Mostrando postagens com marcador parcialidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador parcialidade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Mídia abandonou o jornalismo para ser “cão de guarda” da Lava Jato, por Cíntia Alves, no GGN




"É preciso desmistificar a atuação da imprensa que se apresenta como mediadora desinteressada." Durante toda a cobertura da operação, houve "usurpação da função judicial pela imprensa", em um "consórcio harmônico" com Moro e os procuradores, escreveu o juiz Marcus Gomes, ainda em 2016




Foto: Agência Brasil
Matéria publicada originalmente em 28/12/2018
Jornal GGN – Dois, três meses atrás houve quem prometesse chegar ao centro do poder público em janeiro de 2019 com a coragem de devolver a Lava Jato à sua “caixinha”. Passada a eleição presidencial, a estrela da operação, Sergio Moro, não vai para caixinha alguma, mas para o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro, com a missão de aprovar leis capazes de institucionalizar o modus operandi da chamada República de Curitiba.
Além da heterodoxia jurídica da própria força-tarefa, se tem um agente com crédito na ascensão meteórica de Moro – que leva consigo cabeças da Polícia Federal na Lava Jato – são os meios de comunicação de massa tradicionais.
Abandonando a responsabilidade de fiscalizar o Judiciário, a maior parte dos jornais mergulhou numa relação promíscua com a operação que derrubou Dilma Rousseff e inabilitou Lula eleitoralmente. Foi abastecida quase diariamente com informações que interessavam aos procuradores e ainda faz, com sua postura acrítica diante de abusos e extravagâncias avalizados por tribunais, a opinião pública acreditar que os fins justificavam os meios.
“Aquele que deveria fiscalizar os excessos do poder – e os das agências penais estão escancarados, à mostra, sem constrangimentos (maus-tratos e tortura policial, seletividade da clientela do castigo, superpopulação carcerária e condições degradantes das prisões, inquisitoriedade da persecução penal etc.) – acaba por se tornar um aliado da repressão penal, seu incentivador, ao fazer crer à massa que garantias fundamentais e direitos constitucionais são um pequeno obstáculo removível, um breve entretempo a ser logo superado em prol do punitivismo.”
Quem escreve isso, ainda em 2016, foi o juiz de Direito e professor da Universidade Federal do Pará, Marcus Alan de Melo Gomes, num artigo no qual faz crítica à cobertura jornalística da Lava Jato, publicado na Revista Brasileira de Ciência Criminal. Trabalho que ilustra bem a aptidão da imprensa em construir heróis nacionais, transformar investigações em novelas e dizer “amém” para julgamentos controversos, desde que o resultado seja de seu interesse.
Para Gomes, a imprensa tem se prestado historicamente a “cão de guarda do poder punitivo”, e com a Lava Jato não foi diferente. “O que a Operação Lava Jato veio confirmar foi algo que a crítica criminológica já aponta há vários anos: o emaranhado de conexões que aproxima a mídia do sistema penal, a ponto de falar-se mesmo em uma parceria entre esses dois universos, o comunicacional e o punitivo.”
No artigo, o juiz explica que há décadas a imprensa legitima “intensamente o poder punitivo exercido pela ordem burguesa, assumindo um discurso defensivista-social que, pretendendo enraizar-se nas fontes liberais ilustradas, não lograva disfarçar seu encantamento com os produtos teóricos do positivismo criminológico, que naturalizava a inferioridade biológica dos infratores. Esse fenômeno parece ser cíclico e se repete no contexto neoliberal de nossos dias, acentuado pelas nuances de um modelo de Estado mínimo na afirmação de direitos e máximo no controle penal, e por uma imprensa inserida nas engrenagens das grandes corporações comunicacionais, que não mais fiscalizam o poder, pois também o exercem. O cão de guarda das democracias atuais tem um especial interesse na legitimação do poder punitivo. E ele não apenas late. Também morde.”
“É preciso desmistificar”, portanto, “a atuação da imprensa que se apresenta como mediadora desinteressada” em relação aos produtos da Lava Jato. Porque, na prática, em vez de “informar para emancipar, a mídia noticia para distorcer e cegar”, escreve.
Segundo Gomes, o conluio Lava Jato-mídia soube utilizar o perfil dos investigados (empresários, agente públicos e políticos, em sua maioria ricos) para “criar no imaginário coletivo a ilusão de uma distribuição igualitária de justiça penal.”
“Cria-se um cenário visual muito apropriado ao espetáculo, que reforça o discurso da moralização da política ou da purificação da moral política pela via punitiva.”
Outro “elemento significativo” na análise é a interação nas redes sociais. “Trata-se de um meio em que vigora a velocidade, fluidez e superficialidade das relações e que proporciona uma imensurável reverberação de opiniões, versões e informação. Um verdadeiro catalisador de notícias que potencializa a aptidão dos mass media para construir a realidade social.”
“Pode-se dizer, à margem de exageros, que a cobertura midiática da Operação Lava Jato representa o marco de uma nova etapa comunicacional caracterizada pela dinâmica tecnológica que cada vez mais define o mundo e a vida das pessoas e que pode ser ilustrada pela seguinte equação: mídia x redes sociais = construção da realidade social. Ao já conhecido fenômeno do trial by media soma-se agora o trial by social network”, descreve.
O então juiz Moro, despachando da 13ª Vara de Curitiba, mais parecia personagem do “Big Brother da Justiça”, “o mais recente reality show em que a privacidade de investigados, ainda que nada tenham a ver com os fatos apurados, é exposta ao público sem qualquer propósito útil para a persecução penal.” É só lembrar do vazamento de conversas entre a ex-primeira-dama Marisa Letícia, esposa falecidade de Lula, e familiares.
Na opinião de Gomes, “impressiona” o volume de meios de prova obtidos pela Lava Jato que deveriam estar sob sigilo, mas acabam “prematuramente acessados pelos meios de comunicação.”
“Há desses episódios em que se pode mesmo vislumbrar uma preocupante cumplicidade entre a justiça e a mídia, como, por exemplo, por ocasião do levantamento do sigilo de um breve diálogo telefônico envolvendo a presidente da república Dilma Rousseff e seu antecessor na função, Luiz Inácio Lula da Silva, e cujo conteúdo dizia respeito à nomeação deste último para um alto cargo do governo. (…) É no mínimo surpreendente que tal providência [o vazamento do grampo para emissora do grupi Globo] tenha sido adotada poucas horas depois da captação do áudio da conversa, e sem qualquer finalidade útil para a investigação policial, ao menos aparentemente. A divulgação do diálogo pelos meios de comunicação foi quase instantânea. Não houve, nessa aproximação – melhor seria dizer parceria? – entre a justiça e a mídia, a satisfação de qualquer interesse da persecução penal.”
Gomes criticou ainda o vazamento de acordos de colaboração premiada, “em completo desrespeito à presunção de inocência”, inclusive atingindo pessoas que sequer são alvos de investigação. Para ele, a divulgação de pequenos trechos “proporciona eficazmente a seletividade da informação, revelando o que se pretende disseminar, e escondendo o que se deseja ocultar.”
“A consequência mais nefasta dessa associação é o que Bourdieu chama de ‘uma verdadeira transferência do poder de julgar’, efeito que, no âmbito da Operação Lava Jato, se percebe pela forma como as decisões proferidas pelo juiz da 13.ª Vara Criminal Federal de Curitiba satisfazem as expectativas punitivas alimentadas pela repercussão midiática da investigação. A usurpação da função judicial pela imprensa e a mudança indevida do locus do julgamento encontraram eco na própria atividade jurisdicional, em um consórcio harmônico em que um conta com o apoio do outro para justificar suas escolhas e ações.”
É toda essa “pirotecnia tecnológica dos meios de comunicação”, “que escraviza a atenção da massa e elimina qualquer pretensão de que o debate público seja pautado por reflexões críticas e isentas sobre a dinâmica do poder punitivo”, que contribui para a criação e adoração do mito do “juiz justiceiro, destemido, incensurável, resignado ao sacerdócio da magistratura, que compreende e concretiza os anseios coletivos de combate à impunidade dos poderosos.”
“Não sem razão, portanto, a construção midiática desse episódio posiciona, no outro extremo do espetáculo, aqueles que legitimam a ação do paladino da virtuosidade: os investigados e réus. (…) O embate do bem contra o mal, da virtude contra o defeito, do digno contra o indigno, se materializou com a representação do ex-presidente da república Lula por um boneco plástico inflável em trajes de presidiário, cuja imagem foi divulgada em praticamente todas as notícias sobre as manifestações públicas relacionadas à investigação.”
Foi nesse contexto de relação promíscua e cobertura jornalística desequilibrada que Lula foi sacado das eleições presidenciais pela Lava Jato, após a condenação no caso triplex. O final, todos sabem: sem o petista no páreo, Bolsonaro levou a eleição no segundo turno. E convidou Moro a fazer política sem toga.

domingo, 20 de janeiro de 2019

A roupa suja da CNN Brasil: escravidão, grampos e Edir Macedo em Artigo de Pietro Locatelli e Andrew Fishman publicado no The Intercept





A roupa suja da CNN Brasil: escravidão, grampos e Edir Macedo

Piero Locatelli, Andrew Fishman — 12h20

Os escândalos do Rubens Menin e Douglas Tavolaro, os fundadores da CNN Brasil, levantam dúvidas sobre a integridade editorial da nova emissora.












The intercept. - OS JORNALISTAS DA CNN em inglês usam constantemente o termo “extrema direita” para se referir ao presidente Jair Bolsonaro e já se referiram a ele como “um político brasileiro conhecido por seus pronunciamentos misóginos, racistas e homofóbicos”.
Anunciada na segunda-feira passada, a CNN Brasil deve seguir um caminho bem diferente, ao menos se depender do histórico dos seus dois sócios. Um deles é Douglas Tavolaro. Coautor da autobiografia do seu tio, o pastor Edir Macedo, foi ele o responsável pela aproximação entre o líder da Universal e Jair Bolsonaro. Antigo vice-presidente de jornalismo da Record, ele esteve por trás das entrevistas laudatórias feitas pela emissora com Bolsonaro durante a campanha.
O outro sócio do novo canal será o empresário mineiro Rubens Menin, fundador da MRV, a maior empresa de construção civil do país. Líder no Minha Casa Minha Vida, a empresa também conta com um histórico de trabalho escravo em suas obras, e uma participação no lobby contra o combate ao crime no Brasil.
Assim como Tavolaro, Menin teceu diversos elogios a Bolsonaro, aos generais do seu governo e até à proximidade com seus filhos. Assim como Bolsonaro, Menin mistura família e negócios, e hoje seu filho Rafael comanda a sua empresa. “A participação da família de forma profissional, legítima e justa é salutar na vida das empresas. Bolsonaro está demonstrando que na política isso também é possível”, disse ele em entrevista ao Correio Braziliense, após afirmar que os empresários são “eufóricos” com o futuro sob o novo presidente.
Na sexta-feira, Menin e Tavolaro se reuniram com o presidente e seu filho Eduardo no Palácio do Planalto. No início desta semana, Eduardo twittou seu ceticismo sobre a nova emissora.
Menin esperou a eleição passar para poder se posicionar sobre a contenda presidencial. Consciente de que o risco político não pode atrapalhar os seus negócios, já doou para candidatos de cargos inferiores de vários partidos, mas só começou a elogiar Bolsonaro um mês após as eleições. A assessoria de imprensa da CNN Brasil negou que essa posição política do dono haverá qualquer influência em seu canal.
Menin, que foi extremamente próximo dos três últimos presidentes brasileiros, agora está fazendo movimentos para se aproximar de Jair Bolsonaro. É um homem ligado ao poder, esteja ele na mão de quem estiver.
A CNN Brasil começará sua operação na segunda metade de 2019, e pretende contratar 400 jornalistas, um número impressionante para o atual mercado do jornalismo por aqui. Uma nota à imprensa afirma que a CNN Brasil terá total independência, mas poderá passar o conteúdo produzido em outras línguas. Não foi a primeira tentativa de trazer o canal para cá, mas aquelas feitas nos últimos vinte anos fracassaram.
Rubens Menin, chairman and chief executive officer of MRV Engenharia e Participacoes SA, speaks during the 2017 Exame Chief Executive Office (CEO) event in Sao Paulo, Brazil, on Tuesday, Aug. 8, 2017. Executives from companies based in Brazil meet to discuss strategies to succeed in today's Brazilian economy. Photographer: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images
Rubens Menin, fundador da MRV Engenharia e Participacoes SA, fala durante o evento Exame Chief Executive Office event em São Paulo em 2017.
 
Foto: Patricia Monteiro/Bloomberg via Getty Images

Trabalho Escravo

A CNN mantém, desde 2011, o Freedom Project, um projeto dedicado a “jogar luz sobre a escravidão contemporânea”. Ele tem entre seus objetivos “amplificar as vozes dos sobreviventes” e “responsabilizar governos e empresas”. Na sua descrição, afirma que “a escravidão não é coisa do passado.”
Em 2019, a escravidão perdura, mas a posição da CNN parece ter mudado ao conceder o uso da marca a Menin. Sua construtora foi colocada na “lista suja” do trabalho escravo por violações em três locais de trabalho diferentes. Mais do que apenas uma mancha de reputação, a lista impedia que as empresas contraíssem empréstimos do governo.
Quando a MRV foi colocada na lista, Menin defendeu veementemente sua empresa e começou a trabalhar obstinadamente para atrapalhar a luta do Brasil contra o trabalho escravo. A Abrainc, uma associação de incorporadores liderada por Menin, entrou com um processo no Supremo Tribunal Federal para suspender a lista.
O pedido foi atendido pelo então presidente do STF, Ricardo Lewandowski, durante o recesso de Natal. Menin recebeu uma decisão favorável em apenas quatro dias e a lista, considerada um exemplo por entidades como a Organização Internacional do Trabalho, foi imediatamente desmantelada.
A lista voltou mais enxuta, e não contém mais o nome da MRV. Além disso, ela também não tem mais o poder de cortar o crédito de ninguém. Se tornou um mero decorativo.
Quando Michel Temer tentou emplacar uma portaria para atrapalhar o combate ao trabalho escravo no Brasil, usou um exemplo da MRV para dizer que os fiscais estavam atuando de maneira exagerada. A MRV, claro, negou estar por trás disso.
A CNN não quis comentar os problemas em específico, e se resumiu a afirmar a mim por e-mail que “faz uma auditoria abrangente de todos seus parceiros de licenciamento. Esse é o caso dos licenciados que vão operar a CNN Brasil, que têm nosso total apoio”.
Rubens Menin fez sua fortuna rapidamente, de forma aparentemente milagrosa. Em quatro anos, sua empresa saltou do 12º lugar para o primeiro no ranking das maiores construtoras civis brasileiras, onde permanece até hoje. Em 2014, a Forbes estimou seu patrimônio líquido em US$ 1,2 bilhão.
Embora Menin defenda valores econômicos liberais em seus textos e entrevistas, sua fortuna foi feita com financiamento público. A empresa é a principal construtora do Minha Casa, Minha Vida. Ele opera principalmente nas faixas 2 e 3 do programa, voltadas à classe média e com financiamento baseado no FGTS.

Fox News do Brasil

Menin anunciou a nova estação de televisão ao lado de seu sócio e futuro CEO da CNN Brasil, Douglas Tavolaro. Por quase 10 anos, Tavolaro atuou como vice-presidente de jornalismo da Record TV, que se tornou um porta-voz não-oficial do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro durante e após as eleições de outubro.
Depois de um punhado de aparições desastrosas na TV durante a campanha e de receber uma facada, Bolsonaro decidiu controlar rigidamente o acesso à mídia e não participou de outros debates.
Sem Bolsonaro, a Record cancelou o debate entre os candidatos que aconteceria no seu canal, ao contrário de outras emissoras, que levaram os programas adiante mesmo sem ele. No dia do último debate na Globo, a emissora do bispo exibiu uma entrevista chapa-branca com Bolsonaro enquanto os outros candidatos discutiam propostas no outro canal.
A proximidade continuou após as eleições. Entrevistas recheadas de parabéns ao novo presidente, sem jamais pressioná-lo, foram exibidas na televisão, sempre sob a supervisão de Tavolaro.
Em Outubro do ano passado, o Intercept publicou uma longa declaração de um jornalista do site da Record, o R7, que reclamou de novas diretrizes editoriais para beneficiar a campanha de Bolsonaro. Como resultado, o R7 publicou um ataque ao Intercept enquanto um repórter investigativo da TV Record começou a pesquisar uma matéria mais aprofundada, que nunca foi ao ar.
As relações políticas de Tavolaro não começaram com Bolsonaro. No ano passado, escutas telefônicas da polícia revelaram suas negociações com Aécio Neves, que iria ajudá-lo a conseguir verbas de patrocínio da Caixa Econômica Federal em troca da exibição de uma entrevista com o então-presidente, Michel Temer.
Em março do ano passado, o Intercept revelou que a esposa de Tavolaro, Raissa Caroline Lima — que era uma assessora bem-paga na Assembléia Legislativa de São Paulo — viajava regularmente pelo mundo com o marido durante as votações-chave em que deveria estar presente. O Intercept Brasil não conseguiu localizá-la em seu escritório. O trabalho remoto para os funcionários é estritamente proibido na Assembléia, uma medida para reprimir o uso de funcionários fantasmas. Alguns meses depois, Lima foi discretamente exonerada de seu cargo.
Nos últimos anos, Tavolaro teria se afastado de algumas das tarefas do jornalismo cotidiano para ser o co-autor da biografia e de dois roteiros de filme sobre Edir Macedo. Ele agora parece estar se afastando de Macedo para lançar a CNN brasileira, uma marca obtida da Turner Broadcasting System por uma quantia desconhecida. A assessoria de imprensa negou especulações de que Edir Macedo tenha envolvimento direto no novo projeto.
A Record tenta se aproximar da CNN desde 2007, mas a emissora norte americana rejeitou suas ofertas, pois não queria ser associada à poderosa mega-igreja evangélica de Macedo.
Há anos, a direita brasileira tem clamado por sua própria versão da Fox News, enquanto a Record e SBT deram passos nessa direção, é um sonho que nunca foi totalmente realizado. A chave para desvendar esse sonho pode estar na combinação de Rubens Menin e Douglas Tavolaro sob a bandeira da CNN Brasil.
Nem todos, no entanto, estão convencidos. Ativistas de extrema direita alinhados com Bolsonaro já foram ao Twitter para criticar a nova rede. “CNN BRASIL vai contratar 400 jornalistas para difamar a mudança pela qual o Brasil está passando?”, twittou um funcionário do blog de fake news Terça Livre. “É o [George] Soros quem vai mandar naquela joça”, referindo-se ao filantropo liberal, um frequente bicho papão em teorias de conspiração da extrema-direita (o fundo de Soros detém uma pequena participação na empresa-mãe da CNN). Luciano Hang, o empresário que o Ministério Público do Trabalho quis multar em R$100 milhões por coagir seus funcionários a votar em Bolsonaro, também tuitou criticamente sobre o acordo: “Mais uma TV comunista no Brasil. Alguém pode montar uma Fox?”
Então, será que a CNN Brasil será uma conspiração comunista apoiada por Soros, tentando acabar com o movimento Bolsonaro? Menin respondeu a Hang: “Luciano, não caia nessa história.”
Dependemos do apoio de leitores como você para continuar fazendo jornalismo independente e investigativo. Junte-se a nós 

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Alain de Botton e a construção do Reich bananeiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro




"Engajada na campanha de guerra contra o PT que resultou no golpe de 2016 contra Dilma Rousseff e, posteriormente, na eleição de Jair Bolsonaro, a imprensa brasileira se tornou uma característica fundamental do autoritarismo. Em breve os jornalistas serão convidados a ser fiadores da tirania bolsonariana que já se insinua nas redações dos jornais, nas ruas e nas escolas públicas. "


Por Fábio de Oliveira Ribeiro, no GGN:

A eleição de Bolsonaro e as primeiras ações do Sieg Heil Führer me fizeram readquirir interesse por esse livro que comprei e li há alguns anos.
“Na política moderna, existe uma noção fundamental – uma ideia muito bela e majestosa – de que cada cidadão, ainda que de forma modesta, é governante do país onde vive. O noticiário desempenha um papel central no cumprimento dessa promessa, por ser o canal por meio do qual encontramos os dirigentes, avaliamos sua capacidade de gestão e desenvolvemos nossas posições sobre os desafios econômicos e sociais mais prementes da época. As agências de notícias estão longe de ser características secundárias das democracias – na verdade, são suas fiadoras.”(Notícias – Manual do usuário, Alain de Botton, Intrínseca, Rio de Janeiro, 2015, p. 27).
Engajada na campanha de guerra contra o PT que resultou no golpe de 2016 contra Dilma Rousseff e, posteriormente, na eleição de Jair Bolsonaro, a imprensa brasileira se tornou uma característica fundamental do autoritarismo. Em breve os jornalistas serão convidados* a ser fiadores da tirania bolsonariana que já se insinua nas redações dos jornais, nas ruas e nas escolas públicas. 
Bolsonaro não é tolerante como Dilma Rousseff. A presidenta petista caiu porque preservou a liberdade de imprensa. Desde que foi eleito o Sieg Heil Führer tupiniquim deixou bem claro que não irá tolerar críticas. Ele prometeu punir financeiramente as empresas de comunicação que façam oposição ao seu governo. Isso foi o suficiente para convencer* algumas delas a demitir jornalistas que criticaram Bolsonaro.
A censura estatal é proibida expressamente pela CF/88. A autocensura derivada do medo de uma punição financeira pode ser considerada imoral, mas dificilmente um Tribunal a consideraria ilegal a redução e/ou o redirecionamento das verbas públicas de propaganda da União e de suas autarquias e empresas públicas. Além disso, Bolsonaro pode perfeitamente disfarçar sua estratégia recorrendo à uma outra: usar as empresas que irão apoia-lo para inundar a sociedade com Fake News e informações favoráveis ao seu governo disfarçadas de notícias isentas:
“Um ditador contemporâneo empenhado em se firmar no poder não precisaria tomar uma atitude tão declaradamente sinistra quanto proibir a divulgação de notícias. Bastaria dar um jeito para que as organizações jornalísticas divulgassem uma torrente de boletins aleatórios, fornecendo uma grande quantidade de informações, mas com pouco explicação do contexto. Além disso, dentro de uma programação que não para de mudar, tratando como sem relevância uma questão que pouco antes parecia premente e salpicando atualizações constantes das peraltices interessantes de assassinos e estrelas de cinema. Isso já seria mais do que suficiente para minar a capacidade da maioria de compreender a realidade política e qualquer determinação que por acaso tivessem mobilizado para modificá-la. Uma enxurrada de notícias, e não sua proibição, seria suficiente para deixar o status quo inalterado para sempre.” (Notícias – Manual do usuário, Alain de Botton, Intrínseca, Rio de Janeiro, 2015, p. 29)
Nenhuma tirania pode construir a realidade através da propaganda ou usar o jornalismo para impedir sua destruição eleitoral programada. Mas é evidente que um tirano pode se manter no poder por um tempo razoável se for capaz de criar múltiplas realidades para dividir a população e manter seu foco de atenção distante dos abusos governamentais. Putin tem utilizado essa estratégia para ser reeleito indefinidamente. Em troca de favores financeiros, a Rede Globo ajudou os militares a ficarem no poder 20 anos. O clã Marinho elegeu Fernando Collor e ajudou a derrubá-lo.
O poder simbólico da TV aberta está decrescendo em virtude da internet. Entretanto, a história recente do país demonstrou que os blogues não foram capazes de garantir o mandato de Dilma Rousseff ou impedir a eleição de Bolsonaro.
Há alguns meses a imprensa deu grande importância à possibilidade da eleição de 2018 ser anulada por causa do uso eleitoral de notícias falsas https://veja.abril.com.br/brasil/luiz-fux-eleicoes-podem-ser-anuladas-por-causa-de-fake-news/. Algumas empresas de comunicação deixaram de insistir nesse tema assim que Jair Bolsonaro conseguiu se eleger presidente pagando e coordenando uma campanha massiva de Fake News. O que mudou entre abril e novembro de 2018?
Do ponto de vista jurídico nada mudou. A única mudança que ocorreu desde então foi a seguinte: o tema Fake News somente poderia ser explorado pelos adversários do PT se Fernando Haddad ganhasse a eleição e isso não ocorreu. A percepção de que a eleição de Jair Bolsonaro é ilegítima - porque ele espalhou Fake News massivamente usando o Whatsapp - não interessa aos juízes, empresários, barões da mídia, investidores internacionais que ficaram satisfeitos com o resultado da eleição.
“São tantas versões da ‘realidade’ que é impossível falar da nação como se fosse uma coisa só. Passível de ser apreendida a cada dia, mesmo pelas agências de notícias mais determinadas. Talvez o noticiário adquira ares de maior autoridade quando o assunto é formar um retrato da realidade. Talvez alegue ter a resposta para a questão impossível que é saber o que está de fato acontecendo. Entretanto, a verdade é que ele não tem a capacidade universal de transcrever a realidade, apenas se limita a moldar a realidade por meio de escolhas que faz quanto às histórias que serão postas em foco e às que serão deixadas de lado.” (Notícias – Manual do usuário, Alain de Botton, Intrínseca, Rio de Janeiro, 2015, p. 38)
Nenhum analista político sério deixou de admitir que Jair Bolsonaro se beneficiou da Lava Jato. Ao convidar ser Sérgio Moro para ser seu Ministro da Justiça o Sieg Heil Führer tupiniquim pagou tributo ao seu maior cabo eleitoral. O fato de Bolsonaro ter pertencido ao PP - ou seja, ao partido que mais recebeu propinas da Petrobras https://brasil.elpais.com/brasil/2018/04/24/politica/1524605415_828915.html - foi convenientemente varrido para debaixo do tapete pela imprensa brasileira. Desde que a Lava Jato começou os barões da televisão simplificaram a narrativa da operação para que a corrupção da Petrobras pudesse ser associada apenas às lideranças petistas.
“O que o noticiário deve fazer com os vilões? Hoje em dia, ele se empenha em entregar os piores deles à polícia. Ainda assim, a maioria dos casos é tratada com o instrumento mais característico do jornalismo: a humilhação. O noticiário evidencia níveis constantes de entusiasmo por histórias sarcásticas, entrevistas improvisadas na porta de alguém, fotografias tiradas em segredo e correspondência vazada. Pessoas que cometeram erros precisam ser transformadas em notícia para então enfrentar a repulsa e a indignação da maioria moralizante. A ideia implícita é de que a sociedade será reformada pela ruína de reputações e pela abjeção pública.” (Notícias – Manual do usuário, Alain de Botton, Intrínseca, Rio de Janeiro, 2015, p. 56)
A imprensa criminalizou o PT e absolveu Jair Bolsonaro da corrupção praticada pelo partido a que ele pertencia antes de se filiar ao PSL. Apesar de ser competente, honesto e transparente, Fernando Haddad perdeu a eleição porque não conseguiu se livrar do estigma inventado pela mídia de que todos os petistas são desonestos. A reputação dele foi arruinada e assassinada para que o resultado da eleição pudesse favorecer dois vilões: o autoritário e corrupto Jair Bolsonaro e o parcial e dissimulado Sérgio Moro. Isso confirma uma outra tese do autor:
“As matérias jornalísticas tendem a aprender as questões de maneira a reduzir nossa vontade e até mesmo nossa capacidade de imaginá-las sob ângulos muito diferentes. Pela força de intimidação, o noticiário entorpece. Sem que ninguém busque um resultado em particular, ideias mais hesitantes, porém, potencialmente importantes, ficam debaixo do rolo compressor.” (Notícias – Manual do usuário, Alain de Botton, Intrínseca, Rio de Janeiro, 2015, p. 66)
Bolsonaro não é o único culpado por ter chegado à presidência. O rolo compressor antipetista da imprensa criou o rolo compressor político que ocupará o Palácio do Planalto e utilizará o poder financeiro da União e o Ministério da Justiça para punir os críticos do Reich bananeiro e reprimir qualquer tipo de dissonância política. Sugiro aos interessados que comprem imediatamente um exemplar do livro resenhado, pois a venda dele será desestimulada* nos próximos anos.

*eufemismo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Antes de apoiar a chapa Bolsonaro-Mourão, os evangélicos deveriam ler o que a Bíblia diz sobre estupidez. Por Kiko Nogueira



"Mas e a inteligência? Não é um valor familiar?
Os crentes não teriam obrigação de nos proteger da estupidez dessa dupla? O que a Bíblia diz sobre isso?
Em Eclesiastes, o rei Salomão aponta que “o número de estultos é infinito”. Perfeito o diagnóstico."
Do DCM:
Bolsonaro tem ocupado o noticiário a reboque da declaração brilhante de seu vice, o general Mourão, segundo o qual o Brasil herdou a “indolência” da cultura indígena e a “malandragem” do africano.
O capitão defendeu o general mostrando ignorar o significado de indolência. “É a capacidade de perdoar? O índio perdoa!”, chutou.
Sobrou até para o ex-ministro, senador e guru da extrema direita Roberto Campos, que teria inspirado o raciocínio.
Em sua cavalgadura rumo ao Planalto, Jair Bolsonaro não hesitou em se converter evangélico pelas mãos do pastor Everaldo no rio Jordão, em Israel.
É amigo de sumidades como Feliciano e Malafaia, sua mulher Michelle é assembleísta e ele frequenta qualquer palanque ou marcha de fundamentalistas religiosos.
Bolsonaro tem o apoio de multidões evangélicas porque é o guardião dos “valores da família”, alegam.
Mas e a inteligência? Não é um valor familiar?
Os crentes não teriam obrigação de nos proteger da estupidez dessa dupla?
O que a Bíblia diz sobre isso?
Em Eclesiastes, o rei Salomão aponta que “o número de estultos é infinito”. Perfeito o diagnóstico.
Questiona: “Até quando, ó estúpidos, amareis a estupidez? E até quando se deleitarão no escárnio os escarnecedores, e odiarão os insensatos o conhecimento?”
Adverte: “O desvio dos néscios os matará, e a prosperidade dos loucos os destruirá”.
O italiano Carlo Cipolla, historiador econômico e medievalista, é autor de um ensaio chamado “As Leis Fundamentais da Estupidez Humana”, lançado em livro.
Resumiu o fenômeno do bolsonarismo, que transcende a questão ideológica:
“Esse grupo é muito mais poderoso do que a Máfia, o complexo militar-industrial ou a internacional comunista; se trata de um grupo desprovido de estatuto, sem estrutura nem constituição, sem chefe nem presidente, que consegue, no entanto, funcionar de maneira perfeitamente coordenada, de tal maneira que a atividade de cada membro contribui para ampliar e tornar mais forte e mais eficaz a de todos os outros.”
Os néscios, reclamava Salomão nos Salmos, “me rodeiam como vespas”. Estava ou não descrevendo o Brasil?



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

The Intercept: Por que eu não considero o julgamento de Lula Justo. Por João Filho



Resultado de imagem para Farsa à Jato

"As evidências de que Lula não está sendo julgado com imparcialidade são muitas. Sérgio Moro foi alçado à condição de anti-Lula, virou um personagem de mídia, um super-herói do antipetismo mais reacionário. E jamais abdicou desse status. Deu diversas entrevistas, foi premiado por grandes veículos, virou capa de revista (sua esposa também), enfim, sempre fez questão de se manter sob os holofotes. O conceito básico de que “não basta o juiz ser imparcial, ele tem que parecer imparcial” nunca foi uma preocupação de Moro." - João Filho


Do The Intercept Brasil:



21 de Janeiro de 2018, 10h36


OS OLHOS DO MUNDO estarão voltados para Porto Alegre na próxima quarta, quando o TRF-4 será palco de um dos maiores julgamentos da história do país. Condenado a nove anos e seis meses de prisão em primeira instância, Lula muito provavelmente não conseguirá reverter a decisão na segunda instância. Não porque as provas da sua culpa sejam claras e irrefutáveis, muito pelo contrário, mas porque Moro e seus amigos do TRF-4 querem condená-lo. Parece uma conclusão simplória, mas é para onde a história desse caso nos leva.
As evidências de que Lula não está sendo julgado com imparcialidade são muitas. Sérgio Moro foi alçado à condição de anti-Lula, virou um personagem de mídia, um super-herói do antipetismo mais reacionário. E jamais abdicou desse status. Deu diversas entrevistas, foi premiado por grandes veículos, virou capa de revista (sua esposa também), enfim, sempre fez questão de se manter sob os holofotes. O conceito básico de que “não basta o juiz ser imparcial, ele tem que parecer imparcial” nunca foi uma preocupação de Moro. A capa do super-herói na luta contra a corrupção lhe serviu muito bem.  
É necessário dizer que estamos diante de um julgamento político. Lula não está sendo julgado com imparcialidade. Não interessa se você acha que Lula é culpado ou inocente. O que interessa é se um cidadão brasileiro está sendo julgado pelo Estado com base exclusivamente nas leis, sem contaminação política de qualquer tipo e tendo seus direitos constitucionais garantidos. Na prática, não é o que acontece com Lula.
Os caminhos que o julgamento em primeira instância tomou mostram que Sergio Moro já havia condenado Lula muito antes de publicar a sentença. Elencarei alguns motivos pelos quais considero que o ex-presidente está sendo vítima de um julgamento que segue uma agenda política e foi comandado por um juiz muito longe de ser imparcial.

O juiz cometeu ilegalidades contra o réu
1. Moro autorizou a quebra do sigilo telefônico de Lula e seus familiares e divulgou ilegalmente os áudios para a imprensa. Até uma conversa com a então presidenta Dilma –  que na época estava à beira do impeachment e pretendia nomear Lula ministro da Casa Civil –  foi divulgada e influenciou decisivamente em um momento crucial da política do país. A ilegalidade de Moro inviabilizou a posse de Lula e inflamou os manifestantes pró-impeachment. Imediatamente após a divulgação dos áudios, MBL e grupos congêneres saíram às ruas em diversas capitais pedindo a renúncia de Dilma e a prisão de Lula.
Ali ficou claro que Moro buscava a exposição midiática dos áudios para condenar o ex-presidente no tribunal da opinião pública. Agiu não como um juiz, mas como um adversário político de Lula. Moro chegou até a pedir desculpas ao STF. Quando um juiz que tem a obrigação de zelar pelos direitos do réu comete um crime contra o próprio réu, um singelo de pedido de desculpas não é apenas irrelevante, mas um escárnio. Em qualquer país civilizado Moro já teria sido afastado do caso apenas por isso.
2. Todos os 25 advogados do escritório tiveram suas conversas violadas com a autorização de Moro. O sigilo da comunicação entre o réu e seus advogados, garantido por lei, foi solenemente violado pelo juiz. Orientações e estratégias jurídicas combinadas entre advogado e réu deixaram de ser privadas.
3. A condução coercitiva de Lula, sem ele nunca ter se recusado a prestar esclarecimentos, também pode ser considerada ilegal. Policiais fortemente armados apareceram na casa do ex-presidente às 6h da manhã para levá-lo para a delegacia. Uma cena desnecessária do ponto de vista jurídico, mas que, mais uma vez, teve um forte apelo midiático e influenciou o jogo político partidário. O ministro do STF Marco Aurélio de Mello afirmou à época: “Quando se potencializa o objetivo a ser alcançado em detrimento de lei, se parte para o justiçamento, e isso não se coaduna com os ares democráticos da Constituição”.

Moro admite que o triplex não tem relação com esquemas de corrupção da Petrobrás
denúncia do MPF está baseada na ideia de que o triplex do Guarujá seria uma propina que Lula teria recebido em troca de três contratos mantidos entre a OAS e a Petrobrás. A sentença condenatória de Moro não foi capaz de sustentar essa tese e não comprovou os vínculos entre o apartamento e os contratos. A convicção de Moro parece ter tomado o lugar das provas.
Ao publicar despacho com respostas aos questionamentos da defesa, Moro mostra que passou por cima da parte central da denúncia do MPF:
“Este Juízo jamais afirmou, na sentença ou em lugar algum, que os valores obtidos pela Construtora OAS nos contratos com a Petrobrás foram utilizados para pagamento da vantagem indevida para o ex-Presidente.”
Ou seja, os fatos que configuram a corrupção passiva na denúncia original não foram comprovados na sentença. Não há nenhuma prova de que o triplex tenha relação com os 3 contratos firmados entre OAS e Petrobrás. Lula foi acusado de um crime, mas estranhamente não está sendo condenado por este mesmo crime. E se Moro admite que o triplex não tem relação com a Petrobrás, então o caso não deveria ter ido para Curitiba, mas ficado no Guarujá, onde o apartamento está localizado.

Presidente do TRF-4 nem leu as provas, mas diz que a sentença é irretocável
Apesar de não fazer parte da turma dos juízes do TRF-4 que irá analisar a sentença condenatória de Moro, o presidente daquele tribunal, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, fez questão de elogiá-la. Em entrevista ao Estadão, ele afirmou que a sentença “é tecnicamente irrepreensível, fez exame minucioso e irretocável da prova dos autos e vai entrar para a história do Brasil”.
Mesmo sendo tão categórico na avaliação da sentença, o desembargador afirma: “não li a prova dos autos. Mas o juiz Moro fez exame minucioso e irretocável da prova dos autos”. Ele não leu, mas gostou muito do que não leu.
Em artigo para o site Consultor Jurídico, Lenio Streck, jurista com importante produção acadêmica na área jurídica, afirma que a declaração de Thompson fere o Código de Ética da Magistratura:
“qualquer pessoa pode dizer que a sentença é perfeita, tecnicamente irrepreensível (ou que é imperfeita e tecnicamente repreensível). Menos o presidente do tribunal que vai julgar o feito, que, aliás, embora não vá julgar a apelação, se houver um incidente de inconstitucionalidade, poderá ter de julgar uma questão prejudicial, no âmbito do Órgão Especial. E outros juízes também não podem falar acerca da sentença. Não sou eu quem diz. É o Código de Ética.”
Não sejamos ingênuos. Na prática, Thompson adiantou a decisão que será tomada pelo tribunal que preside sem sequer ter lido as provas dos autos.
O presidente do TRF-4 elogia efusivamente uma sentença que ainda nem foi examinada pelos seus colegas desembargadores. As formalidades jurídicas parecem ser detalhes irrelevantes para os magistrados que cuidam do caso do ex-presidente. Até a chefe de gabinete de Thompson publicou no Facebook uma petição online para coletar assinaturas pedindo apoio à prisão do Lula. Virou passeio, diria Galvão Bueno.
Ao fim do artigo, Streck pergunta: “Escrevemos e ensinamos que julgamento só acaba com o trânsito em julgado. E que deve haver imparcialidade. Será?”
Não sejamos ingênuos. Na prática, Thompson adiantou a decisão que será tomada pelo tribunal que preside sem sequer ter lido as provas dos autos.

TRF-4 acelerou processo contra Lula  
O tribunal acelerou de maneira inédita o processo contra Lula. Segundo levantamento feito pela Folha, apenas dois processos por corrupção foram decididos em menos de 150 dias no TRF-4. Nenhum outro recurso no âmbito da Operação Lava Jato caminhou nessa velocidade no tribunal. A lentidão da Justiça, uma reclamação histórica dos brasileiros, não existe para o caso do triplex. Nenhum explicação razoável foi dada para essa pressa toda, o que torna inevitável relacioná-la com a aproximação das eleições presidenciais.
Lula aparece em primeiro lugar nas pesquisas com boa vantagem sobre o segundo colocado e venceria em qualquer cenário. Alguém poderia afirmar com convicção que este caso não está contaminado por fatores políticos e que segue normalmente os ritos jurídicos? Impossível. É evidente que desde a origem os homens que comandam esse processo correm com uma agenda política debaixo do braço.

O sistema judiciário brasileiro é uma máquina de moer direitos de negros e pobres, mas trata com benevolência os setores mais privilegiados da sociedade. Estão aí Rafael Braga e Thor Batista que não me deixam mentir. Lula não é negro nem pobre e conta com uma excelente equipe de advogados, mas virou exceção da regra e padece do mesmo mal que boa parte dos cidadãos que são julgados pelo sistema judiciário brasileiro. Por que será?

ENTRE EM CONTATO:

João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando