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domingo, 27 de janeiro de 2019

The Intercept: Mineradoras e ruralistas se unem para afrouxar regras de licenciamento ambiental. Ganham os ricos, perde a natureza, o povo e se acumulam tragédias ambientais...


"NESTE MOMENTO, o projeto está engatilhado na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Essa comissão tem, entre seus membros, velhos conhecidos das mineradoras. O deputado Leonardo Quintão, do MDB de Minas Gerais, é o mais conhecido. Ele relatou o Marco Regulatório da Mineração, depois de ter recebido generosas contribuições das mineradoras nas eleições de 2014: foram R$ 930 mil em doações de empresas como AngloGold, Cia. Brasileira de Metalurgia e Mineração e Usiminas."

Do The Intercept Brasil:


MORRO DO PILAR, MG, BRASIL, 13-11-2014: Dutos da Anglo American do projeto Minas-Rio, cruzam propriedade em Morro do Pilar (MG). Minerodutos das empresas Anglo American (529km), que comeca a funcionar ainda esse ano, e da Manabi (511km), em fase de estudo, com previsão para inicio de funcionamento em 2018, ligam os estados de Minas Gerais ao Rio de Janeiro e de Minas Gerais ao Espirito Santo, por meio de tubos que transpotarão o minerio de ferro extraído da região da Serra da Ferrugem, aproximadamente 150km de Belo Horizonte. Sendo os maiores do mundo, estes minerodutos estão causando diversos problemas na região por terem suas licencas ambientais sob suspeita e causarem diversos danos ambientais nas regiões por onde passam. (Foto: Fabio Braga/Folhapress, MERCADO)
Mineroduto da Anglo American: 150 km cortando Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. Foto: Fabio Braga/Folhapress, MERCADO


O BRASIL MAL HAVIA se recuperado da surra que tomou da Alemanha na semifinal da Copa do Mundo de 2014, quando o assunto surgiu dentro de uma reunião tensa no interior de Minas Gerais. No dia 21 de julho, no auditório da prefeitura de Diamantina, prefeitos da região, conselheiros ambientais e pesquisadores discutiam, exaltados, a possibilidade de se liberar mais um empreendimento de mineração na área. Mais especificamente, em Morro do Pilar, pequena cidade de pouco mais de três mil habitantes, onde a mineradora Manabi tentava autorização para começar sua extração de ferro.
“Eu acho que a população tem de ser informada. Não vivam de sonhos e fantasias. Senão vocês vão levar 7 a 1. E o 1 são vocês, o 7 é a Manabi”, disse a antropóloga Andrea Zouri, coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais da UFMG. “Quantos médicos tem em Morro do Pilar? Vocês vão receber 6 mil trabalhadores. Seis mil trabalhadores! Como vocês vão tratar de 6 mil?”, ela perguntou.
Ao continuar enumerando os problemas do empreendimento, sua fala foi interrompida pelo menos 12 vezes por Danilo Vieira Júnior, então presidente do conselho, que a alertava que seus cinco minutos já haviam se esgotado. “Quilombo não é um bando, um grupamento de negros, não é assim que se trata quilombo”, ela continuou, ainda interrompida por Vieira: “por favor…”. Ela pediu mais cinco minutos de fala, e o conselho aceitou. Deu tempo de questionar o modelo de desenvolvimento vendido pela mineração aos prefeitos locais e de colocar à disposição a análise de impacto feita por sua equipe.
Pouco depois, a pesquisadora foi novamente confrontada – desta vez, pela então prefeita da cidade, Vilma Diniz, que a desafiou: “a senhora conhece Morro do Pilar?”. Segundo Diniz, a população local apoiava o empreendimento. A prefeita foi cassada dois anos depois por fraude em licitações no município. O impasse continua até hoje: o atual prefeito, Juca, do PDT, tem dito que a retomada da mineração “é a única solução, um mal necessário”.
O conselho ambiental da região decidiu liberar quatro meses depois o empreendimento. Por causa dos inúmeros problemas mal explicados e mal resolvidos, no entanto, o Ibama e o Ministério Público conseguiram frear a extração de ferro na região. Todo esse esforço pode estar prestes a cair: o Brasil está às vésperas da aprovação de uma nova Lei Geral de Licenciamento Ambiental, que afrouxa as regras e impacta justamente empreendimentos com as características do proposto em Morro do Pilar. Se o projeto for aprovado – o que ruralistas com o evidente apoio das mineradoras planejam ainda para 2018 –, a pequena cidade deve viver o seu próprio 7 a 1.

Estrada Real interrompida, nascentes destruídas

Morro do Pilar tem pouco mais de 3,5 mil habitantes e fica na parte central da Serra do Espinhaço, a menos de 200 km de Belo Horizonte. As prefeituras da região têm sido muito receptivas com as mineradoras – porque delas vem muito dinheiro. Só em Morro do Pilar, a iniciativa da Manabi – que hoje se chama MLog – renderia à prefeitura pelo menos R$ 50 milhões, uma arrecadação excepcional para uma cidade tão pequena. Até agora, R$ 7 milhões já foram repassados pela empresa ao governo municipal.
Mas a região conhece bem os impactos da mineração. A 40 quilômetros dali fica a extração de ferro Minas-Rio, da transnacional Anglo American, sediada no município de Conceição do Mato Dentro.
Além dos problemas ambientais – como destruição da fauna e flora e poluição –, a mineração forçou comunidades e agricultores a abandonarem suas propriedades, encareceu o preço dos imóveis e trouxe os males do crescimento desordenado para a cidade. “Hoje, o desenvolvimento, o mercado que mais cresceu em Conceição é o tráfico de drogas, e esse desenvolvimento a gente não quer para o nosso município”, alertou o então secretário de Planejamento de Conceição, Ricardo Guerra, durante a reunião que concedeu a licença prévia à MLog.
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Cachoeira do Lajeado, no Rio Picão, em Morro do Pilar: no caminho da mineração.

Sergio Mourao/Flickr/Creative Commons
A mineração da Anglo é marcada por uma série de violações, vigilância, assédio e perseguições contra opositores em Conceição do Mato Dentro e região. O Ministério Público mineiro cobra mais de R$ 400 milhões da transnacional pelos danos morais coletivos e sociais causados.
A proposta da MLog segue o mesmo roteiro. A empresa foi, inclusive, fundada por ex-executivos da MMX, empresa de Eike Batista que foi vendida à Anglo American. A MLog planeja usar a bacia do rio Santo Antônio, a mesma usada pela transnacional, para extrair milhões de toneladas de ferro em Morro do Pilar.
“Do nosso ponto de vista, as propostas são basicamente iguais”, relata Sammer Siman, um dos membros da Articulação da Bacia do Rio Santo Antônio. “Em 2014 fizemos visitas a alguns municípios impactados pelo projeto da Anglo, como cidades pelas quais o mineroduto passa e também Conceição do Mato Dentro. A estrutura é a mesma, e os problemas também”, diz.
A proposta passará por cima de 8,5 quilômetros da Estrada Real, a maior rota turística do país. Também afetará a área de proteção ambiental do Rio Picão, causará desmatamento de trechos nativos de Mata Atlântica e a destruição de pelo menos 36 nascentes na zona de impacto da obra. Importantes afluentes da bacia do Santo Antônio, como os rios Cuba, do Peixe, Picão, Preto e os ribeirões das Lajes e Ponte Alta serão poluídos com rejeitos da mineração.


Desde 2012 o Ministério Público do estado cobra explicações da empresa em relação aos verdadeiros danos que a mineração pode causar no município. O grupo MLog foi autorizado a minerar na região pelo governo de Minas Gerais em 2013. A licença ambiental foi concedida em 2014 pelo Conselho Ambiental da região depois dos bate-bocas em uma epopeia de mais de 12h. O Ibama travou parte do empreendimento – o mineroduto e um porto em Linhares (ES) – e o MP mineiro tentou, sem sucesso, revogar a licença prévia.
Nos últimos anos, a queda no preço das commodities e as negativas do Ibama seguraram os ânimos da MLog. Mas a empresa garante: no início de 2019, o licenciamento será retomado. E é aqui que a Lei Geral de Licenciamento Ambiental entra em cena.

O impacto da Lei Geral

O PL 3729/04, a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, foi apresentado há 14 anos por deputados da bancada do PT. Desde então, foi gradualmente desfigurado pela inclusão de projetos da bancada ruralista – essa mistura resultou em uma colcha de retalhos costurada para abarcar interesses de todos os envolvidos.
Segundo a proposta, órgãos responsáveis poderão acelerar a concessão caso um empreendimento esteja situado em uma mesma área de influência ou em condições similares a outros que já tenham obtido a licença ambiental. Caso, por exemplo, da mineração em Morro do Pilar e Conceição do Mato Dentro.
Além disso, de acordo com a lei, a autorização deixará de ser necessária para iniciativas em unidades de conservação de uso sustentável, tal como a Área de Proteção Ambiental do Rio Picão, em Morro do Pilar.

Neste momento, o projeto está engatilhado na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Essa comissão tem, entre seus membros, velhos conhecidos das mineradoras. O deputado Leonardo Quintão, do MDB de Minas Gerais, é o mais conhecido. Ele relatou o Marco Regulatório da Mineração, depois de ter recebido generosas contribuições das mineradoras nas eleições de 2014: foram R$ 930 mil em doações de empresas como AngloGold, Cia. Brasileira de Metalurgia e Mineração e Usiminas.
Membros da Frente Parlamentar de Mineração também estão envolvidos. Um deles, o deputado Marcos Montes, do PSD de Minas Gerais, trabalhou bastante para emplacar a Lei Geral. Em 2014, ele recebeu mais de R$ 900 mil em doações de mineradoras como AngloGold e Vale. Em 2016, quando era presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, a FPA, Montes tentou viabilizar um acordo para a votação do projeto.
Segundo o Ministério Público Federal, a Lei Geral oferece brechas específicas para mineradoras. Uma delas é a possibilidade de ‘testes de mineração’ do mesmo porte que os empreendimentos em seu estágio final; em outras palavras, empresas poderão minerar sem licença ambiental.
A proposta também incentiva uma espécie de guerra fiscal por empreendimentos dos mais variados, como usinas hidrelétricas, construção de ferrovias e também mineradoras. Por exemplo: empresas podem estimular um leilão entre estados ou municípios vizinhos no momento da escolha dos pontos pelos quais um mineroduto passará. “O PL poderia gerar uma ‘corrida’ pela flexibilização do licenciamento com a finalidade de atrair investimentos”, diz Maurício Guetta, advogado do Instituto Socioambiental.
Vista da Cachoeira do Tabuleiro, na serra do Espinhaço, no município de Conceição do Mato Dentro (MG). É mais alta de Minas Gerais e a terceira maior do Brasil. (Conceição do Mato Dentro, MG, 02.01.2014. Foto: José Emílio Perillo/Folhapress)
Vista da Cachoeira do Tabuleiro, na serra do Espinhaço, no município de Conceição do Mato Dentro (MG). 
Foto: José Emílio Perillo/Folhapress
Outro problema é que o projeto retiraria o poder de veto de entidades como Funai, Fundação Cultural Palmares, IPHAN, Ibama e órgãos gestores de parques nacionais e áreas de proteção permanente. Na prática, a medida enfraquece brutalmente a oposição de ambientalistas, indígenas, quilombolas e outras comunidades a grandes empreendimentos.
Além disso, o projeto poderá permitir empreendimentos em unidades de conservação de proteção integral, como os parques nacionais da Amazônia ou da Chapada dos Veadeiros, além de excluir a compensação por impactos em unidades de uso sustentável. As medidas colocam reservas naturais sob alto risco de poluição e degradação.

Um sonho de consumo para os ruralistas

Afrouxar o licenciamento no país se tornou prioridade da Frente Parlamentar da Agropecuária logo após as eleições. Uma das principais razões é que, além de beneficiar o setor de mineração, a Lei Geral também isenta projetos de pecuária extensiva e atividades agrícolas em geral da necessidade de licenciamento.
A atual versão do texto foi relatada por um membro da Frente Parlamentar da Agropecuária, o deputado Mauro Pereira, do MDB. Outros notórios ruralistas, como Alceu Moreira, também do MDB e atual vice-presidente da FPA, e o tucano Nilson Leitão, ex-presidente do bloco, foram alguns dos defensores da Lei Geral em 2018.


Valdir Colatto, do MDB e coordenador da comissão de Meio Ambiente da FPA, chegou ao ponto de sugerir que esse tipo de licenciamento prévio não fosse mais necessário. “Quem for fazer um empreendimento entra com o processo de licenciamento ambiental, e a fiscalização deverá ser feita durante a implantação. Após o término, se estiver tudo conforme as normas exigidas, será aprovado”, disse, em audiência pública realizada pela Comissão de Meio Ambiente da Câmara em 2017.
Parte dos parlamentares da FPA, porém, considera estratégico deixar sua votação para 2019, mas não há consenso sobre o tema. Um dos motivos é a posição da presidente da bancada ruralista, a futura ministra da Agricultura.
A escolhida de Bolsonaro para pasta, a deputada sul-matogrossense Tereza Cristina, do DEM, já avisou que, entre as pautas a serem votadas neste ano, “o licenciamento talvez seja a mais importante”. Cristina disse ainda que sua aprovação “seria uma coisa muito boa para a agropecuária, mas principalmente para outros segmentos da sociedade que têm pautas travadas”.
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Caio de Freitas Paescaiodefpaes@​gmail.com

terça-feira, 12 de setembro de 2017

The Intercept: Nem o furacão Irma é capaz de acordar tolos e neoliberais nocivos que negam as mudanças climáticas. Artigo de Naomi Klein


    "Trump e seus colegas que negam as mudanças climáticas (e também os que as minimizam) enxergam nessa ameaça à sua visão de mundo uma crise tão existencial que é difícil até aceitar que a possibilidade passe por suas mentes. É compreensível, pois o aquecimento global tem implicações radicalmente progressistas. Se ele for real – e evidentemente que é –, as oligarquias não podem continuar a praticar seus desmandos sem regras." - Naomi Klein


Imagem: NOAA/NASA/UWM-CIMSS, William Straka III

Segue o artigo de Naomi Klein, publicada no The Intercept:

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ENQUANTO UMA DAS TEMPESTADES mais fortes já registradas caía sobre os Estados Unidos, com boa parte do estado da Flórida sob ordem de evacuação, o presidente Donald Trump se empenhava em resolver uma questão de grande urgência.
Trump reuniu seu gabinete em Camp David e disse que não havia tempo a perder. Diante do avanço do furacão Irma, que poderia devastar enormes áreas dos estados da Flórida, Geórgia, Carolina do Sul e Carolina do Norte, havia chegado a hora de realizar substanciais… reduções de impostos.
Sim, foi isso mesmo. O presidente não estava preocupado em levar auxílio substancial aos mais atingidos pelo desastre, nem em realizar uma mudança substancial nos sistemas de transporte e energia, buscando reduzir a emissão dos gases do efeito estufa para que tempestades como o Irma parem de acontecer três vezes por ano. Sua prioridade era realizar alterações substanciais ao código tributário. Ele alega a intenção de aliviar a classe média, mas na verdade as mudanças trariam a maior redução de tributos das últimas décadas para as grandes empresas e dariam também uma boa ajuda para os muito ricos.
Muitos imaginaram que a experiência de viver tão de perto as catástrofes desse verão – Houston submersa, Los Angeles consumida pelas chamas, e agora os estados do Sul assolados pelo Irma – pudesse servir de alerta para os republicanos que negam mudanças climáticas.
US President Donald Trump speaks about Hurricane Irma watched by First Lady Melania Trump upon return to the White House in Washington, DC on September 10, 2017. Trump returned to Washington after spending the weekend at the Camp David presidential retreat. / AFP PHOTO / MANDEL NGAN (Photo credit should read MANDEL NGAN/AFP/Getty Images)
Presidente Donald Trump fala sobre o furacão Irma acompanhado da primeira-dama Melania Trump. Trump regressou à Casa Branca no dia 10 de setembro depois de passar o fim de semana no retiro presidencial de Camp David.
 
Foto: Mandel Ngan/AFP/Getty Images
O que o pronunciamento de Trump a seu gabinete deixa claro, porém, é que o único efeito do Irma será levá-lo a redobrar esforços em sua temerária agenda econômica. Acompanhado pelo Secretário de Estado, Rex Tillerson, e pelo Secretário de Comércio, Wilbur Ross, o presidente explicou que iriam discutir “drásticas reduções de impostos e uma reforma tributária”. Disse ainda: “penso que agora, depois do que aconteceu com o furacão, vou pedir pressa.”
Algumas pessoas observaram que se trata de um perfeito exemplo do que denominei “doutrina do choque” – o uso de desastres como pretexto para impor políticas radicais em prol de grandes corporações. E é mesmo um caso clássico, em especial porque, no momento em que Trump deu tais declarações, o furacão Irma se encontrava no auge de sua ameaça potencial.
O timing do presidente revela ainda mais sobre os verdadeiros motivos que impulsionam a negação das mudanças climáticas por parte da direita americana. Não se trata de uma rejeição à ciência, mas de uma rejeição às consequências da ciência. Para resumir, se a ciência está correta, significa que é preciso jogar fora todo o projeto econômico que dominou as estruturas de poder nos EUA desde a presidência de Ronald Reagan, e os negacionistas sabem disso.
Se as mudanças climáticas estão por trás das catástrofes que estamos vendo agora – e elas, de fato, estão -, isso não significa apenas que Trump precisa pedir desculpas e admitir que estava errado quando chamou o fenômeno de “invenção dos chineses”, mas também que ele precisaria descartar todo o seu plano tributário, porque esse dinheiro de impostos (e um tanto mais) será necessário para custear um rápido abandono dos combustíveis fósseis. Significa ainda que ele precisaria descartar seu plano de desregulamentação, porque se vamos mudar a forma como usamos energia em nossas vidas, será necessária ampla regulação para gerir e fazer cumprir essa mudança. Obviamente, isso não atinge apenas Trump, mas todos os governadores do Partido Republicano que negam as mudanças climáticas, e cujos estados estão atualmente sofrendo as consequências. Todos teriam que jogar no lixo uma visão de mundo distorcida, que considera que o mercado está sempre certo, que a regulação está sempre errada, que o privado é melhor que o público, e que os tributos que custeiam os serviços públicos são a pior coisa que existe.
O que precisa ser rapidamente compreendido é que, a essa altura, só vamos conseguir lidar com as mudanças climáticas por meio de ações coletivas que restrinjam drasticamente o comportamento de grandes corporações como Exxon Mobil e Goldman Sachs (ambas fartamente representadas na reunião de gabinete de Trump). As ações climáticas exigem investimento na esfera pública – em novas redes de energia, transporte público, trens urbanos e eficiência energética – numa escala só vista antes da Segunda Guerra Mundial. Para que isso aconteça, é preciso aumentar a tributação sobre os muito ricos e sobre as grandes empresas, exatamente quem Trump está determinado a beneficiar com as mais generosas reduções de impostos, isenções e exceções regulatórias.
Em resumo, as mudanças climáticas dinamitam o arcabouço ideológico sobre o qual se assenta o conservadorismo contemporâneo. Admitir que a crise climática é uma realidade é admitir o fim de um projeto político e econômico, e é por isso que a direita está se rebelando contra o mundo físico (o que levou centenas de milhares de cientistas ao redor do mundo a participar da Marcha pela Ciência em abril deste ano, defendendo coletivamente uma ideia que não deveria nem precisar de defesa: é bom entender o máximo possível do mundo em que vivemos). Há, no entanto, fundamento lógico para que a ciência tenha se tornado um campo de batalha: ela vem demonstrando reiteradamente que a forma corporativa de fazer negócios está levando a uma catástrofe que ameaça a própria espécie humana.
A questão não atinge apenas a direita, mas também o centro. O que os liberais tradicionais dizem há décadas sobre as mudanças climáticas é que só precisamos fazer alguns ajustes no sistema atual para ficar tudo certo. Capitalismo estilo Goldman Sachs, mas com painéis solares. No estágio atual, no entanto, o desafio que se apresenta é muito mais profundo.
Para reduzir nossas emissões no ritmo necessário para evitar um aquecimento catastrófico é preciso questionar a centralidade do aumento do consumo na forma como avaliamos o progresso econômico. É preciso reconstruir nossa economia em aspectos fundamentais, que incluem o combate às desigualdades econômicas e raciais sistêmicas que transformam desastres como [os furacões] Harvey e Katrina em catástrofes humanas. Em determinado sentido, portanto, os membros do gabinete de Trump demonstram, com sua desesperada necessidade de negar a realidade do aquecimento global ou minimizar suas implicações, reconhecer uma verdade essencial: para evitar o caos climático, precisamos enfrentar o fundamentalismo do livre mercado que tomou conta do mundo desde a década de 80.
Trump e seus colegas que negam as mudanças climáticas (e também os que as minimizam) enxergam nessa ameaça à sua visão de mundo uma crise tão existencial que é difícil até aceitar que a possibilidade passe por suas mentes. É compreensível, pois o aquecimento global tem implicações radicalmente progressistas. Se ele for real – e evidentemente que é –, as oligarquias não podem continuar a praticar seus desmandos sem regras.
À medida que a realidade do colapso climático mostrar sua face assustadora, cada vez mais pessoas serão capazes de entender suas óbvias implicações políticas e econômicas. Enquanto isso não acontece, precisamos parar de esperar que desastres “acordem” os negacionistas mais arraigados. Eles vivem um sonho muito bom, muito confortável e muito rentável. No entanto, já que o presidente se vale dos desastres simultâneos – os furacões Harvey e Irma, a Coreia do Norte, e qualquer outro inferno que possa explorar – para impor clandestinamente sua cruel agenda econômica, é nosso papel estar bem alertas para a realidade: é uma questão de sobrevivência da humanidade impedir que prevaleçam Trump e a visão de mundo que ele representa.
Parcialmente adaptado de “No Is Not Enough: Resisting Trump’s Shock Politics and Winning the World We Need”. O livro será publicado em novembro de 2017 pela Bertrand Brasil.
Foto do alto: Uma imagem de infravermelho capturada em 7 de setembro de 2017 pelo satélite climático Suomi NPP, operado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (National Oceanic and Atmospheric Administration, NOAA)
Tradução: Deborah Leão

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Naomi Klein@NaomiAKlein

domingo, 9 de julho de 2017

O G20 como campo de batalha sobre o clima. Artigo da Deutsche Welle



Presidência alemã do G20 mira mudança climática no encontro em Hamburgo. Uma das grandes questões é se os demais 19 países estarão debilitados após a saída dos EUA do Acordo de Paris – ou ainda mais determinados. Deutsche Welle
Hamburg Protest gegen G20 (picture-alliance/dpa/D. Reinhardt)
Com fantasia de líderes como Trump, Merkel e Putin, grupo protesta em Hamburgo
Líderes das 20 economias mais poderosas do planeta se reúnem neste fim de semana na cidade alemã de Hamburgo. Entre eles, a "premiê do clima" Angela Merkel e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chocou o mundo ao retirar seu país do Acordo de Paris.
Com a Alemanha na presidência rotativa do G20, Merkel não se esquiva daquele que promete ser um tópico controverso. Berlim recentemente estabeleceu sua agenda para a conferência, confirmando o clima global como um dos temas centrais.
"A mudança climática estará no topo da agenda", diz Alois Vedder, diretor do departamento de política da WWF Deutschland. "A questão é: qual pode ser o resultado, depois que os EUA se retiraram do Acordo de Paris? Como os demais outros 19 países vão prosseguir? Eles continuarão a se ater ao acordo e assegurarão que suas metas sejam alcançadas?"
A ex-secretária executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) Christiana Figueres se reuniu a cientistas e líderes empresariais internacionais para compor uma lista de desejos para o G20, publicado como artigo pela revista Nature.
Ele enfatiza seis metas que o G20 estabeleceu para si até 2020, relativas a energia verde, infraestrutura de baixas emissões, transporte, uso de terras, indústria e finanças. O ano 2020 tem grande importância: não só é a primeira oportunidade para os EUA abandonarem o acordo do clima, como também o "ponto sem retorno", a partir do qual, segundo cientistas, se a temperatura global não cair, a meta dos 2ºC se torna praticamente inalcançável.
"Estamos no limiar de poder virar para baixo a curva das emissões de gases-estufa até 2020, como a ciência exige, para proteger as Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU, e em particular a erradicação da pobreza extrema", afirmou Figueres no comunicado.
Wael Hmaidan, diretor da Climate Action Network (CAN) International, saudou essa análise, dizendo que "caso acordada, ela poderia representar um resultado muito ambicioso e bem-vindo" para a cúpula.
Infografik G20 CO2 Verbrauch POR

O fator Trump
Diante do pano de fundo do G20, há pressão maciça do público em geral, de grupos da sociedade civil, cientistas e personalidades públicas para que se aja em prol do meio ambiente. O artigo da Nature  vem na esteira de posicionamentos de outros setores da sociedade.
Na segunda quinzena de junho, Merkel participou da cúpula Civil 20 em Hamburgo, em que grupos da sociedade civil, inclusive o CAN, apresentaram suas reivindicações ao Grupo dos 20.
"A liderança alemã do G20 tem sido muito aberta para a participação da sociedade civil. Temos visto que ela leva nossos comentários muito a sério", relata Hmaidan, acrescentando que a "abertura e transparência" da Alemanha representa um importante precedente para o futuro do grupo.
Alois Vedder concorda: "A presidência alemã ampliou a agenda para incluir mais tópicos ambientais e sociais. Parece ambicioso, mas o importante é qual será o resultado final."
Apesar desses sinais positivos, a expectativa é que a cidade-sede da cúpula será inundada por ainda mais manifestantes, protestando por mais ação contra a pobreza global e a favor do meio ambiente.
Permanece em aberto quanto se poderá alcançar sem ter a bordo o segundo maior emissor de gases-estufa, os EUA. Enquanto alguns temem que a rejeição do Acordo de Paris por Trump enfraqueça a determinação dos demais países do G20, certos observadores acreditam que o fato até mesmo a fortalecerá.
Até o momento, a União Europeia e a China vêm emitindo sinais fortes de que estão dispostas a redobrar seus esforços a fim de compensar a ausência americana. Dentro dos EUA, algumas cidades e estados se comprometeram a combater o aquecimento global, independente do desligamento anunciado pela Casa Branca.
Outro foco de atenção na cúpula de Hamburgo são países como a Arábia Saudita e a Rússia, que apresentam um histórico de "fazer corpo mole" frente a mudança climática. Segundo Wael Hmaidan, ambos fizeram progressos desde a assinatura do Acordo de Paris, com os sauditas investindo em energias renováveis, e os russos sinalizando que estão a postos para combater o aquecimento global. A atual conferência será um teste para seu comprometimento.
"A Arábia Saudita é uma aliada próxima dos EUA, tendo recentemente assinado um acordo armamentista com o governo Trump", lembra o diretor da Climate Action Network. "É importante ver como isso vai afetar o posicionamento deles quanto à mudança climática", e este é um "grande teste" para o quanto Riad está sob a influência do presidente americano em relação a "outras agendas", como a questão do clima, aponta Hmaidan.
Infografik G20 Reichtum POR
Clima e finanças interligados
Especialistas ressaltam que, além do comprometimento com medidas diretas para reduzir as emissões de CO2, são também essenciais para combater a mudança climática acordos relativos à missão central do G20, de desenvolvimento econômico e regulamentação financeira.
"É importante o G20 assegurar que o futuro sistema financeiro seja combatível com o Acordo de Paris", explica Hmaidan. "Queremos que os países continuem onerando a emissão carbônica, a fim de ajudar a transição de economias baseadas em combustíveis fósseis para a energia renovável."
Para o ativista do clima, o G20 deveria adicionalmente impor um prazo para o fim dos subsídios à indústria de combustível fóssil. Ambientalistas também exigem ação para assegurar que tanto o investimento em desenvolvimento quanto a regulamentação dos mercados financeiros estejam alinhados com o Acordo de Paris e as metas de sustentabilidade das Nações Unidas.
"A cúpula precisa avançar na regulamentação dos mercados financeiros para riscos ambientais: essa é tanto uma questão ambiental quanto social", exige Alois Vedder, do WWF. "Há fundos de aposentadoria que ainda investem em combustíveis fósseis: isso coloca tanto o risco de desastre climático, quanto o de as pessoas perderem suas aposentadorias, se esses investimentos forem mal, porque o setor teve que ser fechado."
Vedder frisa que estão também na pauta do encontro a poluição marinha e – fato inusual para uma cúpula do G20 – o tráfico de animais selvagens. No entanto – num momento em que a Alemanha procura realçar sua imagem como líder em ação climática global e salvadora do Acordo de Paris, enfrentando o imprevisível presidente dos EUA – tudo indica que a mudança climática desempenhará um papel ímpar e polêmico nas conversas em Hamburgo.


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