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quarta-feira, 18 de março de 2015

O que está por trás do incentivo a tanto ódio?






 "Tirar o foco de uma mudança estrutural do sistema político brasileiro para debater a volta do regime militar e novas formas de chamar os petistas de “petralhas” só ajuda os políticos que há anos se aproveitam do patrimônio público. E quando se fala em anos, o recorte pode até ser estendido aos séculos que alcançam a formação institucional do país, há mais 500 anos.

 "Formado em sua essência como uma estrutura disponível exclusivamente para ter seus recursos roubados para o proveito da metrópole e não usufruídos pela população, o Brasil tem no sangue um sistema político falho. E não são quatro anos de qualquer gestão que irão resolver o problema."


DISCURSO DO ÓDIO

A encarnação da espiral do silêncio

Por Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa em 16/03/2015 na edição 842 do Observatório da Imprensa
Ela é uma senhora de quase 70 anos, uma avó. E é xingada de “vaca”, “vagabunda” e “asquerosa” por aqueles que querem atingi-la na esfera política. A presidente Dilma Rousseff (PT) merece críticas, mas certamente nem ela nem ninguém merece boçalidade em formato de mal disfarçado ativismo político.
Presidentes que governaram e governam democraticamente em situações políticas e econômicas piores que Dilma seguem incólumes sem nenhuma sombra de protestos pró-impeachment. Claro que cada país tem suas particularidades institucionais, mas a lição que se tira disso tudo é que Dilma Rousseff não consegue mais se comunicar. Nem com sua base de apoio no Congresso Nacional e menos ainda com seus eleitores.
Foi o “muso” dos conservadores, Olavo de Carvalho, quem introduziu indiretamente na roda de discussão um conceito que volta e meia é debatido na comunicação, a teoria da espiral do silêncio. Em seu perfil no microblog Twitter, ele disse: “Mostrem força e a mídia ficará do seu lado, por mero cagaço que seja. Jornalista é puta: adere sempre ao mais fortão”. Pulando o machismo perceptível no raciocínio simplista, a ideia é a mesma embutida na teoria da espiral do silêncio, cujo conceito surgiu na década de 1970 por meio de trabalhos da alemã Noelle-Neuman: aqueles que detêm as opiniões maioritárias tendem, mesmo que indiretamente, a silenciar os detentores de opiniões minoritárias, que com o receio de represálias acabam por não expor o seu pensamento.
Se, naturalmente, a opinião pública influencia a opinião individual, já passou então da hora de Dilma Rousseff e sua equipe de comunicação tratarem de tentar inverter o sentido do vento o mais urgente possível. O destino para onde o vento sopra hoje leva à instabilidade política e econômica, cujo desfecho é incerto, mas já amedronta.
Eleita pela maioria dos brasileiros, Dilma não se comporta como vencedora nem como maioria. A resignada solidão e o isolamento político refletem-se numa percepção pública de que a presidente está fraca. Tentando a autopreservação, até os petistas atacam a própria carne, como se Dilma sangrando não contaminasse todas as possibilidades de manutenção da sigla no poder em 2018, com a perspectiva cada vez mais frágil do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se candidatar novamente ao Palácio do Planalto. E, não custa lembrar, ao ver o menor sinal de sangue, os tubarões fazem a festa.
Para que tanto ódio?
Defender a volta de uma ditadura militar só porque o governo no poder não é o que mais lhe agrada é ser mimado, e não maduro. O asfixiamento que Dilma vive – sem fôlego para começar um mandato, impregnada na lama de membros do PT e de outras siglas – não deixa de ser uma retirada do ar da população em geral. Com o discurso de uma tecla só (leia-se “Lava Jato + Petrobras + corrupção”) o país vive uma cortina de fumaça sobre o tema mais importante do momento: a possibilidade concreta de retirar do papel a reforma política.
Tirar o foco de uma mudança estrutural do sistema político brasileiro para debater a volta do regime militar e novas formas de chamar os petistas de “petralhas” só ajuda os políticos que há anos se aproveitam do patrimônio público. E quando se fala em anos, o recorte pode até ser estendido aos séculos que alcançam a formação institucional do país, há mais 500 anos.
Formado em sua essência como uma estrutura disponível exclusivamente para ter seus recursos roubados para o proveito da metrópole e não usufruídos pela população, o Brasil tem no sangue um sistema político falho. E não são quatro anos de qualquer gestão que irão resolver o problema.
O discurso do ódio, reverberado pela mídia, não é capaz de gerar nada além de um humor social ainda mais feroz, retroalimentando uma lógica que atende mais à insensatez do que ao avanço do debate público. Ao invés de discutir soluções dentro da democracia, estamos sendo neutralizados pelo radicalismo. Ao invés de ação e movimento, o brasileiro continua agindo como um fantoche que segue o trem – mesmo que esse trem dê voltas sobre si mesmo.
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Sávia Lorena Barreto Carvalho de Sousa é jornalista

sábado, 22 de junho de 2013

Entre a Democracia e o fascismo, texto de Paulo Moreira Leite

Da Istoé
Paulo Moreira Leite



O movimento de caráter semi-insurrecional que vemos no país de hoje exige uma reflexão cuidadosa.
Começou como uma luta justíssima pela redução de tarifas de ônibus.
Auxiliada pela postura irredutível das autoridades e pela brutalidade policial, esta mobilização transformou-se numa luta nacional pela democracia.
Se a redução da tarifa foi vitoriosa, a defesa dos direitos democráticos também deu resultado na medida em que o Estado deixou de empregar a violência como método preferencial para impor suas políticas.
Mas hoje a mobilização assumiu outra fisionomia.
Seu traços anti-democráticos acentuados. Até o MPL, entidade que havia organizado o movimento em sua primeira fase, decidiu retirar-se das mobilizações.
Os manifestantes combatem os partidos políticos, que são a forma mais democrática de participação no Estado.
Seu argumento é típico do fascismo: “povo unido não precisa de partido.”
Claro que precisa. Não há saída na sociedade moderna. Às vezes, uma pessoa escolhe entrar num partido. Outras vezes, é massa de manobra e nem sabe.  
A criação de partidos políticos é a forma democrática de uma sociedade debater e negociar interesses diferentes, que não nascem na política, como se tenta acreditar, mas da própria vida social, das classes sociais.
Em São Paulo, em Brasília, os protestos exibiram faixa com caráter golpista. 
“Chega de políticos incompetentes!!! Intervenção Militar Já!!!”
No mesmo movimento, militantes de esquerda, com bandeiras de esquerda, foram forçados a deixar uma passeata na porrada. Uma bandeira do movimento negro foi rasgada.
A baderna cumpre um papel essencial na conjuntura atual. Reforça a sensação de desordem, cria o ambiente favorável a medidas de força – tão convenientes  para quem tem precisa desgastar de qualquer maneira um bloco político que ocupa o Planalto após três eleições consecutivas.  
A baderna é uma provocação que procura emparedar o governo Dilma criando uma situação sem saída.
Se reprime, é autoritária. Se cruza os braços, é omissa.
Outro efeito é embaralhar a situação política do país, confundir quem fala pela maioria e quem apenas pretende representá-la.
É bom recordar que a maioria escolhe seu governo pelo voto, o critério mais democrático que existe.
Nenhum brasileiro chegou perto do paraíso e todos nós temos reivindicações legítimas que precisam de uma resposta.
Também sabemos das mazelas de um sistema político criado para defender a ordem vigente – e que, com muita dificuldade, através de brechas sempre estreitas, criou benefícios para a maioria.
Olhando para a maioria dos brasileiros, aqueles que foram excluídos da história ao longo de séculos, cabe perguntar, porém: os políticos atuais são incompetentes para quem, mascarados?
Para a empregada doméstica, que emancipou-se das últimas heranças da escravidão?
Para 40 milhões que recebem o bolsa-família?
Para os milhões de jovens pobres que nunca puderam entrar numa faculdade? Para os negros? Quem vive do mínimo?
Ou para quem vai ao mercado de trabalho e encontra um índice de desemprego invejado no resto do mundo?
Mascarados que arrebentam vidraças, incendeiam ônibus e invadem edifícios trabalham contra a ordem democrática, onde os partidos são legítimos, as pessoas têm direitos iguais  – e  o poder, que emana do povo, não se resolve na arruaça, pelo sangue, mas pelo voto.
É óbvio que a baderna, em sua fase atual, não quer objetivos claros nem reivindicações específicas. Não quer negociações, não quer o funcionamento da democracia. Quer travá-la.  
Enquanto não avançar pela violência direta, fará o possível para criar pedidos difusos, que não sejam possíveis de avaliar nem responder.
O objetivo é manter a raiva, a febre, a multidão eletrizada.
É delírio enxergar o que está acontecendo no país como um conflito entre direita e esquerda. É uma luta muito maior, como aprenderam todas as pessoas que vivenciaram e estudaram as trevas de uma ditadura.
A questão colocada é a defesa da democracia, este regime insubstituível para a criação do bem-estar social e do progresso econômico.
O conflito é este: democracia ou fascismo. Não há alternativa no horizonte.
Quem não perceber isso está condenado a travar a luta errada, com métodos errados e chegar a um desfecho errado.