domingo, 4 de dezembro de 2016

The Intercept: Enquanto a Ponte para o Futuro desaba, instituições seguem brigando normalmete




Enquanto o país afunda na crise econômica, instituições travam conflitos sérios que revelam a fragilidade atual da golpeada democracia brasileira


Artigo de João Filho, publicado no The Intercept:

“DESCONTRAÍDO, TEMER FUMOU um charuto cubano oferecido por Eunicio. Ele ficou alguns momentos desfrutando seu charuto e conversando com Renan Calheiros (PMDB-AL) e Aécio Neves (PSDB-MG) em uma rodinha restrita.”
“Entre pratos de camarão ao molho branco, filé, salgadinhos, vinho e whisky, o clima era de descontração.”
“O presidente do Senado foi um dos primeiros a chegar. Segundo relatos, estava bem humorado e contou piadas envolvendo o ex-presidente durante a ditadura militar Emílio Garrastazu Médici.”
“Sarney estava bastante disposto, caminhando entre as rodas de conversa e trocando ideias. Por muitos foi chamado de ‘professor’”
Justamente no dia em que o mundo parou para chorar e homenagear as vítimas da tragédia da Chapecoense, parte do senado brasileiro participava de uma festinha de confraternização de fim de ano. Como podemos ver nareportagem de O Globo – que, junto de outros veículos de mídia, parece estar abandonando o governo ferido estrada – o clima era de muita descontração.
Depois de manobrar durante o dia para aprovar as “10 medidas contra a corrupção” alteradas pela Câmara, Renan estava muito bem humorado à noite. Aécio, o principal articulador da urgência manobrada pelo presidente do Senado, estava lá,  sorvendo a fumaça do charuto cubano. Alguns senadores da oposição também confraternizaram, registre-se.
Do outro lado, os promotores da Lava Jato, munidos de suas famosas convicções, resolveram entrar de sola no jogo político. Não que essa sanha seja novidade, mas é que agora botaram o time inteiro no ataque. Em um país com instituições sólidas, não deveria ser da alçada do Ministério Público propor alteração de leis e, muito menos, promover uma campanha messiânica por ela. Apesar de ser apresentado como iniciativa popular, opacote foi criado por meia dúzia de procuradores e levado às ruas para colher assinaturas de apoio. Com o país atolado na corrupção, quem ousaria não assinar um documento a favor de medidas anticorrupção apresentado por um moço de bem?
Não há consenso no meio jurídico em relação às medidas. Portanto, diferentemente do que querem fazer crer Dallagnol e seus companheiros, ser contra o pacote não te coloca automaticamente a favor dos corruptos. Até Janaína Paschoal, alçada à condição de grande expoente do moralismo brasileiro, é contra. O juiz Marcelo Semer, membro da Associação Juízes para a Democracia, considera o pacote “ruim, confuso e oportunista”. Em conversa por email, ele considerou as “10 medidas” um projeto de poder, porque aumenta o crescimento do estado penal e, consequentemente, as desigualdades:
“O projeto é em si artificial. Não se tratava de um projeto, mas de vários. Essa reunião de inúmeras propostas, bem mais do que dez, se deu por um motivo de marketing, inaceitável para o trato de uma questão tão séria como a alteração de leis que repercutem na vida de todos. A concepção das propostas, mascaradas com o “abaixo assinado” genérico (ninguém sabia efetivamente o conteúdo das propostas), era fundamentalmente um projeto de poder. Ampliação de competências do Ministério Público, amputação de atribuições do juiz e esmagamento da defesa.”
Num jogo de cena que jamais caberia para integrantes do MP, procuradores da Lava Jato ameaçaram abandonar os cargos após as modificações feitas pela Câmara. Mas, segundo Semer, o Frankstein criado pelos deputados não seria possível se não fosse a confusão do projeto inicial:
“Juntar num mesmo guarda-chuva propostas tão diversas, acabou permitindo os equívocos que se sucederam, ou seja, a inserção durante a comissão de outras matérias pelo Relator, e por deputados por emenda. Como o “projeto” era amplo, tudo cabia dentro dele, até mesmo a esdrúxula redação do crime de responsabilidade.”
De qualquer forma, os procuradores têm razão em se preocupar com a movimentação dos que pretendem “estancar a sangria” da Lava Jato. A famosa expressão que revela os motivos ocultos do impeachment, aliás, já está sendo usada por Dallagnol. As recentes ações do grupo político que tomou o poder confirmam a narrativa do golpe nos seus mais mínimos detalhes. Tirando a previsão de que Aécio seria o “primeiro a ser comido pela Lava Jato”, praticamente todas as outras falas do famoso áudio de Jucá & Machado estão se cumprindo. Cada frase do diálogo parece ser uma profecia
Diante da confusão instalada entre as instituições, o ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa tuitou:


E ele havia avisado mesmo. Logo após a votação do impeachment na Câmara – que ele chama de “impeachment Tabajara” -, disse: “Aquilo ali foi uma encenação para justificar a tomada do poder. (…) Meu temor é que se torne banal tirar um presidente do cargo. Basta que ele contrarie interesses de meia dúzia de parlamentares poderosos”
Em entrevista à Folha nesta semana, o ex-ministro afirmou que as investigações da Lava Jato correm risco e que a grave crise institucional atual é consequência do impeachment:
“No momento em que o Congresso entra em conluio com o vice para derrubar um presidente da República, com toda uma estrutura de poder que se une não para exercer controles constitucionais mas sim para reunir em suas mãos a totalidade do poder, nasce o que eu chamo de desequilíbrio estrutural. Essa desestabilização empoderou essa gente numa Presidência sem legitimidade unida a um Congresso com motivações espúrias. E esse grupo se sente legitimado a praticar as maiores barbáries institucionais contra o país”.
Nessa briga de foice entre Lava Jato, políticos e juízes parece que todo mundo está um pouquinho certo, mas também muito errado. O Brasil está completamente perdido. Ficou claro que, diferente do que vinha sendo propagado até pouco tempo pelo governo imprensa, as instituições seguem conflitando intensamente, movidas mais por objetivos corporativistas do que pelo fortalecimento da democracia. Enquanto a economia continua a afundar sem perspectivas de melhora, as instituições se engalfinham. Mas o grande problema do país eram as pedaladas fiscais, não é mesmo? Era só tirar a Dilma e construir a maravilhosa Ponte para o Futuro. Bem, os arquitetos do impeachment não estão mais conseguindo manter a ilusão de pé. A ponte está desabando, mas certamente haverá gente fumando charuto, escorada nos escombros.

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João Filhojoao.filho@​theintercept.com@jornalismowando

Urge mudar nossa visão sobre economia e política, por Roberto Bitencourt da Silva



GGN. - Levando em conta fenômenos econômicos e políticos da conjuntura e mirando o retrovisor do tempo, assim como algo que se possa chamar de futuro em nosso país, abaixo chamo a atenção para sérias limitações em nossas percepções de sociedade e Estado, derivadas da hegemonia do pensamento liberal.
Limitações com força de incidência na ação e no pensamento político, sobretudo das esquerdas e dos movimentos sociais. Somente esses atores políticos podem ser os mais consequentes para desempenhar o papel de inibir o golpismo entreguista em curso, proteger as garantias individuais e sociais da Constituição, perseguir mudanças sociais e políticas progressistas, como também defender a soberania nacional.
Mas, para isso, faz-se necessário escantear categorias de percepção, não raro, assimiladas da retórica das estruturas de poder mundial e eivadas de preocupações e sentidos que são incompatíveis com o nosso tempo ou com os desafios relacionados ao nosso perfil de inserção no mundo.


1. Está mais do que na hora de mudar o software mental e deixar de lado o efeito, o secundário e passageiro, priorizando o essencial. Em primeiro lugar, é descolonizar nossa cosmovisão sobre o Brasil e o mundo.
2. O liberalismo ensina todo dia que o mundo da concorrência empresarial é o ideal para garantir a livre escolha dos sujeitos e o bem-estar coletivo.
3. O problema é que esse mundo não existe. Há muitas décadas – e isso tem se intensificado nos últimos anos – a cena mundial é regida pelas corporações multinacionais. O mundo é dos monopólios e oligopólios privados.
4. A liberdade de escolha do sujeito consumidor é praticamente inexistente, pois condicionado dia a dia por intensa propaganda.
5. O sujeito pensa que é livre, mas é tratado como objeto gerador de lucros para as corporações. Em elevada medida, os seus próprios desejos são artificialmente criados.
6. As corporações multinacionais nada investem em países como o Brasil. No máximo antecipam recursos para criação de unidades fabris, que importam seus equipamentos, estabelecem os preços que bem entendem e transferem os seus lucros para fora, extraindo riquezas de onde se instalam. Ademais, pagam pouco ou nada em impostos.
7. Mais vale, com esforço nacional próprio, em vez de financiar megacorporações internacionais e a acumulação capitalista em outras praças, criar e manter as próprias indústrias, de modo a preservar as riquezas no país, incentivar o domínio tecnológico e a geração de empregos adensados.
8. Só o Estado pode fazer isso. As classes dominantes no Brasil são tipicamente vende pátria, parasitárias e rentistas: grandes fazendeiros, multinacionais na indústria, bancos e especuladores imobiliários e financeiros. Com esses setores no comando do país, o povo trabalhador não tem voz nem vez. E o país dotado de parco domínio técnico-cientifico.
9. O renitente e inconsequente antiestatismo econômico deve ser superado por amplas faixas das classes populares e médias e dos segmentos políticos à esquerda. No mundo do capitalismo realmente existente, para financiar o grande capital e a concentração de renda, o Estado é fortíssimo. Urge reorientá-lo para o bem-estar social e a soberania nacional.
10. O cenário mundial é altamente preocupante em função da lógica totalitária e imperialista dos EUA, guardião armado do grande capital internacional.
11. Nações como o Brasil, que integram a periferia capitalista, são concebidas como meras fornecedoras de matérias-primas, fontes de energia e alimentos, pelo centro imperial do mundo.
12. A síndrome de vira-latas do entreguismo aposta decisivamente nos pretensos “investimentos externos”, por interpretar o brasileiro como incapaz de engenho criativo e esforço próprio. Um racismo mal disfarçado atravessa a cantilena da louvação a tais “investimentos”, que nada investem, vivendo apenas de sangrias dos orçamentos públicos e de preços oligopolizados ao consumidor.
13. O golpe parlamentar-judicial-midiático em curso no país é reflexo de uma intensificação da espoliação mundial capitalista, que tem buscado senão o desmonte, o estrangulamento de Estados nacionais na periferia. Líbia, Síria, Venezuela, Irã, são alguns casos mais dramáticos.
14. No mundo em que vivemos, onde a assimetria e as relações opressivas entre centro e periferia são crescentes, falar em democracia e autoritarismo é quase perda de tempo, uma erudição abstrata, ahistórica e desencarnada, notadamente pautada pelos cânones do mainstream estadunidense.
15. Não existe A DEMOCRACIA, mas versões e experiências plurais, que dão maiores acentos a dimensões diferentes, nas esferas política, social/distributiva, econômica, direitos individuais.
16. As linhas que definem o mundo, infelizmente, estão além disso. São feias, sujas e cruéis.
17. O centro da reflexão e da ação política em nosso país deveria girar em torno do tema soberania nacional. Sem ela, o fiapo de democracia que possuímos morrerá de vez.
18. À esquerda, se fôssemos pensar em revolução das estruturas sociais, a questão da soberania nacional estaria forçosamente presente. Romper as cadeias da dependência e da subalternidade externa, que condicionam a vida nacional, é o eixo da revolução brasileira. Sem isso, as esquerdas devem esquecer qualquer conversa sobre revolução.
19. A hipótese revolucionária demandaria não apenas um trabalho pedagógico, organizacional e mobilizatório das esquerdas, das classes populares e frações da pequena burguesia. Iria requerer, senão uma participação ativa de importantes faixas das Forças Armadas, ao menos uma posição neutra ou passiva delas em relação a eventual mobilização popular transformadora. Reacionarismo de frações da cúpula à parte, se o tema é soberania nacional, em tese as Forças Armadas não podem ser concebidas como atores alheios e indiferentes.
20. Revolução imaginada a partir de guerrilhas, em um país da dimensão continental brasileira, a própria História já deu o seu parecer. Ademais, as novas tecnologias de destruição, vigilância e controle são notoriamente sofisticadas e abrangentes. Por isso, ativa ou passivamente, é inescapável fazer menção às Forças Armadas.
21. Obviamente, não há um pingo de possibilidade nesse sentido no horizonte.
22. Pelo contrário, há um refluxo significativo das pautas das esquerdas. Em boa medida devido ao precário trabalho político dos últimos anos junto a grossa parte da população, bem como em função da timidez programática e da acomodação de importantes parcelas das esquerdas à ordem política e econômica vigente.
23. No entanto, se os últimos pontos valeriam, como hipótese para uma revolução, vale mais ainda para o cenário atual de desmonte do país, de incremento da condição neocolonial.
24. Não há um direito coletivo, um bem ou patrimônio nacional que não esteja sob o risco de alienação, para satisfazer os interesses do capital internacional.
25. De instituições como os Poderes Legislativo e Executivo – amplamente controlados por oligarquias testas de ferro do grande capital nacional e estrangeiro –, do sistema político-eleitoral e do Judiciário, não há nada a esperar. Em regra, estão sabotando o Brasil; só têm jogado contra o Povo.
26. O passado brasileiro: os direitos trabalhistas, reivindicados por décadas pelos trabalhadores e pelas esquerdas, só foram conquistados com suporte do Exército, nos anos 1930. A criação da Petrobras idem. Muitos direitos sociais na Constituição de 1988 contaram com o silêncio militar e com a enorme mobilização e organização dos trabalhadores e das esquerdas, inclusive greves gerais (de verdade), no curso da década de 1980.
27. Ou a gente muda o software mental sobre política e economia ou não vai sobrar nada. Uma terra de indivíduos dispersos, atomizados, uma maioria sob a condição de zumbi superexplorada, para saciar a gula predatória das classes dominantes domésticas e externas.
28. As lutas pela defesa dos interesses nacionais e populares levarão tempo e não serão eleições que resolverão os graves problemas vigentes. Antes de qualquer coisa, os trabalhadores precisam se organizar e se mobilizar, acompanhar o engenho e a dedicação da juventude estudantil.
29. As esquerdas precisam ter ousadia programática, deixar de lado o contrabando liberal e entreguista em suas visões de país e desenvolver ações que permitam disputar a agenda pública, com projeto de Nação. Seriam ações relevantes e urgentes.
30. Quase escrevi que as esquerdas precisam desenvolver um projeto alternativo de Nação. Bobagem. Com a camarilha que se encontra no poder, as esquerdas precisam ser a alternativa à derrocada completa da Nação.
Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A “surra” que Sérgio Moro levou no Senado, mas que a mídia escondeu do País


moro_requiao

Do Blog do Esmael Morais:



I- Lindbergh marchou sobre Moro


lindbergh_moroO senador Lindbergh Farias (PT-RJ), líder da oposição, marchou nesta quinta (1º) sobre o juiz federal Sérgio Moro durante a audiência pública no Senado.


Depois de ser “jantado” pelo ministro do STF Gilmar Mendes, que vê concepção autoritária nas 10 medidas anticorrupção, foi a vez de Lindbergh apontar os abusos do coordenador da Lava Jato.
“O juiz costuma citar em seus pronunciamentos a justiça dos EUA, onde pretende morar por um ano a partir de 2017, mas não respondeu o que aconteceria por lá se um juiz de primeira instância do Texas gravasse e divulgasse para a imprensa uma conversa telefônica entre Bill Clinton e Barack Obama“, disse o senador.
Para o líder da oposição no Senado, não é sensato nem democrático considerar que uma tentativa de impedir um desequilíbrio na República, garantindo que todos sejam iguais perante a lei, é “uma tentativa de controlar as investigações”, como afirma Moro.


II - A “surra” que Sérgio Moro levou no Senado, mas que a mídia escondeu do País


O poeta e pintor Francisco Costa, do Rio, em crônica especial, relatou ontem (1º) de forma brilhante a “surra” que o juiz federal Sérgio Moro levou no Senado da República. Nesta sexta (2), porém, ele denuncia a manipulação da mídia: “vieram os noticiários noturnos, concedendo ao arremedo de juiz o dobro do tempo cedido aos outros participantes do debate, e o homérico esporro virou “discordaram”, realçando o comentário de Moro que “os deputados desfiguraram o relatório final do deputado Onyx Lorenzoni (por Renan Calheiros chamado de Lorenzeti, o chuveiro rsrsrs).


DE ALMA LAVADA
Terminou agorinha mesmo um interessante debate, no Senado, sobre a Lei Anticorrupção e de Abuso de Autoridade.
Na mesa, o Juiz Federal Silvio Rocha; Gilmar Mendes, Ministro do STF e Presidente do TSE; Renan Calheiros, presidente do Senado; Roberto Requião, Senador, relator do PL sobre o assunto e o Juiz Federal Sérgio Fernando Moro, do Paraná.
Silvio Rocha, progressista, muito preocupado com o abuso de autoridade nos bairros pobres.
Se eu não conhecesse o histórico de Gilmar Mendes, a sua biografia e os seus feitos golpistas, diria que é de esquerda, tal as posições externadas, muito pelas diferenças que tem com Moro.
Renan Calheiros, embora conservador, corrupto e oportunista, nesta questão em pauta, tem posição progressista, até por advocacia própria.
Roberto Requião, sem comentários, um corajoso e independente Senador.
E Moro… Coitado.
Espertamente, pela ordem, Renan deu a palavra, primeiro, ao Silvio, depois ao Gilmar, que sentaram o cacete em Moro, vermelho como camarão na sauna.
Passada a palavra ao Führer de Curitiba, o sujeito não tinha o que dizer, com todo o seu arrazoado desmontado pelos dois que o antecederam.
Seguiu-se Requião, que sentou a porrada no autoritarismo, no abuso de autoridade, chegando a dizer que era fascismo.
Abriu-se para os debates, para as perguntas, e pensando que Moro iria passear, como faz em Curitiba, o primeiro que estava inscrito era o seu amigo pessoal Álvaro Dias, sem condições de defendê-lo, limitando-se a pedir mo adiamento da votação do PL.
Caiado tentou balbuciar qualquer coisa antipetista, mas só conseguiu também pedir o adiamento da votação do PL.
O momento alto ficou por conta de Lindbergh Farias, que cobrou, um a um, os abusos de autoridade cometidos contra Lula, com dados: circunstâncias, horários, depoimentos de juristas (citou até Rui Barbosa), despachos pesados de instâncias superiores contra Moro, em outros processos, inclusive de Gilmar, o chamando de irresponsável e dono da justiça, culminando com a afirmação “o senhor cita muito os Estados Unidos. O senhor consegue imaginar um juiz de primeira instância, lá do Texas (fez cara de pouco caso, sacaneando Curitiba, no sentido de poder político) gravando uma conversa telefônica entre Bill Clinton e Obama? O senhor gravou conversas da dona Marisa com os filhos, com a nora, conversas íntimas, de família, e jogou na mídia. Isto não é abuso de autoridade, covardia? O senhor gravou telefonemas entre advogados e clientes, o que é inadmissível em qualquer país do mundo. O Presidente Lula vive da sua imagem internacional, que o senhor conspurcou e não provou nada. Como compensar isso, como indenizar isso?”… Com Moro cabisbaixo, mais vermelho que a camisa do Internacional (houve um momento em que pensei que ele fosse chorar).
Para lacrar, Renan devolveu a palavra a Gilmar, que contou um encontro seu com um amigo, um dos maiores juristas do mundo, português, que se mostrou surpreendido com a legislação brasileira, que permite o vazamento de telefonemas grampeados e depoimentos que ocorrem em segredo de justiça, com Gilmar respondendo a ele: “a legislação não permite isso. Isso é coisa de um juiz brasileiro.”
Devolvida a palavra a Moro, mais constrangido que virgem na noite de núpcias, peladinha, ele alegou que “tudo isso é uma questão de interpretação da lei, não se pode punir um juiz por questão de interpretação da lei”.
Seguiu-se o Senador Humberto Costa: “se está escrito que a prisão preventiva é de dez dias, o juiz pode até transformar esses dez dias em horas, mas somando-se todas as horas o resultado será dez dias, não é uma questão de interpretação mas de cumprimento puro e simples. Se a lei diz que a condução coercitiva só pode se dar quando um intimado não comparece diante do juiz, sem um motivo relevante, é a mesma coisa, questão de cumprimento, não de interpretação. Isso é abuso de autoridade”, e Moro com carinha de fundo de bacia, mais vermelho que absorvente usado.
Terminado o debate, Moro ficou isolado, de pé, sem saber o que fazer, desnorteado, até que Requião coraçãozão foi até ele, apertou-lhe a mão e o levou para fora do recinto.
Em quase meio século de magistério nunca dei um esporro tão bonito num aluno safado.
Estou com a alma lavada.
Francisco Costa
Rio, 01/12/2016.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

The Intercept: Michel Temer, o grande trollador



Os fatos comprovam: o ilegítimo está rindo da sua cara

Texto de J. P. Cuenca, para o The Intercept:

O sorriso forçado causado pela contração involuntária dos músculos faciais chama-se ríctus. Nada que não seja familiar, temos visto bastante essa expressão facial cretina. Ela pode aparecer em cadáveres, em doentes de tétano, nas vítimas do gás do riso criado pelo vilão Coringa e em presidentes ilegítimos. Esse riso postiço, que faz as extremidades da boca levantarem-se num arco perverso, é chamado desde a antiguidade de “sorriso sardônico”.
Vale ir à origem da expressão, criada por Homero no século VIII A.C. Ele contava a história de um povoado fenício na ilha da Sardenha cujos habitantes mais velhos, sem condições de se sustentar, eram assassinados com uma poção da planta Oenanthe crocata. (Ainda não era possível emplacaruma reforma da previdência como hoje planeja o governo.) Conhecida por “nabo do diabo”, a erva da Sardenha tem folha semelhante à salsa e é extremamente tóxica – sua natureza exata é uma uma descoberta científicarecente, de 2009. Os envenenados por ela apresentam o mesmo sorriso bizarro e irônico no rosto, daí a descrição do poeta grego.
A palavra “sardônico”, para a tristeza dos habitantes da bela ilha italiana, ficou assim associada a sarcasmo, zombaria e malícia. Ao longo da história da arte, a humanidade tentou representar o mesmo sorriso espasmódico em caricaturas grotescas (penso na fase negra de Goya ou em alguns detalhes infernais de Bosch) e, em todo o esplendor de sua ambiguidade, em obras como a “Mona Lisa” e a “Dama com arminho” de Leonardo.

O Brasil é a capital mundial da trollagem

Mas é cerca de 2.800 anos depois da invenção do termo que o riso sardônico ganha sua forma definitiva ao retratar um personagem onipresente: otrollador da internet. Criada pelo artista Carlos Ramirez em 2008, a imagem do trollface virou um hit instantâneo. A estética de MS Paint e seu traço grosseiro e infantil foram no nervo do zeitgeist da zoeira – quando cada um é um assediador moral em potencial projetando seus traços sociopatas via internet, milhões se sentiram representados pelo bonequinho sacana e seu sorriso de desprezo.
Para muitos o Brasil é a capital mundial da trollagem. Somos conhecidos por floodar a internetdestruir o clima de jogos multiplayer online e entupir a timeline do Mark Zukerberg de spam. Nossa indústria de memes é incomparável. Faz certo sentido, pois, que tal movimento seja coroado com a ascensão de um verdadeiro troll à presidência.
Afinal, se antes do impeachment, o autor do verso “embarquei na tua nau” jáescrevia cartinha zueira pra Dilma e vazava áudio com seu discurso de posse, depois de ocupar a cadeira o poeta admitiu que o impeachment foi uma encenação, escolheu como líder do governo Romero Estancar Essa Sangria Jucáagradeceu a jornalistas “por mais uma propaganda e disse que as instituições, que até a empreitada do golpe eram “sólidas”, não são mais. O que fez depois? Riu da sua cara.

Uma quadrilha de cleptocratas limpando o país da corrupção ou um governo ético de esquerda tendo o PMDB como principal aliado?

Ele tem motivos para tal. Temer, ligado a dezenas de escândalos de corrupção e principal articulador do partido-câncer do Brasil desde os anos 90, está zoando com todos, começando por liberais de araque de grupos como o MBL e paneleiros lobotomizados pela Globonews e passando por marxistas de DCE e vermelhinhos mortadela em geral.
No fim das contas, ambos extremos do espectro ideológico unem-se pelo mesmo incondicional talento para a esperança: se uns acreditaram que uma quadrilha de cleptocratas iria limpar o país da corrupção, os outros acreditaram num governo ético de esquerda tendo o PMDB como principal aliado. Evidentemente, nada disso jamais teve o menor risco de dar certo para o país.
A partir das manifestações deste domingo, dia 4 de dezembro, talvez seja a hora de se unirem, paneleiros e mortadelas, contra o troll maior. Ou ficaremos todos a ver seu sorriso sardônico de cadáver ambulante triunfar sobre a vontade do povo.

ENTRE EM CONTATO COM O AUTOR:

J.P. Cuencajpcuenca@​gmail.com@jpcuenca