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quarta-feira, 27 de março de 2019

Lava Jato: a guerra ideológica, o homem comum e o que “realmente importa”, por Sylvia Debossan Moretzsohn




Passes de mágica sempre realizam um duplo movimento: atraem a atenção do público e a desviam dos mecanismos que permitiram o truque. Ao desenhar o juiz Marcelo Bretas tirando da cartola o ex-presidente Temer em pele de coelho diante da terra arrasada que Picasso consagrou mundialmente com seu painel sobre o bombardeio de Guernica, Renato Aroeira representou com precisão o mais recente golpe da Lava Jato. No estado atual de degradação da política, esse golpe pode se tornar o ponto de partida para o recrudescimento das manifestações populares que interromperam o mais longo período de democracia no Brasil e, agora, consolidariam o caminho fascistizante iniciado desde então.

Esse risco, porém, é negligenciado por quem se limita a ver nos passes de mágica apenas o movimento ilusionista. Como na sucessão de bolsonarices, damarices, olavices e outras sandices protagonizadas por membros do atual governo, também desta vez, com o estardalhaço habitual que as operações da Lava Jato provocam, retomou-se nas mídias e redes sociais a onda de alertas para o “desvio de atenção” daquilo que “realmente importa” – no caso, acima de tudo e imediatamente, a reforma da Previdência.

O ex-senador Roberto Requião, por exemplo, tuitou assim:


De fato, a súbita decisão de mandar prender Temer – identificado como chefe de uma quadrilha atuante há 40 anos, mas apenas agora descoberto – e o ex-ministro e ex-governador do Rio Moreira Franco, entre outros, no dia 21 de março, ocupou o noticiário e as redes e retirou o foco das críticas a Bolsonaro em sua desastrada visita aos Estados Unidos, e de quebra contribuiu para reduzir, nas mídias sociais, a repercussão das manifestações contra a reforma da Previdência, que a grande imprensa não mencionou, embora esse ocultamento, no caso, provavelmente fosse ocorrer de qualquer modo, dado o comprometimento dessa imprensa com o projeto da reforma.

Porém, há três equívocos nessa interpretação. O primeiro é ignorar o duplo sentido do diversionismo, que ao mesmo tempo desvia a atenção mas reitera a pauta ideológica. Quando, por exemplo, a ministra Damares Alves apareceu num vídeo afirmando que menino veste azul e menina veste rosa, ela não estava apenas produzindo uma cortina de fumaça, mas investindo na rejeição das reivindicações do movimento LGBT e de todos quantos lutam pela aceitação da diversidade de gênero. Quando o ministro Ernesto Araújo fala sobre o combate ao “marxismo cultural” e o associa à tentativa de exterminar a humanidade, ele carrega as baterias contra todos os movimentos que ao longo de pelo menos o último século e meio se empenharam na luta pela igualdade de direitos.

Discursos delirantes têm, portanto, consequências muito concretas, e isso não poderia ser desprezado. E este é o segundo e principal equívoco: ignorar a importância decisiva da luta ideológica, que as forças vitoriosas desde a gestação do golpe travaram com enorme competência. Não por acaso Bolsonaro insiste tanto no afastamento do “viés ideológico” que marcaria os governos anteriores, como se o dele não tivesse um viés muito mais marcante.

O terceiro equívoco é considerar que, de fato, a (suposta) cortina de fumaça seja eficaz  – e que, portanto, sejamos todos mesmo muito tolos – e que, uma vez dissipada, teríamos força para barrar os projetos ou reverter as decisões que destroem direitos e entregam o patrimônio nacional. Ora, o que “realmente importa” foi justamente a campanha ideológica baseada em fake news – entre elas o kit gay e a mamadeira de piroca – que convenceram uma significativa parcela da população a votar contra si própria.

Bateu, levou

No caso da mais recente ação da Lava Jato, mesmo os mais célebres jornalistas de direita, como Reinaldo Azevedo, criticaram a decisão do juiz Marcelo Bretas, da mesma forma que juristas, que assinalaram a  “motivação política e midiática” da medida, diante da fragilidade das justificativas apresentadas. Foi, obviamente, uma forma de reagir à decisão do STF, que, embora por apenas um voto, frustrou a ambição dos procuradores da Lava Jato de criar uma fundação de direito privado no Paraná para gerir R$ 2,5 bilhões oriundos de um acordo com a Petrobras, resultantes do pagamento de multas da empresa nos EUA e depositadas no Brasil em reais, que consolidaria o poder paralelo da “República de Curitiba”. Foi, também, uma resposta à reação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, à pressão de Sérgio Moro, ex-juiz condutor da Lava Jato e atual ministro da Justiça, para a aprovação de seu “projeto anticrime”.

Como escreveu o insuspeito Merval Pereira em seu blog no jornal O Globo, a ação foi “uma demonstração de força da Lava-Jato, depois da derrota que sofreu no STF. É o modus operandi deles, dar o troco para deixar a sensação de que não são passíveis de controle. Cada vez que sofrem uma derrota, dão o troco alto”. Mais ou menos como ameaçava e praticava o famoso assessor de Collor, Cláudio Humberto: “bateu, levou”.

Mas vejam só: um órgão público de investigação destinado a averiguar atos de corrupção não precisa atuar de acordo com o estrito cumprimento da lei. É a coisa mais natural do mundo que aja politicamente – não no sentido de que todas as instituições são mesmo políticas, mas no sentido da pequena política das barganhas e ameaças – e esteja autorizado a “dar o troco” diante de qualquer ameaça à realização da vontade de seus integrantes.

Ao ver derrotado o projeto da “República de Curitiba”, Deltan Dallagnol, o líder dos procuradores, aquele que se considera investido de uma missão divina para sanear o país, começou a disparar tuítes tentando justificar seu projeto e ao mesmo tempo atacando a decisão do STF como uma derrota dos que lutam contra a corrupção, o que, indiretamente, compromete o outro lado com a própria prática a ser combatida. Da mesma forma, ao responder à contestação depreciativa de Maia, Moro declarou: “Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais”. E arrematou, na nota divulgada à imprensa a respeito desse episódio, com um apelo: “Que Deus abençoe essa grande nação”.


Lembrou, para quem tem memória, a declaração de voto do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha – na época aliado da Lava Jato, e hoje preso –, pelo impeachment da presidente Dilma: “Que Deus tenha misericórdia dessa nação”.

O troco do “homem comum” e o limiar do fascismo

No episódio da prisão de Moreira Franco, Folha de S.Paulo deu em seu site chamada para uma matéria que, no jargão jornalístico, seria considerada “lateral”: alguma coisa curiosa, complementar à notícia principal. Mas muito significativa: tratava de dois personagens que, cada qual a seu modo – um por iniciativa própria, outro por acidente –, participaram da prisão de Moreira Franco. O personagem acidental foi o taxista surpreendido por policiais federais que lhe repetiram o clichê clássico dos filmes B de ação de outrora – “siga aquele carro!” – e ficou tão nervoso que se esqueceu de ligar o taxímetro (a matéria não informa se ele, afinal, ficou no prejuízo, ou se o eventual prejuízo foi compensado pela consciência apaziguadora da missão cumprida). O outro foi o advogado que estava ao lado de Moreira no voo que o trazia ao Rio e, “com a aeronave já no solo, tirou o celular do modo avião” – claro, porque do contrário teria cometido um delito – e leu a notícia dos mandados de prisão contra o seu vizinho de poltrona. Convencido de que o ex-ministro planejava fugir, fez o possível para lhe dificultar o caminho, a ponto de postar-se na frente do carro que o aguardava.

O tom da matéria não é nada crítico, pelo contrário: anuncia “a história de como um advogado e um taxista ajudaram a prender um dos outrora gigantes da política brasileira”. Por isso mesmo, entretanto, é tão importante: porque valoriza o homem comum imbuído de sua missão redentora e o “troco” que ele dá a um corrupto poderoso.

Logo após a decisão que frustrou os objetivos da “República de Curitiba”, estimulou-se, via redes sociais, uma manifestação contra o STF. Foi um fracasso. No entanto, em redes privadas, passou a circular um vídeo – que não será reproduzido aqui por motivos óbvios – convocando um protesto maciço para pouco antes de 10 de abril, quando o STF julgará a questão da prisão em segunda instância, que, como se sabe, afeta diretamente o ex-presidente Lula. O vídeo defende essa causa, mas principalmente conclama ao “impeachment do STF”, em defesa da Lava Jato. Com uma trilha sonora triunfalista, alterna closes de pessoas com o rosto pintado de verde e amarelo e imagens das multidões que se manifestaram pelo impeachment. E apela: “erga sua bandeira, lute por um país justo, lugar de corruptos é na cadeia, todos unidos nas ruas pelo Brasil”. Num quadro, destaca o rosto de uma jovem pintada com as cores da bandeira brasileira e estimula: “faça parte dessa história”.

O discurso contra as instituições é de grande apelo popular, porque as instituições de fato estão corroídas por dentro, como madeiras atacadas por cupins, das quais sobra apenas a casca, que se desintegra diante da menor pressão. Incutir no homem comum a sua missão de regenerar o país é algo muito fácil num contexto de tamanha degradação da política.

Teremos assim um fiscal em cada esquina, vigilante, pronto a agir, em nome da pátria, da família, talvez de Deus. Será isso que nos aguarda?

Sylvia Debossan MoretzsohnProfessora aposentada da UFF, pós-doutoranda na Universidade do Minho/Pesquisadora do ObjETHOS

segunda-feira, 21 de março de 2016

Justiça partidarizada, Ditadura Togada e Cinismo no Golpe mais Hipócrita da História....

A justiça partidária e o limiar do golpe no Brasil



Surfando a onda de crescente popularidade na sua cruzada contra a corrupção, o juiz Sérgio Moro avançou até ultrapassar todos os limites.

O Brasil vive o auge de sua mais grave crise política desde a redemocratização. O clima de tensão favorece a circulação de boatos sobre a perspectiva de prisão iminente do ex-Presidente Lula, que teve sua nomeação para a Casa Civil sustada pelo ministro Gilmar Mendes. O governo anunciou que entrará com recurso contra essa decisão, mas por ora o ex-Presidente continua vulnerável às ações do juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato.

A tensão tende a se refletir nas ruas, até então tomadas por protestos a favor do impeachment da Presidente Dilma Rousseff e manifestações de índole abertamente fascista, que culminaram no ato de domingo dia 13, o maior até o momento. Entretanto, a resposta da esquerda, na última sexta-feira (18/3), demonstrou uma capacidade de reação que acirra o grau de polarização social.

Importa aqui notar a singularidade do processo de desestabilização política, liderada justamente por juízes, os que mais deveriam zelar pela serenidade.

Sérgio Moro já vinha sendo acusado de agir arbitrariamente ao utilizar a prisão preventiva de vários acusados como forma de coagi-los a aceitar a delação premiada. As críticas tendiam a ser menosprezadas porque, para a opinião pública, eram uma forma de proteger poderosos empresários, executivos da Petrobras e colaboradores do PT, até então intocáveis.

Surfando a onda de crescente popularidade na sua cruzada contra a corrupção, o juiz avançou até ultrapassar todos os limites: primeiro, no dia 4 de março, no episódio do abuso na condução coercitiva do ex-Presidente Lula para depoimento – pois esse recurso só se aplica em caso de resistência ao mandado judicial –, depoimento estranhamente realizado no posto da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, o que levantou suspeitas sobre a intenção de conduzi-lo, já preso, a Curitiba, sede da Lava Jato; e agora, com a flagrante ilegalidade do vazamento de conversas telefônicas entre a presidente Dilma Rousseff e Lula, logo após o anúncio de que o ex-Presidente seria nomeado para a Casa Civil.

A ilegalidade do ato é indiscutível por dois motivos: porque um juiz de primeira instância não poderia grampear as ligações da Presidente a não ser com autorização do Supremo Tribunal Federal; e porque a ligação em questão foi feita já quando esse mesmo juiz havia determinado a suspensão das escutas a Lula. Portanto, obviamente não poderia divulgá-la.

Mas não é só: “Moro não quebrou o sigilo telefônico apenas de Roberto Teixeira, advogado do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também do telefone central da sede do escritório dele (...). Com isso, conversas de todos os 25 advogados da banca com pelo menos 300 clientes foram grampeadas, além de telefonemas de empregados e estagiários da banca”.

Tal é o grau do descalabro a que chegamos. Mas, como em Hamlet, há um método nessa loucura. Quem o apontou foi o professor de Direito Geraldo Prado: Moro “sabia que mesmo o mais tolerante Ministro do STF não concordaria em aproveitar em processo algum uma interceptação telefônica ilícita”. Contava, então, que a revolta de grande parte da opinião pública constrangesse o tribunal a acolher esse tipo de prova, bem de acordo, aliás, com o que o Ministério Público Federal do Paraná propôs numa campanha iniciada em março do ano passado. A medida vinha disfarçada sob o eufemismo de “ajustes nas nulidades penais” e assim foi noticiada pela imprensa. O alerta para o significado da proposta partiu de uma fonte alternativa e especializada: o site Consultor Jurídico.

Prado anota que, como previsto, a divulgação das gravações foi feita “sem qualquer juízo crítico acerca da ilegalidade, centrando-se no tom das conversas e não na violação da intimidade”. Este também foi o comportamento do juiz Celso de Mello, decano do STF, ao contestar o desabafo de Lula, que, em outro telefonema, acusava a Suprema Corte de estar “totalmente acovardada”.

A decisão de Gilmar Mendes de sustar a nomeação de Lula, sob o argumento de que se tratava de uma manobra do governo para “blindar” o ex-Presidente contra um provável pedido de prisão preventiva a ser expedido por Moro, foi uma ironia da história, providencialmente assinalada pelo jornalista Janio de Freitas em seu artigo deste domingo (20/3): Mendes beneficiou-se do mesmo tipo de recurso quando era advogado-geral da União e o então Presidente Fernando Henrique Cardoso assinou medida provisória dando-lhe status de ministro, o que lhe garantia foro especial contra ações judiciais em primeira instância. Nesta mesma edição da Folha de S. Paulo, Bernardo Mello Franco dedica sua coluna ao controverso juiz, que “deveria se dizer suspeito por falta de isenção para julgar o assunto, muito menos sozinho”, já que discursara contra a nomeação de Lula em sessão anterior da Corte. Mas o que esperar de um magistrado cuja atuação lhe rendeu “o apelido de ‘líder da oposição’ no STF”?

Sylvia Debossan Moretzsohn
No Público e Contexto Livre

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Armandinho e a contundente crise....



Veja o video abaixo, onde o jornalista Alberto Dines debate com a filósofa Viviane Mosé e a professora de Comunicação da Universidade Federal Fluminense Sylvia Debossan Moretzsohn o discurso unificado da grande mídia empresarial que, esta sim, tem grande responsabilidade na eclosão da crise política e nos movimentos golpistas atuais (como também o foi em 1954 e 1964, sempre por interesses próprios):


sexta-feira, 3 de abril de 2015

O Caso HSBC e a estranha e enviesada "ética" do jornalismo investigativo da grande mídia e suas curtinas de fumaça, por Sylvia Debossan Moretzsohn



  A exploração da imagem das celebridades pode perfeitamente servir como cortina de fumaça, como tantas vezes ocorre: atrai-se a atenção do público para um lado, enquanto o outro continua na sombra

  Por Sylvia Debossan Moretzsohn, no Observatório da Imprensa

 O objetivo foi claro: confirmar a justeza na exposição dos nomes divulgados até o momento na longa lista do Swissleaks – o vazamento da relação de correntistas do HSBC na Suíça. Mas o resultado é uma sentença de autocondenação: na entrevista publicada simultaneamente no jornal O Globo (ver aqui) e no blog do jornalista Fernando Rodrigues, do UOL (e aqui), que têm exclusividade na apuração, a diretora-adjunta do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês), Marina Walker Guevara, afirma que “não interessa revelar a conta secreta de pessoas comuns, que são irrelevantes e não influenciam no destino do país nem na opinião”. E que “o trabalho do repórter é justamente pegar essa base de dados e aplicar sobre ela critérios de interesse público, avaliando que pessoas devem entrar em reportagens e que pessoas não precisam ser expostas”.

 Já em artigo publicado na Folha de S.Paulo (“Jornalismo e interesse público”, em 4/3), Marina justificava o motivo pelo qual o ICIJ não publicava a lista completa de nomes: “[É porque] somos jornalistas investigativos, não vazadores de dados, ou ativistas, ou um órgão governamental”.

 Os jornalistas brasileiros que apuram este caso, entretanto, não parecem estar agindo de acordo com os princípios que eles mesmos prometeram respeitar. E a recente entrevista da representante do ICIJ é uma comprovação disso.

Exposição indevida

  Do contrário, como justificar – apenas para citar um exemplo mais evidente – a divulgação do nome dos quatro filhos de Alberto Dines, apresentados em meio a uma relação de “empresários de mídia e jornalistas”, em 14/3? No caso específico, o fato é especialmente grave porque os dois jornalistas estiveram com ele no programa de TV do Observatório dedicado ao caso, naquela mesma semana. Tiveram todas as oportunidades de esclarecer o que precisaria ser esclarecido – como o próprio Dines fez, em artigo publicado no mesmo dia em que saíram as reportagens (ver “Vazamentos suíços, canalhices brasileiras”). Tais esclarecimentos teriam sido suficientes para evitar a exposição indevida daquelas pessoas, e o dano irreparável que isso provoca.

  Para piorar, O Globo publicou um quadro em que os quatro aparecem identificados como “família Dines”. Alguma dúvida a respeito do alvo real da suspeita?

Em artigo seguinte (“Consórcio de jornalistas e não um ‘pool’ de jornais”), Dines isentou o jornalista Chico Otavio de responsabilidade e afirmou que “a matéria foi editada e manipulada por ordem do ‘aquário’”. Diante de fato tão grave, qual deveria ser a atitude do repórter? 

Procurado, Chico Otavio não quis se manifestar. 

Na mesma edição, aparece o nome de Arnaldo Bloch, colunista de O Globo, e sua justificativa, que também seria suficiente para que seu nome não fosse sequer mencionado.

 Ao mesmo tempo, representantes dos grandes grupos de mídia são citados, respondem que não têm nada a declarar, e fica por isso mesmo.

 Celebridades e interesse público

 Na segunda-feira (23/3), os jornalistas envolvidos nesse trabalho divulgaram uma lista de celebridades brasileiras, ou que atuam no país. Há interesse público na exposição desses nomes? Em seu blog, Fernando Rodrigues diz que sim, porque celebridade vive de exposição pública, frequentemente se apresenta como um exemplo para a sociedade e sua privacidade não pode ser medida pela mesma régua que mede a de um cidadão anônimo. Mais: muitas delas receberam dinheiro público para seus projetos. Esta, entretanto, seria uma justificativa menor, porque, afinal, todos os cidadãos, célebres ou anônimos, têm obrigação de prestar contas ao fisco, seja qual for a origem do dinheiro que recebem. 

 O problema todo é o rigor na conceituação de interesse público: celebridades, por definição, diferem dos cidadãos comuns, mas, se não cometeram nenhuma irregularidade, por que deveriam ser expostas? Será difícil concluir que a simples exposição já insinua a suspeita? Não foi exatamente por saber disso que o repórter justificou, desde o início, o cuidado em não revelar imediatamente a íntegra da lista?

 No entanto, ele agora sugere que os citados poderiam adotar uma atitude simples para mostrar que está tudo legal com eles – noutras palavras, para afirmar sua inocência:

“Basta mostrar a linha da declaração de bens no Imposto de Renda indicando que o eventual depósito no exterior foi informado à Receita Federal”. E termina com um “#ficaadica”.
 É isso mesmo? Agora as pessoas devem exibir documentos a um jornalista? Justamente a um jornalista que demonstrou saber que só pode ir “até onde o ofício permite” e que a profissão “tem limites fixados pela lei”? (Ver, a propósito, neste Observatório, “A ética pisando em ovos”.) Que é o governo que tem os meios para pesquisar quem é ou não passível de acusação e processo?

  A “vacina”

 A exploração da imagem das celebridades nesse caso pode perfeitamente servir como cortina de fumaça, como tantas vezes ocorre: atrai-se a atenção do público para um lado, enquanto o outro continua na sombra.

 Mas não é só isso. Agora, como na lista que misturava empresários de comunicação e jornalistas, há um embaralhamento que levanta dúvidas quando aos critérios e as intenções de quem divulga as informações. 

Na sua página no Facebook, o professor Nilson Lage deu o tom dessa crítica:

“Em novo pequeno jato urinário, sai leva fresca de supostos depositantes brasileiros em banco suíço.
“Os agentes que se apossaram da relação completa de correntistas brasileiros no HSBC têm o cuidado de juntar contas ativas e inativas e de misturar os reais possíveis sonegadores com nomes de alta credibilidade.
“Na relação anterior, apareceu, de maneira enviesada, o nome do Alberto Dines, citado como pai de dois cidadãos que não moram no Brasil – e que ele, portanto, nada tem com o caso.
“Agora, ao lado de atores da Globo e outras mediocridades, surgem as contas inativas dos falecidos Jorge Amado e Antônio Carlos Jobim.
“Ambos receberam quantias vultosas do exterior pelos direitos autorais de suas obras, o que provavelmente explica as contas encerradas.
“Essa estratégia objetiva evidentemente diluir a suposta responsabilidade dos depositantes amigos.
“Dines, Jorge, Tom e outros cumprem aí função há muito descrita na crítica do discurso fascista: a ‘vacina’ (Mithologies, R. Barthes, 1957; La propagande politique, Domenach, J-M, 1950)”.

 Para esclarecer, citando Barthes, na edição brasileira: “Vacinar o público com um pouco de mal, para em seguida o mergulhar mais facilmente num Bem Moral doravante imune”. 

 Ao mesmo tempo, é necessário sublinhar o método adotado, que obedece à regra do que costumo chamar de “jornalismo de mãos limpas”: como se bastasse mostrar os dois lados da moeda e lavar as mãos, sem avaliar-lhes a espessura, o peso e a qualidade do material.

 Esta tem sido a fórmula, ao longo das semanas: divulga-se uma lista e ouve-se o “outro lado”, que nega ou silencia.

 É assim que se investiga?

 ***

 Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora deRepórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

quarta-feira, 18 de março de 2015

O incentivo e o clima montado pela "grande mídia" para a eclosão da Manifestação do Ódio, do último dia 15, em artigo de Sylvia Debossan Moretzsohn




  "Martelar uma ideia até que ela seja incorporada pelo público e apareça como expressão espontânea – embora, ao contrário do que se costuma pensar, nada seja, de fato, espontâneo, porque nada surge do nada –, martelar uma ideia até transformá-la em suposta expressão espontânea de uma legítima e inquestionável reivindicação é uma conhecida estratégia da propaganda, que tem a ver com o conceito de “profecia autocumprida”. O sucesso ou fracasso dependerá da predisposição do público em aceitar a ideia."

Texto extraído do Observatório da Imprensa:

JORNALISMO POLÍTICO

A profecia autocumprida

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 16/03/2015 na edição 842
“Contra a corrupção e o governo” era a frase mais repetida na cobertura das manifestações de domingo (15/3) na GloboNews. O professor Guilherme Nery, da Universidade Federal Fluminense, notou a insistência. Não era necessário ser estudioso do assunto, como ele, para perceber a associação semântica: governo = corrupção, e vice-versa. “É gritante a falta de responsabilidade”, concluiu.
Martelar uma ideia até que ela seja incorporada pelo público e apareça como expressão espontânea – embora, ao contrário do que se costuma pensar, nada seja, de fato, espontâneo, porque nada surge do nada –, martelar uma ideia até transformá-la em suposta expressão espontânea de uma legítima e inquestionável reivindicação é uma conhecida estratégia da propaganda, que tem a ver com o conceito de “profecia autocumprida”. O sucesso ou fracasso dependerá da predisposição do público em aceitar a ideia.
O jornalismo transformado em propaganda – esse que, segundo a própria entidade representante das grandes empresas que o produzem, anunciou que assumiria o papel que a oposição não estava conseguindo exercer – tentou essa estratégia no caso do mensalão. Não teve êxito, pelo menos não imediatamente: apesar de tudo, o PT venceu as eleições em 2010. Mas a estratégia se manteve e agora, diante do escândalo da Petrobras, finalmente parece render frutos.
Há fatores concretos para a revolta? Evidentemente sim, e não é preciso ter estômago especialmente sensível para se chegar ao limiar do vômito diante da platitude com que os envolvidos na Operação Lava Jato expõem o sistema de distribuição de propinas milionárias. Mas imaginemos como o público se comportaria se outros escândalos tivessem sido investigados: o caso Sivam, a compra de votos para o segundo mandato de Fernando Henrique, a privatização das teles, o caso Banestado...
O fio da meada
Lembrar esses episódios não significa tentar minimizar ou diluir as atuais denúncias de corrupção, no velho estilo “sou, mas quem não é?” – ou, como disse Lula quando percebeu que não poderia abafar a história do mensalão, “sempre foi assim”, inclusive porque quem votou no PT apostou na mudança. Significa oferecer argumentos para se entender por que “a pecha de corrupto pegou mesmo no PT”, como certa vez comentou um membro do governo, enquanto outros partidos posam de campeões da moralidade.
Se quisermos entender como o movimento pró-impeachment ganhou as proporções atuais, precisaremos recuar até as vésperas do segundo turno, em outubro do ano passado, quando a Veja antecipou a distribuição de sua edição semanal para uma sexta-feira e saiu com a famosa capa – pela qual foi condenada a oferecer direito de resposta – acusando Dilma e Lula de saberem “de tudo”. (“Tudo”, como se recorda, era o esquema de corrupção na Petrobras, e a denúncia se baseava em depoimento do doleiro Alberto Youssef, pelo acordo de delação premiada.)
Naquela mesma sexta-feira, o jornalista Merval Pereira, de O Globo,escreveu que, se comprovada a denúncia, “o impeachment da presidente será inevitável, caso ela seja reeleita no domingo”. Escreveu assim, no meio da coluna, como quem não quer nada, e ali plantou a semente.
O desdobramento é conhecido: no domingo seguinte, Dilma foi reeleita por pequena margem e já na segunda-feira um grupo saía às ruas de São Paulo para pedir o impeachment. Trinta pessoas: uma irrelevância que, entretanto, O Globo transformou em notícia. Ao mesmo tempo, a eleição era posta sob suspeita pelo PSDB, que ensaiou um pedido de recontagem de votos. Foi-se consolidando, entre os derrotados, o sentimento de que o governo era espúrio e precisava ser derrubado.
O cúmulo da parcialidade
A imprensa fez a sua parte: contrariando os critérios elementares que levam um fato a se tornar notícia, cobriu os mais insignificantes atos em favor do impeachment, como o promovido por um grupelho de direita que destila seu ódio nas redes sociais e reuniu 20 (vinte) pessoas no Centro do Rio de Janeiro, na quarta-feira (11/3). Na sexta (13/3), dia da manifestação organizada pela CUT, ao mesmo tempo favorável e crítica ao governo, O Estado de S.Paulo dedicou em seu site uma notícia de cinco parágrafos (ver aqui) para a presença de oito (repito: oito) pessoas que, em Brasília, protestaram contra Dilma. (A notícia original falava em seis, mas foi atualizada.)
Na semana que culminou com a monumental manifestação em São Paulo, a Folha de S.Paulo foi “desequilibrada”, ora com a avalanche de notícias negativas para o governo, ora com o tratamento díspare dedicado aos atos a favor e contra Dilma. Assim avaliou a ombudsman do jornal, que entretanto não apontou o cúmulo da parcialidade, revelado num detalhe: ao pé de reportagem sobre os protestos, na página 6 do caderno principal da edição de 10/3, o jornal publicava um quadro no estilo “serviço”, informando os “Atos contra Dilma”, “quando” e “onde”. O que levou o escritor e humorista Gregório Duvivier a publicar uma montagem no Instagram: “Onde? Shopping JK Iguatemi. Serviços: babá, empregada e open bar”.
O pequeno “tijolinho” provocou também a ironia de uma jovem jornalista, que lembrou a campanha publicitária do jornal e sugeriu um texto mais honesto: “A Folha é contra a Dilma. Eu também”.
Na véspera – ou seja, no início da semana –, o site da Folha publicava um “mapa interativo” dos protestos e destacava os “grupos contra Dilma”, prometendo informar “quem são os organizadores”. A reportagem, entretanto, se limitava a entrevistar os líderes daquelas organizações, que é a isso que se resume o jornalismo amestrado. (A expressão é do jornalista Licínio Rios Neto, num artigo publicado no final dos anos 1980. Não é fenômeno recente, portanto.)
Criando o clima
Traçar esse quadro propício à explosão da revolta contra o governo é apontar o sucesso da profecia autocumprida empreendida por uma imprensa que ajuda a criar o clima favorável para depois colher os resultados, com a agravante de esconder seu próprio papel nesse processo ao apresentar-se como responsável por simplesmente “relatar fatos”.
Esse “simples relato”, que passa ao largo de uma apuração criteriosa, facilitou o discurso mistificador de parte dos organizadores do protesto, que evitaram – de acordo com a orientação geral das próprias lideranças do PSDB – carregar nas tintas do impeachment. Contrariando as evidências expostas nas faixas mais exuberantes, que pediam o afastamento da presidente, eles anunciaram que iriam às ruas em nome da democracia e contra a corrupção. Como se não estivéssemos vivendo em pleno regime democrático e os escândalos não estivessem sendo apurados, aliás de maneira inédita: o curioso, nessa história, é perceber que o ônus recai sobre quem apura.
Da mesma forma, tanto esses organizadores quanto a própria mídia tentaram minimizar o impacto das faixas e cartazes exortando o retorno dos militares – algumas falavam em “intervenção militar constitucional” – e destilando ódio contra a suposta “doutrinação marxista nas escolas”, o que incluía um “basta a Paulo Freire”. Houve mesmo quem sugerisse que estas seriam manifestações plantadas pelo PT para desqualificar o movimento, o que nem a imprensa mais antigovernista – com o perdão do pleonasmo – ousou acolher.
Brincando com o perigo
Não foram poucos os que, nas redes sociais, denunciaram o risco da aliança com esse “ovo da serpente”, justamente no dia em que o país completava 30 anos de democracia.
“Contra a corrupção e o governo”, essa perversa associação semântica, favorece a onda pró-impeachment. Um bom jornalismo poderia apontar o vazio da primeira consigna, apresentada assim genericamente: quem pode ser a favor da corrupção, a não ser os próprios beneficiários do esquema, que entretanto não podem assumir-se como tais? Poderia apontar, também, filigranas que talvez causassem algum mal-estar: as pequenas espertezas cotidianas dessa multidão que se perfila com a mão no peito para cantar o hino nacional a plenos pulmões, vestida com as cores da bandeira e convicta da retidão de sua conduta.
Mas, principalmente, poderia lembrar que essa palavra de ordem genérica – quantos notaram a ausência de demandas pela reforma política e pela mudança nas regras de financiamento de campanha? – estimula reações histéricas de nefastas consequências.
Porque, sim, o governo pode ser derrubado, por vias legais ou não. Mas não custaria recordar que foi em nome do fim da corrupção – e da ameaça comunista, associada ao então governo constitucional e “corrupto” – que se promoveu o golpe, há mais de meio século.
***
Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora deRepórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)