domingo, 13 de abril de 2014

O interessante filme Noé, de Darren Aronofsky, e a tola reação dos fundamentalistas





Texto de 

Carlos Antonio Fragoso Guimarães


Cerca de mil anos antes dos primeiros textos do Antigo Testamento começassem a ser escritos e editados, os sumérios-babilônios já tinham em sua literatura mítica sofisticada, em que se destacam as Epopéias de Gilgamesh e Utnapishtim Ziusudra, aventuras semelhantes às míticas narrações  encontradas no Gênesis, em especial a história do Dilúvio.  
- Na foto ao lado, feita pela NASA, a reconstituição, em azul mais escuro, do proto-Mar Negro e, em azul mais claro, as áreas submersas com o rompimento do dique natural formado pelo istmo do Bósforo - Fonte: WikiPedia.
  As lendas diluvianas do Oriente Médio (sumério-assírio-babilônicas e hebraicas)  são baseadas, por sua vez, em acontecimentos naturais, entre eles, o rompimento de uma barreira natural (o istmo do Bósforo, assim transformado no atual estreito de Bósforo) que, unindo a Trácia à Anatólia, parte da atual Turquia, separava o proto-Mar Negro, então um lago de águas doces formado pelo derretimento das últimas geleiras da era glacial, das águas salgadas do Mar Mediterrâneo.

  Tal evento causou a submersão de grandes áreas costeiras margeadoras do lago original, onde haviam povoamentos e glebas rurais primitivas. Contudo, esteve longe de ser um desastre universal. Segundo as teorias mais recentes (Ryan & Pitman, 1998), o rompimento do istmo ocorreu há cerca de 5600 anos antes de Cristo, formando os traços gerais do atual Mar Negro. Pistas literárias deste evento localizado se encontram na própria Bíblia, já que a mítica Arca de Noé teria pousado no Monte Ararat, montanha que fica na Turquia e não na regão mais ao centro do Oriente Médio, palco onde se passam a maior parte dos relatos do Gênesis. Enchentes e inundações posteriores em regiões do Oriente Médio acabariam por estabelecer o estimulo para os diferentes relatos diluvianos encontrado na cultura ancestral dos assírio-babilônios, persas e, posteriormente, dos hebreus.

  No ocidente, o relato mítico mais conhecido do Dilúvio é, claro, o encontrado na Bíblia, popularmente conhecido como a história da "Arca de Noé". Contudo, todos os historiadores parecem concordam que os traços gerais, ou melhor, quase a totalidade desta estória, como citamos, já se encontram nos relatos assírios e sumérios da Epopeia de Gilgamesh e de Utnapshtim, especialmente este último, registrado no poema épico Atrahasis.

   O "Noé" de antes do Antigo Testamento

   O poema sumeriano Atrahasis, cujo enredo demonstra ter sido escrito mais de mil anos antes da escrita do Gênesis (2700 anos atrás), relata que o deus Enlil ficou decepcionado e contrariado ante a maldade ruidosa dos homens e, assim, decide eliminá-los da face da Terra. Contudo, o homem Utnapshtim (ou Ziusudra em arcádio-sumério) era não apenas justo mas também um protegido do deus Enki, que o previne da destruição iminente, instruindo-o, igualmente, para que construísse uma imensa arca para nela embarcar a sua família e um casal  de cada tipo e espécie de animal conhecido. Este relato era corrente em toda a Mesopotâmia antiga, era parte da tradição oral e foi adaptada pelos antigos hebreus, que a transformaram no relato conhecido de Noé.

  O "Noé" de Darren Aronofsky

  Foi baseado, em parte, no relato bíblico, mas indo mais além deste, incluindo elementos do judaismo místico (Cabbala), do poema Atrahasis e da antiga e tradicional tradição gnóstica, que o diretor Darren Aronofsky (de Cisne Negro) elaborou seu cativante e, por isso mesmo, polêmico (para os fundamentalistas) filme Noé (Noah, 2013).

 No filme, Noé (Russel Crowe) é um homem que descende de um outro filho de Adão e Eva que não Caim, chamado Set. Apesar de justo, é um homem como os demais, cheio de fraquezas e dúvidas, em permanente tensão com o reino dos outros homens, descendentes de Caim.

   Vegetariano e amigo dos animas, Noé começa a ter sonhos onde vê a Terra sendo devastada por um Dilúvio de grandes proporções. Os sonhos e a linguagem simbólica, a linguagem universal não apenas do inconsciente mas dos fenômenos psi, não são diretos e Noé aos poucos é que vem a ter noção do que deve fazer (e ainda assim, interpreta mal a questão da sobrevivência da espécie humana através de sua própria linhagem, ao perceber que também ele possui em si a capacidade de ser mal). É no decorrer da concretização de sua missão que ele vem a perceber que o bem e o mal são polos duais inerentes ao próprio fato de se ser humano, e da capacidade e responsabilidade de exercer escolhas, decisões e enfrentar suas consequências (ou seja, o tomar consciência do bem e do mal que há em si).

  No decorrer dos acontecimentos, nas prévias da construção da sua arca, Noé vem ter a ajuda dos gigantes, seres que são por vezes citados no Antigo Testamento, mas que não aparecem no relato diluviano bíblico. No entanto, a intenção de Aronofsky (que se diz um cético) não foi o de adaptar o relato bíblico ao cinema, mas, como o faz nos seus outros filmes (Pi e Cisne Negro), fazer um filme que fale das capacidades humanas, positivas e negativas, seus potenciais para o melhor e para o pior e, em especial, mostrar que há sempre a possibilidade de transcendência e superação de erros. Os gigantes de pedra, por exemplo, o filme foram anjos "caídos" (escolheram desobedecer a Deus) e, assim, transformados em seres físicos mas que, ao contrário da tradição infantil dos evangélicos fundamentalistas que imaginam um Deus vingativo, inclemente e tão inseguro que precise ser louvado todo o tempo para se sentir amado, são perdoados após purgarem seus erros em séculos de exílio na Terra e na ajuda gratuita que dão a Noé. Ao se sacrificarem pra ajudar a Arca a não ser invadida pelos homens da linhagem de Caim, os antigos anjos são recebidos de volta ao seio de Deus, o que, numa linguagem espiritualista, significa que todos os seres podem voltar ao ponto de origem, renovados  purificados, a partir mesmo de suas novas escolhas e condutas.

  A linguagem mitológica e simbólica da psique se associa a dos avanços atuais da razão e da ciência: a narrativa do Gênesis é associada tal qual é, de fato, uma alegoria,  acessível às mentalidades de um povo nômade, com a visão científica atual do Big Bang e da evolução das espécies, das primeiras células, passando pelo desenvolvimento da vida animal até chegar ao primata. Quando, no filme, Noé reconta tradicional visão bíblica da Criação, o diretor ao tempo apresenta uma panorâmica da Grande Explosão Inicial, o Big Bang, e a evolução do universo até o surgimento do homem. De fato, a evolução, indo do peixe ao homem, prepara a vinda do espírito humano e, muito a propósito, o arquétipo bíblico do ser humano primordial, Adão e Eva, são apresentados no filme inicialmente como espíritos luminosos, desencarnados, simples e ignorantes, até que a experiência do autoconhecimento e aperfeiçoamento intelectual e moral os fazem, a duras penas, tomar a noção da responsabilidade de seus atos. s desafios da vida os fazem conquistar o conhecimento, a razão e a inteligência.

  Mas muito mais que uma representação filosófica, o filme também é uma alegoria da ação destrutiva do homem contra a natureza e contra seus semelhantes, bem como uma crítica social, em que se questionam os construtos sociais e os modelos de governo que se acham inevitáveis, fatais (no filme, representado pelo reino de terror dos descendentes de Caim). Mas o enredo não cai no maniqueísmo infantil, com uma diferenciação totalitária em preto e branco ou do bem separado do mal:: Noé, no filme, percebe que o homem trás em si seu lado sombrio, e ele, enquanto homem, não está acima deste amálgama. Não é necessário a existência do mal absoluto ou de um ser de trevas a competir com Deus: o mal nada mais que é a ignorância ou a escolha egoísta, imediatista, as atitudes de Caim que se repetem a cada novo genocídio, seja através de armas, seja através da economia de "mercado", portanto, de um mal muitas vezes pensado e calculado (no filme, as atitudes de Caim são revistas na matança, em silhueta, de soldados antigos e modernos).

  Pois bem, foi exatamente essa mensagem mas profunda, tanto ecológico-social quanto espiritualista de salvação para todos, implícito no filme, e na explicação de que o relato mítico não deve ser entendido literalmente que atraiu a ira dos fundamentalistas evangélicos, incluindo também as alas conservadoras fundamentalistas católicas e muçulmanas, contra o belo filme de Aronofsky. Infelizmente, diante do crescimento da ignorância fundamentalista, atrelada ao crescimento do fascismo neoconservador da direita, impede que obras inteligentes como Noé sejam bem entendidas, mas que o serão posteriormente, caso o homem consiga romper estas escamas obtusas do fundamentalismo religioso e político.

Segue, agora, uma reflexão do filósofo, ecologista e teólogo Leonardo Boff:

Vivemos tempos de Noé

Leonardo Boff


Vivemos tempos de Noé. Pressintindo que viria um dilúvio, o velho Noé convocava as pessoas para mudarem de vida. Mas ninguém o ouvia. A contrário, “comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento até que veio o dilúvio e os fez perecer a todos”(Lc 17,27; Gn 6-9).
Os 2000 cientistas do IPCC que estudam o clima da Terra são nossos Noés atuais. O terceiro e último relatório de 13/4/2014 contem grave alerta: temos apenas 15 anos para impedir a ultrapassagem de 2 graus C do clima da Terra. Se ultrapassar, conheceremos algo do dilúvio. Ninguém dos 196 chefes de Estado disse qualquer palavra. A grande maioria continua a explorar os bens naturais, negociando, especulando e consumindo sem parar como nos dias de Noé.
Entrevejo três graves irresponsabilidades: a geral e a específica e supina ignorância do Congresso norte-americano que vetou todas as medidas contra o aquecimento global; a manifesta má vontade da maioria dos chefes de Estado; e a falta de criatividade para montar as traves de uma possivel Arca salvadora. Como um louco numa sociedade de “sábios” ouso propor algumas premissas. Se algum mérito possuirem, é o de apontarem para um novo paradigma civilizacional que nos poderá dar outro rumo à história. Ei-las:
1. Completar a razão instrumental-analítica-científica dominante com a inteligência emocional ou cordial. Sem esta não nos comovemos face à devastação da natureza e não nos engajamos para resgatá-la e salvá-la.
2. Passar da simples compreensão de Terra como armazém de recursos para a visão da Terra viva, superorganismo vivo que se autoregula, chamado Gaia.
3. Entender que, como humanos, somos aquela porção da Terra que sente, pensa e ama, cuja missão é cuidar da natureza.
4. Passar do paradigma da conquista/dominação ainda vigente, para o paradigna do cuidado/responsabiidade.
5.Entender que a sustentabilidade só será garantida se respeitarmos os direitos da natureza e da Mãe Terra.
6. Articular o contrato natural feito com a natureza que supõe a reciprocidade inexistente com o contrato social que supõe a colaboração e          inclusão de todos, insuficiente.
7. Não existe meio-ambiente mas o ambiente inteiro. O que existe é a comunidade de vida com o mesmo código genético de base,estabelecendo um parentesco entre todos.
8.Abandonar a obsessão pelo crescimento/ desenvolvimento pela redistribuição da riqueza já acumulada.
9.Devemos produzir para atender demandas humanas mas sempre dentro dos limites da Terra e de cada ecossistema.
10.Pôr sob controle a voracidade produtivista e a concorrência sem limites em favor da cooperação e da solidariedade pois todos dependemos uns dos outros.
11.Superar o individualismo pela colaboração entre todos, pois esta é a lógica suprema do processo de evolução.
12. O bem comum humano e natural tem primazia sobre o bem comum particular e corporativo.
13.Passar da ética utilitarista e eficientista para a ética do cuidado e da responsabilidade.
14.Passar do consumismo individualista para a sobriedade compartida. O que nos sobra, falta aos demais.
15. Passar da maximização do crescimento para a otimização da prosperidade a partir dos mais necessitados.
16. Ao invés de permanentemente modernizar, ecologizar todos os saberes e processos produtivos visando tutelar os bens e serviços naturais e dar descanço à natureza e à Terra.
17. Opor   à era do antropoceno que faz do ser humano uma força geofísica destrutiva, pela era ecozóica que ecologiza e inclui todos os seres no grande sistema terrenal e cósmico.
18. Valorizar o capital humano/espiritual inexaurível sobre o capital material exaurível porque o primeiro fornece os critérios para as intervenções responsáveis na natureza e alimenta permanentemente os valores humano-espirituais da solidariedade, do cuidado, do amor e da compaixão, bases para uma sociedade com justiça, equidade e respeito à natureza.
19.Contra a decepção e a depressão provocadas pelas promessas não cumpridas de bem-estar geral feitas pela cultura do capital, alimentar o princípio-esperança, fonte de fantasia criadora, de novas idéias e de utopias viáveis.
20. Crer e testemunhar que, no fim de tudo, o bem triunfará sobre a mal, a verdade sobre a mentira e o amor sobre a indiferença. Um pouco de luz poderá espancar uma imensidão de trevas.




terça-feira, 8 de abril de 2014

O filho de João Goulart, João Vicente Goulart, na excelente entrevista com Antonio Abujamra no programa Provocações, da TV Cultura, discutindo o Golpe Militar de 64, a associação dos militares golpistas- mídia- EUA e o muito possível assassinato de seu pai


 Em meio à lembrança - envolta ainda nas brumas reacionárias dos golpistas atuais - do Golpe Militar de 64, a coragem do filho de João Goulart, João Vicente Goulart, em por o dedo na ferida que outros países da América Latina já tiveram a coragem de fazer: passar a limpo toda a sordidez da truculência dos regimes militares de extrema-direita, apoiada e incentivada pelos Estados Unidos, pondo os responsáveis por violação dos direitos humanos via agentes estatais na cadeia. Fala também da Operação Condor e do assassinato de seu pai, Jango, na entrevista feita a Antonio Abujamra no programa Provocações, da TV Cultura (vídeo completo):



segunda-feira, 7 de abril de 2014

A quem interessa realmente sabotar a Copa do Mundo em época de eleições, mesmo as pesquisas isentas, como as da Fipe, demonstrarem os bilhões que entrarão no país durante os jogos?


Extraído do Brasil 247 e que pode ser confirmado no site da JusBrasil

domingo, 6 de abril de 2014

A hipocrisia dos coxinhas, mídia golpista e extremistas contra a copa, visando as eleições...




Postado em: 25 jun 2013 às 19:58
Marina Terra

#Changebrazil: “O que eu fiz foi uma tentativa de sujar o governo brasileiro no mundo”. Onda da desinformação se alastra velozmente na Web, aproveitando marcas de protesto em outras partes do mundo

“O que eu fiz foi uma tentativa de sujar o governo brasileiro no mundo, exatamente como o vídeo diz.” Assim definiu Thismr Maia, pseudônimo de Silvio Roberto Maia Junior, porta-voz do movimento Change Brazil, o objetivo dos vídeos que postou na Web, segundo o site Direto da Aldeia. Nascido em 14 de junho, no momento em que uma onda de manifestações eclodiu no país, o movimento vocalizou por meio de vídeos de Maia pedindo – em inglês – um pedido de “ajuda” internacional.
No vídeo, que já tem mais de um milhão de acessos no YouTube, Maia fala da repressão sofrida por manifestantes em 13 de junho. Nesse dia, a polícia militar, controlada pelo governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB), reprimiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha o protesto, ferindo também jornalistas. Boa parte da mídia, que anteriormente havia criminalizado os protestos – especialmente por meio de editoriais raivosos pedindo a “retomada da Paulista” –, mudou completamente o tom e passou a defender o movimento Passe Livre.

Ali, naquele momento, nascia também o Change Brazil, ou #changebrazil. Nas redes sociais, pipocou um vídeo, em inglês, com legendas em inglês, que se intitulava “Please Help Us” (Por favor, nos ajude). Em um estúdio bem iluminado, em gravação de qualidade profissional, Maia começa falando sobre o aumento da tarifa de ônibus e imediatamente cita os levantes populares na Turquia e na Síria – “espontâneos”.


De fato, o caso turco foi rapidamente comparado ao brasileiro pela mídia brasileira e internacional, que apontou como o denominador comum o caos das grandes metrópoles. Manifestantes aqui e lá trocaram afagos, com brasileiros levando aos protestos bandeiras da Turquia e vice-versa. O premiê turco, Tayyip Erdogan, porém, avalia que não se trata de uma coincidência e que os dois países são alvo, na verdade, de conspiração internacional. Não está claro que haja uma articulação externa, mas a correia da desinformação gira velozmente na Web.
changebrazil facebook mentiras anonymous
(Imagem: Reprodução/Facebook)
O Anonymous Brasil, um perfil que, como o próprio nome indica, preserva a identidade de quem o dirige, precisou desmentir que tinha publicado um vídeo que também teve mais de um milhão de visitas, que elencaria cinco bandeiras do movimento que segue nas ruas. Entre os perfis que espalharam este vídeo, um deles, talvez o mais acessado, é assinado por “Dilma Bolada” — ao que tudo indica, um perfil no Youtube falso que se aproveita da popularidade da personagem, essencialmente pró-governo, do Facebook.
Falando rápido, Maia critica a mídia, pedindo que o espectador tenha em mente que a “verdade” sobre os protestos não será reportada nem no Brasil nem no exterior. Por isso a “boa ação” do vídeo. Ainda antes de completar um minuto de fala – o vídeo tem mais de cinco minutos –, Maia já condena a classe política brasileira e aponta que a motivação dos manifestantes é justamente um rechaço contra a roubalheira e má fé, generalizadas. Ele não menciona nomes de partidos ou políticos.
Nos protestos seguintes, coincidentemente, muitos gritos eram direcionados exatamente contra os políticos, vários pedindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em 17 de junho, a matriz foi repetida pelos apresentadores de telejornais, enquanto as imagens da multidão espalhada pelas ruas das principais cidades brasileiras eram transmitidas ao vivo. Alguns jornalistas, enquanto narravam “o despertar do Brasil”, se emocionaram. Poucos dias antes, os mesmos reclamavam do trânsito provocado pelos protestos do Passe Livre e chegavam a chamar alguns manifestantes de “vândalos”.
No dia seguinte, os principais jornais, como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo, seguiram disseminando o “basta” escutado nas ruas brasileiras. Não demorou para o espírito do Change Brazil se espalhar. Mais tarde, na quinta-feira passada, membros de partidos de esquerda foram agredidos na Avenida Paulista. Organizada pelo Passe Livre para comemorar a redução da tarifa, a manifestação logo perdeu o intuito inicial. “Sem partido” e “Aqui é Brasil” eram as consignas tanto dos agressores como do resto dos manifestantes, muitos enrolados na bandeira nacional, com pinturas em verde e amarelo no rosto.
change brazil facebook mundo
Foto simula Maia levando um tiro na cabeça de uma arma – desenhada na parede com as cores da bandeira dos Estados Unidos. (Facebook)
Também se ouviu “Quem não pula quer a Dilma”, adaptado do protesto pelo aumento da passagem do transporte público, “Quem não pula quer tarifa”. Com o aumento da violência nos protestos, cada dia mais numerosos, a presidente se dirigiu à nação em cadeia de rádio e TV, onde deixou claro seu respeito aos manifestantes pacíficos. Ela também se disse disposta a analisar todas as demandas apresentadas nas ruas. “Eu estou escutando vocês”, sublinhou Dilma.
Maia comemora o êxito. “Essa tática sempre funcionou bem historicamente. Como também diz no vídeo, a Dilma não pode deixar o Brasil ficar feio no mundo agora. Eu só queria trazer a atenção mundial para o Brasil, e junto com a companheira que não conheço, do vídeo ”No, I’m not going to the world cup”, tenho orgulho de dizer que conseguimos. Agora, com pressão internacional, a Dilma e companhia são mais obrigados a nos ouvir”, comemora o brasileiro, em entrevista dada ao Aldeia.
Ainda segundo ele, “historicamente, pressão mundial tem se provado extremamente eficaz em relação a mudar governos opressores. Recentemente pedi para pessoas mandarem outro vídeo nosso para organizações humanitárias, e agora fiquei sabendo que a Greenpeace tem se pronunciado sobre o que está acontecendo aqui também”. Após celebrar a grande adesão ao movimento, Maia lança a chantagem: “se a Dilma quer que sua administração seja vista favoravelmente, ela terá que nos ouvir”.
Uma visita à página no Facebook do porta-voz do Change Brazil nos revela ainda mais sobre esse curioso personagem, que sublinhou na entrevista ser contra governos repressores. A foto acima simula Maia levando um tiro na cabeça de uma arma – desenhada na parede com as cores da bandeira dos Estados Unidos. Os “miolos” também estão pintados nas cores azul e vermelha. No resto da página, mais fotos de armas, com mensagens apoiando o porte civil. “Quando eu falei ‘o Brasil terá que se dobrar’, é óbvio que eu me referia ao governo brasileiro, né. Pelo amor de deus, gente”, justifica o porta-voz do Change Brazil.
Ps de Pragmatismo Politico.: Jeferson Monteiro, autor do perfil original da personagem Dilma Bolada, entrou em contato para confirmar as informações da matéria. O jovem afirma que a o nome ‘Dilma Bolada’ foi utilizado por outro grupo para plagiar sua página original. A página falsa pertence a uma pessoa ligada à direção da juventude do PSDB e foi criada estrategicamente para pegar carona no sucesso da personagem original.
Marina Terra, Opera Mundi

#changebrazil: Leitores estranham conexões do “movimento”


publicado em 25 de junho de 2013 às 12:58
por Luiz Carlos Azenha 
Reproduzo, abaixo, informações que me foram repassadas pelos leitores, nos comentários ou no Facebook.
A marca #changebrazil apareceu na tela de um jogo entre Fluminense e Orlando City Soccer Club, de Orlando, na Flórida, na SporTV, segundo um leitor (partida disputada em 22.06.2013):
O dono do clube da Flórida é um milionário brasileiro apresentado no site do Orlando City Soccer Club como terceiro maior acionista da Abril Educação e dono da rede de escolas de inglês Wise Up:
O anúncio do contrato com a FIFA foi feito no mesmo dia do contrato da Globo Marcas.
A colocação das placas no estádio foi assumida pelo dono da Wise Up, em um perfil no Facebook:

O que nos leva a perguntar: como o #changebrazil pode falar mal do Brasil no Exterior, como no vídeo de um professor de inglês, postado no You Tube em 14.06.2013 e que teve centenas de milhares de acessos?
Como não há qualquer prova — pelo menos ainda — de conexão entre o milionário brasileiro e o professor de inglês autor do vídeo, fica o registro de pelo menos uma incoerência: detonar o Brasil no mundo não é a melhor forma de promover a Copa do Mundo de 2014, certo?

Irônico é notar que a Caixa Econômica Federal é uma das patrocinadoras das transmissões da SporTV onde o #changebrazil foi promovido.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Bolsonaro, o troglodita da Direita extremista, demonstra explicitamente a mentalidade das elites reacionárias




Esse ai encima, na tribuna do Congresso, é o Deputado Jair Bolsonaro, saudosista da Ditadura, que se diz a favor da Tortura, e que afirma que História conhecida do Golpe Militar e de todo o horror ainda não totalmente conhecido desta época negra, mas cujos documentos e evidências internacionalmente conhecidas são marcantes, é uma mentira fabricada por "comunistas".....

O Deputado que grita, como mostra os dois vídeos ao final do texto, com a jornalista por esta questionar as afirmações de Bolsonaro sobre a Ditadura. O representante da do pior da sociedade agride verbalmente a jornalista e ainda diz que ela está "Censurada". Bolsonaro é conhecido, além do seu desequilíbrio, truculência e ignorância,  pela da defesa do indefensável e por suas afirmações racistas, homofóbicas de cunho fascistóide ou de extrema-direita (clique aqui para ver algumas das frases polêmicas de Jair Bolsonaro, em site da UOL).

É esta a mentalidade da direita golpista, do representante de uma nova vertente reacionária, estimulada pela mídia tendenciosa, dos coxinhas, dos alienados da "Marcha da Família", dos seguidores do astrólogo Olavo de Carvalho, dos proto-fascistas que só falam de democracia se, e apenas SE, esta estiver subordinada aos seus interesses e que apelam para os "militares" se tiverem suas ambições frustradas, especialmente no voto, e que se consideram melhor e maior que os demais;  que acreditam na distinção qualitativa entre entre elite e povo, onde este é "burro" e só serve para ser explorado; elite que controla a grande mídia por a possuir ou patrocinar e que APOIAM CADA VEZ MAIS EXPLICITAMENTE (veja-se os "colunistas" da Veja, como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino) posicionamentos como as deste "deputado".

No primeiro vídeo, o ataque do denfensor da Ditadura à, ao ser questionado pela reóprter se ele realmente achava que era mentira o que dizem os livros, os documentos e os testemunhos sobre as truculências do Regime Militar (lembrar que isso ocorreu após os presentes no Congresso terem dado as costas a Bolsonaro, que pretendia fazer uma ode à Ditadura):



No segundo vídeo, a continuação da reação do reaça da direita mais sórdida, ao ouvir da Repórter que ele deveria responder ao questionamento da repórter e esta avisar que iria processá-lo pela forma como ela a tratou:






quinta-feira, 3 de abril de 2014

Bob Fernandes discute sobre o delírio reacionário do professor da USP batendo continência para 1964 e o fascismo do deputado saudosista da ditadura




      O professor que bateu continência para a Ditadura e quis usar de sua posição para impor os valores retrógrados dele e o deputado troglodita que foi calado na tribuna do Congresso pelo mesmo motivo são objetos de análise de Bob Fernandes no video abaixo. O texto do comentário segue o video.



O cotidiano da política pode esperar. O tema ainda é o golpe de Estado e a ditadura imposta há 50 anos.

Cena 1. Terça-feira. Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco, São Paulo. A pretexto de dar aula, o professor Eduardo Lobo Gualazzi, decide ler sua "Continência a 1964".

No texto, o professor lembra ter apoiado o golpe aos 17 anos. Diz ele que em nome do "Aristocratismo, burguesismo, direitismo, capitalismo, música erudita...", e por ai afora.

Lobo cita o "holocausto vermelho" e a "peste rubra que assola o país". É direito dele delirar. E isso no mesmo dia em que a S. Francisco descerrava uma placa ensinando:

-Ditadura nunca mais, Estado de Direito sempre.

Anunciada pelo professor, segundo alunos, a provocação teve reação. Que obedeceu à terceira Lei de Newton; a toda ação há sempre reação oposta e de igual intensidade. 

Alunos encenaram um auto de tortura à entrada da sala de aula. Em seguida, invadiram a incontinência de Lobo Gualazzi. Discute-se quem teria mais ou menos razão.

Talvez seja mais importante perguntar: como um professor de Direito ainda defende um golpe de Estado e ditadura? 

Cena 2. Sala de aula, nesta quarta, São Paulo. A faculdade de Direito da Fundação Getúlio Vargas promove um debate. Com 3 ex-ministros da justiça, professores e alunos.

Uma emocionante aula de história. Com testemunhos do que foi a tortura como prática de Estado. Nem o mais alienado dos alunos deixou de prestar atenção.

Em Brasília, outras duas cenas. A pedido da Comissão da Verdade, as Forças Armadas anunciam: vão investigar suas instalações onde se deram torturas e mortes. A conferir.

Outra cena: o deputado Bolsonaro (PP-RJ)não consegue dizer o que queria. Diria o de sempre, em defesa da ditadura e da tortura. Não disse por que o Congresso lhe deu as costas.

Entende-se a recusa. Mas, se ele falasse, da mesma tribuna se poderia dizer a esse personagem o que ele realmente é. O que ele significa e encarna.

Em 1987 a revista Veja relatou: Bolsonaro planejava explodir bombas na Vila Militar e na Academia de Agulhas Negras...E isso para obter melhores salários. 

A valer o ideário de Bolsonaro, esse seria um ato terrorista, a ser punido até com tortura e morte. Como já se vivia uma democracia, Bolsonaro foi à justiça, escapou de punição maior.

Na democracia, Bolsonaro pode hoje desfiar seu bestialógico, repetir tese que carece de inteligência básica.

Segundo tal tese, golpe e a ditadura se fizeram para, supostamente... impedir um golpe e uma ditadura. Por 21 anos, infantilização da sociedade, tortura e morte. 

Ditadura em nome de muitos interesses. Inclusive dos medos e delírios de gente como o professor Lobo. E para o prazer de trogloditas e oportunistas como Bolsonaro.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A grande Midia Golpista em 1964.... Alguma semelhança com a de hoje?



Os donos dos jornais: nós que amávamos tanto a “revolução”

As palavras sobram para falar sobre o apoio da imprensa brasileira ao golpe militar em 1964: os fac-símiles dos editoriais da época dizem tudo. Foi acachapante. Todos saudaram a “democrática” atuação dos homens de farda para derrubar João Goulart, ainda que ele fosse querido pelo povo. Os “defensores da Pátria” não estavam –como estão hoje– nem aí para a vontade popular. O Jornal do Brasil (acima) saudou os militares no poder como “a verdadeira legalidade” e os que apoiaram a quartelada de “verdadeiros brasileiros”. Afinal, quem melhor que a imprensa para apontar onde está a “verdade”, não é mesmo?
O Globo (acima), que este ano pediu desculpas pelo apoio à ditadura, chamou o golpe de “volta da democracia” e comparou os militares a anjos: “o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina”. O império Globo cresceu à sombra da ditadura militar e foi durante anos o principal porta-voz e propagandista do governo fardado. Beneficiado com concessões em todo o País, a Globo só se tornou o que é hoje por causa da ditadura. Em vez de pedir desculpas, deveria dizer “muito obrigado”. Acho até ingratidão.

Aqui, o documentário Muito Além do Cidadão Kane, que explora a proximidade da Rede Globo com a ditadura militar. A emissora conseguiu proibir a exibição do filme durante anos no Brasil. Até hoje não é possível transmiti-lo na TV aberta.
O Estado de S.Paulo também apoiou o golpe e conspirou em favor dos militares desde o primeiro momento, mas, depois, se tornaria “vítima” da censura. O que, segundo a historiadora Beatriz Kushnir, autora de Cães de Guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988não impediu o jornal de continuar a colaborar com a ditadura, assim como fizeram todos. “Eu reviso essa ideia de resistência e mostro que houve, no lugar disso, um grande colaboracionismo”, explicou Kushnir a CartaCapital (leia mais aqui). “Se houve resistência, esta está nos veículos alternativos e não na grande imprensa”. A Globo, diz Beatriz no livro, chegou a contratar censores para atuar como funcionários, com o objetivo de aperfeiçoar a autocensura e evitar cortes que poderiam causar prejuízos econômicos.
Folha de S.Paulo saudou os militares que derrubaram Jango como “exemplos de patriotismo e desprendimento”. Em 2011, o jornal reconheceu que apoiou a ditadura de forma deslavada, sem nenhuma crítica. “A partir de 1969, a Folha da Tarde alinhou-se ao esquema de repressão à luta armada, publicando manchetes que exaltavam as operações militares”, afirmou o jornal, confirmando que a redação da FT estava entregue “a jornalistas entusiasmados com a linha dura militar (vários deles eram policiais)”. O grupo admitiu, inclusive, ser possível que automóveis do grupo tenham sido utilizados por agentes do DOPS para espionar a esquerda (leia mais aqui). Nos anos 1980, o jornal ganharia leitores ao encampar o apoio às eleições diretas. Estratégia editorial? É possível, porque nos anos recentes assistimos uma nova guinada da Folha à direita, chegando a alcunhar a ditadura de “ditabranda”.
Dos grandes jornais brasileiros, o único a apoiar Jango foi a Última Hora, de Samuel Wainer. E, obviamente, foi empastelado pelos ditadores, enquanto os outros floresciam. Não é à toa que, aos 50 anos do golpe militar, a imprensa brasileira tenta justificar o injustificável em editoriais forçados onde enxerga “lados positivos” nos anos de chumbo. Claro, não se abandona um líder ferido na beira da estrada…
Assista aqui a um documentário sobre o papel da imprensa paulista no golpe. Veja mais manchetes dos jornais brasileiros apoiando o golpe militar aqui.
Publicado em 30 de março de 2014

João Goulart, no exílio após o golpe, já falava do poder da Mídia e Imprensa Golpista das poderosas famílias dos meios de comunicação tradicionais





JANGO ROMPE O SILÊNCIO e Denuncia o PiG já em 64


Extraído do blog de Cyara Menezes

Em agosto de 1964, deposto e exilado no Uruguai, João Goulart publicaria um manifesto numa revista de esquerda, a pretexto dos dez anos da morte de Getúlio Vargas. O texto acabou sendo lido na íntegra no plenário da Câmara dos Deputados por Doutel de Andrade, líder do PTB, o partido de Jango, o que foi considerado uma provocação pelo ministro da Guerra e futuro presidente Costa e Silva. Já naquela época, apenas por ler as palavras do ex-presidente, Doutel foi ameaçado de cassação, o que iria ocorrer dois anos depois, em 1966.

Instigado pelos milicos, o governo do Uruguai “advertiu os brasileiros no exílio, especificamente o presidente João Goulart, pela violação do direito de asilo político ao publicar documento considerado subversivo pelo governo brasileiro”, segundo um documento da diplomacia britânica. No texto, Jango destaca seu perfil “liberal” e “cristão” para se distanciar do estigma de comunista que tentaram lhe impingir.

“A subversão, fartamente denunciada e muito bem paga, na profusão de rádios, jornais e televisão, era o preparo da mentira do perigo comunista, que iria constituir o ponto de partida para concretização da quartelada, a fim de que, assim, pudessem esmagar as justas aspirações populares que o meu Governo defendia”, diz Jango, denunciando o papel da imprensa no golpe. É preciso destacar que, apesar do massacre midiático, o presidente contava com apoio popular quando foi derrubado e poderia ser reeleito em cinco capitais –inclusive no Rio de Janeiro do golpista Carlos Lacerda. “Hoje, lançam contra mim toda a sorte de calúnias. Sei que continuarão a injuriar-me. Mas o julgamento que respeito e que alguns temem é o do povo brasileiro”, escreveu Jango.

Este texto de João Goulart é muito pouco divulgado, talvez por ser tão esclarecedor do pensamento do ex-presidente e de suas convicções democráticas. Reproduzo-o aqui, na íntegra, para que a história lhe faça justiça.


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POR JOÃO GOULART, AGOSTO DE 1964



Faz hoje dez anos que a Nação, traumatizada, assistiu ao supremo sacrifício de Getúlio Vargas. Nunca deixei de me dirigir a todos vós, neste dia, que está definitivamente incorporado à nossa história, marcando, no Brasil republicano, o instante heróico do saudoso estadista que empenhou a própria vida para conter as terríveis forças do obscurantismo e para que pudéssemos prosseguir na dura caminhada da libertação do nosso povo e da nossa Pátria. É, pois, a luta do povo pela liberdade e pela conquista das reformas estruturais profundas e cristãs da sociedade brasileira que, mais uma vez, conduz ao encontro dos vossos anseios e das vossas mais aflitas esperanças.

Deixo, assim, no exílio em que me acho, o silêncio a que me havia imposto para voltar à intimidade honrada dos vossos lares, muitos já violados, dos vossos sindicatos, oprimidos; das vossas associações, atingidas pelo ódio da reação, com uma palavra de advertência, mas, sobretudo, de fé inquebrantável no destino do nosso país. Esta palavra já não parte do Presidente da República. Não vos posso, também, dirigi-la da praça pública, onde tantas vezes nos encontramos. Dominam a Nação o arbítrio e a opressão.
A reconquista das liberdades democráticas deve constituir o ponto básico e irrenunciável da nossa luta, a luta corajosa do povo brasileiro para a emancipação definitiva do Brasil. Duas vezes preferi o sacrifício pessoal de poderes constitucionais à guerra civil e ao ensangüentamento da Nação. Duas vezes evitei a luta entre irmãos. Só Deus sabe quanto me custou a deliberação a que me impus e pude impor a milhões de patriotas.

Em 1961, tolerei as maquinações da prepotência e consenti na limitação de poderes que a Constituição me conferia, para, depois, restaurá-los democraticamente, pela livre e esmagadora deliberação da vontade popular. Nunca recorri à violência. Os tanques, os fuzis e as espadas jamais, historicamente, conseguiram substituir, por muito tempo, a força do direito e da justiça. A função que a Constituição lhes impõe é a defesa da soberania do país e de suas instituições e nunca a tutela do pensamento do povo, para suprimir e esmagar suas liberdades, como pretendem alguns chefes militares.

Este ano, depois de recusar-me à renúncia que nunca admiti, resolvi, pelo conhecimento real da situação militar, não consentir no massacre do povo. Não só porque contrariava minha formação cristã e liberal, mas porque eu sabia que o povo estava desarmado. Eu sabia que a subversão, fartamente denunciada e muito bem paga, na profusão de rádios, jornais e televisão, era o preparo da mentira do perigo comunista, que iria constituir o ponto de partida para concretização da quartelada, a fim de que, assim, pudessem esmagar as justas aspirações populares que o meu Governo defendia. Baniram, ditatorialmente, o direito de defesa; humilharam a consciência jurídica nacional; suprimiram o poder dos tribunais legítimos. Invadiram universidades, queimaram bibliotecas; não respeitaram sequer as mesmas igrejas onde antes desfilavam as contas de seus rosários. Trabalhadores, estudantes, jornalistas, profissionais liberais, artistas, homens e mulheres são presos pelo único crime da opinião pública, da palavra ou das idéias. Cassam centenas de mandatos populares. Porventura são trapos de papel os compromissos internacionais que assumimos na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Carta organizatória das Nações Unidas?

Pessoalmente, tudo posso suportar, como parcela do meu destino na luta da emancipação do povo brasileiro. O que não posso é calar diante dos sofrimentos impostos a milhares de patrícios inocentes e do esmagamento das nossas mais caras tradições republicanas. Hoje, lançam contra mim toda a sorte de calúnias. Sei que continuarão a injuriar-me. Mas o julgamento que respeito e que alguns temem é o do povo brasileiro. É possível que haja cometido erros no meu Governo. Erros da contingência humana. Mas tudo fiz para identificar-me com os sentimentos do povo e da Nação e posso afirmar que assegurei a todos os brasileiros, inclusive a meus adversários, o exercício mais amplo das liberdades constitucionais. Deus não faltará com seu apoio à energia do povo para a reconquista de suas liberdades. Ninguém impedirá o povo de construir o desenvolvimento nacional e dirigir o seu próprio destino.

Tudo fiz por um Governo democrático e justo, no qual se processassem, pacificamente, com a colaboração dos órgãos legislativos, as transformações essenciais da sociedade brasileira; quis um Governo que incorporasse à família nacional, com acesso aos benefícios da civilização do nosso tempo, os milhões de patrícios humildes do campo e as áreas marginalizadas da população urbana; empenhei-me por um Governo que exprimisse os anseios legítimos dos trabalhadores, dos camponeses, dos estudantes, dos intelectuais, dos empresários, dos agricultores, do homem anônimo da rua para, todos juntos, travarmos a difícil luta contra a miséria, a doença, o analfabetismo, o desemprego e a fome. Sobre mim recaiu, então, todo o ódio dos interesses contrariados.

Promovi o reatamento de relações diplomáticas com as nações do mundo e assumi a responsabilidade de alargar nossos mercados, no interesse único da economia do país e do bem-estar do nosso povo. Executei uma política externa independente. Condenamos o colonialismo, sob qualquer disfarce, defendendo os princípios da não-intervenção e da autodeterminação dos povos. Nunca transigi com a dignidade do meu país e o respeito à sua soberania. Hoje, representantes estrangeiros interferem publicamente nos assuntos internos do país ou conhecidas organizações monetárias internacionais fixam, unilateralmente, condições humilhantes, em cláusulas de negociações, para ajudas ilusórias que, internamente, agravam o sofrimento do nosso povo e, externamente, aviltam os preços dos nossos principais produtos de exportação. E já se fala na execução de acordos que abrirão o caminho legal para a instalação, em nosso território, de importantes bases militares, sob o controle e o comando de outras nações.

Decretei, brasileiros, a regulamentação da lei de disciplina do capital estrangeiro. Decretei o monopólio da importação do petróleo e a encampação das refinarias particulares. Decretei a desapropriação de terras, objeto de especulação do latifúndio improdutivo. Decretei a implantação da empresa brasileira de telecomunicações. Lutei pela Eletrobrás. Decretei a limitação dos aluguéis, dos preços dos remédios, dos calçados, das matrículas escolares, dos livros didáticos. Hoje, os aumentos incontrolados do custo das utilidades indispensáveis à vida do povo atingem limites insuportáveis.

Promovi, por todos os meios, campanha intensiva de educação popular, para suprimir o analfabetismo em nossa Pátria. Estimulei os investimentos que promovessem maiores oportunidades de trabalho. Quis vencimentos dignos para todos os servidores públicos, civis e militares. Assegurei aos trabalhadores do campo o direito legal de organizarem seus sindicatos e defendi o salário real de todos os brasileiros, que deve acompanhar a elevação do custo de vida, respeitando a liberdade constitucional dos seus movimentos reivindicatórios legítimos.

Bati-me pelas reformas de base, para que o Congresso as votasse democrática e pacificamente. Muitas vezes pedi a colaboração de suas lideranças partidárias. Nada foi possível obter. Mas ninguém se engane. As reformas estruturais, que tudo empenhei por alcançar, rigorosamente dentro do processo constitucional, nenhuma força conseguirá detê-las e nada impedirá a sua consecução. Neste dia, brasileiros, longe de todos, o pensamento voltado para a memória de Getúlio Vargas, que tombou sacrificado pelas mesmas forças que hoje investem contra mim, reflito sobre as permanentes verdades que o admirável estadista denunciou em sua Carta-Testamento, e anima-se a confiança que tenho no futuro do meu país. Não posso concebê-lo presa da intolerância, da tirania, da ilegalidade, que são atitudes repudiadas pelos sentimentos generosos de nossa gente.

Sem ressentimentos na alma, sem ódios, sem qualquer ambição pessoal, conclamo todos os meus patrícios, todos os verdadeiros democratas, a família brasileira, enfim, para a tarefa de restauração da legalidade democrática, do poder civil e da dignidade das nossas instituições republicanas. Queremos um Brasil livre, onde não haja lugar para qualquer espécie de regime ditatorial, com uma ordem fundada no respeito à pessoa humana, no culto aos valores morais, espirituais e religiosos do nosso povo. Queremos um Brasil justo, progressista, capaz de assegurar confiança ao trabalho e à ação de todos os brasileiros. Queremos um Brasil fiel às origens de sua formação cristã e de sua cultura, libertado da opressão, da ignorância, da penúria, do atraso, do medo, da insegurança.

Deus guiará o povo brasileiro para os objetivos patrióticos de nossa luta.