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sexta-feira, 12 de julho de 2019

Do GGN: A decadência do telejornalismo e da televisão tipo Globo e Record é um drama ao qual se soma a triste despedida de PHA, um dos poucos profissionais que ainda dava a ela uma certa dignidade.




Paulo Henrique Amorim, a televisão brasileira e suas mortes, por Laurindo Lalo Leal Filho


Paulo Henrique Amorim, a televisão brasileira e suas mortes

por Laurindo Lalo Leal Filho

A decadência do telejornalismo e da televisão é um drama ao qual se soma a triste despedida de PHA, um dos poucos profissionais que ainda dava a ela uma certa dignidade.
“A televisão é uma máquina de fazer doidos” dizia Sérgio Porto, o inesquecível Stanislaw Ponte Preta, lá pelos anos 60 do século passado.  Autor do Febeapá, o Festival de Besteiras que Assola o Pais, cutucava com o seu humor a ditadura da época e percebia na TV um instrumento que, ao contribuir para a burrice e alienação, dava ampla sustentação ao arbítrio.
Morto precocemente, Stanislaw não viu o crescimento da máquina fazendo e promovendo doidos, não apenas no público mas dentro de sua própria engrenagem. Entregues como concessões pelos sucessivos governos federais a aventureiros como Silvio Santos ou a políticos travestidos de empresários como Roberto Marinho, a TV foi se aviltando até chegar no lodaçal em que se encontra atualmente.
Nele acham-se figuras menores, mas não menos danosas, como os concessionários da Rede TV!, especialista em vulgaridades. Ou de um auto-proclamado bispo, fazendo da fé mercadoria. Pretensos milagres num canal, detalhes da vida íntima de pretendentes à fama em outro, entrevistas “chapa-branca” com políticos de extrema-direita, censura de informações relevantes, defesa de medidas antipopulares vão se sucedendo a cada toque no controle remoto. Esse é o quadro atual.
São quase 70 anos de decadência. Exceções existiram mas não sobreviveram. Aqueles que viram na TV a possibilidade de expandir conhecimento e sensibilidade sucumbiram. Nada sobrou, na dramaturgia, dos teatros de Comédia ou de Vanguarda da pioneira TV Tupi. Nem do bom momento das novelas escritas por autores como Dias Gomes ou Lauro Cesar Muniz, entre outros. Os grandes musicais da extinta TV Excelsior são uma lembrança que dói diante do que se vê hoje por ai.
No jornalismo a situação ganha contornos de tragédia. “Toda unanimidade é burra”, dizia Nelson Rodrigues, cada vez mais citado nestes tristes tempos. Se dermos razão a ele, mesmo lembrando o seu conservadorismo, o telejornalismo brasileiro é burro. Para as emissoras de TV das Organizações Globo, TV Globo e Globonews, a verdade é uma só. A defesa incondicional que fazem da destruição da Previdência pública é o exemplo mais atual e mais bem acabado dessa burrice. Para não falar da vergonhosa censura imposta ao noticiário produzido pelo The Intercept Brasil, revelador por meio da série Vazajato dos crimes cometidos pelos integrantes da operação policial, jurídica e midiática denominada LavaJato. 
Diante desse quadro sufocante, capaz de organizar amplas camadas da população segundo seus interesses, poucas vozes críticas conseguem ser ouvidas. No interior da máquina muitos tentaram, poucos conseguiram resistir. A inteligência critica não combina com a informação na TV.  
Voltando aos exemplos históricos, a referência jornalistica é o Jornal de Vanguarda da extinta TV Excelsior, criado e dirigido por Fernando Barbosa Lima. Bem feito, bem humorado e sério ao mesmo tempo, não deixou resquícios, só saudade para quem o conheceu. Como Barbosa Lima outros profissionais ainda tentaram trazer conteúdo de qualidade ao telejornalismo. Um deles acaba de nos deixar e serve como exemplo da incompatibilidade perversa criada ao longo do tempo entre inteligência e televisão: Paulo Henrique Amorim.
O jornalista carioca trouxe para a TV um conhecimento acumulado na academia e nas redações de jornais e revistas, sabendo-se que nem sempre foi fácil a adaptação à televisão dos profissionais formados nos meios impressos. Muitos sucumbiram. A busca da informação, a apuração precisa e o texto elegante, suficientes para o papel exigiam na TV a aproximação com arte de interpretar. Poucos transpuseram essa barreira. Paulo Henrique Amorim, PHA, como se identificava, foi um deles. 
Mostrou isso nas emissoras por onde passou mas a decadência do telejornalismo brasileiro não combinava com a sua competência. Seu derradeiro empregador, a Record do bispo, empenhada em adular o atual governo de extrema-direita, e pressionada por ele, o tirou no ar pouco antes de sua morte. 
Há nesse drama um simbolismo que, por certo, marcará a atual etapa da história da televisão brasileira. Sua decadência, a partir de agora, não se reduz apenas a mediocridade do conteúdo exibido. Marca também o desaparecimento físico de um dos poucos profissionais que ainda dava a ela uma certa dignidade.   

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Papa em Cuba e a mídia reacionária, como a Opus Dei, na retranca


    "A grande imprensa brasileira sempre se assumiu como católica, apostólica, romana. Com a cobertura da viagem do papa à Ilha percebe-se que, além disso, nossos jornalões exibem-se majoritariamente, sem pudor, como sectários e reacionários." - Alberto Dines


Papa em Cuba, Opus Dei na retranca





Segue, para reflexão, texto de Alberto Dines, extraído do Observatório da Imprensa

Francisco não é o primeiro pontífice a pisar em território cubano, é o terceiro. Mas é o primeiro desde 1959 a avistar em Havana a bandeira norte-americana tremulando ao lado da cubana. Façanha pela qual é um dos principais responsáveis, junto com o presidente Barack Obama.

A grande imprensa brasileira sempre se assumiu como católica, apostólica, romana. Com a cobertura da viagem do papa à Ilha percebe-se que, além disso, nossos jornalões exibem-se majoritariamente, sem pudor, como sectários e reacionários.

Dos três diários de referência nacional, dois deles seguem a linha inflexível da Opus Dei – “Globo” e “Estadão”. Sem forçar uma autonomia, a “Folha” procura demarcar-se sutilmente da discretíssima prelazia conservadora global, embora mantenha fortes vínculos com o seu expoente no Brasil, Yves Gandra Martins.

O esquema foi reproduzido com total transparência no último fim de semana. Os jornalões obedeceram aos mesmos critérios e preconceitos, como se editados pela mesma pessoa ou conectados por telepatia.

No domingo 20/9 (primeiro dia completo da visita pontifícia) o noticiário foi extremamente comedido, as chamadas na capa relacionadas com o assunto foram colocadas abaixo da dobra para indicar desimportância.

A “Folha” permitiu-se a liberdade de acrescentar à chamada uma foto do papa Francisco e seu anfitrião, Raul Castro, porém sem retirá-la da zona de insignificância.

Dia seguinte, segunda, 21/9, a idiossincrasia foi repetida com maior desenvoltura e visibilidade graças à presença carismática de Fidel Castro. A mesma e expressiva foto de Alex Castro (da Associated Press) foi magnificamente usada pela rebelde “Folha” no alto da capa, logo abaixo do cabeçalho. Para atender o Manual de Redação que impôs a Fidel Castro a classificação de “ditador”, agora sem poder (ou desempoderado como se adora dizer) foi recompensado com a generosa qualificação de “ex-ditador”.

No “Globo”,  a histórica imagem dos dois estadistas fixados nos interlocutores foi empurrada para a parte inferior da capa. Nada contra o papa Francisco: a implicância da Família Marinho é com o caráter conciliador, tolerante e humanitário da missão pontifícia. Acabar com o bloqueio econômico e a resquícios de Guerra Fria no continente são intenções que não merecem ser valorizadas. Podem ser vistas como “progressistas”. Com a habitual fidalguia, o monopolizador do mercado jornalístico carioca, ofereceu a Fidel o título de “Comandante” e acolheu-o piedosamente como “ex-presidente”.

Malabarismos editoriais

O sisudo “Estadão” continua oferecendo pitorescas versões de lisura jornalística: a mesma foto de Francisco & Fidel, incrivelmente reduzida, foi colada abaixo da dobra com título minimalista: “Em Cuba, papa apoia diálogo de paz colombiano.” Francisco foi lá para isso ? Acima da dobra, na parte nobre da capa, numa foto difusa da multidão, quase desfocada, onde mal se enxerga o sumo pontífice, uma faixa pede “Que Cuba se abra a todos los cubanos”.

Em matéria de audiência o “Valor Econômico” escapa da classificação de “jornalão”, mas a circulação nacional e a ausência de concorrentes colocam o diário de economia e finanças em posição destacada. Como não circula nos fins-de-semana teria sido poupado de vexames não fosse o registro obrigatório da visita do papa a Fidel Castro no domingo.

Onde publicá-la? Pela lógica jornalística o certo seria coloca-la na capa da edição da segunda-feira já que no dia seguinte, terça, Francisco seguirá para os Estados Unidos onde o aguarda intensa agenda política e econômica. Inclusive um inédito discurso perante o Congresso.

Isso nunca! O porta-voz do conservadorismo financeiro não pode prestigiar o perigoso ex-ditador comunista, ainda por cima ateu, ao lado de quem o papa Francisco parece tão respeitoso e amigável.

Como o “Valor” pertence em partes iguais aos grupos “Globo” e “Folha” que no caso parecem seguir diretivas diferenciadas, tentou-se a via salomônica. A mesma foto, agora em preto-e-branco, foi chutada para a p. A-10 acompanhada de um texto-legenda de 21 linhas.

A fina flor do empresariado nacional poderia ter sido informada com 24 horas de antecedência sobre as importantes gestões e movimentações que poderão afetar os seus negócios.

A extrema candidez e a tocante sinceridade do papa Francisco acabaram por bagunçar os dogmas, preconceitos e arranjos dos maiores grupos midiáticos nacionais. A peregrinação do pontífice em busca da conciliação e do entendimento nesta parte do mundo teve o dom mágico de escancarar as maquinações e manipulações que comprometem um processo que deveria fluir com naturalidade, independência e responsabilidade./