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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

The Intercept: Para a imprensa empresarial e pertencente quase todas a políticos tradicionais, vale tudo para estabelecer e normalizar o autoritarismo, o neofascismo e o elitismo explorador: do lavajatismo cego ao tapa na cara. Artigo de João FIlho


ALGUNS JORNALISTAS brasileiros entraram em parafuso após as primeiras publicações da Vaza Jato. De repente, um veículo pequeno e independente revelou ao país não apenas um conluio político entre parte do judiciário e do Ministério Público, mas a vassalagem de parte do jornalismo mainstream brasileiro. Ficou escancarado que as arbitrariedades da Lava Jato e os seus sucessivos ataques à Constituição não seriam possíveis sem a cobertura dócil dos grandes meios de comunicação, que ajudaram a impulsioná-la e acabaram se tornando reféns da sua popularidade. Os jornalistas lavajatistas passaram anos comprando acriticamente as versões oficiais, tolerando ilegalidades flagrantes e transformando maus funcionários públicos em heróis nacionais. Prestaram um serviço de assessoria de imprensa que foi fundamental para transformar uma operação policial na maior força política do país. A Vaza Jato jogou luz sobre esse mau jornalismo.

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Augusto Nunes e Jair Bolsonaro durante entrevista exclusiva realizada no Planalto em abril de 2019.

Foto: Marcos Corrêa/PR
Esse é o contexto fundamental para compreender a agressão de Augusto Nunes contra Glenn Greenwald no programa Pânico da Jovem Pan. Desde o início da Vaza Jato, Nunes vem tratando os profissionais do Intercept como “receptadores de material roubado”, fingindo ignorar que um dos seus empregadores, a Veja, publicou textos com base no mesmo arquivo. Mesmo sabendo que as publicações são plenamente amparadas pela Constituição, Nunes usou os espaços nobres que tem na grande mídia para atacar colegas que revelaram o que os poderosos da Lava Jato pretendiam esconder. O jornalismo vassalo não se conforma.
Com Greenwald, Nunes foi além e incitou publicamente o juizado de menores a investigar se seus filhos são bem tratados. Envolver crianças em um debate político, partindo de um pressuposto homofóbico (alguém acredita que ele faria essa insinuação sobre os filhos de um casal hétero?), é a mais perfeita definição de covardia que pode existir. Chamá-lo de “covarde”, portanto, é nada além do que uma constatação óbvia.
Augusto Nunes hoje é contratado da Record, uma empresa na qual poderá continuar puxando o saco do bolsonarismo à vontade, agora com a bênção do bispo Macedo. Mas este não é um texto sobre ele. Não há muito o que acrescentar sobre a sua notória covardia e seu histórico de alinhamento aos ricos e poderosos. Prefiro tentar entender como chegamos ao ponto em que formadores de opinião relativizam ou até mesmo aplaudem um agressão de jornalista transmitida ao vivo.
Após a agressão, o apresentador do Pânico Emílio Surita pediu desculpas para a vítima, mas também para o agressor. Relativizou a agressão, passou pano para o agressor e partiu para o deboche para cima do convidado que acabara de ser agredido: “nem mulher briga tão feio quanto vocês”, “você (Glenn) chamou o cara de covarde. É muito forte chamar de ‘covarde'”, “eu sei que você é gringo e tem dificuldade pra conversar”, “não venha se fazer de vítima, não, porque você provocou”.
O apresentador cumpriu o protocolo do isentão. Tratou a agressão física de um funcionário da casa contra um convidado como uma consequência natural de um debate acalorado. A Jovem Pan, a casa do reacionarismo brasileiro, emitiu uma nota igualmente hipócrita, exaltando a liberdade de expressão e a pluralidade de opiniões, mas sem condenar expressamente a agressão de seu funcionário.
Nas redes sociais, houve três tipos de reações entre os jornalistas: a de repúdio absoluto à agressão (a única reação aceitável), a de repúdio relativizando com “mas” e “poréns” e a de exaltação da violência de Nunes.
Os que aplaudiram abertamente a agressão fazem parte da minoria. São os lavajatistas mais fanáticos e reacionários que assumem abertamente suas posições, mas retorcem a realidade para que caiba dentro delas. José Roberto Guzzo já trabalhou como diretor de redação da Veja e foi colunista da revista por mais de dez anos. Assim como os filhos de Bolsonaro e seus militantes fascistoides, Guzzo saiu em defesa da agressão de Augusto Nunes e classificou uma prática jornalística recorrente no mundo democrático de “receptação de material furtado de criminosos”.
Guzzo é um lavajatista que se esbaldou com todos os vazamentos ilegais da força-tarefa e jamais chamou seus colegas de Veja ou de qualquer outro veículo de “escroques” associados a criminosos. Mas, convenhamos, não chega a ser espantoso ver um jornalista que criminaliza o jornalismo defendendo e exaltando a violência contra um colega de profissão.
Entre os relativizadores, muitos jornalistas iniciaram um festival de “tenho críticas à Vaza Jato, mas…”, “não concordo com o Glenn, mas…” ou “eu já fui atacado pelas esquerdas, porém…”, ou ainda “não, porque a polarização…”. É o cacoete do “doisladismo”, que impede que se condene atitudes de um lado de um espectro político sem criticar o outro. Sabe aquele TOC (transtorno obsessivo compulsivo) em que a pessoa esbarra com braço direito em algum lugar e sente uma necessidade mortal de esbarrar o braço esquerdo também? Então, o jornalista mainstream brasileiro sofre de um TOC parecido. E assim se vai relativizando a barbárie porque, afinal de contas, a civilização também já cometeu suas barbaridades, não é mesmo?
No Twitter, a Folha chamou a agressão de “troca de socos”. Como se as imagens não fossem suficientemente claras para identificarmos um agressor e um agredido se defendendo. Claro, o jornalismo isentão precisa sempre se colocar numa posição de equidistância para não magoar ninguém. Mesmo que para isso seja necessário mentir.
Essa obsessão em busca de uma falsa imparcialidade é bastante comum entre jornalistas. Há um temor constante em ser associado com algum dos lados. Quando precisa se posicionar, o isentão pode distorcer a realidade com uma falsa simetria qualquer para não ficar mal na fita. Ter convicções políticas, algo natural para qualquer um, virou quase um crime para alguns jornalistas, que preferem o conforto da bolha falsa do isentismo.
Isso tem um custo alto para a democracia. Quantas vezes vimos nas últimas eleições, Lula e Bolsonaro sendo apresentados como dois lados de uma mesma moeda? Enquanto o primeiro é inegavelmente um democrata que liderou por oito anos um governo de coalizão com partidos de centro e centro-direita e saiu com quase 90% de aprovação popular, o segundo é um homem autoritário que atacou sistematicamente a democracia, as minorias, e carregava um histórico em defesa de milícias, torturadores e assassinos do regime militar. Não importa se você não gosta de Lula ou de Bolsonaro. Esses são os fatos. Bolsonaro foi um deputado assumidamente homofóbico que pregou o fuzilamento de um presidentedemocraticamente eleito. Colocá-lo na mesma balança com qualquer outro democrata e tratá-los como dois personagens equivalentes é falsificar a realidade — e isso, sim, deveria ser considerado um crime no jornalismo.
Se os fascistoides chegaram ao poder foi em parte também por culpa do jornalismo que relativizou a barbárie. Portanto, se for para criticar a agressão a um jornalista fazendo ponderações sobre o outro lado, é melhor bater palmas para o agressor logo de uma vez. O fascisminho nosso de cada dia deve ser repudiado de maneira absoluta, firme, sem “mas” nem “poréns”. A relativização das práticas fascistas contribuíram para que chegássemos onde estamos hoje.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Os extremistas que atacam Greta Thunberg são os mesmos que me perseguem há 9 anos. Por Lola Aronovich, publicado pelo The Intercept




A onde de mentiras sobre Greta Thunberg, a ativista de 16 anos que chamou o mundo para a urgência do colapso climático, mostra que negacionistas climáticos são também anti-feministas.

Do The Intercept:








Foto: Johannes Eisele/AFP/Getty Images


NESTES ÚLTIMOS DIAS, a jovem ativista Greta Thunberg tem sido xingada, difamada, ameaçada por homens da extrema direita. Eu sei como é, já que sou alvo dessa gente desde no mínimo 2011. Não sou uma ativista climática, mas sou feminista. Acontece que a grande parte dos negacionistas climáticos (que querem convencer o mundo que está tudo bem com a terra plana e que não precisamos nos preocupar com a poluição e a destruição do meio ambiente) é de direita, e todos eles são ferrenhos anti-feministas. Logo, por mais que eu e Greta sejamos bem diferentes, quem nos ataca é muito parecido.

A ativista sueca de 16 anos é chamada de “fantoche adolescente”, “Justin Bieber da ecologia”, “profetisa do apocalipse”. E, como não poderia deixar de ser, “idiota útil”. Por essas e outras barbaridades, principalmente barbaridades machistas, a hashtag #DesculpaGreta chegou nos trending topics do Twitter e lá ficou por muitas horas, com a gente pedindo perdão pelas maldades proferidas pelos “cidadãos de bem”.

A onde de mentiras sobre Greta Thunberg, a ativista de 16 anos que chamou o mundo para a urgência do colapso climático, mostra que negacionistas climáticos são também anti-feministas.



Em agosto do ano passado, Greta sentou-se na frente do parlamento sueco com um simples cartaz escrito à mão “Greve escolar pelo clima”. Ela tinha 15 anos. Em um panfleto que ela distribuía, dizia: “Estou fazendo isso porque vocês adultos estão cagando no meu futuro”. Inspirados por Greta, outros jovens passaram a fazer protestos parecidos em combate ao aquecimento global, e a onda foi crescendo.
Em agosto deste ano, Greta foi de veleiro movido a energia solar de Plymouth, Inglaterra, a Nova York. Ela evita viajar de avião pelo seu rastro poluente (285 gramas de dióxido de carbono por passageiro por hora), o que é conhecido como pegada de carbono. Na segunda-feira, 23, Gretadisse aos líderes mundiais na abertura do Encontro de Ação Climática, organizado pela ONU: “Eu não deveria estar aqui, deveria estar na escola”. E prosseguiu, num discurso que viralizou: “Como vocês ousam? Vocês roubaram meus sonhos e minha infância com suas palavras vazias”. Além do seu discurso, o olhar que Greta disparou para Trump também se tornou icônico.
Por conta do seu ativismo, a sueca se tornou um dos símbolos em defesa do clima e da natureza, que gerou imensas manifestações pelo mundo. Antes mesmo de Nova York, uma deputada conservadora francesa resmungou: “Não é uma garota que abandonou a escola que vai dar lições aos adultos”.
Com o sucesso promovido pela #GreveGlobalpeloClima, Greta se tornou alvo de novas críticas. Por exemplo, Eduardo Jorge, que foi candidato a presidente pelo Partido Verde em 2014, lamentou que Greta trocou paixão por raiva em seu discurso. Ele pediu mais compaixão e menos ressentimento, baseando-se num tuíte de Augusto de Franco, um palestrante que não gostou das expressões faciais e do tom de voz de Greta. A linguista Jana Viscardi descreveu bem esse desconforto do ex-candidato a presidente, ao lembrar como as meninas têm que ser sempre dóceis, sorridentes e simpáticas. Ser “durona” vai contra a nossa feminilidade. Logo, Greta não pode se dar ao luxo de ficar zangada.
A direita se encarregou de criar e espalhar montes de fake news contra Greta, assim como já fez contra mim diversas vezes. Na Páscoa de 2015, por exemplo, o exército reaça inventou um tuíte em que “eu” comemorava a morte do filho de Geraldo Alckmin num acidente de helicóptero. No mesmo ano, essa mesma organização criminosa criou um site falso no meu nome, com meu endereço residencial em cada post, em que “eu” vendia remédios abortivos e descrevia como realizava abortos em alunas minhas na UFC. Este site, aliás, só viralizou depois que reaças famosos como Olavo de Carvalho e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, o divulgaram em suas redes sociais. Nos anos seguintes, um rapaz que eu nunca vi na vida gravou um vídeo dizendo que eu havia abusado sexualmente dele num banheiro de um congresso escolar. Outro total desconhecido fez um vídeo jurando ser meu filho, que eu teria abandonado para seguir este “demônio do feminismo”.
Outra montagem, esta distribuída pelo filho do presidente, o fritador de hambúrguer que quer ser embaixador nos EUA, é de Greta comendo num trem. Na janela, crianças pobres observam. Mas minhas fake news preferidas são que Greta vive com um terrorista do Estado Islâmico, que ela foi abandonada pelo pai, que seria um cientista social gay, e que sua mãe é uma “lésbica satanista” que ensina aborto para adolescentes. Greta, portanto, é apenas um “fruto do desajuste psicomoral causado por essa extrema esquerda vagabunda na família ocidental”.
Foto original sem crianças famintas ao lado.
Nenhuma novidade no front. A direita é sórdida e não se acanha de espalhar mentiras contra qualquer mulher ou menina que seja ouvida. E sempre usando uma de suas principais armas, o machismo. Já fez e continua fazendo isso comigo. Talvez seja importante não levar para o lado pessoal: não me atacam por eu ser a Lola, mas por eu ser feminista. Não atacam Greta por ser Greta, mas por ser uma ativista climática. Lógico que, ao definirem o alvo, partem para ataques a características pessoais, como o autismo de Greta, suas trancinhas, seu gênero. Uma colunista doEstadão criticou Greta por seus “olhos duros” e “rosto sem empatia” – um texto discriminatório que foi denunciado por associações de autistas, que tiraram o blog do ar.

O medo do feminismo

Como escreveu Juliana Aguilera num ótimo artigo publicado no começo do mês, uma universidade sueca começou o primeiro centro de pesquisa acadêmica do mundo dedicado a estudar o negacionismo da crise ambiental. Esse centro viu ligações inequívocas entre os negacionistas e a extrema direita, sempre anti-feminista, e concluiu que “os temas comuns não eram sobre a ameaça do meio ambiente, e sim sobre uma certa sociedade industrial moderna construída e dominada por sua forma de masculinidade”. Ou seja, qualquer coisa que se opõe ao estilo de vida do homem branco e à manutenção dos seus privilégios precisa ser combatida.
Lembram de uma pesquisa sobre estereótipos de gênero que apontou que muitos entrevistados viam colocar as compras do supermercado numa sacola de pano era algo não masculino? Então. Ser másculo é usar sacola de plástico. É não pensar duas vezes antes de destruir a natureza.
A gente pode observar essa raiva dos homens brancos no discurso do jornalista Gustavo Negreiros. Visivelmente alterado, o sujeito de Natal disse na Rádio 96 FM, do Rio Grande do Norte, que Greta é uma histérica. “Sabe do que ela está precisando? Ela está precisando de um homem. É mal amada. Se não gostar de homem, que pegue uma mulher. Ela está precisando de sexo. Vá fumar seu baseado na Suécia”.
O discurso de Gustavo é asqueroso não apenas por Greta ter 16 anos e ser autista, mas por ser um discurso misógino que é sempre usado contra mulheres. É aquilo de “falta de rola”, que usam contra qualquer mulher que tenha voz. No meu caso, chegaram até a fazer uma camiseta em que o personagem dos quadrinhos Cebolinha dizia “É falta de Lola”.
Além do mais, usar o termo “histérica” para se referir às mulheres é bastante ultrapassado. O termo vem da palavra grega que quer dizer “útero”. Ou seja, histeria foi durante milênios um distúrbio associado a mulheres. E muitas foram queimadas e mortas por esse “distúrbio” que, curiosamente, só acomete quem tem útero. Porque homens nunca ficam nervosinhos ou entram em escolas para cometerem massacres, né? É coisa de mulher, essas histéricas com TPM.
Gustavo também é comentarista da TV Tropical, que retransmite a TV Record. Num programa, com a conivência do apresentador, ele disse as mesmas coisas que no rádio: Greta é “uma menina que tá afetada psicologicamente, você vê que ela tem algum problema que não é em relação ao clima mundial”. Gustavo também a chamou de “vagabunda” por não ir às aulas e concluiu que, se ela fosse filha dele, ele “aquecia as nádegas” dela. “Não tem problema não, da cintura pra baixo pode pegar havaiana e pode meter: pá! Faz bem, esquenta o couro, educa”.
Felizmente, a repercussão aos comentários de Gustavo foi rápida. Em menos de 24 horas, três das quatro empresas que patrocinavam o programa no rádio, incluindo a Unimed, suspenderam os contratos. Como não existe ninguém mais vitimista que um reaça, o jornalista escreveu em seu blog: “Arrependido de ter atirado uma pedra em quem não merecia, através de uma piada boba, pedi desculpas […] Os danos foram mais meus que da pessoa citada. À turma do mimimi que endossa o coro das críticas nas redes sociais informo que não merece qualquer respeito. Que meus ex, atuais e futuros patrocinadores, não temam a patota vermelha sanguessuga […]. Se tiverem que deixar de patrocinar o blog que seja pela falta de qualidade, mas nunca pelo furor das redes sociais. Errei em algumas palavras por segundos, e isso me custou caro.” Ele se disse perseguido pela esquerda por falar mal diariamente do governo de Fátima Bezerra.
Gustavo foi demitido da rádio. Só foi chamado ao ar para pedir desculpas, que foram francamente ridículas. Disse que fez um “comentário infeliz”, que antes de ir falar na rádio estuda os assuntos, e pediu consideração por ter a “hombridade de reconhecer o erro”. Para ele, o erro foi não saber que “a garota lá tem um problema de saúde”. Primeiro que ser autista não é um “problema de saúde”. Depois que, se Greta não tivesse Asperger, aí tudo bem dizer que ela é uma vagabunda histérica que deveria fazer sexo em vez de ativismo?
A TV Tropical demorou um pouco mais para se manifestar, mas finalmente desligou o jornalista que espalha discurso de ódio ao chamar uma jovem ativista de vagabundinha histérica que precisa de sexo?
Gustavo não foi o único a atacar Greta, lógico. Um outro jornalista, Luis Ernesto Lacombe, que um dia antes havia defendido a polícia no caso Ágatha, falou sobre Greta na Band: “Eu não compro essa menina. Acho que essa menina tem um discurso alarmista, com frases de efeito. […] Eu acho que a gente tem que ter um debate pesado sobre clima e de quanto o homem influencia na mudança climática”. E compartilhou a fake news de que ela é financiada por George Soros. Não me pareceu um ato falho o jornalista ter usado a palavra “homem”, não “humano” ou “pessoa”, na frase “quanto o homem influencia na mudança climática”. Indica que seu incômodo é com a influência que uma mulher, uma menina, possa ter nesse debate.
Greta diz com todas as letras que o capitalismo global falhou. Ela expõe a masculinidade frágil.
O jornalista australiano Andrew Boltescreveu que nunca viu “uma garota tão jovem com tantos problemas mentais ser tratada como guru pelos adultos”. Na Jovem Pan, apelidada de Jovem Klan por suas posições conservadoras, Rodrigo Constantinochamou Greta várias vezes de“retardada” que “tem síndrome do autismo”.
Outro reaça de marca maior, meu velho conhecido Roger, do Ultraje a Rigor, divulgou no seu Twitter uma imagem que diz “Isso sim é destruir sonhos”. Embaixo, está escrito “A sueca da minha juventude” (uma loira vestida de enfermeira, como nos filmes pornôs), e “A sueca de hoje” (Greta). É muito baixo, até para os padrões do músico mascote do Gentili. Além de sexualizar uma profissão nobre e imprescindível, a de enfermeira, sexualizam uma menina de 16 anos, que não parece nem ter 13. E óbvio ululante que o emprego de Roger não corre risco, pois seu patrão Silvio Santos está promovendo concurso de miss para avaliar as pernas mais bonitas de meninas de dez anos.
Teve também um jornalista francês veterano, um pouco mais velho que Roger (o francês tem 84 anos), que reclamou que, na sua geração, os homens procuravam meninas suecas menos rígidas que as francesas. “Imagino nosso terror se tivéssemos abordado uma Greta Thunberg”.
A raiva do jornalista parece ser a impossibilidade de sexualizar Greta. Ela é uma menina de 16 anos, logo, deve ser colocada no papel que se espera de uma mocinha dessa idade (que é ser meiga e inocente ou atriz pornô disfarçada de enfermeira ou líder de torcida, como sugere Roger).
Gostei muito da nota de repúdio da Associação de Juristas Potiguares pela Democracia e Cidadania, que chamaram o discurso de Gustavo de “fala misógina disfarçada de opinião”. “Não é mais tolerável que um comunicador que ocupe espaço em rádio e televisão de rede aberta por concessão pública se comporte de forma vil, classificando de ‘vagabunda’ e ‘histérica’ a ativista Greta […]. Tratar o ativismo e a movimentação social como ‘vagabundagem’ é demonstrar a verdadeira face do autoritarismo. Não há outra forma de buscar a regulamentação dos direitos que não seja através da luta social e política”. A Associação também classificou o ataque contra Greta de “violência de gênero”.
Um outro apoio interessante veio do satirista Mark Humphries, que fez um vídeo criando a linha de apoio Greta Thunberg, para a qual homens brancos furiosos podem ligar para contar suas angústias. “Se você é um homem adulto precisando gritar com uma menina, a helpline está aqui para te tolerar”. Outras frases bacanas incluem: “Entendemos que crianças agindo como adultos fazem adultos agirem como crianças” e “Porque quando falamos de mudanças climáticas, todos sabemos que Greta é o verdadeiro problema”.
Não vou negar que vi também algumas pessoas de esquerda lançando teorias conspiratórias absurdas, como a que os ataques a Greta e aocacique Raoni seriam tentativas de impedir que Lula leve o Nobel da Paz. Mas é indiscutível que os maiores ataques a Greta são feitos pela direita, e não qualquer direita, mas uma extrema direita organizada, machista, negacionista de problemas ambientais, principalmente do colapso climático. Uma direita que eu, infelizmente, vim a conhecer tão bem, porque ela me ataca há anos. E por que essa mesma direita ataca Greta? Porque Greta diz com todas as letras que o capitalismo global falhou. Ela expõe a masculinidade frágil. E são eles, não nós, que precisam pedir desculpas.
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domingo, 22 de setembro de 2019

Greta Thunberg contra o colapso climático: 'Se podemos salvar os bancos, podemos salvar o mundo'


Em entrevista, ativista diz aos ricos: ‘Não quero sua esperança. ... Eu quero que você entre em pânico’. Seu alerta deflagrou a #GreveGlobalPeloClima.


Assista Greta Thunberg contra o colapso climático: ‘se podemos salvar os bancos, podemos salvar o mundo’

Naomi Klein — 21 de Setembro
Assista ao vídeo com a fantástica Greta Thumberg e, após, leia o texto de Naomi Klein publicado no The Intercept:





ESTAMOS VIVENDO MOMENTOS ASSUSTADORES. Como a ativista Greta Thunberg nos diz com tanta frequência: “Nossa casa está pegando fogo”. E acredito firmemente que há três coisas que precisam ser alinhadas se quisermos apagar as chamas. Primeiro, precisamos da coragem de sonhar com um tipo diferente de futuro. Para afastar o sentimento de apocalipse inevitável que permeou nossa cultura. Para nos dar um destino, um objetivo comum, uma imagem do mundo em que estamos trabalhando.
Mas esses sonhos são inúteis, a menos que estejamos dispostos a abraçar as outras duas forças. Uma é a necessidade de confrontar a verdade de nosso momento na história – a verdade de quanto já perdemos e de quanto mais estamos à beira de perder se não abraçarmos níveis revolucionários de mudança.
A outra coisa que precisamos fazer é a seguinte: encontramos nossa luta. Temos que nos unir através das diferenças e construir um poder credível e inabalável. Diante dos incêndios que agitam nosso mundo, temos que encontrar nosso próprio fogo. Verdade e fogo.
Greta Thunberg é uma das grandes reveladoras desta ou de qualquer outra época. Deixe-me refrescar suas memórias sobre algumas de suas linhas mais icônicas. Para os negociadores climáticos da ONU na Polônia em dezembro passado, ela disse: “Você não é maduro o suficiente para dizer como é. Até esse fardo que você deixa para nós, crianças.
Para os deputados britânicos que pediram que ela falasse, ela perguntou: “Meu inglês está bom? O microfone está ligado? Porque estou começando a me perguntar.”
Para os ricos e poderosos de Davos, que a elogiaram por lhes dar esperança, ela respondeu: “Não quero sua esperança… Eu quero que você entre em pânico. Quero que você sinta o medo que sinto todos os dias. Eu quero que você aja. Quero que você aja como faria em uma crise. Quero que você aja como se a casa estivesse pegando fogo, porque está.
Ela também disse que nem todos são os culpados pela crise climática. Não, ela os olhou nos olhos e disse que eles eram os culpados. E sempre a amaremos por isso.
Mas Greta não é só conversa. Tudo isso começou com a ação. Começou quando Greta percebeu, um ano e um mês atrás, que se ela queria que políticos poderosos se colocassem em pé de emergência para combater as mudanças climáticas, então ela precisava refletir esse estado de emergência em sua própria vida. E então ela parou de fazer a única coisa que todas as crianças deveriam fazer quando tudo estava normal: ir à escola para se preparar para o futuro quando adultas.
Em vez disso, ela se posicionou fora do parlamento da Suécia com uma placa feita à mão que dizia simplesmente: “Greve escolar pelo clima”. Ela começou a fazer isso toda sexta-feira e logo atraiu uma pequena multidão. Então outros estudantes começaram a fazer isso em outras cidades também.
Estudantes como Alexandria Villaseñor, que se posiciona fora das Nações Unidas nesta cidade toda sexta-feira, semana após semana, faça chuva, neve ou faça sol. Às vezes, as greves climáticas estudantis eram apenas uma criança solitária. Às vezes, dezenas de milhares apareciam.
E então, em 15 de março, veio a primeira greve global pelas escolas pelo clima. Mais de 2.000 greves em 125 países, com 1,6 milhão de jovens participando em um único dia. 1,6 milhão de pessoas. Isso é uma conquista e tanto para um movimento que começou oito meses antes com uma única menina de 15 anos em Estocolmo, Suécia.
E agora esse movimento está se preparando para o maior desafio de todos os tempos: eles pediram que pessoas de todas as idades participem e entrem em greve, em todo o mundo, em 20 de setembro. Porque proteger o futuro não é um esporte para espectadores.
Thunberg e os muitos outros jovens ativistas deixaram bem claro que não querem que os adultos deem tapinhas na cabeça e agradeçam pela infusão de esperança. Eles querem que a gente se junte a eles e lute pelo futuro ao seu lado. Porque é o direito deles. E todo o nosso dever.
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Naomi Kleinnaomi.klein@​theintercept.com@NaomiAKlein

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Vaza Jato: As mensagens secretas da Lava Jato Moro autorizou devassa na vida de filha de investigado da Lava Jato para tentar prendê-lo. The Intercept


Procuradores pediram medidas contra filha de empresário radicado em Portugal para tentar extradição dele, revelam mensagens trocadas pelo Telegram.


Ilustração: João Brizzi e Rodrigo Bento/The Intercept Brasil; Mateus Bonomi/AGIF via AP



Do The Intercept Brasil:

Por
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O Ministério Público Federal pediu duas vezes ao então juiz Sergio Moro operações contra a filha de um alvo da Lava Jato que vive em Portugal como forma de forçá-lo a se entregar. Apesar de ser titular de contas no exterior que receberam propinas, ela não era suspeita de planejar e executar crimes.
O plano, revelado em mensagens de Telegram trocadas entre procuradores e entregues ao Intercept por uma fonte anônima, era criar um “elemento de pressão”, como disse o procurador Diogo Castor de Mattos, sobre o empresário luso-brasileiro Raul Schmidt. O MPF apelou a Moro mirando na filha do investigado: queria que o passaporte de Nathalie fosse cassado e que ela fosse proibida de sair do Brasil. O plano era forçá-lo a se entregar para evitar mais pressão sobre a filha.
Na primeira tentativa, Moro vetou a manobra dos procuradores. “Apesar dos argumentos do MPF, não há provas muito claras de que Nathalie Angerami Priante Schmidt Felippe tinha ciência de que os valores tinham origem ilícita e/ou eram fruto de atos de corrupção”, argumentou num despacho.
A tentativa frustrada dos procuradores de cassar o passaporte de Nathalie para pressionar o pai a se entregar ocorreu em fevereiro de 2018. A justiça portuguesa havia determinado o cumprimento da extradição de Schmidt para o Brasil no mês anterior, mas ele não foi encontrado onde morava, em Lisboa, pelas autoridades locais.
Em maio daquele ano, após novo fracasso em buscas por Schmidt em Portugal, a Lava Jato reapresentou seu pedido a Moro. Dessa vez, sem que houvesse qualquer suspeita adicional contra ela, o juiz mudou de ideia e deu sinal verde ao desejo da Lava Jato, que incluía uma varredura na casa, nas comunicações e nas contas de Nathalie.
No dia seguinte, os policiais cumpriram o mandado de busca e apreensão na casa da filha do investigado, no Rio de Janeiro. A defesa alegou que ela foi coagida pela Polícia Federal, na ocasião, a dizer onde o pai estava. O plano, no entanto, não teve tempo de ser testado. No mesmo dia, Raul Schmidt conseguiu extinguir seu processo de extradição em Portugal. A Lava Jato tenta até hoje trazê-lo ao Brasil.
Suspeito de operar o pagamento de propinas na Petrobras, o empresário Raul Schmidt é alvo da Lava Jato desde março de 2016.
Suspeito de operar o pagamento de propinas na Petrobras, o empresário Raul Schmidt é alvo da Lava Jato desde março de 2016.

GIF: Reprodução/YouTube/SBT

“PENSAMOS EM FAZER UMA OPERAÇÃO NELA PARA TENTAR LOCALIZÁ-LO”

APONTADO COMO OPERADOR DE PROPINAS para ex-dirigentes da Petrobras, o empresário Raul Schmidt foi preso pela primeira vez em março de 2016, na 25ª fase da Lava Jato. Na primeira etapa internacional da operação, ele foi encontrado e detido em Lisboa, onde vivia. Dias depois, quando foi liberado para responder ao processo em prisão domiciliar, o Brasil já havia pedido sua extradição.
O requerimento foi aceito em dezembro de 2016, e o último recurso da defesa de Schmidt foi derrubado em 9 de janeiro de 2018, após o caso chegar ao Tribunal Constitucional de Portugal – equivalente ao STF brasileiro. Quinze dias depois, a justiça em Lisboa emitiu um mandado de detenção contra Raul, para que ele fosse entregue às autoridades brasileiras.
A notícia da ordem de prisão em Portugal foi dada pelo procurador Roberson Pozzobon no grupo de Telegram Filhos do Januario 2, que reunia apenas membros da força-tarefa da Lava Jato no Paraná. Mas Diogo Castor de Mattos, que estava à frente do caso, esfriou os ânimos da equipe 10 minutos mais tarde: “Msg do mp português: Olá Diogo, eu acho que ele fugiu. Ninguém o encontra”.
Mais de uma semana depois, Raul ainda estava desaparecido. Foi quando Castor de Mattos expôs aos colegas uma ideia para fazê-lo aparecer:


1º de fevereiro de 2018 – Grupo Filhos do Januário 2
Diogo Castor de Mattos – 16:52:58 – prezados, gostaria de submeter à analise de todos a questão da operação na filha do raul schmidt.. basicamente, ela esta envolvida em algumas lavagens por ser beneficiária de uma offshore do pai.. pensamos em fazer uma operação nela para tentar localizá-lo.. oq acham?
Paulo Roberto Galvão – 16:56:11 – pegar o celular?
Castor de Mattos– 16:57:53 – eh
Deltan Dallagnol – 17:05:13 – Nse fizer, ele some no mesmo dia…
Dallagnol – 17:05:21 – ele muda de lugar
Castor de Mattos– 17:10:47 – mas ela mandou renovar o passaporte e entoru com pedido de visto em portugal..
Castor de Mattos– 17:11:04 – se nao fizermos nada ela foge do país e nunca mais achamos
Dallagnol – 17:14:04 – mas o que ganha? -salvo se realmente achar que ela tá envolvida nos crimes, não haverá provas deles -quanto à loalização dele, pode até achar, mas terá poucas horas pra prendê-lo, ou menos de poucas horas, tendo de mobilizar polícia fora em país que não sabemso qual em território de fronteiras abertas UE…
Castor de Mattos– 17:15:36 – na minha perspectiva, ela nao poder sair do país é um elemento de pressão em cima dele
Castor de Mattos– 17:15:57 – e ai estamos falando de imóveis adquiridos em nome dela no exterior de USD 2 milhoes
Athayde Ribeiro Costa – 17:25:22 – Intercepta ela. Se ela habilitar o cel e usar la, tem a erb
Castor de Mattos– 17:26:22 – mas o cara tá na europa



A sugestão de Castor acabou aceita. No dia seguinte, 2 de fevereiro, o MPF pediu a Moro que a filha de Raul Schmidt fosse proibida de deixar o Brasil. Não queria apenas a apreensão do passaporte, mas também outras medidas: busca e apreensão na casa de Nathalie, bloqueios em contas bancárias dela e da empresa dela, quebras de sigilo fiscal e do sigilo das mensagens de um número dela no WhatsApp.
O MPF justificou as medidas com evidências de que Nathalie era beneficiária de contas bancárias no exterior abastecidas com dinheiro pago a Raul Schmidt por multinacionais investigadas na Lava Jato. Parte desses valores, segundo o Ministério Público, foi usada na compra de um apartamento em Paris registrado no nome de uma empresa pertencente a Nathalie.
Na petição ao então juiz federal, os procuradores informaram que a filha de Schmidt havia pedido recentemente a renovação de seu passaporte brasileiro. E defenderam “a imprescindibilidade da aplicação da medida cautelar em face de Nathalie para assegurar a aplicação da lei penal brasileira, na medida em que, no exterior, a investigação e processamento de seus crimes estaria indubitavelmente prejudicada”.
Os argumentos da petição são bastante diferentes dos discutidos no Telegram. Ou seja, enquanto argumentava no processo que Nathalie não poderia sair do país para não prejudicar a investigação sobre os crimes que teria cometido, no Telegram os procuradores admitiam que a finalidade das medidas era pressionar Schmidt.
Um dia depois, em 3 de fevereiro, Raul foi encontrado e preso em Sardoal, a cerca de uma hora de carro de Lisboa. Os procuradores foram informados no mesmo dia e comemoraram a captura no grupo Filhos de Januario 2, mas não fizeram menção às medidas contra Nathalie, que haviam requisitado na véspera.
Moro só respondeu em 5 de fevereiro. No despacho em que tratou do assunto, o magistrado não viu “causa suficiente” para a ação mais drástica pedida pelo MPF contra Nathalie — proibi-la de deixar o país. O juiz escreveu que não havia comprovação suficiente de culpa e que o nome dela era inédito nas investigações até ali.
Sergio Moro no desfile de Sete de Setembro em Brasília, ao lado de Jair Bolsonaro e do ministro Onyx Lorenzoni, que já confessou crime de caixa dois eleitoral.
Sergio Moro no desfile de Sete de Setembro em Brasília, ao lado de Jair Bolsonaro e do ministro Onyx Lorenzoni, que já confessou crime de caixa dois eleitoral.

Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
“Apesar dos argumentos do MPF, não há provas muito claras de que Nathalie Angerami Priante Schmidt tinha ciência de que os valores tinham origem ilícita e/ou eram fruto de atos de corrupção praticado por Raul Schmidt Felippe Junior”, escreveu Moro. E emendou: “O nome dela, ademais, só apareceu agora nas investigações, aparentando ser talvez prematuro de pronto impor-lhe medida de restrição de locomoção pessoal”.
Tendo negado a cassação do passaporte de Nathalie, Moro perguntou ao MPF se as demais medidas contra ela (bloqueios de contas e quebras de sigilo fiscal e de comunicações no WhatsApp) ainda eram necessárias, considerando que Raul já havia sido preso em Portugal dois dias antes.
Isso significa que o juiz, assim como o MPF, justificou a operação contra Nathalie pelo fato de Raul estar foragido. Uma vez que ele foi encontrado, a força-tarefa da Lava Jato não viu mais motivos para impor as restrições a ela.
Raul, no entanto, acabaria não sendo extraditado: ele  foi solto 12 dias após a prisão, para responder em liberdade ao julgamento do recurso.
O processo contra Nathalie ficou adormecido até que o MPF o utilizasse, mais de três meses depois, com o mesmo objetivo de capturar o pai. No dia 18 de maio de 2018, a justiça portuguesa determinou o cumprimento imediato da ordem de extradição. Quatro dias depois os procuradores pediram a Moro, com urgência, o cumprimento das medidas contra Nathalie, afirmando que Raul “se evadiu” ao ser procurado pelas autoridades.
Desta vez, Moro acatou o desejo dos procuradores, sem qualquer incremento nas provas contra ela. O MPF não fez nenhum adendo ao processo, apenas reapresentou o pedido que fizera em fevereiro.
Nathalie teve o passaporte retido e foi alvo de busca e apreensão em casa, no Rio de Janeiro, em 24 de maio. Nessa busca, segundo a defesa dela alegou quatro dias depois em pedido de habeas corpus ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, “três agentes da Polícia Federal portando metralhadora ingressaram na residência da paciente de forma truculenta, exigindo, aos berros, que ela revelasse o atual paradeiro do seu genitor, sob ameaça de ‘evitar dor de cabeça para seu filho’”, referindo-se à criança dela, um menino então com sete anos.
No entanto, o principal objetivo das medidas, que era aumentar as chances de prisão de Raul Schmidt em Portugal, esvaziou-se logo em seguida. No mesmo dia em que Nathalie foi visitada pela PF no Rio, um desembargador do Tribunal de Relação de Lisboa (primeira instância a que Schmidt recorria) determinou o cancelamento da extradição do empresário, que voltou a responder em liberdade. Assim, a segunda tentativa de usar a perseguição à filha para pressiona-lo fracassou.
A extradição de Raul foi arquivada pela justiça portuguesa em janeiro de 2019, e o Ministério Público do país recorre da sentença desde então. Nathalie foi denunciada pela Lava Jato por lavagem de dinheiro pela compra do imóvel em Paris no final de 2018, mas o caso corre, até hoje, sob sigilo.
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QUESTIONADO A RESPEITO DO CASO PELO INTERCEPT, o Ministério Público Federal alegou que “os procuradores da força-tarefa Lava Jato formulam pedidos cautelares ou denúncias apenas quando estão presentes os requisitos legais”, e que “Nathalie Schmidt foi beneficiária de contas secretas que receberam milhões de dólares ilícitos no exterior, podendo estar sujeita, por tais condutas, a sanções criminais”.
Questionada sobre as ameaças relatadas pela defesa de Nathalie Schmidt, a Polícia Federal disse que “supostos envolvidos, caso intimados, devem se manifestar em juízo para apresentarem suas versões”.
O ex-juiz Sergio Moro, atual ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de extrema direita de Jair Bolsonaro, também foi procurado para comentar o caso. A manifestação dele será incluída no texto assim que for enviada.
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