao Ali como enfrentavam os distúrbios mentais das vítimas de tortura. Na opinião dele, os que se equilibravam melhor, eram os que, depois da independência, continuaram a luta, já não contra os franceses mas pela reconstrução do país, pois a continuidade da luta não apagava, mas dava sentido e razão ao que tinham sofrido.
No 1984 do Orwell, os funcionários eram regularmente reunidos para uma sessão de ódio coletivo. Aparecia na tela a figura do homem a odiar, e todos se sentiam fisicamente transportados e transtornados pela figura do Goldstein. Catarse geral. E odiar coletivamente pega. Seremos cegos se não vermos o uso hoje dos mesmos procedimentos, em espetáculos midiáticos.
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Manifestantes protestam durante velório de ex-presidente do PT, em total desrespeito aos amigos e parentes
O texto de Hannah, apontando um mal pior, que são os sistemas que geram atividades monstruosas a partir de homens banais, simplesmente não foi entendido. Que homens cultos e inteligentes não consigam entender o argumento é em si muito significativo, e socialmente poderoso. Como diz Jonathan Haidt, para justificar atitudes irracionais, inventam-se argumentos racionais, ou racionalizadores. No caso, Hannah seria contra os judeus, teria traído o seu povo, tinha namorado um professor que se tornou nazista. Os argumentos não faltaram, conquanto o ódio fosse preservado, e com o ódio o sentimento agradável da sua legitimidade.
Este ponto precisa ser reforçado. Em vez de detestar e combater o sistema, o que exige uma compreensão racional, é emocionalmente muito mais satisfatório equilibrar a fragilização emocional que resulta do sofrimento, concentrando toda a carga emocional no ódio personalizado. E nas reações histéricas e na deformação flagrante, por parte de gente inteligente, do que Hannah escreveu, encontramos a busca do equilíbrio emocional. Não mexam no nosso ódio. Os grandes grupos econômicos que abriram caminho para Hitler, como a Krupp, ou empresas que fizeram a automação da gestão dos campos de concentração, como a IBM, agradecem.
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“Qualquer momento é momento de mandar um bandido embora. Até no enterro da minha mãe eu faria isso”, disse o aposentado de 60 anos com o cartaz na mão
O filme é um espelho que nos obriga a ver o presente pelo prisma do passado. Os americanos se sentem plenamente justificados em manter um amplo sistema de tortura – sempre fora do território americano pois geraria certos incômodos jurídicos -, Israel criou através do Mossad o centro mais sofisticado de tortura da atualidade, estão sendo pesquisados instrumentos eletrônicos de tortura que superam em dor infligida tudo o que se inventou até agora, o NSA criou um sistema de penetração em todos os computadores, mensagens pessoais e conteúdo de comunicações telefônicas do planeta. Jovens americanos no Iraque filmaram a tortura que praticavam nos seus celulares em Abu Ghraib, são jovens, moças e rapazes, saudáveis, bem formados nas escolas, que até acham divertido o que fazem. Nas entrevistas posteriores, a bem da verdade, numerosos foram os jovens que denunciaram a barbárie, ou até que se recusaram a praticá-la. Mas foram minoria.
O terceiro argumento do filme, e central na visão de Hannah, é a desumanização do objeto de violência. Torturar um semelhante choca os valores herdados, ou aprendidos. Portanto, é essencial que não se trate mais de um semelhante, pessoa que pensa, chora, ama, sofre. É um judeu, um comunista, ou ainda, no jargão moderno da polícia, um “elemento”. Na visão da KuKluxKlan, um negro. No plano internacional de hoje, o terrorista. Nos programas de televisão, um marginal. Até nos divertimos, vendo as perseguições. São seres humanos? O essencial, é que deixe de ser um ser humano, um indivíduo, uma pessoa, e se torne uma categoria. Sufocaram 111 presos nas celas? Ora, era preciso restabelecer a ordem.
Um belíssimo documentário, aliás, Repare Bem, que ganhou o prêmio internacional no festival de Gramado, e relata o que viveu Denise Crispim na ditadura, traz com toda força o paralelo entre o passado relatado no Hannah Arendt e o nosso cenário brasileiro. Outras escalas, outras realidades, mas a mesma persistente tragédia da violência e da covardia legalizadas e banalizadas.
Sebastian Haffner, estudante de direito na Alemanha em 1930, escreveu na época um livro – Defying Hitler: a memoir – manuscrito abandonado, resgatado recentemente por seu filho que o publicou com este título.3 O livro mostra como um estudante de família simples vai aderindo ao partido nazista, simplesmente por influência dos amigos, da mídia, do contexto, repetindo com as massas as mensagens. Na resenha do livro que fiz em 2002, escrevi que o que deve assustar no totalitarismo, no fanatismo ideológico, não é o torturador doentio, é como pessoas normais são puxadas para dentro de uma dinâmica social patológica, vendo-a como um caminho normal. Na Alemanha da época, 50% dos médicos aderiram ao partido nazista.
O próximo fanatismo político não usará bigode nem bota, nem gritará Heil como os idiotas dos “skinheads”. Usará terno, gravata e multimídia. E seguramente procurará impor o totalitarismo, mas em nome da democracia, ou até dos direitos humanos.
Ladislau Dowbor é professor de economia nas pós-graduações em economia e em administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e consultor de várias agências das Nações Unidas. Seus artigos estão disponíveis online em http://dowbor.org.

domingo, 4 de outubro de 2015

Ricardo Gondim sobre os pretensos "salvos" pastores mercadores da fé...



  "Ao contrário do que a maioria pensa, os religiosos são os primeiros a carecerem de salvação. O fermento que pode estragar o projeto de Deus para a humanidade pode vir, prioritariamente, dos autoproclamados salvos. Da arrogância de quem se vê eleito, o veneno da hipocrisia pinga devagar. E entre os religiosos, maior tentação sofre quem se considera ungido." - Ricardo Gondim


Jesus salva – primeiro, os religiosos 

Entre as parábolas que Jesus contou, uma inquieta bastante. Eis a narrativa de Lucas 18.9: “Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro publicano. O fariseu em pé, orava silenciosamente: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’.
O arremate de Jesus veio como um cruzado de esquerda no queixo dos religiosos: Eu lhes digo que este homem [o indigno publicano] e não o outro [o moralista religioso] foi para casa justificado diante de Deus.
Ao contrário do que a maioria pensa, os religiosos são os primeiros a carecerem de salvação. O fermento que pode estragar o projeto de Deus para a humanidade pode vir, prioritariamente, dos autoproclamados salvos. Da arrogância de quem se vê eleito, o veneno da hipocrisia pinga devagar. E entre os religiosos, maior tentação sofre quem se considera ungido.
Por isso Jesus quer salvar televangelistas, pastores, apóstolos e bispos. O evangelho promete redimir, inclusive, estrelas de primeira grandeza da religião. Mesmo difícil, o clero profissional pode ser alcançado pelo amor de Deus. Nenhum burocrata da fé está irremediavelmente perdido. Jesus salvou gente bem escolada no bê-a-bá da religião como Nicodemos, Zaqueu e Saulo de Tarso. Depois, o Novo Testamento lembra que o juízo divino começa pelas sacristias e gabinetes pastorais.
A grande mensagem do evangelho é que Deus ama a todos, incluindo, embusteiros, charlatões, exorcistas e cambistas do templo. Jesus deseja resgatar os cínicos que mantém seus colarinhos clericais alvejados no polvilho do oportunismo institucional. Milagreiros podem ser tocados e se arrependerem. Se é verdade que todos podem herdar a vida eterna, o que seria necessário para a salvação de um religioso?
Salvação chega à casa do religioso se ele se dispor a calçar as sandálias do pobre. Discursos idealizados, sem conexão com a realidade, se esvaziariam caso o sacerdote fosse obrigado a esperar por atendimento no banco enferrujado do ambulatório público. O evangelista, que gasta milhões alugando horário na televisão, precisa sentir o drama da mãe solteira, negra e subempregada, que não acha creche para deixar o filho. Desses que viajam de helicóptero, todo o apóstolo deveria se dispor a passar um mês ao lado de um pai que tenta proteger o filho de traficantes. A mensagem do evangelho é simples: Jesus, um dia, há de separar os bodes das ovelhas. As ovelhas serão conhecidas pela compaixão e os bodes, pela leviandade com que encaram a sorte do pobre.
Todo o que ostenta em nome do Nazareno precisa de salvação. Luxúria, desde a Idade Média, é pecado capital. Anéis, relógios e automóveis caríssimos apontam para um desvio grave: vários pastores e bispos embarcaram no carreirismo religioso. Muitos, vindos de infância pobre, usam a Bíblia para compensar a marginalização econômica que experimentaram um dia.
Cristo pode salvar o pastor que se mostrar sensível diante do que amarga horas em sessões de hemodiálise, da família que espera por transplante de pulmão para o familiar, do mutilado e paraplégico que reaprendem a andar em clínicas de fisioterapia, da crianças com câncer das Unidades de Tratamento Intensivo.
Os que vivem da oratória podem ser resgatados caso aprendam a se solidarizar com os refugiados de guerra. Há esperança para o sacerdote que valoriza o esforço dos Médicos sem Fronteiras – eles cuidam do refugo humano em grotões miseráveis mundo a fora. Enquanto um pastor tagarelar doutrina, no máximo, gera prosélitos – mas condena a si e seus seguidores ao inferno duplo da carolice.
Jesus pode libertar televangelistas desde que se resguardem de espoliar motoboy que arrisca a vida para ganhar um salário minguado, empregada doméstica que se submete a semi-escravidão, carvoeiro que vive na boca das fornalhas ou enfermeira que enfrenta longos plantões em hospital público. 
Pastor que insiste em propagandear superstição como milagre deve saber que está se comportando como o cego que guia cego.
Deus não tem prazer na perdição de nenhum religioso. Jesus insiste: Eis que estou à porta e bato. Ele quer entrar e cear na casa do piedoso que se fechou para ele. Enquanto perdurar o sistema que legitima a falsa piedade e pessoas se valerem do sagrado para confundir alucinação religiosa com esperança, é preciso voltar à parábola de Jesus. O fariseu, que se orgulhou de ser mais piedoso do que o pecador, saiu sem ser justificado e ainda ouviu: Pois quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado.
Soli Deo Gloria

Merlânio Maia sobre a hipocrisia da direita e golpistas que diziam "Somos Milhões de Cunha"





Diante da crise política do Brasil, pessoas defendiam os bandidos, que sempre foram corruptos e que se escornavam na direita, cujo mister é ser uma elite sanguessuga e ladrona, escravocrata, homofóbica, violenta e violadora dos direitos dos cidadãos, mas que na crise, iam às ruas, como se fossem bastiões da ética e moral. Verbalizando grosserias contra uma mulher corajosa que nunca roubou os cofres públicos.
Esta escória, vestida e travestida de elite, na ânsia de retornar ao poder a qualquer custo, deu um tiro no pé. Pois suas sujeiras e roubos e lepras morais começaram a exalar a fedentina que todo crime exala. Não deu para esconder!
Agora, seus pares temem ter suas escamoteações descobertas e de paladinos da ética, desceram tanto, com a exposição de quem de fato são seus ídolos, que silenciaram.
As redes sociais estão num vácuo de silêncio. As ruas vazias! E os tolos que apoiavam esta escória e servia de bucha de canhão, nas ruas, sequer mandam uma cartinha, pois estão corados da mais triste envergonha, pelo que fizeram dos seus ídolos de pano putrefato.
Aqueles que diziam: "Somos milhões de Cunhas!" Acunharam rumo ao país do silêncio dos enganados, pois começam a descobrir a mentira dos Agripinos, Cunhas, Calheiros, Neves, FHCs e os outros tantos... Todos com a pecha de escória da política brasileira.
Mas ainda tem um agravante: o silêncio e a intenção de manter um rato na direção do Congresso Brasileiro.
Até quando?

sábado, 3 de outubro de 2015

Brasil: um estado oficialmente Laico com uma poderosa e fundamentalista Bancada Evangélica





UM ESTADO LAICO COM BANCADA EVANGÉLICA

A Bancada Evangélica, suas ações e o Estado Laico, por Felipe Severo - extraído da revista O Viés


As bancadas conservadoras no Congresso Nacional nunca foram tão grandes em número e em influência quanto atualmente. A Bancada Ruralista, por exemplo, conseguiu aprovar no Senado, no dia 6 de dezembro de 2011, o novo Código Florestal, acusado por ambientalistas de dar brechas e até mesmo incentivar o desmatamento de vegetação nativa, em prol do agronegócio (Entenda o que muda com o novo Código Florestal clicando AQUI e AQUI). Foram 59 votos a favor e 7 contra e, a partir de agora, o texto volta para a Câmara, para a apreciação das alterações feitas pelos senadores, para depois ser encaminhado para a sanção da presidenta Dilma.
Porém a bancada que mais tem conseguido projeção neste mandato talvez seja a Bancada Evangélica. Segundo dados da própria Frente Parlamentar Evangélica, nas eleições de 2010, a bancada cresceu de 46 deputados (9% do total da Casa) para 68 deputados (13,2% do total), um crescimento de mais de 50%, se comparado ao tamanho da bancada no mandato anterior. No Senado, a bancada conta atualmente com 3 representantes: Walter Pinheiro (PT-BA), Magno Malta (PR-ES) e o bispo Marcelo Crivella (PR-RJ).
Se fossem comparadas às bancadas dos partidos, a Evangélica seria a terceira maior do Congresso, atrás apenas das do PT e do PMDB, e empatada com o número de parlamentares do PSDB. A força do grupo, liderado principalmente por religiosos e representantes da Assembleia de Deus, mostrou-se já durante a campanha, quando pautaram, juntamente com os membros da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a questão da legalização do aborto na agenda dos candidatos à presidência.
A atual distribuição dos membros das bancadas por partidos é a seguinte:
A bancada evangélica tem feito o monitoramento de 368 projetos da Câmara e do Senado, a maioria referente a questões de direitos individuais, e agido não de acordo com o programa dos seus partidos, legalmente constituídos e pelos quais foram eleitos, mas sim pelas orientações religiosas a que professam.
O último caso a chamar a atenção foi o Projeto de Lei nº 1.763/2007, que prevê o pagamento de um salário mínimo durante 18 anos para mulheres vítimas de estupro, para que mantenham a gravidez e criem seus filhos. O PL criada pela bancada ainda tem outro ponto bastante polêmico: a ideia de que psicólogos de orientação cristã atendam as mulheres vítimas de estupro, na tentativa de convencê-las sobre a importância da vida e de manter a gravidez. Tudo, obviamente, pago pelo Estado. Porém o próprio Código de Ética dos profissionais de Psicologia veta a indução a “convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual”.
Desde 1940, o artigo 128 do Código Penal permite a prática do aborto em apenas dois casos: se não há outro meio de salvar a vida da gestante (aborto terapêutico), ou se a gravidez resulta de estupro e há consentimento da gestante (aborto sentimental).
A ex-Ministra da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, Nilcéa Freire, disse em entrevista ao Estadão que a proposta “é retrocesso, uma proposta sem cabimento, equivocada desde o começo. Nós apoiamos a liberdade de escolha da mulher”.
Na mesma reportagem, a advogada Samantha Buglione, do Instituto Antígona e das Jornadas Pelo Direito de Decidir, afirma que “Há uma dificuldade em compreender que o Estado democrático surge para assegurar a liberdade de crença da população. Há uma confusão no entendimento de alguns parlamentares entre direito e moral, entre religião e política pública.”
Gráfico por João Victor Moura
Outro ponto fundamental da plataforma da bancada evangélica é a questão relacionada aos direitos da comunidade LGBTT. Vários já foram os ataques da bancada. O primeiro a criar polêmica diz respeito ao kit Escola sem Homofobia, erroneamente chamado pela bancada de “Kit gay”. O material do Ministério da Educação seria distribuído entre escolas de ensino médio, buscando esclarecer questões a respeito da diversidade sexual e, assim, diminuir os preconceitos dentro das escolas e da sociedade. Os parlamentares da bancada evangélica, no entanto, ameaçaram não votarem mais nada até que o kit fosse recolhido e, se a presidenta Dilma aprovasse o material, iriam convocar o então ministro da Casa Civil, Antônio Palocci, para prestar depoimento sobre seu rápido enriquecimento. A “chantagem” deu resultado e a presidenta mandou suspender o kit, chamando-o de “inadequado”.
A bancada agiu da mesma forma frente ao Estatuto do Juventude, aprovado na Câmara no dia 05 de outubro. O texto prevê, entre outras coisas, o pagamento de meia-entrada para os estudantes na faixa etária de 15 a 29 anos no transporte público e em eventos artísticos, culturais e de entretenimento em todo o território nacional (As atuais leis sobre a meia-entrada são de âmbitos estaduais e municipais). O ponto atacado pela bancada evangélica, no entanto, foi o que diz respeito ao tratamento de temas relacionados à sexualidade nos conteúdos escolares. O projeto do Estatuto da Juventude só seguiu adiante, para a apreciação do Senado, após a relatora, Manuela D’Ávilla (PCdoB – RS), acrescentar ao texto um adendo dizendo que o tema seria tratado “desde que respeitado a diversidade de valores e crenças”.
Em maio deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou com unanimidade a união homoafetiva estável (para saber mais do julgamento, clique AQUI) e, em outubro, o Supremo Tribunal da Justiça (STJ) aprovou o primeiro casamento homoafetivo, abrindo precedentes para a prática seja adotada em todo o país. A Frente Parlamentar Evangélica (Associação civil de natureza não-governamental, constituída no âmbito do congresso nacional, integrada por deputados federais e senadores da República), na pessoa do seu presidente, o deputado João Campos (PSDB-GO), entrou com um pedido de inclusão na legislação brasileira de um dispositivo que impeça que igrejas sejam obrigadas a celebrar cerimônias de casamento entre homossexuais. Porém, a proposta parece infundada, visto que em nenhum momento a aprovação da união estável e do casamento homoafetivos interfere nas práticas religiosas. Em entrevista ao G1, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) afirmou que “Isso é desespero para confundir a opinião publica, para jogar união publica contra o direito civil. O direito é publico, a fé é privada. Nenhum homossexual quer casar em igreja”.
Estes são apenas alguns exemplos das medidas tomadas pela bancada evangélica na tentativa de vetar alguns direitos individuais, principalmente aqueles relacionados à liberdade sexual. Além disso, ainda se trava no campo político e na sociedade em geral uma batalha referente à aprovação da PLC 122/2006, que prevê o crime de homofobia (saiba mais clicando AQUI), projeto contra o qual a bancada já criou passeatas públicas, alegando que a aprovação vai contra o direito de liberdade religiosa.
Gráfico por João Victor Moura
Os membros do Poder Executivo, vereadores, deputados estaduais ou federais, senadores, juízes de Direito, juízes federais, desembargadores, ministros de tribunal superior e presidente têm a obrigação que exercer suas funções de acordo com os princípios fundantes do Estado; Como a Laicidade é garantida por Constituição, os representantes do poder público deveriam agir em defesa da separação do Estado das Religiões. Porém não é isso que temos observado na prática. (Para mais informações sobre o nosso frágil Estado Laico, clique AQUI)
Pensando nisso, a procuradora em Brasília do município de São Paulo, Simone Andréa Barcelos Coutinho, defende uma reforma no código eleitoral que acabe com as bancadas católicas e evangélicas no Congresso Nacional. Para ela, é inconcebível que em um Estado Laico existam partidos que tragam em seu nome a palavra “Cristão”, por exemplo.
(Leia o artigo completo da procuradora Simone Andréa Coutinho clicando AQUI)
A medida pode parecer um tanto drástica, mas se formos analisar as falas dos atuais parlamentares que compõem a bancada evangélica, como o deputado federal Henrique Afonso (PT-AC), que disse: “O Estado deve garantir o que pensa a maioria e acredito que a maioria dos brasileiros acredita no que Deus prega, que é o direito à vida. Não posso separar o deputado do cristão”, notamos o quanto o debate é pertinente e urgente.
A consolidação do Estado Laico – garantido na nossa Constituição, mas como vimos, bastante frágil em sua prática – não é importante apenas para a comunidade LGBTT. Sua consolidação vem favorecer os praticantes de todas as religiões ou de nenhuma delas, que têm dessa forma asseguradas a sua liberdade de crença e de descrença.
Como diz a procuradora Simone Andréa Coutinho:
“O pluralismo, por si só, é incompossível com qualquer forma de união entre o Estado e qualquer religião, pois aquele significa a tolerância e o respeito à multiplicidade de consciências, de crenças, de convicções filosóficas, existenciais, políticas e éticas, em lugar de uma sociedade em que as opções da maioria são impostas a todos, travestidas de “bem comum”, “vontade do povo”, “moral e bons costumes” e outros. (…)
O Estado laico respeita e tolera, pois, a diversidade de crenças de toda sorte. Mais do que isso, atua em obediência necessária ao pluralismo de consciência, de crença, de culto ou de manifesta ausência de sentimento ou prática religiosa. Sobretudo, um Estado laico e pluralista conduz seus negócios, pratica seus atos e define o interesse público com total independência de qualquer religião, grupo ou sentimento religioso, ainda que francamente majoritário. (…)
A Constituição da Republica Federativa do Brasil determina que “ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” (art. 5º, inc. II). A religião, assim como a tradição, a ninguém obriga.”