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terça-feira, 23 de julho de 2019

Com o egoísmo das elites, para onde vamos?, por Dora Incontri



É preciso também que os oprimidos se mobilizem, se oponham, se organizem, atuem de maneira a incomodar os palácios, as mansões e os privilegiados.

Publicado por Espiritismo Progressista-GGN:


Com o egoísmo das elites, para onde vamos?, por Dora Incontri

Kardec aponta que o egoísmo e o orgulho são as maiores chagas humanas. Elas vão de fato na contramão da recomendação de Jesus de amar ao próximo como a si mesmo. Egoísmo é individualismo, falta de empatia, insensibilidade, falta de capacidade de se colocar no lugar do outro. O orgulho está relacionado ao narcisismo, à egolatria, ao desejo de se sobrepujar aos outros e competir, destruindo e arrasando, para brilhar sozinho.
Hoje, às vezes, usamos termos diferentes para traduzir a mesma coisa do que seria dito em tradições espirituais como a espírita, a cristã ou a budista.
Isso tudo me vem à mente, porque estamos mergulhados nesse caos social, de achatamento do poder econômico da maioria da população, de empobrecimento coletivo, do avanço dos quadros da fome em nosso país (apesar da negação patológica desse (des)governo), do desamparo para o qual caminham doentes, crianças, idosos e todos os que apresentam qualquer vulnerabilidade social… e há tanta gente que conheço, que simplesmente não vê, não se importa, não se preocupa com esse cenário trágico.
Começo então a observar que as pessoas que estão no topo da pirâmide estão enquistadas em sua zona de conforto, contentes com seus carros de luxo, com suas férias internacionais, com serviçais à sua volta (geralmente afrodescendentes), com os filhos em escolas caras. E simplesmente não têm olhos para a miséria, para a fome, para o desmonte do SUS (que era deficitário, mas sem ele, será um extermínio em massa), para o fim da escola pública (que era de má qualidade, mas sem ela, serão mais crianças na rua ou no trabalho escravo)…
Muitas dessas pessoas, conhecemos em nossas relações pessoais, são pessoas “legais”, são católicas, espíritas, evangélicas, judaicas ou ateias. Não são pessoas declaradamente do mal. Podem mesmo fazer uma obra de caridade, dar um agasalho, amparar um ou outro empregado, até engajar-se num trabalho voluntário.
Mas não têm sensibilidade diante da injustiça social, diante da desigualdade, da falta de oportunidade da maioria, da violência que o sistema impõe e que um Estado de bem-estar social amenizava, mas agora não terá mais limites, quando suspensos os benefícios que havia.
O que se passa na cabeça e no coração dessas pessoas, que foram as que elegeram esse (des)governo e que em sua maioria ainda o apoiam?
É justamente essa a chaga interna que Kardec aponta, que está nelas ainda profunda: o egoísmo. Egoísmo pessoal, egoísmo de família (para meus filhos, tudo, para os filhos dos outros, migalhas), egoísmo de classe (eu e pessoas do mesmo nível que eu merecem estar onde estão).
As justificativas para calar a voz da consciência são as mais variadas: a meritocracia, por exemplo. Os outros não se esforçam por isso estão lá, são desorganizados, desmiolados, não gostam de trabalhar. Justificativa fraca, cruel, porque os outros não receberam educação, não tiveram as mesmas oportunidades ou, então, mesmo com educação e oportunidade, são pessoas que não se submetem às leis do mercado, são criativas, livres ou trabalham para mudar o mundo e não apenas para se enriquecer. Para se enriquecer, tudo vale; mas há um contingente de pessoas que trocam enriquecimento por idealismo. Essas são também objeto de desprezo por parte dos chamados bem-sucedidos.
Outra justificativa – essa, infelizmente, pretensamente espírita: a lei do carma. Pobres, miseráveis, famintos são reencarnação de ricos, reis e rainhas, que usaram mal seu dinheiro e seu poder. Já de cara, numericamente, esse argumentozinho fere a lógica. Nunca houve no mundo um número tão grande de ricos e poderosos que pudessem hoje todos estar reencarnados como miseráveis, na África, na Índia ou no Brasil.
No próprio Livro dos Espíritos, de Kardec, está escrito que “numa sociedade organizada segundo as leis do Cristo, ninguém morrerá de fome”. Ou seja, como obviamente qualquer pessoa de bom senso e boa vontade concordará, a nossa organização social é injusta, desigual e desumana.
Para um marxista, um maoísta, um anarquista do início do século XX, a solução seria simplesmente promover uma revolução armada e eliminar essa elite insensível, redistribuir a renda e fundar uma sociedade socialista.
Isso foi tentado e apesar do rio de sangue derramado e de se terem eliminado aquelas elites específicas da Rússia ou da China, ali mesmo outras elites surgiram, privilegiadas, poderosas, insensíveis e escravocratas.
Então, o caminho da eliminação não leva a uma sociedade melhor. Kardec reconhecia que as revoluções são processos históricos necessários, mas isso não significa que chegamos lá onde queremos, na base do morticínio.
A questão é mesmo como tocar os seres humanos, para que tenham maior sensibilidade com a dor do outro, para que se compadeçam, para que se indignem com a injustiça, para que não suportem ver irmãos em humanidade sendo massacrados, morrendo à míngua, em desamparo? Como promover esse salto evolutivo humano?
Esperar apenas que isso se dê naturalmente não condiz com quem já tem essa consciência e sofre com o sofrimento de milhões de outros. É preciso apontar, educar, criticar, militar, conscientizar e, na medida do possível, fazer com que todos vejam e sintam e se identifiquem com a agonia dos que estão à míngua, com a vergonha das crianças famintas, com a tragédia do mundo em colapso, enquanto alguns poucos se locupletam em dinheiro especulado.
É preciso também que os oprimidos se mobilizem, se oponham, se organizem, atuem de maneira a incomodar os palácios, as mansões e os privilegiados.
Aqui mesmo no jornal GGN, faz uma semana, saiu uma matéria sobre a possibilidade de uma nova democracia, cujas características têm muito do anarquismo, com suas ideias de cooperativismo, associação livre e descentralização do poder. Precisamos todos nos mobilizar nesse sentido, porque estamos a caminho acelerado para um mundo arrasado, de miseráveis, com uma pequena elite endinheirada, brincando de fazer dinheiro na bolsa.

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quinta-feira, 1 de março de 2018

Leonardo Boff sobre Jesus e as mulheres, o papel de Maria Madalena e a importância da "minoria" oprimida




 " (...) A mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade."



As mulheres na vida de Jesus e a discípula companheira Míriam de Magdala



Jesus é judeu e não cristão, mas rompeu com o anti-feminismo de sua tradição religiosa. Considerando-se seus gestos e palavras percebe-se que se mostrava sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino em contraposição aos valores do masculino cultural, centrado na submissão da mulher. Nele se encontram, com frescor originário, sensibilidade, capacidade de amar e perdoar, ternura para com as crianças, para com os pobres e compaixão para com os sofredores deste mundo, abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de Paizinho querido (Abba). Vive cercado de discípulos homens e mulheres. Desde o início de sua peregrinação de pregador, elas o seguiam (Lc 8,1-3; 23,49;24,6-10; cf.E.Schlüsser-Fiorenza,Discipulado de iguais, Vozes 1995).
Em razão da utopia que prega – o Reino de Deus – que é uma libertação de todo tipo de opressão, quebra vários tabus que pesavam sobre as mulheres. Mantem uma profunda amizade com Marta e Maria (Lc 10,38). Contra o ethos do tempo, conversa publicamente e a sós com uma hereje samaritana, causando perplexidade aos discípulos (Jo 7,53-8,10). Deixa-se tocar e ungir os pés por uma conhecida pecadora (Lc 7,36-50). São várias as mulheres que foram beneficiadas com seu cuidado como a sogra de Pedro (Lc 4,38-39), a mãe do jovem de Naim, ressuscitado por Jesus (Lc 7,11-17), igualmente a filhinha morta de Jairo, oficial romano (Mt 9,l8-29), a mulher corcundinha (Lc 13,10-17), a pagã siro-fenícia, cuja filha, psiquicamente doente, foi libertada (Mc 7,26) e a mulher que sofria há doze anos de um fluxo de sangue (Mt 9,20-22). Todas elas foram curadas.
Em suas parábolas ocorrem muitas mulheres, especialmente, pobres como a que extraviou a moeda (Lc l15,8-10), a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo e era tudo o que tinha (Mc 12,41-44), a outra viúva, corajosa, que enfrentou o juiz (Lc 18,1-8). Nunca são apresentadas como discriminadas mas com toda sua dignidade, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio, pelos motivos mais fúteis e a defesa do laço indissolúvel do amor (Mc 10,1-10), tem seu sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.
Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus (a dimensão da anima), seu profundo sentido espiritual da vida, a ponto de ver sua ação providente em cada detalhe da vida como nos lírios do campo, então devemos também supor que ele aprofundou esta dimensão a partir de seu contato com as mulheres com a quais conviveu. Jesus aprendeu, não só ensinou. As mulheres com sua anima completaram o seu masculino, o animus.
Resumindo, a mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípulas e membros de um novo tipo de humanidade.
Um dado da pesquisa recente vem confirmar esta constatação. Dois textos, chamados evangelhos apócrifos, o Evangelho de Maria (edição da Vozes 1998) e o Evangelho de Felipe (Vozes 2006)) mostram uma relação extremamente afetiva de Jesus. Como homem ele viveu profundamente esta dimensão.
Ai se diz que ele entretinha uma relação especial com Miryam de Mágdala, chamada de “companheira”(koinónos). No evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres”(op.cit. p. 111) e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como a sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 perguntas que os discípulos colocam a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míriam de Mágdala (cf. Tradução e comentário de J.Y.Leloup, Vozes 2006, pp.25-46).
O Evangelho de Felipe diz ainda: “Eram três que acompanhavam sempre o Mestre, Maria sua mãe, e Miryam de Mágdala que é conhecida como sua companheira porque Miryam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa (koinónos: Evangelho de Felipe, Vozes 2006,p.71). Mais adiante particulariza afirmando: “O Senhor amava Maria mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência na boca. Os discípulos, ao verem que a amava, perguntavam-lhe: por que amas a ela mais que a todos nós? O Redentor lhes respondeu dizendo: o que? eu não devo amar a ela tanto quanto a vocês” (Evangelho de Felipe, op.cit. p. 89)?
Embora tais relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos, dizem reconhecidos exegetas (cf.A.Piñero,El otro Jesús: la vida de Jesús en los apócrifos, Cordoba 1993 p.113) excluir um fundo histórico verdadeiro, a saber, uma relação concreta e carnal de Jesus com Míriam de Mágdala, base para o sentido espiritual. Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem (o Filho do Homem, Jesus) e uma mulher?
Um dito antigo da teologia afirma ”tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes, a torna concreta e histórica. E seu lado profundamente humano.
Leonardo Boff escreveu O Rosto materno de Deus Vozes 2005.

domingo, 25 de dezembro de 2016

A História já demonstrou há séculos: quem luta pelos fracos, os pobres, os oprimidos, paga sempre um alto preço...