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segunda-feira, 18 de março de 2019

Leonardo Boff: Por que a Igreja Católica oficial reluta a discutir a sexualidade e a lei do celibato


"Em todas as análises e condenações feitas sobre a pedofilia não se discutiu ainda o problema subjacente: a sexualidade. O ser humano não tem sexo. Ele é todo inteiro sexuado no corpo e na alma. O sexo é tão essencial que por ele passa a continuidade da vida."

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Texto de Leonardo Boff:

É inegável a coragem do Papa Francisco ao enfrentar abertamente a questão da pedofilia dentro da Igreja. Fez entregar à justiça civil os pedófilos desde padres, religiosos até Cardeais para serem julgados e punidos. No Encontro em Roma, em fins de fevereiro de 2019, para a Proteção dos Menores, o Papa impôs 8 determinações entre as quais a “pedofilia zero” e “a proteção das crianças abusadas”
O Papa aponta a chaga principal: “o flagelo do clericalismo que é o terreno fértil para todas estas abominações”. Clericalismo aqui significa a centralização de todo o poder sagrado no clero, com a exclusão de outros, que se julga acima de qualquer suspeita e crítica. Ocorre que gente do clero usa esse poder que, de si, deveria irradiar confiança e reverência, para abusar sexualmente de menores.
Entretanto, a meu ver, o atual Papa e todos os anteriores, não levaram a questão até ao fundo, por razões que abaixo tento esclarecer: a sexualidade e a lei do celibato.
Quanto à sexualidade importa reconhecer que a Igreja-grande-insituição-piramidal alimentou historicamente uma atitude de desconfiança e até negativa face à sexualidade. É refém de uma visão errônea, advinda da tradição platônica e agostiniana. Santo Agostinho via a atividade sexual como o caminho pelo qual entra o pecado original. Por ele, de nascença, cada ser humano se faz portador de uma mancha, de um pecado, sem culpa pessoal, em solidariedade com o pecado dos primeiros pais.
Quanto menos sexo procriatiavo, menos “massa damnata” (massa condenada). A mulher, por ser geradora, introduz no mundo o mal originário. Negava-se a ela a plena humanidade. Era chamada “mas” que em latim significa “homem não completo”. Todo anti-feminismo e machismo na Igreja romano-católica, encontram aqui seu pressuposto teórico discutível em termos filosóficos e teológicos.
Daí o alto valor atribuído ao celibato, porque, não havendo relação sexual-genital com uma mulher, não nascerão filhos e filhas. Assim não se transmitiria o pecado original e a humanidade ficaria  destarte mais purificada. Os criminosos  abusos sexuais de menores praticados por celibatários,mostram que o celibato, por si só, não significa  necessariamente uma purificação da humanidade.
Em todas as análises e condenações feitas sobre a pedofilia não se discutiu ainda o problema subjacente: a sexualidade. O ser humano não tem sexo. Ele é todo inteiro sexuado no corpo e na alma. O sexo é tão essencial que por ele passa a continuidade da vida.
Temos a ver com uma realidade misteriosa e extremamente complexa. A reflexão oficial até hoje não se confrontou positivamente com aqueles que detidamente pesquisaram a sexualidade como Freud, Jung, Adler, Fromm, Winnicott, Lacan, Rollo May,Simone de Bouvoir,Ana Freud, Rose Marie Muraro, Janette Paris entre tantos e tantas. Teria muito que aprender destas contribuições, sem renunciar às eventuais críticas. De modo geral podemos dizer que a Igreja oficial e mesmo a própria teologia não elaboraram uma leitura e um ideal, digamos até, uma utopia  para a sexualidade humana. O que houve sim,foi muito moralismo que trouxe e ainda traz angústia e sofrimento para os cristãos que querem orientar suas vidas pelo caminho cristão. O documento do Papa Francisco Amoris Laeticia (A legria do amor) delineia alguns pontos luminosos nesta linha. Mas devemos ir mais longe e mais fundo.
O pensador francês Paul Ricoeur que muito refletiu filosoficamente sobre a teoria psicanalítica de Freud escreveu: “A sexualidade, em seu fundo, permanece, talvez, impermeável à reflexão e inacessível ao domínio humano; talvez essa opacidade faz com que ela não possa ser reabsorvida numa ética nem numa técnica” (Revista Paz e Terra n. 5 de 1979 p. 36). Ela vive entre a lei do dia onde vigoram os comportamentos estatuídos e a lei da noite onde funcionam as pulsões livres. Só uma ética do respeito face ao outro sexo e um auto-controle permanente sobre essa energia vulcânica, podem transformá-la em expressão de troca afetiva e de amor a dois e não numa obsessão e numa perversão.
Sabemos como é insuficiente a educação para a integração da sexualidade na formação dos padres nos seminários. Ela é feita longe do contacto normal com as mulheres, o que produz certa atrofia na construção da identidade. Por que Deus criou a humanidade, enquanto homem e mulher (Gn1,27)? Não primeiramente para gerarem filhos. Mas para não ficarem sós e serem um vis-a-vis uma ao outro e  companheiros na diferença (Gn 2,18).
As ciências da psiqué nos deixaram claro que o homem só amadurece sob o olhar da mulher e a mulher sob o olhar do homem. Homem e mulher são em si completos, em cada um há a porção masculina e feminina, embora em proporções diferentes. mas, por sua natureza, são recíprocos e se enriquecem mutuamente na diferença.
O sexo genético-celular mostra que a diferença entre homem e mulher em termos de cromossomos, se reduz a apenas um cromossomo. A mulher possui dois crosmosomos XX e o homem um cromosomo X e outro Y. Donde se depreende que o sexo-base é o feminino (XX), sendo o masculino (XY) uma diferenciação dele. Não há pois um sexo absoluto, mas apenas um dominante. Em cada ser humano, homem e mulher, existe “um segundo sexo“. Na integração do “animus” e da “anima”, explico, das dimensões do feminino e do masculino presentes em cada pessoa, se gesta a maturidade humana e sexual.
Neste processo, o celibato não é excluido. Pode ser uma opção pessoal legítima. Mas na Igreja ele é imposto como pré-condição para ser padre ou religioso. Por outro lado, o celibato não pode nascer de uma carência de amor, mas de uma superabundância de amor a Deus, transbordando aos outros, em especial, aos mais carentes de afeto.
Por que a Igreja romano-católica não abole a lei do celibato? Porque seria contraditório à sua estrutura de base. Ela é, socialmente, (teologicamente demanderia outro tipo de reflexão) uma instituição total, autoritária, patriarcal, machista e fortemente hierarquizada. Uma Igreja que se estrutura ao redor do poder sagrado realiza o que C. G. Jung denunciava: “onde predomina o poder aí não há amor nem ternura”. É o que ocorre com o machismo e a rigidez, não em todos, mas em significativa parte dos padres e bispos que presidem as comunidades cristãs.
Não obstante as limitações  assinaladas, importa assinalar que são muitos, diria até, grande parte, que vivem o celibato exemplarmente, e espiritualizam com as renúncias que ele exige (Jesus fala até em “castração” em função do Reino de Deus) e irradiam integridade, jovialidade e mostram que o celibato pode ser um caminho possível de realização de sua própria humanidade.
Para corrigir os desvios de celibatários, o Papa Francisco não se cansa de pregar “a ternura e o encontro afetuoso” com os outros, alimentado por uma viva intimidade com Deus em oração e meditação cotidianas. Entretanto, assim como há séculos se configura enquanto lei imposta aos sacerdotes,  o celibato se faz funcional à Igreja clerical, só e solitária.
Ao perdurar este tipo de Igreja, não esperemos por enquanto a abolição da lei do celibato. Ele é útil para ela mas muito menos para os fiéis.
E como fica a utopia de Jesus de uma comunidade fraternal e igualitária? Se vivida, mudaria tudo na Igreja e também, em parte, da humanidade, animada pelo sonho bom e extremamente humanitário do Mestre de Nazaré.
* Teólogo e escritor. Escreveu com Rose Marie Muraro “Feminino & Masculino : uma nova consciência para o encontro das diferenças”. Record, 2010.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Pelo lucro pode-se tudo? O caso do abuso no BBB 12


Carlos Antonio Fragoso Guimarães

   Não estou aqui para acusar quem assiste o BBB de nada. Cada um faz o que quer e assiste o que bem lhe convier. Opções de vida inteligente e socialmente estimulante para além da telinha da tv existem e cabe, a quem quiser, fazer um pequeno esforço para perceber ou fazer acontecer isso de livre arbítrio. Minha preocupação aqui não está em quem assiste o BBB, mas na responsabilidade social de quem o faz, esclarecendo que o autor destas linhas só veio a saber do caso do suposto "estupro" ocorrido no progama pelos comentários correntes na própria internet...

  O que aqui questiono não é a questão da liberdade sexual e nem me passa pela cabeça propor qualquer tipo de censura, mas sobre a falta de limites e de responsabilidades perante ao que é mostrado ou estimulado em serviços de radiodifusão, o que constitui o verdadeiro e real abuso, já que as emissoras, bem ou mal, são (ou ao menos deveriam ser) concessões públicas voltadas primariamente para o bem e dignidade da pessoa humana e não para a banalização da sexualidade e do conflito intra-social, em numa construção sensacionalista por motivação puramente mercadológica. E é claro que tais jogos acabem por, bem ou mal, servir de modelo, influenciação e exemplo na formação de crianças e jovens educadas que são mais pela mídia que pelos pais e pela escola, mídia que alcança lares (alguns dos quais desestruturados pelo modelo hegemônico econômico que promove mesmo tais programas) em todo o Brasil.

  Isto nada tema ver com a questão da liberdade sexual ou com respeito (ou falta deste) para com as pessoas que participam  do BBB, mas sobre a provável falta de cuidado para com estes por parte da emissora de tv. Afinal, para que servem as "festas" regadas à muito álcool (belo exemplo aos jovens) e apelos à sensualidade, senão ao incentivo de "casos" que farão a audiência crescer? O "estupro" (se é que houve)  nada mais foi que consequência direta dos estímulos sensuais promovidos intensamente pelo próprio programa. A exploração do sexo é até mesmo esperada  (afinal, "casais" atraem a simpatia do publico, e "casos" ainda mais) na estratégia de marketing do BBB, haja vista que as garotas do programa, em sua maior parte, de antemão se comprometem a posar para revistas masculinas.

  A expulsão a posteriori do "brother" supostamente estuprador parece ser uma ação igualmente interpestiva, tomada pela direção do programa ante à celeuma, presente nas redes sociais e estimuladas calculadamente nas emissoras concorrentes, provocada pela cena da garota sendo "tocada", aparentemente inconsciente (e ai está todo o problema, que levanta a questão do estupro), pelo rapaz, devido à bebedeira da noitada patrocinada pelo  próprio programa. Não estou defendendo a atitude dele ou dela, mas fica a questão de que, se não houve o "estupro", houve  certamente um prejuizo à imagem de um e de outro dos envolvidos no caso por uma estrutura de programa no mínimo falha. Também não pretendo impor uma concepção moralista ao caso. A sexualidade midiática e midiatizada é não só esperada como mesmo icentivada por programas desta natureza. Estivesse a participante aparentemente acordada, ou aparentasse estar envolvida mais ativamente, o caso seria um "trivial" e comum episódio de sexo consentido mais ou menos frente às câmeras (uma "pegação" como dizem alguns). Mas esta banalização não ataca a imagem da mulher? Ora, como negar, então, a responsabilidade do programa e de sua emissora no suposto estupro se um dos objetivos do "reality show" (nem tão reality e nem tão natural assim) é exatamente o de estimular sexualmente os competidores para, assim, consolidar e/ou amuentar a audiência, garantindo maior faturamento?

 Mas a dicussão sobre as causas e objetivos de tal mister midiático não é promovida. Banalização em programas ou revistas sensacionalistas parecem ser regra dentro da velha Mídia brasileira que, ademais, escolhe o que deve ou não ser divulgado, como no paradigmático caso do livro "A Privataria Tucana" - um fenômeno de vendagens que põe a nu a roubalheira dos grandes do PSDB na era FHC -, que não mereceu da Globo uma única avaliação fundamentada na sua rede aberta de televisão, o que é revelador de uma mídia que é pródiga em expressar elogios e montar pautas em causa própria (veja-se, por exemplo, o caso explícito de tendendiciosidade da parcialíssima Revista Veja), estando como está nas mãos de umas poucas e ricas famílias paulistas (com o núcleo da Globo também no Rio) comprometidas com a podridão do neoliberalismo de mercado...