quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A escravidão impessoal pelo dinheiro segundo Tolstói


O dinheiro representa uma nova forma de escravidão impessoal, em lugar da antiga escravidão pessoal.


Léon Tolstói (1828-1910)

Rede Globo, a Imperatriz da Mídia

Crítica de Leonardo Boff ao modelo de desenvolvimento capitalista



 Os documentos oficiais da ONU e também o atual borrador para a Rio+20 encamparam o modelo padrão  de desenvolvimento sustentável: deve ser economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto. É o famoso tripé chamado de Triple Botton Line (a linha das três pilastras), criado em 1990 pelo britânico John Elkington, fundador da ONG SustainAbility. Esse modelo não resiste a uma crítica séria.

Desenvolvimento economicamente viável: Na linguagem política dos governos e das empresas, desenvolvimento equivale ao Produto Interno Bruto (PIB). Ai da empresa e do pais que não ostentem taxas positivas de crescimento anuais! Entram em crise ou em recessão com conseqüente diminuição do consumo e geração de desemprego: no mundo dos negócios, o negócio é ganhar dinheiro, com o menor investimento possível, com a máxima rentabilidade possível, com a concorrência mais forte possível e no menor tempo possível.

 Quando falamos aqui de desenvolvimento não é qualquer um, mas o realmente existente que é aquele industrialista/capitalista/consumista. Este é antropocêntrico, contraditório e equivocado. Explico-me.

 É antropocêntrico pois está centrado somente no ser humano, como se não existisse a comunidade de vida (flora e fauna e outros organismos vivos) que também precisa da biosfera e demanda igualmente sustentabilidade. É contraditório, pois, desenvolvimento e sustentabilidade obedecem a lógicas que se contrapõem. O desenvolvimento realmente existente é linear, crescente, explora a natureza e privilegia a acumulação privada. É a economia política de viés capitalista. A categoria sustentabilidade, ao contrário, provém das ciências da vida e da ecologia, cuja lógica é circular e includente. Representa a tendência dos ecossisstemas ao equilíbrio dinâmico, à interdependência e à cooperação de todos com todos. Como se depreende: são lógicas que se auto-negam: uma privilegia o indivíduo, a outra o coletivo, uma enfatiza a competição, a outra a cooperação, uma a evolução do mais apto, a outra a co-evolução de todos interconectados.

 É equivocado, porque alega que a pobreza é causa da degradação ecológica. Portanto: quanto menos pobreza, mais desenvolvimento sustentável haveria e menos degradação, o que é equivocado. Analisando, porém, criticamente, as causas reais da pobreza e da degradação da natureza, vê-se que resultam, não exclusiva, mas principalmente, do tipo de desenvolvimento praticado. É ele que produz degradação, pois delapida a natureza, paga baixos salários e gera assim pobreza.

 A expressão desenvolvimento sustentável representa uma armadilha do sistema imperante: assume os termos da ecologia (sustentabilidade) para esvaziá-los. Assume o ideal da economia (crescimento) mascarando, a pobreza que ele mesmo produz.

 Socialmente justo: se há uma coisa que o atual desenvolvimento industrial/capitalista não pode dizer de si mesmo é que seja socialmente justo. Se assim fosse não haveria 1,4 bilhões de famintos no mundo e a maioria das nações na pobreza. Fiquemos apenas com o caso do Brasil. O Atlas Social do Brasil de 2010 (IPEA) refere que cinco mil famílias controlam 46% do PIB. O governo repassa anualmente 125 bihões de reais ao sistema financeiro para pagar com juros os empréstimos feitos e aplica apenas 40 bilhões para os programas sociais que beneficiam as grandes maiorias pobres Tudo isso denuncia a falsidade da retórica de um desenvolvimento socialmente justo, impossível dentro do atual paradigma econômico.

Ambientalmente correto: O atual tipo de desenvolvimento se faz movendo uma guerra irrefreável contra Gaia, arrancando dela tudo o que lhe for útil e objeto de lucro, especialmente, para aquelas minorias que controlam o processo. Em menos de quarenta anos, segundo o Índice Planeta Vivo da ONU (2010) a biodiversidade global sofreu uma queda de 30%. Apenas de 1998 para cá houve um salto de 35% nas emissões de gases de efeito estufa. Ao invés de falarmos nos limites do crescimento melhor faríamos falar nos limites da agressão à Terra.

 Em conclusão, o modelo padrão de desenvolvimento que se quer sustentável, é retórico. Aqui e acolá se verificam avanços na produção de baixo carbono, na utilização de energias alternativas, no reflorestamento de regiões degradadas e na criação de melhores sumidouros de dejetos. Mas reparemos bem: tudo é realizado desde que não se afetem os lucros, nem se enfraqueça a competição. Aqui a utilização da expressão “desenvolvimento sustentável”possui uma significação política importante: representa uma maneira hábil de desviar a atenção para a mudança necessária de paradigma econômico se quisermos uma real sustentabilidade. Dentro do atual, a sustentabilidade é ou retórica ou localizada ou inexistente.

 L.Boff acaba de lançar o livro Sustentabilidade: o que é e o que não é pela Editora Vozes, Petropolis 2012.

O pensamento sistêmico na percepção da vida e do mundo


Fritjof Capra
 A concepção sistêmica (ecológica, interrelacional) vê o mundo em termos de relações e integração. Percebemos, na música, as relações entre notas, intensidade, ritmo e combinações entre estes elementos, não notas, batidas rítmicas ou sons fortes e fracos isolados, nem percebemos nas pessoas pedaços orgânicos isolados. Os sistemas são totalidades integradas cujas propriedades não podem ser reduzidas às de unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, que destroem as características do todo, a abordagem sistêmica enfatiza princípios de organização. Os exemplos de sistemas são abundantes na natureza. Todo e qualquer organismo - desde a menor bactéria até os seres humanos, passando pela imensa variedade de plantas e animais - é uma totalidade integrara e, portanto, um sistema vivo (com características bem diferentes dos sistemas inorgânicos). As células são sistemas vivos, assim como os vários tecidos e órgãos do corpo, sendo o cérebro humano o exemplo mais complexo. 
 Mas os sistemas não estão limitados a organismos individuais e suas partes. Os mesmos aspectos de totalidade são exibidos por sistemas sociais -como o formigueiro, a colméia ou uma família humana - e por ecossistemas que consistem numa variedade de organismos e matéria inanimada (que vem sendo destruída pela especulação imobiliária e financeira) em interação mútua. O que se observa numa região selvagem não são árvores ou organismos individuais isolados, mas a teia complexa da relação entre eles.
 Todos esses sistemas naturais são totalidades cujas estruturas específicas resultam das interações e interdependência de suas partes. A atividade dos sistemas envolve um processo conhecido como permuta\transação - a interação simultânea e mutualmente interdependente entre componentes múltiplos. As propriedades sistêmicas são destruídas quando um sistema é dissecado, física ou teoricamente, em elementos isolados. Embora possamos discernir partes individuais em qualquer sistema, a natureza do todo é sempre diferente da mera soma de suas partes.
  Embora seja de uma natureza especializada e secundária, as operações do tipo mecânico (tão destacadas pela ciência moderna a partir de Descartes) ocorrem também em todo o mundo vivo. A descrição reducionista-mecanicista de organismos pode, portanto, ser útil e, em alguns casos, necessária. Ela só é perigosa quando interpretada como se fosse o modelo explicativo completo. Reducionismo conceitual e holismo, análise e síntese, são enfoques complementares que, usados em equilíbrio adequado, nos ajudam a chegar a um conhecimento mais profundo da vida.

Dilma, Cuba e a tendenciosidade da mídia neoliberal sobre os direitos humanos, esquecendo-se das atrocidades dos aliados do neoliberalismo até mesmo na base de Guantânamo


Apresento, pela importância em desmascarar a mídia tendenciosa (Globo, Veja, grupo Bandeirantes), vídeo notável da entrevista da presidenta Dilma e texto de Brizola Neto, blog Tijolaço.com

Veja-se, na entrevista da Presidenta, que a mídia neoliberal usa um discurso antigo para ampliar o problema cubano mas silencia nos desmandos dos aliados dos bancos, até mesmo na base americana na baia de Guantânamo cujas fotos de torturas a prisioneiros correu o mundo.

Como bem refelte Paulo Henrique Amorim em seu blog Conversa Afiada:

Dilma não podia ser mais clara: Direitos Humanos não deve ser bandeira só dos Estados Unidos ou da Globo (hoje).

“Quem atira a pedra tem telhado de vidro,” observou a presidenta.

Isso é omitir-se ?
Ai entra o William Bonner e diz que a presidenta "relativizou" a questão dos Direitos Humanos...
Interessante.

A Globo agora é a Madre Superiora dos Direitos Humanos

E quando os Direitos Humanos eram celebrados na OBAN e no Doi-Codi, na Barão de Mesquita, o que fez a Madre Superiora ?

Naquela época, Direitos Humano para a Globo era coisa de “comunista”.

Não é isso, Dr Roberto ?

Como perguntou o Vasco, indignado com o “relativismo:

Quem tem mais autoridade moral para falar em Direitos Humanos: a Dilma ou o Ali Kamel?

Em tempo: antes, os espectadores do jn foram homenageados com um enviado à Florida que disse que um candidato republicano esperava vencer as primárias com mais de 15%. Confundiu “percentagem” com “pontos”. É o mesmo jenio que disse que o avião da TAM provocou o desastre em Congonhas, porque chovia tanto, que a água cobria uma moeda de um real. É o da moedinha que ia derrubar o Lula. Outro repórter tomou um avião especial para perseguir os sem-terra no Paraguai. Até no Paraguai ! Viva o Brasil do Ali Kamel !




  Reproduzo aí em cima o vídeo da entrevista da Presidenta Dilma Rousssef, que escapa, com firmeza, da estreiteza mental da nossa imprensa, que repete – a maioria sem saber – o discurso da guerra-fria, transformando as restrições do regime cubano como “justificativa” para toda a perseguição e bloqueio do maior – e mais armado – país do mundo a uma pequena ilha, há quase 50 anos.

  É curioso que os “regimes amigos” dos EUA jamais sofram qualquer tipo de discriminação por esta questão e, com eles, seja legítimo termos relações de cooperação econômica.  Como é dever de qualquer governante que deseje a soberania de seu país, ela recusa discutir os problemas internos de outra nação.  Dilma, sem ser grosseira, ridiculariza a “idelologização” da mídia sobre a diplomacia brasileira, reafirma nossos desejo de colaborar – e não de colonizar – com as nações latinoamericanas e africanas e, na última provocação, sobre se iria ver Fidel Castro, não titubeia:
- Sim, com muito orgulho, eu vou.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Aprendendo com Lincoln


Pode-se enganar a todos por algum tempo; 
Pode-se enganar alguns por todo o tempo; 
Mas não se pode enganar a todos todo o tempo...

Abraham Lincoln

domingo, 29 de janeiro de 2012

Os fantasmas íntimos



Não é preciso ser um quarto 
para ser mal-assombrado.
Nem é preciso ser uma casa;
A mente tem corredores que superam 
qualquer lugar concreto. 


Emily Dickinson (1830-1886)

Os fundamentalistas anti-democráticos do VINACC e "Consciência Cristã"



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 Em nosso tempo instrumental de tecnologia avançada, mas de anulação do humano, do cooperativo em prol do competitivo, do consumismo em detrimento do construtivo e da dessacralização das relações humanas e da natureza, a reação fanática e fundamentalista surge como mais um sintoma de patologia social em que o atual capitalismo condiciona a muitos pois retira a possibilidade de maturação emocional e intelectual na luta pela sobrevivência em um mundo de crescente agressividade interpessoal.

 Pela falta de meios de formação emocional e mental apropriadas, muitas pessoas não conseguem amadurecer o suficiente para construir uma relação pessoal equilibrada com o ideal da divindade e esperam, diante das dores do mundo moderno, uma panaceia que venham tanto a lhes aliviar a dor quanto a valorizá-los, mesmo que simbolicamente, frente aos demais. Renunciando por vezes - pela falta de oportunidade de desenvolver-se plenamente enquanto ser pensante e autônomo - a própria liberdade, o fanático fundamentalista se sente ou se faz um "instrumento" ou acredita se tornar um instrumento nas mãos daquele a quem ele percebe como autoridade, ainda que seja um suposto líder de comunidade religiosa que contorce os dizeres de suas escrituras no modo mais politicamente conveniente aos seus interesses. Busca o "missionário", ao entregar o pensamento crítico ao líder, um apoio e uma "verdade" por vezes espetaculosamente apresentada e que lhe sirva de muleta psicológica, em ponto de segurança que esconda suas dúvidas íntimas, incertezas e inseguranças, as quais busca calar especialmente ao personalizá-las nos outros.

 O fundamentalista, pois, é um escravo que assim se faz pela renúncia do pensar autônomo em troca do que ele acha ser ganhos, imediatos (riquezas, sucesso, salvação) ou secundários (sentir-se aceito ou amado por iguais, etc.), ao mesmo tempo passa a ser intolerante a todo o pensamento diverso do seu e de sua comunidade por este ser um contraponto perigoso às suas crenças e verdades e assim o fanático se vê como soldado e guerreiro de uma "guerra santa" contra as diferenças que podem questionar suas verdades. Que Deus Pai acharia bom ter filhos que não soubessem discernir o certo do errado, dando a líderes e doutrinas a responsabilidade de decidirem por eles, muitas vezes criando contextos e situações de conflitos com seus outros filhos?

 Achando ter o poder e a missão de exorcizar pessoas e mesmo coisas que ele não aceita por não seguirem sua familiar e muitas vezes reducionista visão de mundo, o fundamentalista está sempre pronto a atacar os outros, acusando-os de serem possuidos pelo "demônio", não percebendo que este demônio muitas vezes habita primariamente em si mesmo e se faz visível nos outros por um fenômeno psicológico chamado de projeção do inconsciente...

  E não existe exemplo mais gritante deste fenômeno de projeção e consequente perseguição, coletivamente visto, do que no surrel Encontro para a Consciência Cristã, um evento evangélico que compete agressivamente com um outro mais equilibrado e antigo, chamado Encontro da Nova Consciência, que, ao contrário do dos evangélicos, se caracterizou exatamente pelo encontro ecumênico e diálogo entre correntes de pensamento diferentes, em uma atmosfera de fraternidade e equilíbrio, teólogos, filósofos e representantes de diversas correntes espirituais podiam dialogar fraternalmente com ateus, agnósticos, cientistas e pessoas dos mais diferentes misteres. Pois bem, para a grande maioria dos evangélicos do tal Encontro para a Consciência "Cristã" (na sua maior parte, constituída de pentecostais e neo-pentecostais, havendo, como se sabe, evangélicos melhor esclarecidos, amadurecidos e críticos dos exageros daqueles), todos os participantes do Encontro para a Nova Consciência são dominados pelo diabo e este encontro, então, tem de ser exterminado pelos missionários e esclarecidos evangélicos. Não há diálogo, não há fala, há discursos de perseguição.

  Vejamos um exemplo disto neste trecho de "artigo" do Pastor Ridalvo Alves da Silva no site do movimento-seita Consciência "Cristã":

É verdade que o evento emerge dentro do contexto do Nordeste do Brasil, especificamente na cidade de Campina Grande, no momento em que se realizava o VIII Encontro Esotérico intitulado Encontro para a Nova Consciência - Uma Cultura Emergente, como os organizadores a denominaram. Houve nesta conjuntura uma grande preocupação relacionada ao destino da Igreja Cristã Evangélica, pois ninguém havia se levantado até aquele momento para refutar e comparar em nível de reflexão teológica e apologética cristã os ensinos perniciosos que submergia a comunidade campinense como um todo atingindo já naquela época 48 eventos paralelos.

A perplexidade e angústia já haviam chegado ao coração de muitas pessoas reivindicando da Igreja Evangélica de Campina Grande uma tomada de posição firme quanto à invasão esotérica em nossa cidade. A princípio não se sabia como fazer para criar uma estratégia eficaz, não somente para combater os ensinos distorcidos da Nova Era, como também trazer diretrizes seguras para a comunidade quanto aos ensinos de uma Teologia Cristã sadia. Aconteceu somente em fevereiro de 1999 o I Encontro Para
a Consciência Cristã quando os alunos do Instituto Teológico Superior de Missões - ITESMI, sob a nossa direção, que dirigíamos pela orientação e urgência do Espírito Santo de Deus, aceitaram o desafio de enfrentar não somente as dificuldades de recursos financeiros, mas também de recursos humanos.

No início houve crítica, falta de compreensão e de ajuda por parte de muitos, porém, não era hora de olhar para as circunstâncias e sim exercer a fé em Deus que opera nas coisas impossíveis. Aí entra a disponibilidade do homem. Por isso, quero destacar a pessoa do pastor Euder Faber Guedes Ferreira, que nos instantes decisivos, acreditou plenamente na visão de Deus, que estava brotando, e largou seu emprego secular para se dedicar integralmente à grande causa prioritária do Reino de Deus. Quero trazer à memória de nossos caros leitores que foi muito difícil para implantarmos o I Encontro Para a Consciência Cristã, no entanto, o milagre aconteceu.

Não obstante, a razão do Encontro Para a Consciência Cristã não somente abrange a cidade de Campina Grande em seu contexto esotérico de evento anual, mas prepara a igreja contra os falsos ensinos que se alastram em nosso território nacional e também em outras regiões do mundo ocidental e oriental. O pluralismo religioso será certamente o maior desafio da Igreja Cristã neste novo milênio. Não temos dúvidas que por trás de tudo isto está o Império da religião ecumênica liderada pelo seu grande mentor, o Anticristo.

 Vê-se, pois, o quanto salta aos olhos a construção lógica e o grau de civilidade e de maturidade intelectual dos mentores do tal Encontro da Consciência "Cristã", não apenas na falta de adesão ao mandamento de Cristo de "Amar ao próximo", como na total falta de respeito com quem não partilha de suas idéias, em uma quase paranóia que abarca a proteção de um "mercado religioso" altamente lucrativo, baseado na cobrança de dízimos. Estranho ainda é essa expliticidade em se auto-denomiar de cristãos reais e agirem como egoístas mesquinhos com a "missão" de criticar e mesmo perseguir os demais. Por isso reflete o filósofo, teólogo e sociólogo Frei Betto, sobre os atuais fundamentalistas midiáticos:
"Todo fundamentalista é, a ferro e fogo, um “altruísta”. Está tão convencido de que só ele enxerga a verdade que trata de forçar os demais a aceitar o seu ponto de vista... para o bem deles! Há muitos fundamentalismos em voga, desde o religioso, que confessionaliza a política, ao líder político que se considera revestido de missão divina. Eles geram fanáticos e intolerantes."
  Fanáticos intolerantes que se acham no direito de agredir o diferente e que se sentem ofendidos, "perseguidos" se aqueles a quem agridem ousarem criticar seu posicionamento hipócrita. Este comportamento farisáico foi bem discutido pelo psicanalista  e professor universitário da UEM, Dr. Raymundo de Lima, quando, eu seu artigo "O Fanatismo Religioso entre outros", destaca alguns de seus sintomas:


O fanático não fala, faz discursos; é portador de discursos prontos cujo efeito é a pregação de fundo religioso ou a inculcação política de idéias que poderá vir a se tornar ato agressivo ou violento, tomado sempre como revelação da "ira de Deus" ou "a inevitável marcha da história" ou, ainda, a suposta "superioridade de uns sobre os demais". Faz discursos e não fala, porque enquanto a fala é assumida pelo sujeito disposto ao exercício do diálogo, da dialética, do discernimento da verdade, os discursos - especialmente odiscurso fanático - fazem sumir os sujeitos para que todos virem meros objetos de um desejo divinizado; servir ao desejo divino e à produção da repetição de algo já pronto, onde o retorno do recalcado do sujeito faz do Eu (ego) um porta-voz de um sistema de crenças moralistas carregado de ódio em relação ao suposto inimigo ou adversário que precisa ser destruído para reinar o Bem.
Os textos sagrados, tomados literalmente, fornecem a sustentação "teórica" do discurso fundamentalista religioso; com ele, o indivíduo acredita, a priori, estar de posse de toda a verdade e por isso não se dá ao trabalho de levantar possíveis dúvidas, como confrontar com outro ponto de vista, ou desvelar outro sentido de interpretação, ou ainda, contextualizá-lo, etc. O fanático tem certezae isso lhe basta. Creio porque é absurdo, já dizia Tertuliano. Certeza para ele é igual a verdade. (Segundo Popper, no campo científico, a certeza nada vale porque é "raramente objetiva: geralmente não passa de um forte sentimento de confiança, ou convicção, embora baseada em conhecimento insuficiente", já a verdade tem estatuto de objetividade, na medida em que "consiste na correspondência aos factos", na possibilidade da discussão racional com sentido de comprovação. (Popper, 1988, p. 48).
 O problema da religião não é a paixão "fé", mas a inquestionalidade de seu método. O método de qualquer religião traz uma certezadivulgada em forma de monólogo, jamais de diálogo ou debate de idéias. O pastor, padre, rabino, ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do monólogo da pregação; acreditam que "vale tudo" para difundir a "verdade única" que o tocou e o transformou para sempre! O estilo fanático usa e abusa do discurso monológico delirante, declarações, comunicados, que jamais se voltam para escuta ou o diálogo, exercício esse que faria emergir a verdade - não a "certeza".
Psicopatologia do fanatismo
Do ponto de vista psicopatológico, todo fanatismo parece ter relação com a fuga da realidade.  A crença cega ou irracional parece loucura quando se manifesta em momentos ou situações específicas, porém se sua inteligência não está afetada, o fanático aparentemente é um sujeito normal. No entanto, torna-se um ser potencialmente explosivo, sobretudo se o fanatismo se combinar com uma inteligência  tecnologicamente preparada. Fanático inteligente é um perigo para a civilização. O terrorismo, por exemplo, que atua com a única meta de destruir inimigos aleatórios é realizado por indivíduos fanáticos cuja inteligência é instrumentada apenas para essa finalidade. No terrorismo é uma das expressões do fanatismo combinado com uma inteligência tecnológico, mas totalmente incapaz de exercitá-la por meios mais racionais, políticos e legais. Para o terrorismo sustentado no fanatismo, os inocentes devem pagar pelos inimigos; a destruição deve ser a única linguagem possível e a construção de um novo projeto político-econômico, não está em questão, porque a realidade no seu todo é forcluída. 
O fanatismo parece surgir de uma estrutura psicótica. O fato do sujeito se ver como o único que está no lugar de certeza absoluta, de "ter sido escolhido por Deus" para uma missão "x", já constitui sintoma suficiente para muitos psiquiatras diagnosticarem aí uma loucura ou psicose. Mas, seguindo o raciocínio de Freud, vemos que "aquilo que o psicótico paranóico vivencia na própria pele, o parafrênico experiência na pele do outro", ou seja, somos levados a supor que o fanatismo está mais para a parafrenia que para a paranóia. Hitler, antes considerado um paranóico, hoje é mais aceito enquanto parafrênico, pois seus atos indicam sua idéia fixa pela supremacia da raça ariana e a eliminação dos "impuros"; mais ainda, o gozo psíquico do parafrênico não se limita "ser olhado" ou "ser perseguido", tal como acontece com paranóicos, mas sim se desenvolve "uma ação inteligente de perseguição e extermínio de milhares de seres humanos", donde extrai um quantum de gozo sádico. Portanto, deve existir membros de um grupo de fanáticos paranóicos, mas certamente o pior fanático é o determinado pela parafrenia, pois visa de fato destruir em atos calculados "os impuros", "os infiéis", enfim, todos os que não concordam com ele.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A Indústria farmacêutica, a perigosa propaganda de medicamenos e a mídia comercial no Brasil



Carlos Antonio Fragoso Guimarães

  Todos, ou ao menos quase todos, sabem das relações entre indústria, que visa ao lucro na produção e comercialização de produtos, e mídia, que visa ao lucro pela divulgação de publicidade voltada para a influenciação do comportamento que vise à compra dos produtos da indústria, o que lhe garante mais lucro, igualmente. Ambas, indústria e mídia, são irmãs siamesas, ligadas pela  poderosa publicidade, não importando muito o impacto desta ligação comercial para as pessoas ou para o meio ambiente.

  Pois bem, como a poderosíssima Indústria Farmacêutica é um dos filões mais rentáveis da mídia (especialmente da televisão) esta última fará de tudo para apoiar aquela, passando por cima das consequencias nocivas da automedicação e da venda de produtos farmacêuticos com pouco ou nenhum controle ao público (aliás, quanto menos controle mais publicidade e, consequentemente, mais vendas e lucros tanto para a indústria farmacêutica quanto para a mídia). Não chega, pois, a espantar (embora chegue a revoltar) a tendenciosidade da Rede Globo no Jornal Nacional do último dia 27 de janeiro em apoiar o processo contra as tentativas da ANVISA de regulamentar a propaganda de medicamentos, com vistas ao bem-estar e à saúde pública diante do incentivo da auto-medicação que é feita pela publicidade televisiva de medicamentos. A Globo visa tão somente ao lucro e o filão da propaganda de remédios é um dos mais lucrativos! Muitas vezes a mensagem das propagandas envolvem elementos outros (como força, capacidade intelectual, etc.) que não estão vinculados primariamente aos efeitos dos medicamentos publicizados e muitas informações importantes, como efeitos colaterais nocivos e princípios ativos e modo de uso, são simplesmente negligenciados.

   Disso se deduz que o paradigma tanto da indústria, quanto da publicidade e da mídia, é de que o povo é simplesmente uma massa passiva de manobra a ser explorado amplamante, pouco se importando com as consequências (que podem ser graves ou mesmo fatais) de seus objetivos...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pobre em São Paulo só serve para levar tiro e dar voto? A violência em Pinheirinho






Carlos Antonio Fragoso Guimarães


  Policiais militares despejando, à base da violência, milhares de famílias pobres na comunidade Pinheirinho em São José dos Campos, São Paulo, que há oito anos montaram suas casas em terreno que pertenceria a uma empresa imobiliária falida do especulador financeiro líbano-brasileiro Naji Nahas, principal responsável pela quebra da bolsa de valores do Rio em 1989 e um dos envolvidos com Daniel Dantas no caso Satiagraha.

  O caso ocorrido no último dia 22 de janeiro, um domingo, choca pela truculência aos mais desvalidos em proteção dos interesses dos mais ricos e com o apoio do Governo estadual (há anos nas mãos do PSDB) e a parcialidade da Justiça paulista, que exigiu o feito (embora a Justiça Federal estivesse buscando uma solução civilizada para o caso) e está mais preocupada em abafar a operação do Conselho Nacional de Justiça sobre os milhões desviados, supostamente por desembargadores, que agir, como seria de seu ofício, para proteger a dignidade da pessoa humana. Interessante como um órgão público, como o TJ, mantido com o dinheiro público, venha a se transformar em um clube corporativo elitista. Cabe lembrar que a operação paulista foi em contrário ao que determinava a Justiça Federal, que buscava uma solução para o caso, mas o Tribunal de Justiça do estado do PSDB, em favor do especulador e empresário imobiliário responsável pela queda do prédio Palace 2, Naji Nahas, mandou uma ordem de enfrentamento que exigia passar por cima de qualquer . inclusive ordem federal e que dizia textualmente enfrentar qualquer"óbice que venha a surgir no curso da execução, inclusive a oposição de corporação policial federal".
 Veja agora o vídeo devastador em que o Defensor Público Jairo Salvador, em depoimento histórico, desmonta as mentiras que procuram salvar os fascistas responsáveis pela atrocidade cometida em Pinheirinho e que passavam por determinações judiciais anteriores que proibiam a violência, a vergonha impetrada pelos asseclas fascistas de extrema-direita, com graves denúncias de quem conhecia o processo e esteve presente in loco à ação de extermínio da polícia à mando das elites paulistas:

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Uma mesma nave natural Terra e tantas diferenças aritificiais...



"Somos todos passageiros da mesma nave espacial chamada Terra. No entanto, como nas caravelas dos colonizadores e nos aviões transatlânticos, viajamos em condições desiguais."

Frei Betto

A vista a partir de um ponto...







Para aqueles com estômago elitista, lugar de peão é na fábrica produzindo, alimentando a bomba do capitalismo!"




Leonardo Boff, teólogo, ecologista e filósofo

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Pelo lucro pode-se tudo? O caso do abuso no BBB 12


Carlos Antonio Fragoso Guimarães

   Não estou aqui para acusar quem assiste o BBB de nada. Cada um faz o que quer e assiste o que bem lhe convier. Opções de vida inteligente e socialmente estimulante para além da telinha da tv existem e cabe, a quem quiser, fazer um pequeno esforço para perceber ou fazer acontecer isso de livre arbítrio. Minha preocupação aqui não está em quem assiste o BBB, mas na responsabilidade social de quem o faz, esclarecendo que o autor destas linhas só veio a saber do caso do suposto "estupro" ocorrido no progama pelos comentários correntes na própria internet...

  O que aqui questiono não é a questão da liberdade sexual e nem me passa pela cabeça propor qualquer tipo de censura, mas sobre a falta de limites e de responsabilidades perante ao que é mostrado ou estimulado em serviços de radiodifusão, o que constitui o verdadeiro e real abuso, já que as emissoras, bem ou mal, são (ou ao menos deveriam ser) concessões públicas voltadas primariamente para o bem e dignidade da pessoa humana e não para a banalização da sexualidade e do conflito intra-social, em numa construção sensacionalista por motivação puramente mercadológica. E é claro que tais jogos acabem por, bem ou mal, servir de modelo, influenciação e exemplo na formação de crianças e jovens educadas que são mais pela mídia que pelos pais e pela escola, mídia que alcança lares (alguns dos quais desestruturados pelo modelo hegemônico econômico que promove mesmo tais programas) em todo o Brasil.

  Isto nada tema ver com a questão da liberdade sexual ou com respeito (ou falta deste) para com as pessoas que participam  do BBB, mas sobre a provável falta de cuidado para com estes por parte da emissora de tv. Afinal, para que servem as "festas" regadas à muito álcool (belo exemplo aos jovens) e apelos à sensualidade, senão ao incentivo de "casos" que farão a audiência crescer? O "estupro" (se é que houve)  nada mais foi que consequência direta dos estímulos sensuais promovidos intensamente pelo próprio programa. A exploração do sexo é até mesmo esperada  (afinal, "casais" atraem a simpatia do publico, e "casos" ainda mais) na estratégia de marketing do BBB, haja vista que as garotas do programa, em sua maior parte, de antemão se comprometem a posar para revistas masculinas.

  A expulsão a posteriori do "brother" supostamente estuprador parece ser uma ação igualmente interpestiva, tomada pela direção do programa ante à celeuma, presente nas redes sociais e estimuladas calculadamente nas emissoras concorrentes, provocada pela cena da garota sendo "tocada", aparentemente inconsciente (e ai está todo o problema, que levanta a questão do estupro), pelo rapaz, devido à bebedeira da noitada patrocinada pelo  próprio programa. Não estou defendendo a atitude dele ou dela, mas fica a questão de que, se não houve o "estupro", houve  certamente um prejuizo à imagem de um e de outro dos envolvidos no caso por uma estrutura de programa no mínimo falha. Também não pretendo impor uma concepção moralista ao caso. A sexualidade midiática e midiatizada é não só esperada como mesmo icentivada por programas desta natureza. Estivesse a participante aparentemente acordada, ou aparentasse estar envolvida mais ativamente, o caso seria um "trivial" e comum episódio de sexo consentido mais ou menos frente às câmeras (uma "pegação" como dizem alguns). Mas esta banalização não ataca a imagem da mulher? Ora, como negar, então, a responsabilidade do programa e de sua emissora no suposto estupro se um dos objetivos do "reality show" (nem tão reality e nem tão natural assim) é exatamente o de estimular sexualmente os competidores para, assim, consolidar e/ou amuentar a audiência, garantindo maior faturamento?

 Mas a dicussão sobre as causas e objetivos de tal mister midiático não é promovida. Banalização em programas ou revistas sensacionalistas parecem ser regra dentro da velha Mídia brasileira que, ademais, escolhe o que deve ou não ser divulgado, como no paradigmático caso do livro "A Privataria Tucana" - um fenômeno de vendagens que põe a nu a roubalheira dos grandes do PSDB na era FHC -, que não mereceu da Globo uma única avaliação fundamentada na sua rede aberta de televisão, o que é revelador de uma mídia que é pródiga em expressar elogios e montar pautas em causa própria (veja-se, por exemplo, o caso explícito de tendendiciosidade da parcialíssima Revista Veja), estando como está nas mãos de umas poucas e ricas famílias paulistas (com o núcleo da Globo também no Rio) comprometidas com a podridão do neoliberalismo de mercado...



sábado, 14 de janeiro de 2012

Quem faz a História?


Quem construiu a Tebas das sete portas? Nos livros constam os nomes dos reis. Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia tantas vezes destruída, quem a ergueu outras tantas?
Em que casas da Lima radiante de ouro moravam os reais construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta a Muralha da China?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os Césares?
A decantada Bizâncio só tinha palácios para seus habitantes?
Mesmo na legendária Atlântida, na noite em que o mar a engoliu, os que se afogavam gritaram por seus escravos.
O jovem Alexandre consquistou a Índia. Ele sozinho?
César bateu os gauleses, não tinha pelo menos um cozinheiro consigo?
Felipe de Espanha chorou quando sua armada naufragou. Ninguém mais chorou?
Fredrico II venceu a Guerra dos Sete Anos. Quem venceu além dele?
Uma vitória a cada página. Quem cozinhava os banquetes da vitória?
Um grande homem a cada dez anos. Quem pagava as despesas?
Tantos relatos. Tantas perguntas.
Bertolt Brecht (1898-1956) 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Michael Moore: Capitalismo, uma história de amor mal resolvida




Carlos Antonio Fragoso Guimarães



(escrito publicado neste blog em 21 de março de 2010)



Em 1989 Michael Moore chamava a atenção em seu primeiro documentário (gênero em que se tornou mestre), intitulado Roger e Eu. Neste, ele abordava de maneira dramática e com fina ironia, por vezes hilária, como uma cidade antes próspera - por sinal, cidade natal de Moore e também da própria GM - chamada Flint, no estado de Michigan, foi reduzida à miséria pela decisão da General Motors de fechar sua seminal fábrica de componentes automotivos, da região, aparentemente por simples redução de custos, sem levar em conta o impacto desta decisão na vida de milhares de famílias e na renda de demais setores da cidade, demonstrando que a ficção jurídica de uma empresa ser considerada "uma pessoa" traz consigo forte potencial de destruição social, transformando-se em um Leviatã plutocrático que se alimenta do sangue de operários e funcionários, ambos descartáveis.


Anos depois, seu premiado "Tiros em Columbine", que recebeu o Oscar em 2002, desmascara a hipocrisia de uma sociedade de fachada, onde valores da competitividade e do acúmulo de bens se expressam no hábito do culto individualista às armas e à violência, substituindo o cultivo de valores humanos, sociais, cooperativos.


Pouco tempo depois, Moore mostra o Rei Bush, nu, junto com seus asseclas neo-conversadores e messiânicos no super-conhecido "Farenheit 11 de setembro". Nunca o governo imperialista americano foi tão explicitamente desmascarado de forma tão direta e irônica em um documentário de linguagem tão acessível.


Em 2007, Moore desmascara o comércio lucrativo que é o sistema de saúde norte-americano (que serve de modelo ao nosso), em "Sicko - S.O.S Saúde", documentário em que as relações espúrias da indústria médica (incluindo-se a poderosa indústria farmacêutica) com a população, entendida como gado a ser explorado pelo sistema mais caro e elitista do mundo, são finamente expostas. Sensacional os momentos finais do filme, onde heróicos voluntários que participaram do resgate das vítimas do 11 de setembro, e que adoeceram por aspirarem a poeira dos ecombros, após serem desprezados pelos sitema americano, são levados à Cuba onde recebem todo o tratamento adequado e ainda são homenageados pelos bombeiros do governo comunista de Fidel Castro pelo heroísmo demonstrado após o choque dos aviões ao World Trade Center.


Agora, Moore volta à tona com um novo e sensacional documentário: "Capitalismo, uma história de amor (2009)". Neste, Moore começa apresentando como o sistema de canto de sereias dos empréstimos bancários e hipotecas que se transformam em pedras a destroçar famílias, despejando-as de suas casas após enganá-las com promessas de prosperidade, demintindo-as sem dó nem piedade. Retorna também aos inícios de sua história enquanto ser humano e quanto cineasta, na cidade então próspera de Flint, para construir um documentário bem fundamentado e bastante objetivo sobre as origens do capitalismo e a maneira desastrosa como os E.U.A. são dominados pelo corporativismo sem regulamentações do estado neoliberal, especialmente na área bancária e financeira.


Moore faz uma crítica objetiva à lógica do neoliberalismo devastador que, após Reagan e Thatcher, se impôs ao mundo desde 1989, para eles o ano do "fim da história" já que o antigo conflito entre ideologias teria acabado e o capitalismo teria vencido de vez, evento simbolizado pela queda do Muro de Berlim, passando a creditar-se imbatível e pleno de liberdade inclusive para começar a tratar explicitamente mal aposentados, empregados, povos, países em busca de aumento de lucro a partir do corte de "despesas" com o bem-estar social e ambiental.


Moore leva-nos numa viagem pelo país, e mostra-nos os epicentros mais importantes das corporações e do mercado financeiro-especulativo não-produtivo e os seus ‘podres’, que se repercutem não só a uma escala nacional, mas consequentemente a uma escala global, dando seguimento e indo mais além do documentário "A Corporação", de Jennifer Abott e Marck Achbar, 2003, onde o próprio Moore participa como entrevistado. A ironia está que, enquanto os lucros são individualizados aos bancos e corporações, os prejuízos destes são socializados a todos, já que dinheiro público é aplicado para salvar os apostadores do cassino financeiro improdutivo. A crise, iniciada nos EUA rapidamente se alastrou para a Europa, com consequências trágicas em países como Grécia, Portugal e Irlanda.


Sobre o potencial polêmico do filme, que geralmente é usado para encobrir sua mensagem, o cineasta é enfático e direto em sua ironia:


"Escutem, deixe eu ser direto: eu sou apaixonado por esse filme. Ele não é apenas o mais pessoal de todos os filmes que eu já fiz, mas é o mais vital e necessário filme que já fiz em 20 anos de carreira como cineasta. Eu falei para a minha equipe no começo das filmagens, "Vamos fazer um filme tão honestamente brutal que NINGUÉM com qualquer dinheiro nunca mais irá escrever um cheque para fazermos um novo filme!". Então nós fizemos o documentário mais perigoso que poderíamos ter feito",
desabafou Michael Moore em uma entrevista coletiva a 9 de Março de 2010.


Com seu habitual humor e sagacidade, o filme explora o preço que a população dos EUA pagam por seu tradicional amor dogmático ao capitalismo, especialmente, nos últimos 35 anos, do capitalismo de cassino financeiro, de rendimentos sobre juros bancários e não em investimento produtivo, criado e movido para delícia dos grandes de Wall Street. Se após a II Guerra, esse amor parecia inocente, baseada na produção de bens, já que as fábricas na Europa ainda estavam se refazendo da Guerra, embalado a Rock 'n Roll e carrões consumidores de litros de combustível, hoje o sonho americano parece mais um pesadelo quando famílias pagam o preço da jogatina dos bancos com seus empregos, casas e economias, ou mesmo dando a vida em guerras insanas por ganância econômica.


Moore nos leva aos lares de pessoas comuns cujas vidas viraram de cabeça para baixo a partir das promessas de Alan Greenspan, dos dramas calculados de Bush e de outros (a comerçar pro Ronald Regan, primeiro presidente títere de Wall Street) de que eles poderiam ter dinheiro fácil e seguro fazendo empréstimos sobre empréstimos e hipotecando suas casas a taxas de juros exorbitantes pela máfia dos bancos. Moore também sai em busca de explicações em Washington e em toda parte, do porque da crise de 2009, sendo evitado de ser recebido pelos grandes de Wall Street e dos grandes Bancos (Citibak, Bank of America, a seguradora AIG). Com toda a razão se pergunta onde foram parar os 700 bilhões de dólares doados pelo governo Bush a estes setores... Mostra como o congresso (especialmente na época de Bush) se tornou um braço de Wall Street. Ele, então, descobre os sintomas tão conhecidos do fim de um antigo caso caso amor: simulações, frieza, abuso, traição...e alguns milhares de empregos sendo eliminados por dia no mundo inteiro.