"Já faz 40 anos que oneoliberalismo, liderado por Ronald Reagan eMargaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições." - Noam Chomsky
Noam Chomsky: “As pessoas já não acreditam nos 'fatos' ”
Prestes a fazer 90 anos, acaba de abandonar o MIT. Ali revolucionou a linguística moderna e se transformou na consciência crítica dos EUA. Visitamos o grande intelectual em seu novo destino, no Arizona
Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) superou faz tempo as barreiras da vaidade. Não fala de sua vida privada, não usa celular e em um tempo onde abunda o líquido e até o gasoso, ele representa o sólido. Foi detido por opor-se à Guerra do Vietnã, figurou na lista negra de Richard Nixon, apoiou a publicação dos Papéis do Pentágono e denunciou a guerra suja de Ronald Reagan. Ao longo de 60 anos, não há luta que ele não tenha travado. Defende tanto a causa curda como o combate à mudança climática. Tanto aparece em uma manifestação do Occupy Movement como apoia os imigrantes sem documentos.
Mergulhado na agitação permanente, o jovem que nos anos cinquenta deslumbrou o mundo com a gramática gerativa e seus universais, longe de descansar sobre as glórias do filósofo, optou pelo movimento contínuo. Não se importou com que o acusassem de antiamericano ou extremista. Sempre seguiu em frente com valentia, enfrentando os demônios do capitalismo − sejam os grandes bancos, os conglomerados militares ou Donald Trump. À prova de fogo, sua última obra volta a confirmar sua tenacidade. Em Réquiem para o sonho americano (editora Bertrand Brasil),ele põe no papel as teses expostas no documentário homônimo e denuncia a obscena concentração de riquezae poder que exibem as democracias ocidentais. O resultado são 192 páginas de Chomsky em estado puro. Vibrante e claro.
Preparado para o ataque.
— O senhor se considera um radical?
— Todos consideramos a nós mesmos moderados e razoáveis.
— Defina-se ideologicamente.
“As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária. O resultado é uma mistura de aborrecimento e medo”
— Acredito que toda autoridade tem de se justificar. Que toda hierarquia é ilegítima enquanto não demonstrar o contrário. Às vezes pode se justificar, mas na maioria das vezes, não. E isso... isso é anarquismo.
Uma luz seca envolve Chomsky. Depois de 60 anos dando aulas no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), o professor veio viver nos confins do deserto de Sonora, no Arizona. Em Tucson, a mais de 4.200 quilômetros de Boston, ele se instalou e estreou um escritório no Departamento de Linguística da Universidade do Arizona. O centro é um dos poucos pontos verdes dessa cidade abrasadora. Freixos, salgueiros, palmeiras e nogueiras crescem em torno de um edifício de tijolos vermelhos de 1904 onde tudo fica pequeno, mas tudo é acolhedor. Pelas paredes há fotos de alunos sorridentes, mapas das populações indígenas, estudos de fonética, cartazes de atos culturais e, no fundo do corredor, à direita, o escritório do maior linguista vivo.
O lugar não tem nada a ver com o espaço inovador do Frank Gehry que o abrigava em Boston. Aqui, mal cabe uma mesa de trabalho e outra para sentar-se com dois ou três alunos. Recém-estreado, o escritório de um dos acadêmicos mais citados do século XX ainda não tem livros próprios, e seu principal ponto de atenção recai em duas janelas que inundam a sala de âmbar. Chomsky, de calças jeans e longos cabelos brancos, gosta dessa atmosfera calorosa. A luz do deserto foi um dos motivos que o levaram a se mudar para Tucson. “É seca e clara”, comenta. Sua voz é grave e ele deixa que se perca nos meandros de cada resposta. Gosta de falar longamente. Pressa não é com ele.
Pergunta. Vivemos uma época de desencanto?
Resposta. Já faz 40 anos que o neoliberalismo, liderado por Ronald Reagan e Margaret Thatcher, assaltou o mundo. E isso teve um efeito. A concentração aguda de riqueza em mãos privadas veio acompanhada de uma perda do poder da população geral. As pessoas se sentem menos representadas e levam uma vida precária, com trabalhos cada vez piores. O resultado é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Já não se confia nem nos próprios fatos. Há quem chama isso de populismo, mas na verdade é descrédito das instituições.
R. A desilusão com as estruturas institucionais levou a um ponto em que as pessoas já não acreditam nos fatos. Se você não confia em ninguém, por que tem de confiar nos fatos? Se ninguém faz nada por mim, por que tenho de acreditar em alguém?
P. Nem mesmo nos veículos de comunicação?
R. A maioria está servindo aos interesses de Trump.
P. Mas há alguns muito críticos, como The New York Times, The Washington Post, CNN…
R. Olhe a televisão e as primeiras páginas dos jornais. Não há nada mais que Trump, Trump, Trump. A mídia caiu na estratégia traçada por Trump. Todo dia ele lhes dá um estímulo ou uma mentira para se manter sob os holofotes e ser o centro da atenção. Enquanto isso, o flanco selvagem dos republicanos vai desenvolvendo sua política de extrema direita, cortando direitos dos trabalhadores e abandonando a luta contra a mudança climática, que é precisamente aquilo que pode acabar com todos nós.
Noam Chomsky.APU GOMES
P. O senhor vê em Trump um risco para a democracia?
R. Representa um perigo grave. Liberou de forma consciente e deliberada ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes, mas que ninguém tinha legitimado.
P. Continua apoiando o senador democrata Bernie Sanders?
R. É um homem decente. Usa o termo socialista, mas nele significa mais um New Deal democrata. Suas propostas, de fato, não seriam estranhas a Eisenhower[presidente dos EUA pelo Partido Republicano de 1953 a 1961]. Seu sucesso, mais que o de Trump, foi a verdadeira surpresa das eleições de 2016. Pela primeira vez em um século houve alguém que esteve a ponto de ser candidato sem apoio das corporações nem dos veículos de comunicação, só com o apoio popular.
“Trump liberou deliberadamente ondas de racismo, xenofobia e sexismo que estavam latentes mas não legitimadas”
P. Houve um deslizamento para a direita do espectro político?
R. Na elite do espectro político sim, ocorreu esse deslizamento, mas não na população em geral. Desde os anos oitenta se vive uma ruptura entre o que as pessoas desejam e as políticas públicas. É fácil ver isso no caso dos impostos. As pesquisas mostram que a maioria quer impostos mais altos para os ricos. Mas isso nunca se leva a cabo. Frente a isso se promoveu a ideia de que reduzir impostos traz vantagens para todos e que o Estado é o inimigo. Mas quem se beneficia da reduzir [verbas para] estradas,hospitais, água limpa e ar respirável?
P. Então o neoliberalismo triunfou?
R. O neoliberalismo existe, mas só para os pobres. O mercado livre é para eles, não para nós. Essa é a história do capitalismo. As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são autênticos marxistas, mas com os valores invertidos. Os princípios do livre mercado são ótimos para ser aplicados aos pobres, mas os muito ricos são protegidos. As grandes indústrias de energia recebem subvenções de centenas de milhões de dólares, a economia de alta tecnologia se beneficia das pesquisas públicas de décadas anteriores, as entidades financeiras obtêm ajuda maciça depois de afundar… Todas elas vivem com um seguro: são consideradas muito grandes para cair e são resgatadas se têm problemas. No fim das contas, os impostos servem para subvencionar essas entidades e com elas, os ricos e poderosos. Mas além disso se diz à população que o Estado é o problema e se reduz seu campo de ação. E o que ocorre? Seu espaço é ocupado pelo poder privado, e a tirania das grandes corporações fica cada vez maior.
R. Até Orwell estaria assombrado. Vivemos a ficção de que o mercado é maravilhoso porque nos dizem que está composto por consumidores informados que adotam decisões racionais. Mas basta ligar a televisão e ver os anúncios: procuram informar o consumidor para que tome decisões racionais? Ou procuram enganar? Pensemos, por exemplo, nos anúncios de carros. Oferecem dados sobre suas características? Apresentam informes realizados por entidades independentes? Porque isso sim que geraria consumidores informados capazes de tomar decisões racionais. Em vez disso, o que vemos é um carro voando, pilotado por um ator famoso. Tentam prejudicar o mercado. As empresas não querem mercados livres, querem mercados cativos. De outra forma, colapsariam.
P. Diante dessa situação, não é muito fraca a contestação social?
R. Há muitos movimentos populares muito ativos, mas não se presta atenção neles porque as elites não querem que se aceite o fato de que a democracia pode funcionar. Isso é perigoso para elas. Pode ameaçar seu poder. O melhor é impor uma visão que diz a você que o Estado é seu inimigo e que você tem de fazer o que puder sozinho.
P. Trump usa frequentemente o termo antiamericano. Como o senhor entende esse termo?
“As grandes corporações empreenderam a luta de classes, são marxistas mas com os valores invertidos”
R. Os Estados Unidos são o único país onde, por criticar o Governo, te chamam de antiamericano. E isso representa um controle ideológico, acendendo fogueiras patrióticas por toda parte.
P. Em alguns lugares da Europa também ocorre isso.
R. Mas nada comparável ao que ocorre aqui, não há outro país onde se vejam tantas bandeiras.
P. O senhor teme o nacionalismo?
R. Depende. Se significa estar interessado em sua cultura local, é bom. Mas se for uma arma contra outros, sabemos aonde pode conduzir, já vimos e experimentamos isso.
P. Acha possível que se repita o que ocorreu nos anos trinta?
R. A situação se deteriorou. Depois da eleição de Barack Obama se desencadeou uma reação racista de enorme virulência, com campanhas que negavam sua cidadania e identificavam o presidente negro com o anticristo. Houve muitas manifestações de ódio. No entanto, os EUA não são a República de Weimar[democracia alemã anterior ao nazismo]. Precisamos estar preocupados, mas as probabilidades de que se repita algo assim não são altas.
P. Seu livro começa lembrando a Grande Depressão, uma época em que “tudo estava pior que agora, mas havia um sentimento de que tudo iria melhorar”.
R. Eu me lembro perfeitamente. Minha família era de classe trabalhadora, estava desempregada e não tinha educação. Objetivamente, era uma época muito pior que agora, mas havia um sentimento de que todos estávamos juntos naquilo. Havia um presidente compreensivo com o sofrimento, os sindicatos estavam organizados, havia movimentos populares… Tinha-se a ideia de que juntos podíamos vencer a crise. E isso se perdeu. Agora vivemos a sensação de que estamos sozinhos, de que não há nada a fazer, de que o Estado está contra nós…
P. Ainda tem esperanças?
R. Claro que há esperança. Ainda há movimentos populares, gente disposta a lutar… As oportunidades estão aí, a questão é se somos capazes de aproveitá-las.
Chomsky termina com um sorriso. Deixa vibrando no ar sua voz grave e se despede com extrema cortesia. Em seguida, sai do escritório e desce as escadas da faculdade. Fora, esperam-lhe Tucson e a luz seca do deserto de Sonora.
O general Mourão passou à reserva na quarta, 28. Pregador de golpe militar, disse na despedida que o torturador Ulstra foi "um herói".
Disse, depois, que o general-interventor Braga Netto é "um cachorro acuado". E que a intervenção militar no Rio é só "meia-sola". Mourão quer sola inteira e acuados no ataque.
Mourão diz que vai apoiar Bolsonaro, o segundo colocado nas pesquisas. O primeiro é Lula, com o dobro da preferência por Bolsonaro.
À revista Piauí on-line o general Mourão anunciou: vai articular candidaturas de militares. Para o Congresso, assembleias e Poder Executivo.
Bolsonaro já defendeu: pau-de-arara em CPI, tortura, golpe, fechar o congresso, "guerra civil" e "matar uns 30 mil que a ditadura não matou".... "A começar pelo FHC".
Boulos, do Movimento Dos Trabalhadores Sem-Teto, é pré-candidato a Presidência, pelo PSOL. Ciro Gomes e Haddad têm conversado. Sobre vice e versa.
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O general Mourão passou à reserva na quarta, 28. Pregador de golpe militar, disse na despedida que o torturador Ulstra foi "um herói".
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Disse, depois, que o general-interventor Braga Netto é "um cachorro acuado". E que a intervenção militar no Rio é só "meia-sola". Mourão quer sola inteira e acuados no ataque.
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Mourão diz que vai apoiar Bolsonaro, o segundo colocado nas pesquisas. O primeiro é Lula, com o dobro da preferência por Bolsonaro.
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À revista Piauí on-line o general Mourão anunciou: vai articular candidaturas de militares. Para o Congresso, assembleias e Poder Executivo.
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Bolsonaro já defendeu: pau-de-arara em CPI, tortura, golpe, fechar o congresso, "guerra civil" e "matar uns 30 mil que a ditadura não matou".... "A começar pelo FHC".
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Na eleição legislativa de 1928, na Alemanha, o Partido Nazista teve 2,6% dos votos. Crise de 29 e em 30 os nazistas já eram a segunda bancada.
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Em 32, o Partido Nazista beirou à maioria. Em 33 os partidos de oposição foram eliminados do parlamento. E Hitler se tornou Chanceler. O demais a História conta.
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O Brasil assiste o que se assiste no Rio apenas assistindo. Se faz-de-conta que tudo se resolvera por si mesmo. Que basta trazer generais de volta.
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Temer já admitiu intervenções militares em outros estados.
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E seu governo cancelou visita ao Brasil de Juan Pablo Bohoslavsky. Especialista Independente da ONU para Direitos Humanos, Finanças e Dívida Externa.
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Juan Pablo viria avaliar impactos dos cortes de verbas na Saúde, Educação, Trabalho...
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Se vende o faz-de-conta que tudo isso é natural, produto do nada ou do caos. Que é assim mesmo, a única saída possível.
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Tudo às claras. Tudo escancarado. Inclusive o que avança. E o faz-de-conta de que nada disso é e significa tudo que isso é.
Texto do Canal: O acadêmico e sociólogo Jessé Souza, autor do clássico "A Elite do atraso”, constata que "O golpe está começando a se tornar um consenso, inclusive em todas as classes. Apesar da imprensa, o que é um milagre", disse ele, numa entrevista a Leonardo Attuch e Paulo Moreira Leite, do blog Brasil247. O movimento em prol da estratificação do conceito de golpe partiu do professor da UnB, Luis Felipe Miguel e já alcança pelo menos 13 universidades federais, inclusive a de Maringá, terra do juiz Sérgio Moro.
Eis um texto de grande lucidez do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. Ele se concentra nas favelas e nas populações pobres, como se apenas lá estivesse o problema da violência e da droga. Os chefes estão em outro lugar, na política, no parlamento e até nos estratos do judiciário. Estes não são investigados, pois de lá se articulam os negócios da droga e junto a ela da violência. Esse chamado à lucidez é importante para não penalizar aqueles que já são penalizados e não impôr a eles mais sofrimento do que aquele que já sofrem. - Leonardo Boff
Nota do CONIC sobre a intervenção federal de natureza militar no Rio de Janeiro
“Ai dos que decretam leis injustas,
dos que escrevem leis de opressão,
para negarem justiça aos pobres,
para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo…”
(Isaías 10:1-2a)
Estamos acompanhando com atenção os desdobramentos da intervenção federal de natureza militar decretada no Rio de Janeiro, no dia 16 de fevereiro de 2018.
Compreendemos que é tarefa do Estado brasileiro e seus dirigentes preocuparem-se com políticas públicas voltadas para a redução da violência, que apresenta números alarmantes no país.
O combate à corrupção na polícia e o esforço para superá-la é outra intencionalidade legítima do Estado brasileiro.
No entanto, o que nos preocupa e provoca interrogações é a forma não planejada e não dialogada com que esta intervenção foi decretada.
A Nota Técnica do Ministério Público Federal emitida em 20/02/2018 destaca que a intervenção é um mecanismo do federalismo e tem amparo na Constituição Federal. De igual modo, ressalta que uma intervenção federal precisa ser sujeitada, desde a sua elaboração até a sua execução, ao controle político, social e judicial. Não é o que se observa no Decreto 9.288/2018. Soma-se a isso, o fato de que as medidas e a maneira como a intervenção irá ocorrer são ambíguas e carecem de maior detalhamento. A Nota Técnica especifica que a intervenção federal no poder executivo estadual é, por definição constitucional, de caráter civil. Não cabe, portanto, instituir via decreto uma intervenção militar.
Ressalvadas as questões de ordem jurídica, o que muito nos preocupa é o fato de que a intervenção militar está voltada para os morros e periferias do Rio de Janeiro, dando-se a entender que o crime organizado, pessoas em conflito com a lei e o tráfico de drogas são realidades presentes apenas junto à população de baixa renda. A pobreza não é crime e também não induz ao crime. O crime organizado é resultado de teias que possuem variáveis amplas e complexas. Os donos do tráfico não moram nas favelas. Deste modo, construir uma estratégia de enfrentamento à violência e ao tráfico de drogas ou de armas tendo como base o recorte geográfico das comunidades pobres, nos parece uma dissimulação. Tal artifício pode criar a impressão de uma segurança aparente e temporária, mas não resolve a questão da violência, do crime organizado, do tráfico, nem da corrupção policial. A intervenção que resolve a questão da violência em comunidades pobres é a social, uma vez que a pobreza é resultado da ineficiência de políticas de redução da miséria, da ausência de educação e trabalho, da falta de investimento na urbanização das favelas e comunidade periféricas.
O marco geográfico da intervenção federal de caráter militar no Rio de Janeiro reflete o racismo institucional dos órgãos de segurança. A população negra e pobre é a que mais tem sido alvo da ação violenta da polícia. Resultado do racismo nunca superado. A intervenção militar tem abordado preferencialmente pessoas negras, como se uma pessoa, pelo fato de ser negra, automaticamente esteja envolvida no mundo do crime.
Sabemos por experiências históricas que ações autoritárias, não dialogadas, não conduzem à resolução da realidade de violência. Um país economicamente desigual, com baixos níveis de educação, com dificuldade de acesso à saúde, entre outras questões, necessita de transformações estruturais e não da criminalização da pobreza.
Há tempos a sociedade civil cobra do Estado um Plano Nacional de Segurança Pública que considere, entre outras questões, a desmilitarização da polícia, melhor capacitação dos profissionais da segurança pública, condições mais adequadas de trabalho, redução das desigualdades, respeito e cumprimento dos direitos humanos, política de desencarceramento, desarmamento da população civil, entre outras questões. Lamentamos que este Plano é ignorado e que a sociedade civil não tem sido chamada para dialogar sobre a violência e suas resoluções.
Ao contrário, as propostas em curso seguem outro itinerário. Um exemplo são as mudanças nas regras de controle de porte de armas nas residências, local de trabalho, caso a pessoa portadora da arma seja dona do estabelecimento ou em propriedades rurais. Essas alterações são contraditórias com as ações que têm como objetivo a redução da violência, como é o caso do Estatuto do Desarmamento, defendido pela sociedade civil.
Cabe-nos destacar a dúvida em relação ao risco de outros estados sofrerem a intervenção militar, considerando que até o momento a população brasileira não foi devidamente informada das intencionalidades reais deste Plano. Não menos importantes são os altos custos de uma operação desta natureza, em um período em que se tem cortado recursos para a educação e a saúde, além de outras políticas públicas relevantes para se garantir um mínimo de dignidade à população de baixa renda.
Neste tempo de quaresma é difícil ignorar a imagem que melhor caracteriza esta intervenção: militares armados revistando crianças pobres e negras na porta das escolas.
O que esperar do futuro?
Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC
Apesar de toda a alegria do carnaval passado em quase todas as cidades de nosso pais, há um manto de tristeza e desamparo que se pode ler nos rostos da maioria que encontramos nas ruas das grandes cidades como o Rio e São Paulo entre outras.
É que politicamente o golpe parlamentar-jurídico-mediático (e hoje sabemos apoiado pelos órgãos de segurança dos USA) nos fechou o horizonte. Ninguém pode nos dizer para onde vamos. O que aponta de forma inegável é o aumento da violência com um número de vítimas que se igualam e até superam as regiões de guerra. E ainda sofremos uma intervenção militar no Rio de Janeiro.
Se bem observarmos, vivemos dentro de uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas, agora o são mais ainda pelos cortes dos programas sociais que o atual governo de Estado de exceção impôs a milhares de famílias.
Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. E não se diga que foram as políticas dos governos do PT. Essas nos tiraram do mapa. A aplicação rigorosa do neoliberalismo mais radical pela nova classe dirigente instalada no Estado, está produzindo fome e miséria. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram submetidas.
As discussões dos vários organismos, responsáveis pela segurança, nunca vão à raiz da questão. O real problema que não querem abordar reside na nefasta desigualdade social, vale dizer, na injustiça social, histórica e estrutural sobre a qual está construída a nossa sociedade. A desigualdade social cresce quanto mais se concentra a renda e quanto mais avança o agronegócio sobre terras indígenas e dos povos da floresta e quanto mais se fazem cortes na educação, na saúde e na segurança.
Ou se faz justiça social nesse pais, que implica reformas: a agrária, a tributária, a política e a do sistema de segurança ou nunca superaremos a violência. Ela tenderá a crescer em todo o país.
Se um dia, é o que tememos, a marginália das grandes periferias abandonadas se rebelarem, por causa da fome e da miséria e decidirem assaltar supermercados e invadir os centros urbanos, poderá produzir um “bogotaço” brasileiro como ocorreu nos meados do século passado em Bogotá, destruindo, por semanas a fio, quase tudo que se via pela frente.
Estimo que as elites do atraso, apoiadas por uma mídia conservadora e golpista por uma justiça fraca, para não dizer cúmplice e pelo aparato policial do Estado, reocupado por elas, poderão usar de grande violência, sem resolver mas agravando a situação. Ou haverá uma mudança radical que dê outro rumo ao nosso país.
Nesse quadro, como ainda alimentar a esperança de que o Brasil tem jeito e que podemos criar uma sociedade menos malvada,no dizer Paulo Freire?
Bem disse o bispo profético, o ancião Dom Pedro Casaldáliga lá dos fundos do Araguaia matogrossense: portadores de esperança são aqueles que caminham e se empenham para superar situaçãoes de barbárie. Estas mudanças nunca virão de cima, nem do atual stablishment, virão de baixo, dos movimentos sociais organizados e com parcelas de partidos comprometidos com o bem-estar do povo.
O Papa Francisco ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia, cunhou três expressões resumidas nos três T: terra para as pessoas produzirem, teto para se abrigarem e trabalho para ganharem sua vida.
Lançou um desafio: não esperem nada de cima pois virá sempre mais do mesmo; sejam vocês mesmos os profetas do novo, organizem a produção soliudária, especialmente a orgânica, reinventem a democracia. E sigam estes três pontos fundmentais: a economia para a vida e não para o mercado; a justiça social sem a qual não haverá paz; e o cuidado com a Casa Comum sem a qual nenhum projeto terá sentido.
A esperança nasce deste compromisso de transformação. A esperança aqui deve ser pensada na linha do que nos ensinou o grande filósofo alemão Ernst Bloch que formulou “o princípio esperança”. Quer dizer, a esperança não uma virtude entre outras tantas. Ela é muito mais: é o motor de todas elas, é a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaidado; é a coragem de sonhar um outro mundo possível e necessário; é a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que nunca nos deixam parados nas conquistas alcançadas ou quando derrotados, nos fazem levantar para retomarmos a caminhada. A esperança se mostra no fazimento, no compromisso de transformação, na ousadia de superar obstáculos e enfrentar os grupos de opressores, a maioria descendentes da Casa Grande.Essa esperança não pode morrer nunca.
Leonardo Boff é teólogo, filosofo e escritor e escreu:Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência? a sair pela Vozes em março.
O que Temer foi fazer na reunião do Conselho Militar de Defesa em 22 de fevereiro? Presidentes civis não vão lá. Foto: Marcos Corrêa/PR
Nove evidências de que a democracia foi para o ralo no Brasil e que há um novo regime: 1) houve um golpe de Estado; 2) o Poder Judiciário sublevou-se contra a Constituição; 3) os militares deixaram os quartéis e coagem a sociedade; 4) voltam os “militares linha dura”; 5) as liberdades e garantias estão caindo por terra; 6) a censura é cada vez mais agressiva; 7) acontecem as primeiras prisões políticas; 8) há um conluio dos golpistas com o crime organizado; e 9) não haverá eleições livres este ano.
Por Mauro Lopes
A democracia no Brasil entrou em colapso e estamos nos primeiros momentos de um novo regime de tipo ditatorial.
Há resistências quanto a esta assertiva.
Na direita, a rejeição é óbvia: são as forças políticas que estão demolindo a democracia e jamais admitirão isso. Como em 1964, sufocam a democracia dizendo defendê-la. Basta ver a reação dos jornais das elites em 1 de abril de 1964: “Vitorioso o movimento democrático” (manchete de OEstado de S.Paulo) e “Ressurge a democracia” (editorial de O Globo) . Agora, não é diferente, como temos assistido à farta.
No entanto, mesmo entre as forças de esquerda, há desacordo. Um sintoma do que parece ser uma miopia que acometeu amplos segmentos da esquerda foi a postura diante da intervenção federal/militar no Rio: em vez da denúncia de seu caráter autoritário, líderes e analistas políticos de esquerda dedicaram-se a especular sobre as decorrências políticas e sobretudo eleitorais do ato, acolhendo a tese de que a intervenção estaria ainda nos parâmetros de “normalidade institucional”. Da mesma forma, estes mesmos analistas anunciaram o “constrangimento” dos militares em suas novas funções, a que teriam sido praticamente “arrastados” quando o que se vê é o contrário: os generais estão à vontade e cada dia mais explicitam seu prazer pelo exercício de um poder que consideraram roubado com a redemocratização do país nos anos 1980.
O fato é que temos escorregado ladeira abaixo desde a noite da reeleição de Dilma Roussef, quando o candidato derrotado anunciou que o resultado não seria respeitado e iniciou-se a trama do golpe abertamente. Escorregamos de início lentamente, mas a velocidade aumentou de maneira alucinante nas últimas semanas. Não vivemos uma ditadura militar sanguinária como a que testemunhamos no país por longos anos desde 1964 e em quase toda a América Latina entre mais ou menos contemporaneamente. Mas isso que está aí não é mais democracia, e continua a decair.
Leia a seguir nove evidências de que a democracia brasileira não merece mais este nome. É preciso tirar as decorrências desta constatação, porque ela traz graves implicações à luta política no país –mas este não é o objetivo deste artigo.
1. Houve um golpe de Estado contra uma presidenta eleita – a falta de tropas na rua, como já ficou patente, não serve para descaracterizar o que aconteceu em 2015/16: um golpe de Estado que articulou a elite dos poderes Legislativo, Judiciário e Executivo para arrancar do poder uma presidenta eleita pelo povo. A fúria da direita e de suas mídias em relação ao uso da palavra “golpe” é a evidência cabal de fundo psicanalítico mesmo para eles tratou-se de um golpe de estado -e, por isso, é crucial riscar a palavra do mapa. O último episódio foi a tentativa autoritária e ridícula do ministro da Educação, Mendonça Filho (o Mendoncinha) de atropelar a autonomia universitária e proibir um curso da UNB sob o título O Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil, mobilizando todo o aparato de Estado à sua disposição contra um simples professor, o cientista social Luis Felipe Miguel. Durante o regime do golpe de 1964 foi assim: ai de quem ousasse chamar a ditadura de ditadura.
2. O Poder Judiciário sublevou-se contra a Constituição e tornou-se algoz da Justiça – o Poder Judiciário é por excelência aquele dedicado à manutenção do status quo vigente nas sociedades –por isso, é tendencialmente conservador. O que cumpria ao Judiciário conservarno Brasil? O marco legal fundado no Brasil com a Constituinte de 1988. No entanto, quem deveria ser o fiador deste marco legal, em especial o Supremo Tribunal Federal, rasgou-o. O Judiciário tornou-se aríete do golpismo, estabeleceu nos últimos anos uma dinâmica de perseguição aos políticos de esquerda e proteção aos de direita (gente da convivência, intimidade e identidade com a elite do Judiciário) e um encarcerador em massa dos pobres, alçando o país à triste condição de 3ª maior população carcerária do planeta.
3. Os militares deixaram os quartéis e agora coagem o país –decretou-se –com apoio do mesmo Congresso que deu o golpe em Dilma- uma intervenção federal-militar no Rio de Janeiro. Os militares, que saíam às ruas de maneira esporádica e pontual, sem qualquer efeito positivo na segurança pública e, diga-se, ainda como forças auxiliares do poder civil, agora assumem funções de governo, em comum acordo com os golpistas encastelados no Executivo, Legislativo e Judiciário. Deixam a subalternidade para serem os protagonistas. Generais assumiram de uma penada só os cargos de general-interventor no Rio, secretário de Segurança no Estado e ministro da Defesa –um rompimento com uma das regras de ouro do regime democrático pós-1988, no qual só civis comandavam a Pasta. Os militares vieram para ficar: i) general interventor Braga Neto anunciou que o Rio é só o começo, um “laboratório para o Brasil”; ii) o comandante do Exército, general Villas Bôas, anunciou que os militares querem mãos livres para fazer o que quiserem e exigiu do governo Temer “garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade”; iii) em outubro passado, o mesmo Villas Bôas, em aliança com o general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI) obtiveram do Senado a aprovação (com votos contrários apenas do PT e Rede) de projeto de lei imediatamente sancionado por Jungmann e Temer segundo o qual os militares os militares que cometerem crimes contra civis passaram a ser julgados pelos tribunais militares, como no tempo da ditadura pós-1964; iv) finalmente, nesta quarta (28), o comandante do Exército defendeu que os militares tenham autorização para matar pessoas armadas nas ruas do Rio de Janeiro –quem definirá se os mortos de fato estavam armados ou havia apenas suspeita de que estivessem? É uma autorização para execuções sumárias, praticadas nas periferias de São Paulo pela PM e, ao longo da história, pelos “esquadrões da morte” e “justiceiros”.
O general ministro do Exército é tido como um “moderado”, zeloso cumpridor da Constituição. Mas suas atitudes e declarações recentes, como se vê, operam em sentido contrário ou indicam que ele busca de composição com os setores radicais dos militares na tentativa de manter a unidade dentro das Forças Armadas. No entanto, suas declarações passadas já deveriam ter acendido o sinal de alerta entre os democratas. Em março de 2016, quando Dilma era a presidenta, Villas Bôas insinuava a correspondentes estrangeiros a possibilidade de uma intervenção militar; em setembro último, numa entrevista à Globo, ele praticamente repetiu as palavras do general Antonio Hamilton Mourão, que por duas vezes no segundo semestre de 2017 defendeu publicamente um golpe militar. Na entrevista, Villas Bôas informou que Mourão não seria punido e que, “na iminência de um caos” a Constituição daria às Forças Armadas um “mandato” para acabar com a democracia –o que é uma assertiva que não encontra qualquer respaldo no texto constitucional. De mais a mais, é sempre conveniente relativizar as juras de amor à democracia dos militares brasileiros. É bom lembrar que o então general Humberto de Alencar Castelo Branco, nomeado por João Goulart como chefe do Estado Maior do Exército, garantiu taxativamente em fevereiro de 1964 que as Forças Armadas não golpeariam a democracia –ele foi o principal líder militar do golpe do mês seguinte.
4. Voltam os “militares linha dura” – durante o regime militar pós-1964, como os comandantes militares concentravam o poder no país, a imprensa e os estudiosos passaram a estudar as diversas facções dentro das Forças Armadas. Foi quando surgiu a expressão “militares linha dura” –ela servia para qualificar coronéis e generais que defendiam a repressão mais feroz contra a oposição e medidas de fechamento político extremo. Ícones da “linha dura” foram os generais: i) Milton Tavares de Souza que, na condição de chefe do Centro de Informações do Exército (CIE), foi o responsável pelos planos de eliminação física dos que se opunham ao regime –a partir de 1969 chefiou o Doi-CODI; e Silvio Frota, ministro do Exército que tentou um golpe dentro do golpe, em outubro de 1977. O termo “militar linha dura” foi abandonado depois da redemocratização do país e, especialmente, depois da Constituição de 1988, quando os militares recolheram-se aos quartéis.
Agora, o termo voltou. E o líder da linha dura é ninguém menos que o general “linha dura” Etchegoyen que, a partir do GSI, tornou-se o homem forte do desmantelado governo Temer e, desde o golpe, articula abertamente a retomada do poder pelos militares. O general Silva e Luna foi apresentado ao país como ministro “interino” da Defesa, mas seu nome é defendido agressivamente por Etchegoyen desde 2016 –veja aqui detalhes sobre jantar com essa agenda, em Brasília, em abril daquele ano. O general Etchegoyen é de uma estirpede militares golpistas e vinculados ao desrespeito aos direitos humanos desde o início do século XX. Seu avô, Alcides Etchegoyen, nos anos 1920 participou de uma tentativa de golpe para impedir a posse do presidente eleito Washington Luis; depois, em 1954, assinou manifesto pela derrubada de Getúlio Vargas. Seus dois filhos seguiram o mesmo caminho: Leo, pai do chefe do GSI, e Cyro, seu tio. O primeiro participou ativamente do golpe de 1964 e assessorou o presidente do período mais sanguinário da ditadura, do general Médici (1969/1974); o segundo foi auxiliar direto do general Milton Tavares. Ambos envolveram-se em violações graves aos direitos humanos e chefiaram a repressão às greves no ABC, no fim dos anos 1970. Em 2014, como general da ativa e integrante do Alto Comando do Exército, Etchegoyen assinou uma nota pública atacando a Comissão da Verdade –sem que tenha sofrido qualquer punição. Ao contrário, depois do golpe de 2015/16, foi premiado com o GSI e agora dá as cartar no governo Temer. Voltamos a ter “linha dura”, e ela quer assumir o controle integral do Exército.
O general Villas Bôas está gravemente doente, vítima de esclerose lateral amiotrófica, uma doença neurológica degenerativa. Já não consegue mais andar e apresenta problemas respiratórios que estão se agravando. Desde que apareceram os sinais mais evidentes da doença, no início de 2017, há pressão da “linha dura” pela sua substituição. Ela intensificou-se ao longo do ano, com a adesão de setores da mídia conservadores. O general passa à reserva no final de março, e os líderes da direita mais radical no Exército esfregam as mãos.
A cerimônia em que o general golpista Mourão passou à reserva, nesta quarta (28), tornou-se uma celebração festiva da “linha dura” militar. Mourão homenageou em seu discurso o coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, que chefiou o Doi-CODI entre 1970 e 1974. Qualificou o “dr. Tibiriçá”, como Ustra era conhecido pelos presos torturados, de “herói” –o coronel morreu em 2015, impune.
5. As liberdades e garantias estão caindo por terra – é fato que a democracia no país, mesmo depois da Constituição de 1988, nunca se espraiou pelas periferias nem subiu nos morros, nas favelas, alagados e cortiços. Mas o que se viu no Rio de Janeiro depois da intervenção militar foi inédito: postos de controle ao estilo dos nazistas à entrada dos guetos na Alemanha e em países ocupados pelo exército de Hitler, comparados pela ONG Justiça Global às práticas do regime do apartheid na África do Sul; e mandados de busca e apreensão coletivos, a serem utilizados nas favelas e periferias cariocas da Baixada Fluminense. Eles são inconstitucionais, segundo nota de quatro procuradores federais: “Mandados em branco, conferindo salvo conduto para prender, apreender e ingressar em domicílios, atentam contra inúmeras garantias individuais, tais como a proibição de violação da intimidade, do domicílio”.
Os principais líderes do governo Temer, a começar por ele próprio, têm estimulado a violência e incitado os militares. “Se houver necessidade, [o militar] parte para o confronto”, afirmou o próprio Temer. O ministro da Justiça, Torquato Jardim, foi acintoso, sugerindo a eliminação de adolescentes: “Se está lá com PM, Polícia Civil e Forças Armadas, se passar um guri de 15 anos de idade, você vê a foto dele, já matou quatro, entrou e saiu do centro de recuperação, uma dúzia de vezes, e está ali com um fuzil exclusivo das Forças Armadas, você vai fazer o quê? Prende. O guri vai lá e sai, na quarta ou quinta vez que você vê o fulano, vai fazer o quê? Você tem uma reação humana aí que deve ser muito bem trabalhada psicologicamente, emocionalmente, no PM ou no soldado. Você está no posto, mirando a distância, na alça da mira aquele guri que já saiu quatro, cinco vezes, está com a arma e já matou uns quatro. E agora? Tem que esperar ele pegar a arma para prender em flagrante ou elimino a distância? Ele é um cidadão sob suspeita porque não está praticando o ato naquele momento ou é um combatente inimigo?”
O clima de cerceamento às liberdades chegou a ponto de um cientista como o professor Elisaldo Carlini, de 88 anos, uma sumidade internacional no estudo do princípio ativo da maconha, foi convocado a depor há pouco mais de uma semana numa delegacia de São Paulo por “apologia às drogas”. Um ano atrás, havia sido a vez de Guilherme Boulos, detido por PMs durante uma reintegração de posse. A arbitrariedade concede cada vez mais poder de vida e morte a esferas cada vez mais inferiores do aparelho de Estado. Foi o vaticínio de Pedro Aleixo, vice-presidente do general Costa e Silva, ao ser o único a se insurgir e recusar-se a assinar o AI-5 na reunião do Conselho de Segurança Nacional que editou o Ato, em 13 de dezembro de 1968: “Presidente, o problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina” –disse Aleixo. No ano seguinte, com o afastamento de Costa e Silva por conta de uma trombose, Aleixo foi impedido pelos militares de assumir a Presidência e caiu no ostracismo.
6. A censura é cada vez mais agressiva – A censura patronal, existente desde sempre, está num dos momentos-auge da história da imprensa nacional. Os jornalistas que não concordam em escrever nos termos dos donos das mídias de massa do país, todos eles articuladores de primeira hora do golpe, demitem-se ou são afastados das redações de jornais, revistas, rádios e TVs. Em especial nos veículos que atingem o grande público, há um veto indisfarçado à presença de intelectuais, acadêmicos, sindicalistas, estudiosos ou ativistas de esquerda. Um ou outro colunista crítico, em especial nos jornais, são mantidos para inglês ver –mas os jornais estão todos decadentes e com uma repercussão cada dia mais diminuta. Os militares já ensaiam um novo modelo de relacionamento, que insinua uma censura cada dia mais escancarada. Na primeira entrevista coletiva sobre a intervenção, os generais só aceitaram que os jornalistas fizessem perguntas por escrito, com censura prévia por assessores fardados. Apenas perguntas dos órgãos de imprensa mais caninamente fiéis ao golpe foram aceitas: aquelas formuladas pelos jornalistas dos veículos da Globo e de O Estado de S. Paulo. As perguntas dos correspondentes estrangeiros foram todas vetadas. O primeiro passo dos militares, portanto, foi decidir o que respondem; haverá um segundo, para decidirem o que eles e todos nós iremos ler? Outras expressões da agressividade da volta da censura, similar aos movimentos da direita nos anos 1960 são iniciativas como a “Escola sem partido”, com a intimidação de professores e professoras; a tentativa de veto ao curso na UNB; e proibições a exibições e atividades artísticas e culturais que afrontem “os bons costumes”.
7. As primeiras prisões políticas – As primeiras prisões políticas acontecem sem grande alarde e repercussão na imprensa. O caso mais evidente foi o de Rafael Braga, morador de rua do Rio de Janeiro, condenado a 11 anos de prisão por transportar dois frascos de Pinho Sol e água sanitária durante uma manifestação em 2013. O caso foi tão acintoso que despertou uma campanha internacional –ele ficou preso em condições desumanas e até numa solitária por quatro anos, até ter sua prisão transformada em domiciliar em dezembro de 2017.
Apesar de não haver até agora prisões políticas em massa, o caso de Braga não é isolado. Há uma crescente criminalização dos movimentos sociais desde o golpe e militantes do MST têm sido perseguidos e presos em diversos Estados do país (veja aqui casos em Goiás, Paranáe São Paulo).
Há ainda o caso dos 18 jovens detidos em São Paulo, em setembro de 2016, durante protestos contra o governo Temer (PMDB), que estão sendo processados numa ação kafkiana, na qual são acusados de transportar objetos como gaze e vinagre para ferir policiais e depredar o patrimônio público. O caso ficou ganhou notoriedade pela atuação ilegal de um então capitão do Exército, William Pina Botelho, no grupo de jovens. O Exército não apenas furtou-se a apurar a responsabilidade do militar e seus comandantes como promoveu-o a major –montou-se um cerco a ele de tal forma que o “major Balta” não compareceu no processo.
8. O conluio dos golpistas com o crime organizado – i) segundo Temer, a razão primeira da intervenção no Rio seria o combate ao “crime organizado”. Mas foi exatamente em São Paulo –território político de Temer- em que o crime organizado mais avançou por dentro da estrutura estatal.
Nos primórdios, o conluio entre o poder político em São Paulo e o crime organizado em São Paulo aconteceu pelas mãos do próprio Temer. Como secretário de Segurança entre 1984 3 1986 (governo Montoro) e 1992 e 1994 (governo Fleury) costurou uma aliança com os bicheiros, em especial Ivo Noal, garantindo uma gestão tranquila do jogo do bicho e a caixinha da polícia. Foram os primeiros ensaios, de tempos hoje visto como “inocentes”, do que aconteceria em 2006, o acordo entre Cláudio Lembo, que havia assumido o governo depois de Alckmin haver se lançado à Presidência, e o PCC, na esteira dos 251 ataques a prédios das polícias.
Foi um acordo com para a cogestão da segurança pública. O assunto é público nas periferias de São Paulo. Basta visitar as favelas ou as regiões mais periféricas para testemunhar que a PM não entra e que o PCC é quem de fato manda. Alexandre de Moraes, que Temer levou depois para Brasília como primeiro ministro da Justiça do golpe, foi um dos administradores desse acordo, quando foi secretário de Segurança de Alckmin. Ou seja, há um know how acumulado entre Temer e Moraes.
Mas ninguém fala em “intervenção” em São Paulo -porque em São Paulo, como o crime é de fato organizado, a violência não é tão espalhafatosa (nem ali está a sede da Globo).
Crime organizado define-se exatamente por ser… organizado. O que significa necessariamente relações íntimas com agentes públicos -é assim em todo o mundo.
O crime no Rio é muito menos “organizado” que em São Paulo, apesar das iniciativas de Moreira Franco –outro líder golpista- de acordos com o Comando Vermelho, que nunca prosperaram com a competência executiva de São Paulo.
Em São Paulo o governo Temer não mexe. Na verdade, nem no Rio se mexerá. Vão ficar no sobe e desce dos morros caceteando os pobres e o fim da linha do tráfico.
Para mexer pra valer com o crime organizado seria necessário ir para cima dos bancos, de parlamentares, de policiais, advogados, juízes…
Combater o crime organizado significaria revolver as entranhas do poder de Estado e do poder financeiro. Como o governo está nas mãos exatamente deles (de parte da elite do aparelho de Estado e dos banqueiros) e alguns de seus principais líderes são interlocutores de uma das facetas do crime organizado (PCC e Comando Vermelho), o resultado que se pode esperar é no máximo a costura de um acordo nacional com as duas organizações, com partilhas que envolvam as taxas e comissões de praxe. Este tipo de acordo, entre as quadrilhas que passaram a controlar o aparelho de Estado e o crime organizado só será possível num regime de corte autoritário, que mantenha uma cortina de silêncio sobre o assunto.
Dará certo? A única coisa certa é que a desgraça continuará a se abater sobre os mais pobres.
ii) Outro aspecto do conluio entre golpistas e o crime organizado guarda semelhança com o que se aconteceu com inúmeros militares durante a ditadura. Um caso atual é exemplar. O general Augusto Heleno, que se tornou “referência de competência” da TV Globo para dar aulas sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro e o combate ao crime organizado foi durante sete anos o braço direito de Carlos Arthur Nuzman.
O ex-presidente do COB foi preso em 2017 pela acusação dos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e enriquecimento ilícito. O notável general Heleno tornou-se executivo do COB em 2011, logo depois de ir para a reserva e só largou o osso em novembro de 2017, um mês depois da prisão de seu chefe, recebendo mensalmente a pequena fortuna de R$ 42.951,61.
Durante sete anos, diariamente ao lado de Nuzmam, o general não viu que estava imerso numa organização onde grassava a corrupção, a lavagem de dinheiro, a formação de quadrilha e o enriquecimento ilícito.
Esse mesmo general agora dá aulas sobre o combate ao crime organizado -não deixa de ser um especialista no assunto, não é?
O general Heleno defendeu o golpe militar de 1964 publicamente quando estava na ativa, assim como a candidatura de Bolsonaro, de quem é ardoroso defensor.
De junho de 2004 a setembro de 2005, foi o primeiro comandante militar da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH). Por conta disso, virou especialista. Dá aulas na Globosobre a intervenção e sugere a eliminação pura e simples dos “inimigos” nas favelas.
Bem, é óbvio, mas não custa informar: em suas entrevistas aos veículos da Globo, o general até hoje não foi perguntado sobre sua relação com Nuzman, como ele conviveu diariamente no COB durante sete anos e nada viu, e sobre sua defesa apaixonada do golpe militar de 1964.
A contratação de militares da reserva por grandes empresas, em geral envolvidas com atividades extravagantes, foi comum durante a ditadura, e deixou enormes sequelas nas Forças Armadas.
9. Não haverá eleições livres – para que haja democracia, não é suficiente haver eleições. É preciso que elas sejam livres. E o governo do golpe de 2015/16 não pretende que isso aconteça. Em ação conjunta com o Judiciário, o governo prepara-se para impedir Lula de concorrer –ninguém menos que um ex-presidente da República e candidato disparado na preferência dos eleitores, segundo todas as pesquisas.
Durante o regime militar houve eleições, mas a sua realização não conferia à ditadura status de democracia. A cada rodada eleitoral as regras eram mudadas para permitir a vitória dos candidatos protagonistas ou apoiadores do golpe. O caso mais famoso foi o do pacote de abril, editado em 13 de abril de 1977 no governo do general Ernesto Geisel. Os militares sabiam que iriam perder as eleições de 1978. Para evitar, fecharam o Congresso e editaram uma emenda constitucional e seis decretos-leis. Uma das medidas foi instituir os chamados senadores biônicos, escolhidos por um colégio eleitoral definido para garantir que 1/3 das cadeiras do Senado fossem para nomes da confiança do regime.
JK e Lula: a mesma história
Desta feita, há outro pacote de abril sendo embrulhado, por enquanto com uma única medida: tirar Lula da disputa. O roteiro não é inédito. É quase uma cópia do que foi feito contra outro ex-presidente de grande relevância para a história do país, Juscelino Kubistchek. Houve acusações de corrupção contra ele (o tema era exatamente um tríplex, só que em vez do Guarujá, no Ipanema, no Rio). JK era denunciado pelos políticos e mídias conservadoras como “rei da corrupção”, exatamente como Lula agora. À diferença de Lula, cuja sentença está nas mãos do Poder Judiciário controlado pelas forças golpistas, a condenação de JK foi de responsabilidade do Conselho de Segurança Nacional. Havia boatos insistentes de que o ex-presidente (JK) seria preso, como Lula. Ambos tiveram suas ligações telefônicas grampeadas ilegalmente. A declaração de Carlos Lacerda, um dos principais animadores do golpe de 1964, à época da cassação de JK, qualificando-a de “um ato de coragem política, de visão, embora preferisse derrotá-lo nas urnas” parece que como que transportada no tempo para a boca de Fernando Henrique Cardoso. O ex-“príncipe dos sociólogos”, que se tornou animador do golpe 2015/16 disse sobre a condenação de Lula que “teria sido melhor que Lula pudesse concorrer”, “mas tem a lei”.
Há uma espantosa profusão de fatos, atos, evidências, declarações, decisões, movimentos. Dela emerge uma conclusão inescapável: isso que está aí não é mais democracia.
Para quem ainda não entendeu, Braga Netto informou: “O Rio é um laboratório para o Brasil”. Braga Netto é o Interventor Militar no Rio. General, fardado.
Seu Chefe de gabinete, Mauro Sinott, é general. Fardado. O Secretário de Segurança, Fernandez Nunez é general. Fardado.
Entrevista coletiva de Braga Nunes. Com uma ordem para os jornalistas...
...Perguntas deveriam ser por escrito, antes. Com e-mail e telefone do jornalista. Isso é intimidação. Leva à censura e autocensura. Começa assim. Sabemos como termina.
Dom Phillips, no inglês Guardian, e William De Lucca, no Twitter, expuseram ordem e formulário do "Laboratório".
Ex-Chefe da Polícia Civil no Rio, Hélio Luz ensina:
-O problema do Rio não são os bandidos, são os mocinhos. Se ele recuperar o quadro de mocinhos, pode dar atenção real ao quadro de bandidos.
Hélio Luz define:
-Intervenção não pode se resumir a envio de capitão-do-mato à Senzala do Século 21.
Temer faz de conta presidir enquanto segue entregando o Poder para generais. E a Economia para o “mercadísmo”. Temer admitiu: pode ter Intervenção Militar em outros Estados.
E caiu Segóvia, o Diretor da Polícia Federal que Temer havia nomeado para fazer o serviço. Demitido pelo novo Ministro da Segurança, Raul Jungmann.
Quem manda em Jungmann é o General Etchegoyen. Que manda no Serviço de Inteligência da Presidência. E manda no Serviço de Inteligência do Brasil.
De linhagem secular no Exército, com ascendentes na história de ditaduras e sedições, Etchegoyen tem fome de Poder.
Débora Cademartori, do jornal Zero Hora, registrou frase de Etchegoyen. Ladeado por Carlos Marun, aquele, o general disse:
-Nenhum de nós se incomoda de ser fotografado passando na imigração dos EUA para comprar enxoval do neto ou dos filhos. Ou para levar filhos e netos à Disney...
General: o incômodo é ser fotografo e filmado diante de um fuzil. E não na Disney, mas nas sempre oprimidas comunidades pobres e miseráveis do Rio.
Muito mais do que incômodo é o Brasil, de novo, tornado laboratório de Intervenção, de tutela militar.
" (...) A mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade."
As mulheres na vida de Jesus e a discípula companheira Míriam de Magdala
Jesus é judeu e não cristão, mas rompeu com o anti-feminismo de sua tradição religiosa. Considerando-se seus gestos e palavras percebe-se que se mostrava sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino em contraposição aos valores do masculino cultural, centrado na submissão da mulher. Nele se encontram, com frescor originário, sensibilidade, capacidade de amar e perdoar, ternura para com as crianças, para com os pobres e compaixão para com os sofredores deste mundo, abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de Paizinho querido (Abba). Vive cercado de discípulos homens e mulheres. Desde o início de sua peregrinação de pregador, elas o seguiam (Lc 8,1-3; 23,49;24,6-10; cf.E.Schlüsser-Fiorenza,Discipulado de iguais, Vozes 1995).
Em razão da utopia que prega – o Reino de Deus – que é uma libertação de todo tipo de opressão, quebra vários tabus que pesavam sobre as mulheres. Mantem uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38). Contra o ethos do tempo, conversa publicamente e a sós com uma hereje samaritana, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10). Deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida pecadora (Lc 7,36-50). São várias as mulheres que foram beneficiadas com seu cuidado como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), igualmente a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26) e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas.
Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente, pobres como a que extraviou a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas mas com toda sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), tem seu sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.
Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus (a dimensão da anima), seu profundo sentido espiritual da vida, a ponto de ver sua ação providente em cada detalhe da vida como nos lírios do campo, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contato com as mulheres com a quais conviveu. Jesus aprendeu, não só ensinou. As mulheres com sua anima completaram o seu masculino, o animus.
Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade.
Um dado da pesquisa recente vem confirmar esta constatação. Dois textos, chamados evangelhos apócrifos, o Evangelho de Maria (edição da Vozes 1998) e o Evangelho de Felipe (Vozes 2006)) mostram uma relação extremamente afetiva de Jesus. Como homem ele viveu profundamente esta dimensão.
Ai se diz que ele entretinha uma relação especial com Miryam de Mágdala, chamada de “companheira”(koinónos). No evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres”(op.cit. p. 111) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como a sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 perguntas que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míriam de Mágdala (cf. Tradução e comentário de J.Y.Leloup, Vozes 2006, pp.25-46).
O Evangelho de Felipe diz ainda: “Eram três que acompanhavam sempre o Mestre, Maria sua mãe, e Miryam de Mágdala que é conhecida como sua companheira porque Miryam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa (koinónos: Evangelho de Felipe, Vozes 2006,p.71). Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência na boca. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o que? eu não devo amar a ela tanto quanto a vocês” (Evangelho de Felipe, op.cit. p. 89)?
Embora tais relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos, dizem reconhecidos exegetas (cf.A.Piñero,El otro Jesús: la vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba 1993 p.113) excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal de Jesus com Míriam de Mágdala, base para o sentido espiritual. Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do Homem, Jesus) e uma mulher?
Um dito antigo da teologia afirma ”tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes, a torna concreta e histórica. E seu lado profundamente humano.
Leonardo Boff escreveu O Rosto materno de Deus Vozes 2005.