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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Thomas Friedman como exemplo do uso da desinformação e da “burrice” nas mídias em prol da Direita, por Bruno Lima Rocha



Thomas Friedman não quer analisar nada, é pura guerra de propaganda, disputa pelo controle da narrativa e a apresentação de "estórias" embaladas por preconceitos supostamente sofisticados de quem o lê.

Thomas Friedman e a desinformação da “burrice”, por Bruno Lima Rocha

Diariamente somos surpreendidos pelo exagero na prepotência e na capacidade de desinformar, fazer circular ideias equivocadas, enfim, “mentir com algum estilo”. A estas técnicas de manipulação de audiências massivas – embora circular e muitas vezes temporária – o Império e seus aliados vêm denominando de “disputa narrativa ou disputa pelo controle da narrativa”. Como em todas as guerras, a primeira vítima é a verdade, na guerra híbrida de 4ª geração o padrão é o mesmo. Vejamos um exemplo de inversão de prioridades e denominações pejorativas para fazer valer uma tese falsa, onde quem reage agride e quem agride se torna apenas “preventivo”.
No dia 03 de janeiro de 2020 ainda antes da resposta iraniana ao ato terrorista autorizado pelo presidente do Império Donald Trump, o célebre articulista e ex-editor do New York Times, Thomas Friedman, produziu um artigo de opinião que correu o mundo ocidentalizado. O título em inglês é “Trump kills Iran’s most overrated warrior”E a linha de apoio afirma. “Soleimani pushed his country to build na empire, but drove it into the ground instead”. [aqui
Em nosso país, o texto do autor da infame ode à mundialização capitalista, o best-seller neoliberal “O mundo é plano” (editado no Brasil em 2005), foi traduzido e publicado (postado) no jornal Folha de São Paulo e depois reproduzido em diversas publicações na internet. O Principal veículo da família Frias fez circular a ideia de Friedman – o Thomas, que propagandeia também o Milton, mesmo que de forma dissimulada – ao afirmar a “burrice” iraniana. O título em português é “General iraniano morto em ataque americano era burro e superestimado”. [aqui]
Quando Friedman se refere ao major-general Qasem Soleimani (1957-2020), refere-se ao Estado persa, considerando que o militar assassinado por ordem de Trump se reportava diretamente ao Líder Supremo, o Grande Aiatolá Ali, logo se trata do mais alto nível decisório do país. Para ele, Thomas, o Irã seria “burro” porque não seguiu aproveitando o bom momento de crescimento econômico advindo das negociações multilaterais coordenadas pela ONU. Nestas a administração Barack Hussein Obama – com John Kerry à frente do Departamento de Estado – aliviaram uma parcela importante das sanções e do bloqueio econômico. As negociações para controle da pesquisa atômica se deram em 2015 – com a participação intensa da diplomacia brasileira à época – implicando em um crescimento econômico de 12%  em 2016.
A “burrice” seria não seguir o boom de sua própria economia com mediana complexidade e se “aventurar” a ampliar a atuação na política regional no Oriente Médio. Para Thomas Friedman, ser “inteligente” é ficar “bem comportado”, de maneira quieta, acatando a hegemonia fática de Arábia Saudita e Israel, e não participando de conflitos onde operam seus principais aliados. Enfim, a “esperteza” seria entregar o xiismo ampliado à própria sorte, incluindo a relação com o Hezbolá na defesa da soberania nacional libanesa. “Inteligência” poderia ser ajudar a entregar a Palestina às traições da Autoridade “Nacional”, o cerco à Gaza e a ocupação da maior parte da Cisjordânia, incluindo o roubo de terras e valiosos recursos hídricos. “Sagaz”, para Friedman, seria portar-se como Egito após a traição de Camp David ou quiçá como os hachemitas do Reino da Jordânia, inventado pelos ingleses.
Poucas vezes li algo tão cínico, menosprezando tanto as capacidades do Estado persa como superestimando os países “ocidentais”, dentre os quais Israel se inclui sem sê-lo. De maneira alguma estou “defendendo” o Irã dos aiatolás de forma incondicional. Sou crítico – muito crítico por sinal – de sua política doméstica assim como me oponho à relação com a maioria sunita na Síria. A defesa da democracia política, das liberdades religiosas, da equidade de gênero, do federalismo étnico-cultural e de uma economia com base cooperativa rumando a um modelo socialista adequado ao Oriente Médio não encontra eco no cinismo de Thomas Friedman.
Eu insisto se fosse uma crítica humanista com honestidade intelectual, deveria separar os níveis de análise. A defesa da democracia social no Irã não nos impede de entender alguns acertos de sua política externa. Queria ver um Irã de plenos direitos para homens e mulheres, sunitas e xiitas, persas, árabes, azeris, balochis e curdos. Só não quero ver um Irã destruído pelos gringos e nem com um governo fantoche da Casa Branca.
O articulista do New York Times compara o Irã com uma força imperial na região. Em patre sim, Teerã exerce projeção de poder, mas essa é a norma das relações internacionais e não a exceção. Em termos gerais, o autor do livro “De Beirute a Jerusalém” (editado em 1989, facilmente encontrado em português) critica a única das quatro potências regionais (Israel, Arábia Saudita, Turquia e Irã) que enfrenta diretamente os cruzados ocidentais e não adere de forma completa aos russo-bizantinos.
Logo, a “burrice” dita por Thomas Friedman é a vontade soberana de exercer relações exteriores por parte de um país independente com assento na Assembleia Geral da ONU.  Ou o ex-editor do jornal mais prestigiado dos EUA também considera que países independentes e com vontade própria sejam “burros”, devendo os povos do mundo se resignar a condições subalternas de capitalismo periférico?! Inteligente é a adesão ao imperialismo dos Estados Unidos ou quem sabe, à projeção de poder imperial de China é Rússia?! Foi “burrice” a independência da Argélia através de sua guerra de libertação? É uma “estupidez” lutar pelos direitos inalienáveis de cerca de sete milhões de palestinos vivendo sob o cerco, ocupação militar e apartheid impostos pelo Estado de Israel sendo estes últimos também financiados por Washington? Foi a “ameaçadora” presença do Irã no Líbano e na Síria que “forçou” Israel a influenciar o governo do Império e mudar sua política na região? O argumento absurdo contido no texto é esse.
Será que Thomas Friedman considera uma “burrice” do Reino do Qatar a afirmação de sua política externa independente, coordenando esforços comerciais e produtivos tanto com o Irã como com a Turquia? Seria pelo “raciocínio” do colunista um “despropósito” a existência de um conglomerado de comunicação de altíssima qualidade como a Al Jazeera?
Pela “lógica” de Friedman, a luta Federalista e Socialista do Curdistão é outra “estupidez” já que para tal a esquerda curda precisa enfrentar ao menos duas potências regionais simultaneamente. Poderia seguir em exemplos diversos desta caricatura de análise, mas creio já haver atingido o objetivo.
Thomas Friedman não quer analisar nada, é pura guerra de propaganda, disputa pelo controle da narrativa e a apresentação de “estórias” embaladas por preconceitos supostamente sofisticados de quem o lê. A grande “burrice” de Thomas Friedman é superestimar suas próprias versões, as quais se forem verdadeiras, são simplesmente “vazamentos” combinados de relatórios de inteligência. Melhore seu desempenho senhor colunista do Império, porque essa desinformação forçosa não emplacou.
A primeira versão deste artigo foi originalmente publicada no Monitor do Oriente (https://www.monitordooriente.com/)
Bruno Lima Rocha (Bruno Baaklini na ascendência árabe-libanesa) é pós-doutorando em economia política, doutor e mestre em ciência política; professor nos cursos de relações internacionais, jornalismo e direito.  
blimarocha@gmail.com (para E-mail e Facebook) / estrategiaeanaliseblog.com (textos, áudios e vídeos atuais) / facebook.com/estrategiaeanaliseoficial (para todo o acervo contemporâneo) / www.estrategiaeanalise.com.br (acervo do portal de 2005 ao final de 2018) / t.me/estrategiaeanalise (grupo de envio de conteúdo pelo Telegram).

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A pós-verdade e manipulações da realidade em tempos neoliberais fundamentalistas e bolsonaristas: Sócrates morreria de tristeza, por Leonardo Boff


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  "Assim ocorre com a expressão pós-verdade. Ela foi cunhada por um dramaturgo servo-norte-americano, Steve Tesich num artigo da revista The Nation de 1992 e retomada por ele depois ao referir-se ironicamente ao escândalo da Guerra do Golfo. O presidente Bush Filho, reunindo todo o Gabinete, pediu licença para retirar-se por alguns minutos. Fundamentalista, ia consultar o bom Senhor. Diz, “de joelho pedi ao Bom Senhor luzes para a decisão que iria tomar; ficou-me claro que devíamos ir à guerra contra Saddam Hussein”. As informações mais seguras afirmavam que não havia armas de destruição em massa. Era uma pós-verdade. Mas graças ao “Bom Senhor”, contra todas as evidências reafirmou: “Vamos à guerra”. E bárbaros, foram e destruíram uma das civilizações mais antigas."

Segue o texto do teólogo, filósofo e ativista ecológico Leonardo Boff:



Vivemos tempos dos pós: pós-moderno, pós-capitalista, pós-neoliberal, pós-comunismo, pós socialismo, pós-democracia, pós-religioso, pós-cristão, pós-humano e recentemente pós-verdade. Praticamente tudo tem o seu pós. Tal fato denota apenas que não encontramos ainda o nome que define o nosso tempo, vivendo reféns do velho. Contudo, assomam, aqui e acolá, sinais de que algum nome adequado está por vir. Em outras palavras, não sabemos ainda como definir a identidade de nosso tempo.
Assim ocorre com a expressão pós-verdade. Ela foi cunhada por um dramaturgo servo-norte-americano, Steve Tesich num artigo da revista The Nation de 1992 e retomada por ele depois ao referir-se ironicamente ao escândalo da Guerra do Golfo. O presidente Bush Filho, reunindo todo o Gabinete, pediu licença para retirar-se por alguns minutos. Fundamentalista, ia consultar o bom Senhor. Diz, “de joelho pedi ao Bom Senhor luzes para a decisão que iria tomar; ficou-me claro que devíamos ir à guerra contra Saddam Hussein”. As informações mais seguras afirmavam que não havia armas de destruição em massa. Era uma pós-verdade. Mas graças ao “Bom Senhor”, contra todas as evidências reafirmou: “Vamos à guerra”. E bárbaros, foram e destruíram uma das civilizações mais antigas.
O dicionário Oxford de 2016 a escolheu como a palavra do ano. Assim a define:”O que é relativo a circunstância na qual os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e crenças pessoais”. Não importa a verdade; só a minha conta. O jornalista britânico Matthew D’Ancona dedicou-lhe todo um livro com o título “Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news (Faro Editorial 2018). Ai mostra como se dá a predominância da crença e convicção pessoal sobre o fato bruto da realidade.
É doloroso verificar que toda a tradição filosófica do Ocidente e do Oriente que significou um esforço exaustivo na busca da verdade das coisas, sendo agora invalidada por um inaudito movimento histórico que afirma ser a verdade da realidade e da dureza dos fatos algo irrelevante. O que conta serão minhas crenças e convicções: só serão acolhidos aqueles fatos e aquelas versões que se coadunam à estas minhas crenças e convicções, sejam elas verdadeiras ou falsas. Elas representarão para mim a verdade. Isso funcionou largamente na campanha presidencial do Donald Trump e de Jair Bolsonaro.
Se Sócrates que dialogava incansavelmente com seus interlocutores sobre a verdade da justiça, da beleza e do amor, constatasse a predominância da pós-verdade, seguramente não precisaria ser obrigado a tomar a sicuta. Morreria de tristeza.
A pós-verdade denota a profundidade da crise de nossa civilização. Representa a covardia do espírito que não consegue ver e conviver com aquilo que é. Tem que deformá-lo e acomodá-lo ao gosto subjetivo das pessoas e dos grupos geralmente políticos.
Aqui valem as palavras do poeta espanhol, António Machado, fugido da perseguição de Franco:”A tua verdade. Não. A verdade. A tua guarde-a para tiBusquemos juntos a verdade”. Agora vergonhosamente não se precisa mais buscar juntos a verdade. Educados como individualistas pela cultura do capital, cada um assume como  verdade a que lhe serve. Poucos se enfrentam com a verdade “verdadeira” e se deixam medir por ela. Mas a realidade resiste e se impõe e nos dá duras lições.
Bem observava Iya Prigogine, prêmio Nobel em termodinâmica em seu livro o Fim das Certezas (1996): vivemos o tempo das possibilidades mais do que das certezas, o que não impede de buscar a verdade das leis da natureza. Zygmunt Bauman preferia falar “das realidades líquidas” como uma das características de nosso tempo. Dizia-o antes como ironia pois assim se sacrificava a verdade das coisas (da vida, do amor etc). Seria o império do evey thing goes: do vale tudo. E sabemos que nem tudo vale, como estuprar uma criança.
A pós-verdade não se identifica com as fake news: estas são mentiras e calúnias difundidas aos milhões pelas mídias digitais contra pessoas ou partidos. Tiveram um papel decisivo na vitória de Bolsonaro bem como na de Trump. Aqui vale o descaramento, a falta de caráter e o total descompromisso com os fatos. Na pós-verdade predomina a seleção daquilo, verdadeiro ou falso, que se adequa à minha visão das coisas. O defeito é a falta de crítica e de discernimento para buscar o que de fato é verdadeiro ou falso.
Não creio que estamos diante de uma era da “pós-verdade”. O que é perverso não tem sustentação própria para fundar uma história. A palavra decisiva cabe sempre à verdade cuja luz nunca se apaga.
Leonardo Boff é filósofo e escreveu Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito, Mar de Ideias, Rio 2010.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Os Pilares do Fascismo, onde a verdade e a manipulação da realidade morre primeiro para a liberdade morrer logo depois... Vídeo do Meteoro Brasil




Do Canal Meteoro Brasil:




   "O livro 1984, de George Orwell, é uma distopia que a humanidade evoca de quando em quando. Estão ali várias características dos regimes totalitários, todas potencializadas pela tecnologia. Hoje, nos concentramos nessa obra e também em "How Fascism Works: The Politics of Us and Them", do filósofo Jason Stanley, na (eterna) tentativa de entender o Brasil."

    Os  Dez Pilares do Fascismo e do Neofascismo, de acordo como que expõe Jason Stanley em seu trabalho acima citado, podem ser assim resumidos:

    1 - Manipulação da verdade, com uso massivo de Fake News e notícias filtradas, para deturpar ou combater a realidade.

   2 - Mitificação ou imposição de um passado irreal, mas idealizado, por mais falso que seja, tipo "Ditadura militar como Idade de Ouro".

  3 - Propaganda massiva para a inversão da notícia e imposição de uma forma de comportamento: não pense, só assista e acredite no que outros pensaram para você acreditar.

    4  -  Anti-Intelectualismo: professores, intelectuais, escritores e estudantes são apresentados como doutrinadores subversivos e mesmo ignorantes, enquanto que falsos "sábios" (incluindo mesmo ex-astrólogos que sequer completaram o segundo grau), cheio de teorias conspiratórias e palavras de baixo calão são vistos como detentores da verdade. Qualquer tipo de possibilidade de pensamento crítico e sua livre expressão é fortemente perseguida pelo fascista. Como dizia Hitler, "precisamos que a propaganda tenha forte apelo emocional aos menos educados". Assim, cala-se a razão e impõe-se o poder autoritário, ditatorial.

    5 - Hierarquismo autoritário, com forte apelo ao discurso militarista e da "superioridade" da elite sobre o povo. No fascismo, o grupo dominante acha-se superior e mais vailoso que todo o "resto".

  6 - Vitimização: No fascismo, os grupos das elites dominantes se dizem atacadas por "subversivos", que são sempre apresentados como "corruptos",  "bandidos". Ou seja, o grupo dominante se apresenta como vítimas dos oprimidos por eles mesmos. Por isso, apresentam um discurso de ódio e de "limpeza social".

   7 - Imposição de irracionalidade emocional, em especial por teorias da conspiração. Falsas teorias, de cunho paranóico, são impostas por fake news, como o feminismo que quer atacar os homens,  os negros que querem matar os brancos, ou os pobres que querem destruir os ricos, etc.

   8 - Imposição de uma Leia e Ordem, mas que seja do interesse da minoria elitista, contra as pretensões de igualdade e melhoria das maiorias, criminalizado as dissidências e banalização do mal contra a maioria.

  9 - Tensão sexual. A busca por denegrir ou controlar a sexualidade envolve mais do que moralismo, envolve a imposição de modelos esteriotipados de masculinidade e feminilidade e, com isso, o envolvimento emocional de pessoas com problemas, o que ajuda no discurso de ódio.

   10 - Falso moralismo, justificando a perseguição ao "diferente" aos interesses econômicos e políticos de quem expressa este discurso.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ignácio Ramonet: A opinião pública não quer verdades, quer confirmar suas crenças



"Na física quântica é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Hoje estamos diante de informações quânticas. (...) A verdade não é relevante, não é mais pertinente, e por isso se colocou esse conceito de pós-verdade ou verdade alternativa: você tem a sua, eu tenho a minha", diz o jornalista frânces Ignácio Ramonet
Foto: David Fernández
Cíntia Alves, para o Jornal GGNEm novembro de 2018, La Casa Encendida, um centro cultural de Madri, divulgou no Youtube o vídeo de uma mesa de debate com o jornalista francês Ignácio Ramonet, autor de "A Explosão do Jornalismo" na era da internet. 
No início dessa década, Ramonet viajava o mundo propagando ideias sobre como as novas tecnologias da informação e comunicação (TICs) catapultaram a ascensão dos "meios-polvo" sobre os "meios-sol". Qualquer cidadão com um dispositivo conectado à internet agora opera como um propagador de mensagens ou produtor de conteúdo, dinamitando o monopólio da imprensa tradicional.
 
Por um lado, esses avanços tecnológicos representaram a democratização dos meios de informação mas, de outro, já perto do final da década, ficou claro que esses mesmos avanços nos levaram diretamente a uma segunda explosão do jornalismo: no mérito, uma desvalorização ou desqualificação do conteúdo feito por profissionais, somada à uma crise de confiança que desbaratou emissoras de TV e rádio, jornais impressos e digitais, blogs e afins.
 
Manipulado ou espontâneo, certo é que esse desinteresse de parte da sociedade acerca da verdade factual lapidada pelo jornalismo profissional virou terreno fértil para as fake news.
 
No vídeo abaixo, Ramonet comenta suas perspectivas sobre a era da pós-verdade, notícias falsas e uso das redes sociais por populistas de direita na América Latina, Estados Unidos e Europa.
 
A partir de 1 hora e 6 minutos de vídeo, ele trata da eleição de Jair Bolsonaro neste contexto de sociedade organizada em rede, com cidadãos fortemenete inclinados a formular uma verdade própria.
 
GGN destacou alguns trechos desse momento do debate:
 
 
***
 
"Para entender a comunicação no século XXI é preciso entender que naturalmente a opinião pública não busca a verdade. O que a opinião pública busca são informações que confirmem suas crenças prévias.
 
O que acaba de passar no Brasil de Bolsonaro?
 
Há uma investigação sobre Bolsonaro ter utilizado oficianas de ciberguerra para infiltrar no WhatsApp mensagens falsas.
 
No Brasil, as empresas ajudaram Bolsonaro financiando a difusão de mentiras.
 
 
Em particular:
 
- Que o Haddad havia distribuído um kit gay aos meninos de 6 anos nas escolas.
 
- Que o homem que apunhalou Bolsonaro era militante do PT e amigo de Lula. E havia uma foto de um meeting de Lula com o esfaqueador, uma foto manipulada.
 
- Uma atriz com os olhos roxos, difundiram que ela foi agredida porque gritou em favor de Bolsonaro. Ela faleceu há 2 anos.
 
- Disseram que Haddad defendia o incesto e o comunismo.
 
- E difundiram que se Haddad ganhasse as eleições, ira aprovar uma lei para legalizar a pedofilia.
 
São exemplo de fake news que permitiram a Bolsonaro ganhar a eleição. 
 
A internet não impede que uma informação falsa possa se difundir. 
 
Todas as controversias se alimentam, todas as teses são válidas. Todas as afirmações são legítimas. É a teoria da relatividade em matéria de informação. Não há informação mais válida que outra, se eu a afirmo com mais força.
 
Na física quântica é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Hoje estamos diante de informações quânticas. 
 
Foulcault dizia que a verdade tem uma história. Finalmente o mundo funciona com uma ideia de verdade não-científica, não-racional, que ele chamava de "verdade raio", porque se manifesta num momento, num lugar e numa pessoa. 
 
No século XVIII apareceu a "verdade céu". Um metro mede um metro seja aqui ou em qualquer lugar do planeta. 
 
A pergunta que faço hoje é se estamos abandonando a "verdade céu" para regressar à "verdade raio".
 
Estamos sendo enganados pela ideia de que podemos ter crenças que se podem introduzir no nosso pensamento.
 
Os psicólogos nos dizem que preferimos crer em realidades alternativas do que na realidade real porque nos dá mais prazer emocional.
 
Nos EUA, 61% já se informam através do WhatsApp.
 
Escrevemos o que pensamos que as pessoas querem ler, não a verdade.
 
A pós-verdade e os meios alternativos estão reposicionando o campo da informação, modificando a batalha eleitoral e contribuindo na influência da opinião pública. É um problema para a democracia, o emocional das verdades fictícias.
 
É perigoso porque a historia nos ensina que quando desaparece a verdade, também desaparece a liberdade."
 
 
"JÁ NÃO INFLUENCIAM OS MEIOS INFLUENTES?"
 
Estão aparecendo novas formas de governo. No mundo democrático, globalmente, tinhamos governos conservadores, progressistas ou de alianças entre os dois. De uns anos para cá, estamos vendo surgir organizações políticas que vencem as eleições e que não correspondem a nenhuma dessas famílias políticas que conhecemos.
 
Em vários países europeus, mais recentemente na Itália, temos visto a ascensão do governo populistas que fazem a Europa entrar numa nova etapa política, em que a questão das imigrações e das novas tecnologias são importantes.
 
Hoje o funcionamento da democracia está em crise. Estamos entrando em uma nova era da política em que as regras do jogo não estão funcionando. Há uma crise de confiança nas democracias.
 
Em vários países da América Latina, a maioria responde que entre um governo democrático sem emprego e um governo autoritário que promova empregos, eles preferem o segundo. É o que estamos vendo na Europa.
 
Uma parte da sociedade já não crê na democracia e na economia neoliberal. 
 
A crise de 2008 provocou uma crise de desconfiança traumática na economia de mercado tal como estava sendo dada.
 
As sociedades que pensavam ter deixado a pobreza para trás viram como os ricos continuaram bem durante a crise e isso ajudou a desencadear a crise da democracia.
 
Nem o neoliberalismo, nem o marxismo tradicional, nem a sociodemocracia têm conseguido responder às mudanças dessa sociedade que não se vê representada na classe política.
 
Ao mesmo tempo, estamos com dificuldade de encontrar uma agenda política com a qual nos identificamos diante da oferta.
 
O caso mais emblemático é o de Trump. Sua eleição constitutiu um verdadeiro traumatismo. 
 
Como alguém atacado por todos os meios hegemônicos pode ter sido eleito? A mesma pergunta pode ter sido feita sobre Bolsonaro.
 
Trump tinha a mídia e Wall Street contra ele. Todos os grandes intelectuais e todos os grandes pensadores e formadores de opinião estavam contra.
 
A mesma coisa com o Brexit: toda a vida inteligente estava contra o Brexit.
 
Fica a pergunta: já não influenciam os meios influentes?
 
As coisas mudaram com a internet. Não estamos no mundo midiático que conhecemos por muito tempo. 
 
Agora, todos somos meios. E todos podemos nos comparar com grandes canais de televisão. É uma revolução copernicana. Todos podemos produzir conteúdo. 
 
Os meios dominantes impuseram a moral e a agenda política. A imprensa era capaz de criar uma manipulação de massa sutil para conduzir a sociedade na direção desejada. Isso se rompe com a democratização dos meios de comunicação.
 
Trump, por exemplo, não foi a programas de televisão durante a campanha. E diz que a imprensa é inimigo do povo. Os EUA têm 4 grandes canais, sendo a Fox um deles, o único em que Trump vai.
 
Trump tem 55 milhões de seguidores no Twitter, o dobro de espectadores que assistem a um telejornal. E tem mais 24 milhões de seguidores no Facebook. Tem mais do que os meios tradicionais, que estão perdendo audiência.
 
O meio dominante hoje são as redes sociais. Está fragmentada, mas é o meio domintante. Não há nenhum canal de televisão hoje que tenha mais influência que os chamados digital influencers.
 
Não podemos mais pensar que a TV tem influência. Muita gente tem TV para ver Netflix ou canais privados. Hoje os indivíduos podem se comunicar por suas redes e alcançar mais gente do que os grandes canais de comunicação. É uma revolução comunicação de grande envergadura.
 
 
Os meios de massa deixaram de ser meios dominantes e devemos perguntar se continuam sendo meios de massa ou só meios hegemônicos, porque os meios sociais são os novos meios de massa. Eles é que estão fazendo mudança no plano político e eleitoral, inclusive.
 
"A VERDADE NÃO É MAIS NECESSÁRIA"
 
A vitória de Trump também demonstrou que a verdade não é mais necessária. Para ganhar a eleição, você não precisa se apoiar na verdade. A verdade não é relevante, não é mais pertinente, e por isso se colocou esse conceito de pós-verdade ou verdade alternativa: você tem a sua, eu tenho a minha.
 
As fake news, a construção de uma falsidade é algo que a gente pensava ser normal, já existia. Mas profissionalmente é algo novo. Foram uma parte do debate político, como se fossem algo normal.
 
Estamos impactados e traumatizados pelo universo da comunicação estar colonizado pelas falsas notícias.
 
 
 
 
 
 

domingo, 7 de janeiro de 2018

Do Justificando: A pós-verdade e o fascismo: uma ameaça antidemocrática



"O termo pós-verdade foi utilizado pela primeira vez em meados dos anos 1990 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich e referia-se a supressão da verdade dos fatos. Segundo o dicionário Oxford o termo se relaciona com as circunstâncias onde fatos objetivos possuem menor importância e influência em moldar a opinião pública do que os apelos emocionais e crenças morais na maneira com que se transmitem as informações. Há, evidentemente, uma apatia em relação à verdade."

Do site Justificando:


A pós-verdade e o fascismo: uma ameaça antidemocrática

Kim Kataguiri e Fernando Holiday, integrantes do MBL. Foto: Reprodução.  
Recentemente foi compartilhada por milhares de pessoas nas redes sociais a informação de que o cantor Pabllo Vitar seria beneficiado pela Lei Rouanet em cerca de R$ 5 milhões de reais para uma produção musical. A notícia trazia o fato paralelo de que o Hospital de Câncer teria sido fechado por ausência de verba, fato este que trouxe imediata indignação coletiva de muitas pessoas que, antes da informação, possuíam algum tipo de preconceito com o cantor e com a representatividade LGBT no meio cultural.
Surpresa!  A informação era falsa e compõe um dos diversos casos de notícias incorretas espalhadas virtualmente ao longo de 2017.
“Governo de Goiás está distribuindo bonecas com órgão sexual trocado” “Maria do Rosário e Jean Wyllys se uniram para defender pedófilos”. Estes e tantos outros exemplos vêm ocorrendo assiduamente nas redes sociais brasileiras. O fenômeno, porém, é mundial. Desde as eleições americanas em 2016, o termo “Pós-verdade” vem sendo citado em estudos, artigos, debates intelectuais e até entrou para o dicionário Oxford.
Tal fato se deu, principalmente, após o uso massivo de informações falsas e difamatórias utilizadas no Brexit britânico e na campanha eleitoral dos Estados Unidos de 2016 que culminou com a vitória do inescrupuloso Donald Trump. Todavia faz-se necessário aprofundarmos nas raízes desse fenômeno coletivo de ampla disseminação de informações espúrias e que possui indubitável uso político.
O termo pós-verdade foi utilizado pela primeira vez em meados dos anos 1990 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich e referia-se a supressão da verdade dos fatos. Segundo o dicionário Oxford o termo se relaciona com as circunstâncias onde fatos objetivos possuem menor importância e influência em moldar a opinião pública do que os apelos emocionais e crenças morais na maneira com que se transmitem as informações. Há, evidentemente, uma apatia em relação à verdade.
As notícias falsas e a desinformação são espalhadas virtualmente em um ritmo e nível global assustador e correlacionam-se a um dos efeitos da globalização.
 A evolução da globalização caminhou junto com a evolução tecnológica e, desde os anos 1990, do crescimento da influência da Internet. Nesse contexto o surgimento das redes deu lugar a um espaço virtual de interação e propagação de informações. Alguns autores, como Levy[2], que esquadrinham o ciberespaço em análises sociológicas e filosóficas veem a mudança da esfera pública pela influência das redes sociais como  positiva uma vez que fornece aos cidadãos maior capacidade de expressão,  aquisição de informações e associação. Segundo Levy isso colaboraria para aumentar a capacidade cívica do povo de pressionar governos e obtendo assim maior transparência e diálogo democrático. 
Grandes nomes como o filósofo alemão Jürgen Habermas[3] observam nas redes sociais da Internet um perfil potencializador de participação política mais efetiva que combina colaboração, interação, mediação, acessibilidade a informações e mobilização. Outros como Luhmann[4], discordam. Para Luhmann, em sua teoria da comunicação, há a ideia de que os meios de comunicação modernos não contribuem para melhoria da participação política ou interação e sim colaboram para a produção contínua do que chamou de “irritações”.
Nesse sentido o avanço das redes sociais teria representado uma certa ruptura paradigmática entre a emissão e a recepção das mensagens. O emissor, a origem e validade da informação perderam importância dando lugar ao teor emocional e moral. Fato este verificado diuturnamente na divulgação de notícias difamatórias e espúrias  feitos no Brasil por grupos como MBL, alguns youtubers e think tanks de extrema-direita e que trabalham em regime de cooperação para desqualificação das esquerdas no geral. 
Esse fundamentalismo comunicacional nas redes sociais criou uma espécie de histeria coletiva, quando o falso exercício de direitos fundamentais como liberdade de expressão, liberdade de imprensa e o direito de livre associação dão lugar à proliferação dos discursos de ódio, segregacionismo, racismo, machismo,  misoginia, anti-sindicalismo, anti-socialismo. Os indivíduos que compartilham as informações sem verificar a originalidade do conteúdo, contribuem para ganho de força eleitoral dos grupos políticos que fazem oposição a qualquer grupo ou político progressista.
O compartilhamento desenfreado de notícias falsas acarreta na estruturação de um fenômeno político já conhecido no passado: o fascismo.
Não mais aquele fascismo dos tempos de Mussolini e Hitler, grandes expoentes do ultraconservadorismo e extrema-direita (em frustrantes tempos em que se fala que o nazismo é de esquerda), mas um fascismo cultural virtual, tecnocrático. Não é mais apenas a mídia tradicional que serve o fascismo com sua parcialidade como a demonstrada pelo saudoso crítico do fascismo Umberto Eco[5] em seu último romance Número Zero, onde um grupo de jornalistas preparam um jornal que não tem interesse informativo mas apenas em difamar e chantagear a serviço de seu editor, mas também a própria população através das redes e da falta de consciência ao reverberar fatos falsos. Porém, nitidamente existe um uso político por trás.
Assim como o Ministério da Verdade na obra de Orwell[6], as informações desleais propaladas nas redes sociais servem a grupos reacionários para amplificar e legitimar o ódio. Assim como nos Estados Unidos, segundo Chomsky[7] os governos fazem uso da mídia para angariar apoio da população e assim  legitimar entrada nos confrontos militares.
A soma dos elementos pós-verdade e internet está a serviço da direita política.
A mesma direita que incansavelmente acusa inconcebivelmente os direitos e liberdades defendidos por progressistas e humanistas de “politicamente correto” e fruto do marxismo cultural da hegemonia gramsciana, possui agora uma produção constante e articulada de um possível “fascismo cultural” que utiliza das redes para legitimar poder político e enfraquecer as esquerdas e, acima disso, prejudicar a democracia, o pluralismo político e a cidadania.
Portanto faz-se necessário repensar a falta de consciência das redes e a instrumentalização das mesmas para fins político-partidários através da disseminação de difamações coletivas quase que instantâneas. Bauman[8] já apontava para tal perigo das redes de inibirem o medo dos chamados “caçadores” da sociedade de partirem para o ataque raivoso sobre os indivíduos a quem nutrem ódio. O império das mentiras e manipulação das massas não pode voltar a vigorar.
Concluímos com uma famigerada frase tão concernente e atual que relaciona-se com o fenômenos das fake news e seu uso político, proferida pelo pai da propaganda nazista:
Uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade – Joseph Goebbels
Ian Martin Vargas é graduando em Direito pelo Centro Universitário Dinâmica Cataratas. Ativista sindical e dos direitos humanos. 

[2] LÉVY, P. A mutação inacabada da esfera pública. In: LEMOS, A.;LÉVY, P. O futuro da internet: em direção a uma ciberdemocracia planetária. São Paulo: Paulus, 2010.
[3] HABERMAS, J. Mudança estrutural na esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003
[4] LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas. tradução de Ana Cristina Arantes Nasser – Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.
[5] ECO, Umberto. Número Zero. 1. ed. Record, 2015.
[6] ORWELL, George. 1984. Companhia das Letras: São Paulo, 2009.
[7] CHOMSKY, Noam. Mídia. Propaganda política e manipulação. Tradução: Fernando Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
[8] BAUMAN, Zymunt. Medo líquido. Rio de Janeiro, Zahar, 2008.