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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Bob Fernandes: Petrolão, HSBC e Zelotes - barulho e manchete intensiva para uns, silêncio obsequioso para outros



Segue vídeo e texto com a análise de Bob Fernandes sobre os dois pesos e medidas de divulgação da justiça e mídia política para uns e silêncio estrondoso, para outros:





Na investigação do megaescândalo Petrobras há uma lógica nas ações do juiz Moro e procuradores: o garrote aperta de baixo para cima.
Pouco tempo de cadeia para quem delata. Essa é, tem sido a mensagem para donos das multinacionais Andrade Gutierrez, de atuação em 40 países, Odebrechet e OAS.
No rastro da Lava Jato, a OAS reduziu sua presença no mundo de 21 para 15 países. A Odebrechet, em 21 países, faturou R$ 107 bilhões em 2014.
César Mata Pires, genro de Antônio Carlos Magalhães, controla 90% da OAS. A fortuna de Mata Pires, que já bateu em R$ 7 bilhões, hoje está abaixo do bilhão.

Léo Pinheiro, sócio na construtora, está preso há 8 meses. Léo e Marcelo Odebrechet acompanharam delações, e o prêmio: pouquíssimo tempo de cadeia para quem delata.
Léo e Marcelo vivem dilema imposto pela lógica dos que comandam a Lava Jato: ou delatam, ou longa cadeia.
A reação a esse dilema é fazer uma conta, um balanço, numa outra lógica...
Por um lado, delatar parceiros nesse ramo significa fechar portas mundo afora, e mais fecha quanto mais suja for a porta.
Mas, por outro lado, se o escândalo minguar os negócios, ficar em silêncio já não terá sentido.
Empreiteiras corrompem Brasil afora. Sabido isso, surge a pergunta: ninguém delatou negociatas de empreiteiras com governadores e prefeitos, por exemplo?
Não há indícios ou provas de corrupção na relação entre empreiteiras, estados e prefeituras nos milhares de documentos apreendidos, ou recebidos da Suíça?
Legalmente, essa investigação, a Lava Jato, só pode ser feita sobre a Petrobras e as ramificações do caso.
Qualquer outro fato sobre corrupção em estados ou prefeituras, por exemplo, tem que ser remetido para Ministério Público local.
Procurador ou juiz que não fizer isso prevarica. Pergunta: sobre empreiteiras e corrupção de governadores, prefeitos, o que surgiu nos documentos ou delações? Nada?
Se quase tudo na Lava Jato vaza, por que Zero informação sobre o resto? No mundo real, o que move as "Instituições" é barulho, manchetes na Mídia.
Como provam a quase morta CPI das "Contas Secretas do HSBC", e a "Operação Zelotes" , bilionárias vítimas de silêncio tumular.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Por que a grande mídia brasileira, tão ligada à direita, começa a odiar o Papa Francisco?


As manifestações politizadas de Francisco tiveram pouca repercussão nas pautas nobres da grande mídia ou, então, foram rechaçadas por tipos como Reinaldo Azevedo e os folclóricos Ricardo Noblat, Olavo de Carvalho e o impagável Silas Malafaia. Mas e se ele tivesse defendido o liberalismo de direita?

Segue texto de Tarso Genro extraído do site Carta Maior (também pulicado no Pragmatismo Politico)

Por que a grande mídia brasileira odeia o Papa Francisco?

Não "habemus" mais Papa?





        Vamos imaginar uma situação diferente da que aconteceu na semana passada, na qual o Papa asseverou que o capitalismo é uma “ditadura sutil”, que a concentração monopolista dos meios de comunicação impõe “pautas alienantes” e gera um “colonialismo ideológico”, e supor o que ocorreria se o Papa defendesse a redução das funções públicas do Estado, o direito a monopolizar a formação da opinião, o mercado desregulado e o império cultural dos países ricos sobre os países pobres. Convém notar, em primeiro lugar, que as importantes manifestações do Papa tiveram escassos reflexos nas pautas nobres da grande mídia, com exceção da Folha de São Paulo, e só foram expandidas, como informação, pelas “redes” alternativas de comunicação.

   Creio que se o Papa tivesse defendido as posições já conhecidas do liberalismo de direita, teríamos o início de uma nova grande campanha contra o setor público, contra os pressupostos de um Estado Social de Direito e, certamente, um novo ciclo de propaganda dos “ajustes”, que tem massacrado as camadas sociais mais pobres de todos os continentes. Se o Papa tivesse adotado as posições já conhecidas da direita liberal, teríamos um novo ciclo de lavagem cerebral, de natureza ideológica, baseada num velho princípio que informou as saídas de crises, sob governos comprometidos com os mais ricos: na hora de bonança e crescimento concentremos renda, na hora de perdas e recessão distribuímos os prejuízos para baixo.

   Parece que todos aqueles colunistas, jornalistas, “especialistas” de plantão da grande mídia, que saudaram a emergência de um Papa que se locomovia de ônibus, que conhecia a vida dos pobres de Buenos Aires, que falava com palavras simples aos seus fiéis, não esperavam que ele fosse o homem que aparentava ser: um homem profundamente religioso, que não escondia as suas convicções de que o ser humano real, este que sofre os tormentos do capitalismo “sem alma”, merece a atenção e o carinho de uma Igreja que promete a salvação na eternidade.

   Nas memórias do grande diretor John Huston está transcrita uma carta do magnífico escritor B.Traven, autor do precioso, entre outros, “Tesouro de Sierra Madre”, que se tornou película dirigida por Huston e cujo personagem principal foi encenado por Humphrey Bogart. O escritor, que duvidava da seriedade de intenções dos que queriam transformar seu livro em filme diz, na carta citada por Huston: “Em Hollyhood todo mundo pensa unicamente em dinheiro e em novos contratos, ninguém pensa em fazer algo extraordinariamente grande.”

   Fazer “algo extraordinariamente grande”, mesmo se os tortuosos caminhos da História venham, depois -independentemente da vontade daqueles seres humanos especiais- desviar o curso da sua intencionalidade ética. O Papa deve ter pensado algo parecido, quando deu as declarações que afrontaram aqueles que, além de deter um poder extraordinário pela sua riqueza material, controlam a formação das opiniões a seu respeito. E o fazem porque subjugam o “direito humano à comunicação”, como diz aqui o nosso professor Pedrinho Guareschi, colocando as emoções a serviço da acumulação sem trabalho e profanando os corpos na chama irracional do consumismo.

   A Europa das Luzes teve capacidade de combinar, por um certo tempo, a emergência da cultura democrática com o escravismo; depois, fez conviver a democracia política com o colonialismo e seus massacres; hoje, depois do curto reinado social-democrata -na mesma Europa- a Alemanha, nação devedora do Século passado que jamais pagou suas dívidas de guerra, dá um passo trágico: faz da Grécia, estuprada pelo nazismo, a Câmara de tortura do capital financeiro. Nós, seres não especiais, dizermos isso que o Papa disse, é o trivial. O não-trivial é o Papa dizer isso, que ele disse, e a grande mídia praticamente censurar suas mensagens.

   Parece que, de repente, o essencial do que é o Papa, um ser humano solidário com os pobres e que desafia o capitalismo a ser verdadeiramente democrático, que não teme ser taxado de “esquerda” -parece que este Papa essencial- deixou de existir para a grande mídia, que o tratará, agora, como já fez um apressado colunista da mesma Folha, como um populista-peronista. O Papa, que não teve seu coração nem sua mente forjados pela direita midiática escapou do controle ideológico do neoliberalismo, e disse: sois seres humanos, não sois mercadorias. Não aceitem isso que aí está, façam algo extraordinariamente grande!

  Tarso Genro, Carta Maior

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Je suis Baga, Je suis Africa




 No último dia 08 de janeiro, um imenso massacre ocorreu no nordeste da Nigéria, efetuado pelos extremistas radicais do Boko Haram. Ao todo, 16 povoados foram massacrados, com incontáveis inocentes mortos. A Anistia Internacional informou que os ataques, realizados principalmente em Baga (estado de Borno) e cidades vizinhas, podem ter sido os “mais mortais do Boko Haram em um catálogo de ataques cada vez mais hediondos realizadas pelo grupo”. Onde está a comoção internacional diante deste massacre? Ou será que, na prática, o fato é de que a África não tem pessoas, ou que negros não valem tanto? Ou de fato, a midia apenas retrata o que é imposto pelo neoliberalismo: a vida só vale naquilo que represente ou se associe ao poder econômico?

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

"A mídia muito além da irresponsabilidade"



ECOS DA ELEIÇÃO

A mídia muito além da irresponsabilidade



Por Samuel Lima em 05/11/2014 na edição 823, Observatório da Imprensa

As eleições não findaram com a reeleição da atual presidente da República, no último dia 26 de outubro. Pelo menos no universo particular da mídia corporativa brasileira, e em especial nos discursos, análises categóricas, supostas evidências, predições do caos e simulacro de jornalismo. Alguém precisa dizer, em português do Brasil, às empresas de comunicação e seus principais porta-vozes, que a disputa acabou – e a maioria dos eleitores reelegeu Dilma Vana Rousseff, com mais de 54,5 milhões de votos.

Faço essa estranha constatação depois de observar o comportamento dos principais jornais impressos do país, seus comentaristas e colunistas (e alguns telejornais importantes), na primeira semana após o segundo turno das eleições presidenciais. O tom é de disputa eleitoral ainda. No alvo, centro da furibunda oposição midiática, está Dilma e seu partido. O fervor oposicionista de fazer inveja aos partidos que sustentaram a candidatura do senador Aécio Neves.

A metáfora que representa à perfeição essa estranha simbiose da mídia com o simulacro de um partido político esotérico está publicada na Folha de S.Paulo (edição de 28/10/2014): na página A3, o leitor acessa a “Carta à presidente”, texto assinado pelo empresário Abílio Diniz, presidente da Companhia de Alimentos BRF. Ator político por excelência, e usando sua inconteste legitimidade, Diniz saúda a presidente reeleita, apresenta a agenda do setor produtivo que ele representa e lhe deseja “bom governo”, assinalando: “A campanha política acabou, hoje é a vida real. Passado não se esquece, mas manda a sabedoria que se olhe com determinação para o futuro, pois é nele que vamos viver e construir” (Fonte: http://migre.me/mCXj6). Diniz reconhece a proposta de diálogo feito pela presidente, incluindo-se na prosa: “Como vencedora é você quem tem a condição de promover a nova união dos brasileiros. Essa responsabilidade é sua, mas é também de todos nós, empresários, e de todos os cidadãos” (Fonte cit.).

Questionamento patético

Na direção oposta, na página anterior da mesma edição da Folha, os três colunistas em uníssono mantém a lógica da disputa num fantasioso (seria fantamagórico?) terceiro turno. Hélio Schwartsman (“Dilma 2, a revanche”: http://migre.me/mCXxH), Eliane Cantanhêde (“Nós contra nós”: http://migre.me/mCXDA) e Carlos Heitor Cony (“Dilma contra Dilma”: http://migre.me/mCXJT) não deixam por menos e partem para o ataque.

Schwartsman dispara: “No front político, além do sinal amarelo emitido principalmente pelos eleitores das regiões de maior dinamismo econômico, a administração deverá ser assombrada por uma espécie de crise permanente”. Cantanhêde mantém o ataque: “Por isso, as Bolsas despencam, o dólar dispara. Mas engana-se quem pensa que é só um chilique do mercado, como o das mocinhas do Leblon, sem consequências. Com a economia e a indústria vacilando, quem mais vai sofrer é o pobre, a classe C”. Mas é o centroavante Cony quem vai disparar a nova “bala de prata” validando a farsa da revista Veja (dois dias antes do pleito): “A começar pela corrupção, que recebeu uma bomba atômica nas vésperas do pleito. Ela foi acusada de ter tido prévio conhecimento do que se passava na Petrobras, um conhecimento que pode até ser considerado uma cumplicidade, dependendo da apuração honesta das graves acusações e suspeitas que, afinal, estavam na cabeça e na boca de boa parte da opinião pública”.

Carlos Heitor Cony aposta sua credibilidade e dá o tom daquilo que viria a ser considerado o desatino total, do ponto de vista da oposição liderada pelo PSDB: “A minúscula margem de votos que obteve contra seu adversário estará encravada em sua garganta pelos próximos quatro anos do novo mandato. Se não fossem as urnas eletrônicas, que até prova em contrário são confiáveis, haveria elementos para a recontagem de votos”.
Cony, Cantanhêde e Schwartsman representam o coro de vozes da mídia, que também ecoou na forma de editoriais e convergiu, de forma geral. Não dialogam com ninguém e “pregam para convertidos”. Colunistas d’O Estado de S.Paulo, O Globo, Correio Braziliense e Valor Econômico mantiveram a “chama do terceiro turno” acesa. É o caso, por exemplo, de Rosângela Bittar, chefe da Redação do Valor, em Brasília. Em sua coluna “Dilma queima a largada” (29/10/2014, p. A10), Bittar escreve, entre acusações de que a presidente “abandonara o governo há quatro meses”, desprovida de qualquer fundamento nos fatos: “Do plebiscito da reforma política para o plebiscito – ou o decreto, ou a medida provisória – do controle da mídia será um pulo”.

Evidentemente que a mídia não joga sozinha. O PSDB apostou em dois factoides: o primeiro com o discurso do senador Aloysio Nunes, companheiro de chapa de Aécio Neves; o segundo, através do pedido de auditoria do resultado eleitoral, assinado pelo deputado federal Carlos Sampaio (PSDB-SP), que apresenta como “provas” posts publicados nas redes sociais de partidários seus com estapafúrdias acusações de fraude no sistema de urnas digitais do Tribunal Superior Eleitoral.

Neste segundo caso, é a voz insuspeita do blogueiro e colunista Ricardo Noblat (O Globo) que analisa: “O PSDB perdeu a eleição presidencial por pouco, mas não precisava perder a cabeça. Parece ter perdido. O partido pediu oficialmente ao Tribunal Superior Eleitoral uma auditoria especial nos resultados das eleições deste ano. Por que? Embora faça questão de dizer que confia na Justiça, o PSDB alega que manifestações em redes sociais questionam o processo eleitoral. Sim, foi isso mesmo o que você leu: manifestações em redes sociais questionam o processo eleitoral. Questionam também se o homem pisou na lua. E se Bin Laden de fato está morto” (Fonte: http://migre.me/mCYRW).

Desconstrução do negócio

O fato mais preocupante, contudo, é o discurso do senador Aloysio Nunes (PSDB/SP), vocalizado da tribuna do Senado Federal, em 28/10: “O candidato derrotado a vice-presidente na chapa de Aécio Neves, e líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira, declarou que não aceita a proposta de diálogo tal como formulada pela presidente Dilma” (Fonte: http://migre.me/mCZ7t). Abrindo mão de seu papel institucional – afinal cabe a oposição apresentar caminhos alternativos e disputar propostas com a situação, em respeito aos 51 milhões de eleitores que votaram em Aécio Neves –, o senador tucano prefere optar por um discurso obtuso, alegando que a Presidente reeleita “não tem autoridade moral para pedir diálogo com ninguém. Comigo não!”, justificando que fora alvo de ataques “nas redes sociais” – como se a sua coligação eleitoral não tivesse usado do mesmo e condenável expediente contra sua adversária. Foi acompanhado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no Estadão: “Diante do apelo ao diálogo da candidata eleita devemos responder com desconfiança” (p. A2, 02/11/2014).

O jornalista Rogério Gentile (“Arrogância na derrota”, Folha de S.Paulo, 30/10/2014) joga luzes sobre as explicações do tucanato nacional para a derrota no segundo turno. A primeira razão “atribui o resultado ao tom agressivo da campanha de Dilma, como se isso tivesse sido uma prerrogativa do PT. Não foi, obviamente. O PSDB também bateu duro nos adversários” (Fonte: http://migre.me/mCZE2). A segunda, “aliados de Aécio reclamam que ‘Minas falhou com um grande estadista’ e que os ‘mineiros não quiseram ter um presidente na linha de JK’. O PSDB, que esperava obter 2 milhões de votos a mais do que Dilma no Estado, perdeu em 608 das 835 cidades, em várias delas por mais de 80% dos votos. Ou seja, para os tucanos, a derrota não foi motivada por erros do candidato ou do partido, tampouco ocorreu por mérito da adversária. A culpa, ora bolas, é do eleitor”.

No outra ponta do debate posto, no seio da própria mídia, para “fechar no clima de disputa do terceiro turno”, essa responsabilização do leitor/eleitor é também exposta pela ombudsman da Folha de S. Paulo, Vera Guimarães Martins (“Apuração por telefone sem fio”, 2/11/2014, p. A6). Vera tenta defender o indefensável na decisão política e editorial do jornal de repercutir a peça eleitoral (não dá para classificar como reportagem, a meu juízo) da revista Veja. Em sua edição de sábado (25/10/2104, um dia antes do segundo turno) a Folha estampou em manchete: “Doleiro acusa Lula e Dilma, que fala em terror eleitoral”. Supostamente, duas fontes off confirmaram que o doleiro-delator havia feito tal acusação (algo negado, com veemência por seus advogados, indicando que tal depoimento nunca existiu). Escreve Vera, aprovando: “Atitude tecnicamente correta, mas que não livra o jornal do pecado original, a fragilidade de uma acusação baseada em declaratório sem provas” (Fonte: http://migre.me/mCZZS). Com efeito, a ombudsman admite que “a Folha também não encontrou nenhuma fonte que confirmasse a teoria (da existência do tal depoimento) – grifo nosso)”.

Vera Guimarães Martins conclui seu texto jogando a “bomba” no colo do seu leitor. Sem ter como justificar, do ponto de vista jornalístico a publicação do material publicitário de Veja, a jornalista decide consultar os leitores da Folha: “Sugiro o dilema: você, leitor, publicaria, mesmo com as deficiências aqui expostas, ou preferiria abrir mão, enfrentando suspeitas de ter se omitido para beneficiar este ou aquele candidato?” (Fonte cit.).

Assim se fecha a primeira semana do terceiro turno das eleições entre a mídia e a sociedade brasileira. Sim, porque sem partidos nem candidatos concorrentes, indica caminhos nebulosos, para além do limite da irresponsabilidade que os empresários da comunicação e seus porta-vozes mais notórios têm para com o futuro da democracia e da história do Jornalismo, no país. A julgar pelo tom e nível de decibéis, o terceiro turno se arrastará até outubro de 2018. A desconstrução do próprio negócio, com a erosão da credibilidade é algo que só diz respeito aos empresários e investidores das empresas jornalísticas. Mas, o Jornalismo é um patrimônio da sociedade e como tal deveria ser preservado desse tipo de aventura insana. A ver.

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Samuel Lima é professor da Universidade de Brasília (FAC/UnB), pesquisador do objETHOS/UFSC

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A modelagem da opinião pública pelo massacre midiático

Texto de Guilherme Bulos, extraído do Observatório da Imprensa:




Massacre Midiático


A opinião pública, outrora mais comedida, aderiu de forma radical ao antipetismo. PT virou sinônimo de bandalheira e seus eleitores são ignorantes que parasitam em torno dos programas sociais. Opinião pública, já disse Millôr Fernandes, nada mais é do que aquilo que se publica.

Antes de tornar-se um discurso amplamente difundido –em especial no Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país– o antipetismo foi cuidadosamente fermentado por um grupo bem mais seleto, o daqueles que publicam. Os 30 Berlusconi brasileiros na definição da organização europeia Repórteres Sem Fronteiras.

Agora que se apresentam chances reais de o PSDB retomar a presidência da República, o que era desgaste progressivo tornou-se massacre aberto. A guerra de baixa intensidade virou um bombardeio indiscriminado.

A página Manchetômetro (manchetometro.com.br) realizou levantamento das notícias positivas e negativas aos candidatos nestas eleições. O resultado revela muito sobre a imparcialidade do jornalismo brasileiro. Dentre os três principais jornais impressos do país, as chamadas de capa positivas para Dilma foram quatro. Para Aécio Neves, 32. Já as negativas, foram 176 para Dilma e 31 para Aécio.

No principal telejornal do Brasil, o “Jornal Nacional”, da TV Globo, a cobertura com notícias favoráveis para Dilma foi de quatro minutos e 14 segundos. Para Aécio foi de nove minutos e 52 segundos. No caso das notícias desfavoráveis, para Dilma o tempo foi de 53 minutos e para Aécio foi de sete minutos e seis segundos.

Onda conservadora

Não estamos falando apenas de parcialidade. Este limite já foi ultrapassado. Trata-se de bombardeio midiático contra a candidata do PT. Bombardeio agora intensificado com denúncias seletivamente vazadas de um inquérito supostamente sigiloso sobre a corrupção na Petrobras.

Que houve e há corrupção na Petrobrás parece certo. Que a imprensa tenha o papel de divulgá-la é algo inquestionável. Mas o mesmo critério deveria ser aplicado para o caso do aeroporto de Cláudio (MG) ou para o cartel fraudulento do metrô de São Paulo. Com o mesmo tempo, o mesmo tom acusatório e as mesmas proporções. Os números do Manchetômetro mostram outra coisa.

Mas, convenhamos, ao PT agora não adianta chorar. Teve 12 anos para levantar o debate da democratização das comunicações no Brasil e não o fez. Faltou coragem e sobrou soberba. Acreditou que o pacto social era uma mágica que duraria para sempre. Tornou-se neste caso –como em muitos outros– vítima da sua falta de ousadia para mudanças estruturais.

O monopólio das comunicações no Brasil é escandaloso. O relatório dos Repórteres Sem Fronteiras, publicado no ano passado, apenas diz o que é sabido desde muito tempo acerca da propriedade dos meios de comunicação no país. “As características do mecanismo geral de funcionamento da mídia estorvam a livre circulação da informação e impedem o pluralismo. Dez grandes grupos econômicos, correspondentes a outras tantas famílias, dividem entre si o mercado da comunicação de massas”, constata o relatório. Estas famílias são os 30 Berlusconi brasileiros.

Qualquer tentativa de debater criticamente essa estrutura é tachada como censura, numa jogada desses grupos para manter seus privilégios. São grupos econômicos bastante lucrativos, inclusive por meio de contratos de publicidade oficial. E não sejamos ingênuos, seus controladores têm posição política e classe social. Liberdade de comunicação é precisamente o que essa estrutura monopolista impede. O poder de informar a sociedade não pode ser propriedade de 30 famílias.

Mas, se o PT sequer questionou essa estrutura de privilégios, por que tanto ódio ao petismo? Eis a questão. Algo leva a crer que seja pelos mesmos motivos que, mesmo com lucros recordes dos bancos, a Bolsa sobe quando Dilma cai.

A elite brasileira, nas finanças ou na mídia, não aceita concessões. Por menores que sejam. São intolerantes mesmo às mudanças de menor impacto e menos ofensivas a seus interesses. Resta algo do espírito da casa grande: ódio aos pobres, aos nordestinos, aos negros. Não suportam ascensão social, mesmo quando isso reforça sua posição no topo. Querem exclusividade no aeroporto, na universidade e no poder político.

E, não menos importante, querem Armínio Fraga como ministro da Fazenda. Compreensível. Fosse eu banqueiro ou magnata também iria querer.

Por isso encaram a derrota do PT como a sua vitória. E naturalmente, tendo os meios de comunicação nas mãos, conseguiram produzir um sentimento que abarca também os de baixo. A corrupção caiu como uma luva na massificação do argumento.

O massacre que estamos vendo e veremos até o dia 26 revela a adesão em bloco da elite à candidatura de Aécio e sua aposta na polarização. Se ganharem, poderão consolidar uma onda conservadora no Brasil e na América Latina. Se perderem, podem ter que pagar pelo exagero da dose, já que polarização não é algo que possa se desmontar com a mesma facilidade com que se cria.

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Guilherme Boulos, 32, é formado em filosofia pela USP, professor de psicanálise e membro da coordenação nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto).