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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Uma instigante conversa entre Carl Gustav Jung e Mircea Eliade





 O angtropólogo, historiador e cientista das religiões Mircea Eliade recupera uma conversa que teve com Jung em 1952, durante uma reunião do Círculo Eranos, grupo de cientistas, humanistas, pensadores, que se reuniam  durante alguns dias, sob a tutela de Olga Fröbe-Kapteyn, para discutir temas relacionados ao simbolismo, à religião, física e psicologia. Ficamos sabendo como Jung chegou à descoberta do inconsciente coletivo, suas ideias a respeito de Deus, a interpretação reveladora sobre o Livro de Jó, uma exposição detalhada e esclarecedora sobre Alquimia e suas relações com o psiquismo, a necessidade de integração da sombra e os sonhos.

Fonte: Monomito.org (o texto da entrevista de Elide com Jung foi extraído do livro "Carl Gustav Jung: Entrevistas e Encontros" - de William McGuire e E.F.C. Hull, publicado pela Editora Cultrix, São Paulo)


Eliade: Aos 77 anos de idade, o Professor C. G. Jung nada perdeu de sua extraordinária vitalidade, de seu surpreendente espírito juvenil. Ele acabou de publicar, um após outro, três novos livros: sobre o simbolismo de Aion (Tempo), sobre Sincronicidade, e Resposta a Jó, o qual já deu origem a reações sensacionais, especialmente entre os teólogos.

Jung: Esse livro sempre esteve em minha mente, mas aguardei 40 anos para escrevê-lo. Fiquei terrivelmente chocado quando, ainda criança, li o Livro de Jó pela primeira vez. Descobri que Javé é injusto, que é mesmo um malvado. Pois permite-se ser persuadido pelo diabo, concorda em torturar Jó por sugestão de Satã. Na onipotência de Javé não existe consideração pelo sofrimento humano. São abundantes os exemplos da injustiça de Javé em certos escritos hebraicos. Mas não é esse o ponto; o ponto que interessa é a reação do crente à injustiça. A questão é a seguinte: Existe na literatura rabínica qualquer prova da existência de reflexão crítica ou de uma reconciliação desse conflito na Deidade? Num texto tardio (Talmud babilônico), Javé solicita a bênção do sumo sacerdote Ishmael, e Ishmael responde-lhe: “Seja a Tua vontade que a Tua misericórdia suprima a Tua ira, e que a Tua compaixão possa prevalecer sobre os Teus outros atributos.."

O Todo-Poderoso sente que um homem verdadeiramente santificado é superior a Ele.

É possível que tudo isso seja uma questão de linguagem. Pode ser que aquilo a que chamamos a “injustiça” e a “crueldade” de Javé sejam apenas fórmulas aproximadas e imperfeitas para expressar a transcendência total de Deus. Javé é “Aquele que é”, de modo que está acima e além do bem e do mal. Ele é impossível de ser apreendido, compreendido, formulado; por conseguinte, é misericordioso e injusto simultaneamente. Isto é uma maneira de dizer que nenhuma definição pode circunscrever Deus, nenhum atributo esgota as suas potencialidades.

Eu falo como psicólogo e, sobretudo, estou falando do antropomorfismo de Javé e não de sua realidade teológica. Como psicólogo, digo que Javé é contraditório, e também penso que essa contradição pode ser interpretada psicologicamente. A fim de testar a fidelidade de Jó, Javé concede a Satã uma licença quase ilimitada. Ora, esse fato não está isento de conseqüências para a humanidade. Eventos muito importantes são iminentes no futuro por causa do papel que Javé se sentiu obrigado a atribuir a Satã. Diante da crueldade de Javé, Jó está silencioso. Esse silêncio é a mais bela e a mais nobre resposta que o homem pode dar a um Deus onipotente. O silêncio de Jó é já uma anunciação do Cristo. De fato, Deus fez-se homem, tornou-se Cristo, a fim de redimir a sua injustiça para com Jó.

Javé errou mas reconheceu o erro. Será Jó sabedor disso? De qualquer modo, a posteridade percebeu o conflito doloroso causado pela imoralidade de Javé. Há a história de um sábio muito piedoso e devoto que não suportava ler o Salmo 89. Jó está certamente consciente da injustiça divina e, assim, está mais consciente do que Javé. É a superioridade sutil do progresso do homem em consciência moral, em face de um Deus menos consciente. Essa é a razão para a Encarnação.

O grande problema em psicologia é a integração de opostos. Encontramo-lo em toda a parte e em todos os níveis. Em Psicologia e Alquimia tive ocasião de me interessar pela integração de Satã. Pois enquanto Satã não for integrado, não haverá cura para o mundo nem salvação para o homem. Mas Satã representa o mal – e como pode o mal ser integrado? Só existe uma possibilidade: assimilá-lo, ou seja, elevá-lo ao nível da consciência. Isso é feito mediante um processo simbólico muito complicado, o qual é mais ou menos idêntico ao processo psicológico de individuação. Em alquimia, chama-se a conjunção dos dois princípios. De fato, a alquimia assumiu e levou por diante a obra do cristianismo. Na concepção alquimista, o cristianismo salvou o homem, mas não a natureza. O sonho do alquimista era salvar o mundo em sua totalidade; a pedra filosofal foi concebida como o filius macrocosmi, o que salva o mundo, ao passo que o Cristo era o filius microcosmi, o salvador apenas do homem. A finalidade suprema do opus alquímico é a apokatastasis, a salvação cósmica.

Estudei alquimia durante 15 anos, mas nunca falei sobre isso a ninguém; não desejava influenciar os meus pacientes ou meus colegas de trabalho por sugestão. Mas, após 15 anos de pesquisa e observação, impuseram-se-me conclusões inelutáveis. As operações alquímicas eram reais, só que essa realidade não era física mas psicológica. A alquimia representa a projeção de um drama cósmico e espiritual em termos de laboratório. O opus magnum tinha duas finalidades: o resgate da alma humana e a salvação do cosmo. Aquilo a que o alquimista chamava “matéria” era, na realidade, o eu (inconsciente). A “alma do mundo” (anima mundi), que foi identificada com o spiritus mercurius, estava aprisionada na “matéria”. Por essa razão é que o alquimista acreditava na verdade da “matéria”, porquanto a “matéria” era, na realidade, a própria vida psíquica do alquimista. Mas era uma questão de libertar essa “matéria”, de salvá-la – numa palavra, de descobrir a pedra filosofal, o corpus glorificationis.

Esse trabalho é difícil e repleto de obstáculos; o opus alquímico é perigoso. Logo no começo encontramos o “dragão”, o espírito ctônico, o “diabo” ou, como os alquimistas lhe chamavam, a “escuridade”, o nigredo, e esse encontro produz sofrimento. A “matéria” sofre até ao desaparecimento final da escuridade; em termos psicológicos, a alma encontra-se nas vascas da melancolia e da angústia travando uma luta com a “sombra”. O mistério da conjunção (coniunctio), o mistério central da alquimia, visa precisamente a síntese dos opostos, a assimilação da escuridade, a integração do diabo. Para o cristão “despertado” isso constitui uma experiência psíquica muito séria, pois trata-se de um confronto com a sua própria “sombra”, com a escuridade, o nigredo, que permanece à parte e nunca pode ser completamente integrado na personalidade humana.

Ao interpretar-se o confronto do cristão com sua sombra em termos psicológicos, descobre-se o medo oculto de que o diabo seja mais forte, de que Cristo não tenha conseguido conquistá-lo completamente. Caso contrário, por que se acreditava e ainda se acredita no Anticristo? Por que se aguardava e continua se aguardando a vinda do Anticristo? Porque só depois do reino do Anticristo e só depois do segundo advento do Cristo o mal será finalmente conquistado no mundo e na alma humana. Em nível psicológico, todos esses símbolos e crenças são interdependentes; é sempre uma questão de lutar com o diabo, com Satã, e de conquistá-lo, ou seja, de assimilá-lo, integrando-o na consciência. Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até que o nigredo desapareça, quando a aurora será anunciada pela cauda do pavão (cauda pavonis) e um novo dia nascerá, o leukosis ou albedo. Mas nesse estado de “brancura” não se vive, na verdadeira acepção da palavra; é uma espécie de estado ideal, abstrato. Para insuflar-lhe vida, deve ter “sangue”, deve possuir aquilo a que os alquimistas chamam o rubedo, a “vermelhidão” da vida. Só a experiência total da vida pode transformar esse estado ideal do albedo num modo de existência plenamente humano. Só o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que o derradeiro vestígio de escuridade é dissolvido, em que o diabo deixa de ter uma existência autônoma e se junta à profunda unidade da psique. Então, o opus magnum está concluído: a alma humana está completamente integrada.

Eu sou e continuo sendo um psicólogo. Não estou interessado em qualquer coisa que transcenda o conteúdo psicológico da experiência humana. Nem sequer pergunto a mim mesmo se tal transcendência é possível, visto que, em qualquer caso, o transpsicológico tampouco é de interesse para o psicólogo. Mas no nível psicológico tenho que ocupar-me das experiências religiosas que possuem uma estrutura e um simbolismo que pode ser interpretado. Para mim, a experiência religiosa é real, é verdadeira. Apurei que, através de tais experiências religiosas, a alma pode ser “salva”, a sua integração acelerada, e estabelecido o equilíbrio espiritual. Para mim, como psicólogo, o estado de graça existe: é a perfeita serenidade da alma, um equilíbrio criativo, a fonte de energia espiritual. Falando sempre como psicólogo, afirmo que a presença de Deus é manifesta, na experiência profunda da psique, como uma coincidentia oppositorum, e toda a história da religião, todas as teologias, dão testemunho do fato de que a coincidentia oppositorum é uma das mais comuns e mais arcaicas fórmulas para expressar a realidade de Deus. A experiência religiosa é numinosa, como Rudolf Otto a designa, e, para mim, como psicólogo, essa experiência difere de todas as outras de um modo que transcende as categorias ordinárias de espaço, tempo e causalidade. Recentemente, empenhei-me no estudo da sincronicidade (em poucas palavras, a “ruptura do tempo”), e estabeleci que se assemelha estreitamente às experiências numinosas em que espaço, tempo e causalidade são abolidas. Não aplico qualquer juízo de valor à experiência religiosa. Afirmo que um conflito interno é sempre a fonte de profundas e perigosas crises psicológicas, tão perigosas que podem destruir a integridade de um homem. Esse conflito interno manifesta-se psicologicamente nas mesmas imagens e no mesmo simbolismo testemunhados por toda e qualquer religião no mundo, e utilizados também pelos alquimistas.

Por isso me interessei pela religião, por Javé, Satã, Cristo, pela Virgem. Entendo muito bem que um crente veja algo muito diferente nessas imagens do que eu, como psicólogo, tenho o direito de ver. A fé de um crente é uma grande força espiritual, é a garantia de sua integridade psíquica. Mas eu sou médico e estou interessado em curar os meus semelhantes. A fé e somente a fé já não tem poder – infelizmente! – para curar certas pessoas. O mundo moderno está dessacralizado; por isso está em crise. O homem moderno deve redescobrir uma fonte mais profunda de sua própria vida espiritual. Para tanto, é obrigado a lutar com o diabo, a enfrentar sua própria sombra, a integrar o diabo. Não há outra escolha. É por isso que Javé, Jó, Satã, representam situações psicologicamente exemplares; eles são como paradigmas do eterno drama humano.

Eliade: Jung descobriu o inconsciente coletivo – quer dizer, tudo o que precede a história pessoal do ser humano – e aplicou-se a decifrar as suas estruturas e a sua “dialética”, com vistas a facilitar a reconciliação do homem com a parte inconsciente de sua vida psíquica e a conduzi-lo no sentido da integração de sua personalidade. Ao invés de Freud, Jung toma em consideração a história: os arquétipos, essas estruturas do inconsciente coletivo, estão carregados de história. Já não é uma questão, como quer Freud, de uma “espontaneidade natural” do inconsciente de cada indivíduo, mas de um imenso reservatório de lembranças históricas, uma memória coletiva na qual é preservada, em essência, a história de toda a humanidade. Jung acredita que o homem deve fazer maior uso desse reservatório; o seu método analítico dedica-se, precisamente, a encontrar os meios adequados para usá-lo.

Jung: O inconsciente coletivo é mais perigoso do que dinamite, mas existem métodos para manipulá-lo sem maiores riscos. Depois, quando se desencadeia uma crise psicológica, estamos em melhor posição do que qualquer outro para resolvê-la. Temos sonhos e devaneios; tratemos de os observar. Poderíamos quase dizer que todo o sonho, à sua própria maneira, contém uma mensagem. Ela não só nos diz que algo está errado nas profundidades do nosso ser, mas também nos oferece uma solução para sair da crise. Pois o inconsciente coletivo que nos envia esses sonhos já possui a solução: nada se perdeu da toda a experiência imemorial da humanidade, toda a situação imaginável e toda a solução parecem ter sido previstas pelo inconsciente coletivo. Basta apenas que observemos cuidadosamente. A análise ajuda a ler corretamente essas mensagens.

Eliade: Foi observando seus próprios sonhos – que ele tentou em vão interpretar nos termos da psicanálise freudiana – que Jung foi levado a pressupor a existência do inconsciente coletivo. Isso aconteceu em 1909. Dois anos depois, começou a dar-se conta da importância de sua descoberta. Finalmente, em 1914, ainda em conseqüência de uma série de sonhos e devaneios, ele compreendeu que as manifestações do inconsciente coletivo são, em parte, independentes das leis do tempo e da causalidade. Como o Professor Jung amavelmente me permitiu que falasse desses sonhos e devaneios, os quais desempenharam um papel capital em sua carreira científica, eis um resumo deles.

Jung: Em outubro de 1913, enquanto viajava de trem de Zurique para Schaffhausen, ocorreu-me um estranho incidente. Ao atravessar um túnel, perdi a consciência de tempo e lugar, e só fui acordado uma hora depois, quando o condutor anunciou a chegada a Schaffhausen. Durante todo esse tempo fui vítima de uma alucinação, de um devaneio. Estava olhando para o mapa da Europa e vi como, país por país, começando com a França e a Alemanha, a Europa era tragada pelo mar, até ficar submersa. Pouco depois, todo o continente era um lençol de água, com exceção da Suíça; a Suíça era como uma alta montanha que as ondas não podiam alcançar. Vi-me sentado na montanha. Mas então, olhando mais atentamente à minha volta, percebi que o mar não era de água, mas de sangue. Flutuando sobre as ondas havia cadáveres, telhados de casas, madeiras calcinadas.

Três meses mais tarde, em dezembro de 1913, e novamente no trem que me levava a Schaffhausen, repetiu-se o mesmo devaneio, de novo ao entrar no túnel (Dei-me conta, subseqüentemente, de que era como uma imersão no inconsciente coletivo). Como psiquiatra, fiquei preocupado, imaginando se eu não estaria a caminho de “fazer uma esquizofrenia”, como dizíamos na linguagem desses tempos. Finalmente, alguns meses mais tarde, tive o seguinte sonho: Vi-me nos mares do sul, perto de Sumatra, no verão, acompanhado de um amigo. Mas soubemos pelos jornais que uma terrível onda de frio tinha varrido a Europa, como não havia notícia de que tivesse ocorrido antes. Decidi ir até Batávia e embarcar num navio de volta à Europa. O meu amigo disse-me que pegaria um veleiro de Sumatra para Hadramaut, e daí continuaria sua viagem através da Arábia e Turquia. Cheguei à Suíça. Em meu redor só via neve e mais neve. Uma vinha enorme estava crescendo algures; tinha muitos cachos de uvas. Acerquei-me e comecei apanhando as uvas, distribuindo-as por um magote de gente que me rodeava mas que eu não podia ver.

Três vezes esse sonho se repetiu e, finalmente, fiquei deveras intranqüilo. Eu estava justamente nessa época preparando uma conferência sobre esquizofrenia, para ser lida num congresso em Aberdeen, e não me cansava de repetir para mim mesmo: “Estarei falando de mim mesmo! Muito provavelmente enlouquecerei depois de ler a conferência”. O congresso teria lugar em julho de 1914 – exatamente o período em que, nos meus três sonhos, via-me viajando pelos mares do sul. A 31 de julho, imediatamente após a minha conferência, soube pelos jornais que eclodira a guerra. Finalmente entendi tudo. E quando desembarquei na Holanda, no dia seguinte, ninguém era mais feliz do que eu. Agora tinha a certeza de que nenhuma esquizofrenia me ameaçava. Compreendi que os meus sonhos e as minhas visões me chegavam do subsolo do inconsciente coletivo. O que me restava agora fazer era aprofundar e validar essa descoberta. E isso é o que estou tentando fazer há 40 anos.

Eliade: Jung ficou satisfeito ao receber uma segunda explicação desse sonho pouco depois. Os jornais não tardaram em noticiar que um capitão da Marinha alemã, de nome von Mücke, que tinha cruzado os mares do sul num veleiro, de Sumatra para Hadramaut, se refugiara na Arábia e daí alcançara a Turquia.

Retirado do livro “C. G. Jung: Entrevistas e Encontros”, de William McGuire e R.F.C. Hull (Cultrix)

Entrevista do Prof. Mircea Eliade com Jung, em 1952.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Biologia, Psicologia e Espiritualidade em discussão sobre a Sincronicidade


   "O Biólogo britânico Dr. Rupert Sheldrake e o famoso psiquiatra suíço Dr. Carl Jung adotaram diferentes, mas complementares, abordagens para a sincronicidade. Sincronicidade refere-se a coincidências que aparecem entre o estado mental de alguém e os eventos que ocorrem no mundo externo em que se encontra esta pessoa."

Segue texto, traduzido, extraído do site Epoch Times:

Biologia, Psicologia e Misticismo Unidos na Discussão da Sincronicidade


Texto de  Tara McIsaac, Epoc Times, 1º de setembro de 2015

Tradução e notas de Carlos Antonio Fragoso Guimarães



À esquerda, Dr. Rupert Sheldrake, biólogo e bioquímico, que escreveu amplamente sobre a "mente extendida". À direita, o psiquiatra Carl Gustav Jung, que cunhou o termo "sincronicidade".


  O universo é cheio de mistérios que desafiam nosso conhecimento atual. Em "Beyond Science" Epoch Times recolhe histórias sobre esses fenômenos estranhos para estimular a imaginação e abrir inimagináveis ​​possibilidades. Elas são verdadeiras? Você decide.

  O Biólogo britânico Dr. Rupert Sheldrake e o famoso psiquiatra suíço Dr. Carl Jung adotaram diferentes - mas complementares - abordagens para a sincronicidade. Sincronicidade refere-se a coincidências que aparecem entre o estado mental de alguém e os eventos que ocorrem no mundo externo em que se encontra esta pessoa.

  Um exemplo simples, bem comum, é aquele que ocorre quando você pensa em alguém e seu telefone toca instantaneamente e é essa pessoa na linha. Mas muitas sincronicidades são mais bizarras e complexas.

 Jung cunhou o termo "sincronicidade" e abordou este fenômeno misterioso de uma perspectiva psicológica, formando uma base teórica para entendê-lo. Sheldrake - que conta entre as suas credenciais o fato de trabalhar em biologia do desenvolvimento na Universida de Cambridge - tem gasto décadas na coleta de evidências para sustentar a existência física de um campo psíquico que se estende além do corpo. Sua especialidade é a "mente estendida".

 Uma recém-gravada entrevista exclusiva com Sheldrake será incluída em um webinar (discussão via internet) a começar no dia 27 de setembro, intitulado "Jung e Sheldrake: Sincronicidade & Mente Estendida" O webinar vai abrir uma discussão sobre sincronicidade ante uma variedade de diferentes perspectivas. O anfitrião da discussão, Gary Bobroff, é um autor, palestrante e líder da oficina com um mestrado em psicologia; sua co-anfitriã, Cynthia Cavalli, tem um Ph.D. em Sistemas Humanos, uma MBA e uma especialização em Física.

   A Perspectiva do biólogo

  Começando com a pesquisa "mente estendida" de Sheldrake, Bobroff disse à Epoch Times sentir que pode fundamentar a discussão da sincronicidade na ciência física.

 Um exemplo da pesquisa de Sheldrake ao longo desta linha são seus estudos sobre a sensação de estar sendo observado. É do conhecimento comum entre investigadores, inspetores de drogas de aeroporto, detetives privados, atletas de artes marciais, entre outros, que as pessoas podem sentir quando outros estão olhando para elas, Sheldrake, disse em um vídeo gravado em 2014  intitulado Synchronicity: Simpósio Matéria & Psique.

  Os estagiários e treinandos para os serviços britânicos, disse ele, são orientados para não olhar as costas das pessoas quando as seguirem porque elas são susceptíveis de virarem-se.

  Bobroff disse que seu primo, um reservista das Forças Armadas do Canadá, também foi treinado recentemente para não olhar diretamente para alguém que ele esteja tentando investigar. Os desportistas marciais, por outro lado, treinam para aumentar a sua sensibilidade ao olhar dos outros para, assim, estarem mais propensos a sentir a aproximação de um adversário.

  Sheldrake citou um estudo no Museu da Ciência Amsterdam com dezenas de milhares de pessoas para ver se eles poderiam corretamente adivinhar se alguém estava olhando para eles.

  No estudo, a uma pessoa seria dito aleatoriamente para olhar para um sujeito ou desviar o olhar e pensar em outra coisa. O suejti-alvo teria de decidir dentro de 10 segundos se ele ou ela estava sendo olhado. As taxas de sucesso foram significativamente acima do acaso esperado. Crianças com menos de 9 anos de idade foram especialmente sensíveis.

  "Os professores usam o poder do olhar o tempo todo", disse Sheldrake.

  Ele também citou um estudo pelo Dra. Marilyn Schlitz, com sujeitos em que se registou uma resposta galvânica da pele quando eles estavam sendo observados através de um circuito fechado de TV.

  Nestes e em outros estudos que Sheldrake tem revisto ou conduzidos sugerem, diz ele, que a mente pode ter algum impacto físico além para do corpo. Em sincronia, tudo indica que a mente de uma pessoa e o mundo à sua volta parecem estar conectadas de uma maneira misteriosa.

 Como a Emoção está envolvida

  Bobroff observou que o trabalho de Sheldrake também destaca o papel da emoção na criação ou ecolosão da sincronicidade.

  Olhando para os estudos acadêmicos sobre Psi (fenômenos psíquicos, incluindo clarividência, precognição, telepatia, etc.) ao longo do século passado, Sheldrake destaca que as maiores taxas de sucesso destes eventos ocorrem entre os membros da família - e especialmente entre gêmeos. As piores taxas de sucesso foram encontrados entre aqueles que não acreditavam em psi. Essas pessoas ficaram abaixo da média. Eles mostraram um resultado estatisticamente significativo por estarem abaixo do acaso, sugerindo que descrença pode impactar negativamente psi - ironicamente, um evento que, por desviar-se da média de acertos esperada pelo acaso, acaba por apoiar a hipótese de que psi existe .

(Nota do Tradutor. - O Termo PSI é utilizado, atualmente, para denominar as capacidades metapsíquicas ou parapsicológicas, como, por exemplo, a precognição ou a telepatia).

 Estados e atitudes emocionais parecem afetar ( fortalecendo ou enfraquecendo ) a parte da "mente" que se estende para além do corpo.

 "Não há tal coisa como uma sincronicidade, sem que haja sentimento", disse Bobroff. "Existe uma maneira de um pai pode saber se um filho ou filha do outro lado do mundo está em perigo. Há uma indicação de que esses campos prolongados de consciência não são simplesmente apenas campos mentais, eles também são campos emocionais. " 

(Nota do Tradutor: O pesquisador francês Charles Richet (1850-1935), Prêmio Nobel de Medicina em 1913, cunhou o termo Criptestesia, ou seja, conhecimento oculto, para a capacidade - quase sempre espontânea e inesperada - de se obuter um conhecimento inabitual, fora do alcance dos sentidos. A Sincronicidade, por sua vez, parece envolver uma espécie de ressonância entre um estado mental-emocional e o meio físico ao redor. De fato, algum evento externo parece "estar ligado" a um momento psicológico especial do sujeito a quem ocorrem o fenômeno. Isso implica que um aspeco de nosso psiquismo se expressa para além do corpo, para além do cérebro, ainda que de modo inconsciente).

  A Perspectiva do Psicólogo

 Jung advertiu contra uma analise das sincronicidades de uma forma apenas baseada na razão ou expectativas do ego, ou, seja, da parte consciente da mente, explicou Bobroff. Por exemplo, uma coincidência relacionada com um relacionamento romântico pode não significar necessariamente que a relação está "destinada a existir." Não devemos expor sincronicidades para dizer o que queremos ou gostaríamos que elas signifiquem.

 Bobroff estava dirigindo em sua província natal de Saskatchewan, no Canadá, em direção ao oeste de Calgary, na província de Alberta. Ele parou para abastecer e ali encontrou-se com a sua namorada do colegial. Ela também estava indo para Calgary, Alberta. Perceberam, então, que fazia naquele dia exatamente há dez anos que eles tinham viajado juntos para Calgary, como namorados.

"Eu não acho que seja necessariamente a resposta do ego para "Devemos voltar a ficar juntos? '", Disse. Em vez disso, há simplesmente "algo em nosso mundo que honra conexões do coração."

  Ele também reflete sobre os antigos modos de pensamento chineses para entender a sincronicidade. "Eu sou sincero em minha ligação com o universo?", pergunta a si mesmo. Ele reflete que tipos de mudanças está sendo chamado a fazer pelo evento, daqui para frente. Jung também teve sincronicidades como sinais para olhar para dentro e refletir.

  Para Bobroff, sincronicidade reúne o espírito e a matéria. Ele traz mistério, magia, um espírito de volta em um momento em que "estamos tão alto em nós mesmos que até pensamos que fomos nós inventamos o mundo."

sábado, 23 de maio de 2015

Goethe e a Sincronicidade ou a Divina Providência




Carlos Antonio Fragoso Guimarães

 O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) denominou de "Sincronicidade" aquelas "coincidências" que, de tão significativas para quem as vivencia, chega a abalar positivamente a alma da pessoa, fazendo-a mudar, ao menos por um tempo, sua perspectiva de mundo De certa forma, uma certa configuração emocional e cognitiva interna parece ser reforçada por eventos externos.
  O poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) conhecia bem tais fatos, as sincronicidades, ocorridas por diversas vezes na sua vida e que ele, e sua cultura, interpretavam - talvez em certa medida corretamente - como manifestação da Providência Divina. Vejamos um poema em que ele reflete sobre tais eventos:


A Providência Divina

Em relação a todos os atos de iniciativa e de criação
existe uma verdade elementar:
no momento em que nos compromissamos,
a Providência Divina 
também se põe em movimento.
Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor.
Como resultado da decisão,
seguem todas as formas imprevistas de coincidências,
encontros e ajudas, que nenhum ser humano
jamais poderia ter sonhado encontrar.
Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar,
você pode começar.
A coragem contém em si mesma
o poder,
o gênio
e a magia.

Johann von Goethe (1749-1832)

Segue, agora, artigo de Letícia Capriotti sobre o tema, extraído do site Symbolon:

JUNG E SINCRONICIDADE: O CONCEITO E SUAS ARMADILHAS

Letícia Capriotti
O CONCEITO DE SINCRONICIDADE

A sincronicidade é um conceito empírico que surge para tentar dar conta daquilo que foge à explicação causal. Jung diz que “a ligação entre os acontecimentos, em determinadas circunstâncias, pode ser de natureza diferente da ligação causal e exige um outro princípio de explicação” (CW VIII, par. 818). A física moderna tornou relativa a validade das leis naturais e assim percebemos que a causalidade é um princípio válido apenas estatisticamente e que não dá conta dos fenômenos raros e aleatórios.

Ao longo de sua obra, Jung deu várias definições ao conceito de sincronicidade. Aqui estão algumas delas:

> “... coincidência, no tempo, de dois ou vários eventos, sem relação causal mas com o mesmo conteúdo significativo.” (CW VIII, par.849)

> “... a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa.” (CW VIII, par. 850)

> “Um conteúdo inesperado, que está ligado direta ou indiretamente a um acontecimento objetivo exterior, coincide com um estado psíquico ordinário.” (CW VIII, par. 855)

> “...um só e o mesmo significado (transcendente) pode manifestar-se simultaneamente na psique humana e na ordem de um acontecimento externo e independente.” (CW VIII, par.905)

> “um caso especial de organização acausal geral.” (CW VIII, par.955)

> “coincidência significativa de dois ou mais acontecimentos, em que se trata de algo mais do que uma probabilidade de acasos.” (CW VIII, par. 959)

> “uma peculiar interdependência de eventos objetivos entre si, assim como os estados subjetivos (psíquicos) do observador ou observadores.” (I Ching, p.17)

> “o princípio da causalidade nos afirma que a conexão entre a causa e o efeito é uma conexão necessária. O princípio da sincronicidade nos afirma que os termos de uma coincidência significativa são ligados pela simultaneidade e pelo significado”. (CW VIII, par. 906)

Jung define também três categorias de sincronicidade:

1. coincidência de um estado psíquico com um evento externo objetivo simultâneo.

2. coincidência de um estado psíquico com um evento externo simultâneo mas distante no espaço.

3. coincidência de um estado psíquico com um evento externo distante no tempo.

Através da definição destas categorias, podemos perceber que nos fenômenos sincronísticos, o tempo e o espaço são relativos, isto é, o fenômeno acontece independente destes. Basicamente o que define a sincronicidade são a coincidência e o significado.

Jung observou também que tais coincidências ocorrem principalmente quando um arquétipo está constelado. O arquétipos são fatores psicóides que possuem uma transgressividade pois “não se acham de maneira certa e exclusiva na esfera psíquica, mas podem ocorrer também em circunstâncias não psíquicas (equivalência de um processo físico externo com um processo psíquico).” (CW VIII, par. 954) 

Jung propõe que o princípio de sincronicidade seja acrescentado à tríade espaço, tempo e causalidade, dizendo que “o espaço, o tempo e a causalidade, a tríade da Física clássica, seriam complementados pelo fator sincronicidade, convertendo-se em uma tétrada, um quatérnio que nos torna possível um julgamento da totalidade”(CW VIII, par. 951). Um gráfico então ficaria assim:

Espaço

Causalidade --------------------------- Sincronicidade

Tempo

Porém através de sugestões de Pauli, Jung e ele modificam o gráfico substituindo o esquema clássico da física pelo moderno, ficando assim:

Energia Indestrutível

Conexão constante de Conexão inconstante
fenômenos através do ------------------------------------------------------- através de contingência efeito (causalidade) com identidade de significado (sincronicidade)

Continuum Espaço-Tempo

Através desse modelo, a microfísica e a psicologia profunda se aproximam, chegando na concepção dos arquétipos como constantes psicofísicos da natureza e fatores estruturantes criativos.

Jung referiu-se à sua definição de sincronicidade como sincronicidade em sentido estrito e a diferenciou de uma visão mais abrangente de sincronicidade que chamou de ordenação acausal. Os fenômenos sincronísticos em sentido estrito são “atos de criação” no tempo, e incluem a telepatia, fenômenos ESP e PK. Já a organização acausal geral inclui todos estes “atos de criação” e todos os fatores a priori como as propriedades dos números inteiros e as descontinuidades da física moderna.

É com base neste princípio de organização acausal geral que Jung tece suas considerações sobre o número. Ele diz que o cálculo é o método mais apropriado para se tratar do acaso, pois o número é misterioso, nunca foi despojado de sua aura numinosa. “Se, como diz qualquer manual de Matemática, um grupo de objetos for privado de todas as suas características, no final ainda restará o seu número, o que parece indicar que o número possui um caráter irredutível.” Pelo fato de o número ser o elemento ordenador mais primitivo do espírito humano, ele “é o instrumento indicado para criar a ordem ou para apreender uma certa regularidade já presente, mas ainda desconhecida, isto é, um certo ordenamento entre as coisas.” Por isso Jung chegou a chamar o número de “o arquétipo da ordem que se tornou consciente” e cita a estrutura matemática das mandalas, produtos espontâneos do inconsciente para chegar à conclusão de que “o inconsciente emprega o número como fator ordenador”. (CW VIII, par.870)

Os precursores históricos

Jung dedica uma parte do “Sincronicidade: um princípio de conexões acausais” para falar dos precursores históricos da sincronicidade. Ele afirma que a concepção chinesa da realidade, e particularmente o conceito de Tao, é, em grande parte, sincronística. Ele diz: “...segundo a concepção chinesa, há uma “racionalidade” latente em todas as coisas. Esta é a idéia fundamental que se acha na base da coincidência significativa: esta é possível porque os dois lados possuem o mesmo sentido.” (CW VIII, par. 912)

Aqui no ocidente esse princípio existiu por muito tempo. Jung diz que “a concepção primitiva, assim como a concepção clássica e medieval da natureza, postulam a existência de semelhante princípio ao lado da causalidade.” (CW VIII, par. 929) A idéia de uma unidade de toda a natureza (unus mundus) permeia essas concepções, e portanto nelas não existe uma diferença entre o micro e o macrossomo - há uma correspondência entre todas as coisas; também permeando essas concepções está a idéia de que existe na natureza uma fonte de todo conhecimento que se situa fora da alma humana, um conhecimento absoluto. Porém antigamente não se pensava em sincronicidade porque não se pensava em acaso. Tudo era atribuído a uma causalidade mágica que hoje nos parece ingênua. Com o advento do pensamento científico, essas concepções desaparecem. Jung aponta o que fez com que desaparecessem dizendo que “com a ascensão das ciências físicas, no século XIX, a teoria da correspondentia desaparece por completo da superfície e o mundo mágico dos tempos antigos parece sepultado para sempre.” (CW VIII, par. 929) Mas essa idéia de uma sincronicidade e de um significado subsistente à natureza, que é a base do pensamento chinês clássico e faz parte da concepção ingênua da idade média, embora pareça a alguns uma regressão, teve que ser retomada pela psicologia moderna uma vez que só o princípio da causalidade não explica toda a realidade dos acontecimentos.

Jung aponta como precursores da idéia de sincronicidade a “simpatia de todas as coisas” de Hipócrates; a idéia de que o sensível e o supra-sensível estão unidos por um vínculo de comunhão de Teofrasto; a idéia de uma necessidade e amizade que une o universo de Filo de Alexandria; a idéia de mônada, que também tem um significado de unidade de todas as coisas, do alquimista Zózimo; a alma universal de Plotino; a idéia do mundo como um único ser de Pico Della Mirandola; o “conhecimento” ou “idéia” inata dos organismos vivos de Agrippa von Nettesheim e a idéia da anima telluris de Johann Kepler. Jung cita também Schopenhauer e a idéia da vontade ou prima causa e da simultaneidade significativa (daí o termo “sincronicidade” usado por Jung). Mas o autor que Jung mais cita é Gottfried Wilhelm Leibniz. Leibniz explica a realidade através de quatro princípios: espaço, tempo, causalidade e correspondência (harmonia praestabilita). Este último é um princípio acausal de sincronismo dos acontecimentos psíquicos e físicos. Jung discorda de Leibniz em apenas um ponto: para Leibniz este é um fator constante, enquanto que para Jung os eventos sincronísticos ocorrem esporadica e irregularmente.

AS ARMADILHAS DO CONCEITO DE SINCRONICIDADE

Para o pensamento ocidental desde Descartes, a “explicação científica” remonta a uma validação causal: D é causado por C, C por B, B por A. Não é de espantar então que a discussão da hipótese de Jung de um princípio de sincronicidade tenha produzido inúmeros mal-entendidos.
Marie-Louise von Franz em seu artigo “A Contribution to the Discussion of C.G. Jung’s Synchronicity Hipothesis” aponta uma série de erros que já se cometeu ou que se pode cometer na interpretação desse conceito e que aqui serão resumidos e sistematizados.
A autora começa falando das dificuldades que muitos parapsicólogos têm em compreender esse novo modo de pensar e diz que:

Na minha opinião isso vem do fato de muitos parapsicólogos estarem sempre fazendo um esforço intenso por conseguir a aceitação de seu campo fundamentando-o em um método científico “rigoroso”, isto é, em métodos quantitativos e pensamento causal enquanto que justamente o que a hipótese de Jung propõe está em uma direção oposta para longe daquilo que até agora foi considerado o único modo “científico” de pensar. (p. 229)

Ela então continua falando de algumas pessoas que tendem a achar que a sincronicidade explica os fenômenos “psi” causalmente e afirma:

a hipótese da sincronicidade não “explica” causalmente os fenômenos psi, mas comparada com os resultados obtidos até hoje pelas pesquisas, ela os coloca em um contexto novo, mais amplo, isto é, no domínio dos arquétipos, um campo no qual estudos biológicos e psicológicos detalhados já foram feitos. Entretanto estes estudos infelizmente parecem ser desconhecidos da maioria dos parapsicólogos. (p. 230)

Outra tendência errônea é encontrada entre aqueles que buscam uma explicação neurológica para os fenômenos sincronísticos, quando na verdade o que caracteriza um evento sincronístico é justamente a ausência de uma relação causal. Há também aqueles que supõem que os eventos sincronísticos sejam causados pelo inconsciente do observador. Com relação a isto, ela diz:

De acordo com a visão junguiana, o inconsciente coletivo não é de forma alguma uma expressão de desejos e objetivos pessoais, mas uma entidade neutra, psíquica em sua natureza que existe de uma forma absolutamente transpessoal. Atribuir a ocorrência de eventos sincronísticos ao inconsciente do observador não seria nada além de uma regressão ao pensamento mágico primitivo, de acordo com o qual supunha-se antigamente que, por exemplo, um eclipse poderia ser “causado” pela malevolência de um feiticeiro. Jung chegou a advertir explicitamente contra considerar-se os arquétipos (ou o inconsciente coletivo) ou poderes psi como sendo a agência causal dos eventos sincronísticos. (p.231)

O fato do evento sincronístico não ter uma causa pode levar ao erro de se imaginar que tudo aquilo que não tem uma causa conhecida é um evento sincronístico. Quanto a isso Jung é bem claro, afirmando que: “Devemos obviamente nos prevenir de pensar todo evento cuja causa é desconhecida como “sem causa”. Isso é admissível apenas quando uma causa não é nem sequer imaginável. Este é especialmente o caso quando espaço e tempo perdem seu significado ou aparecem relativizados, caso em que uma conexão causal também torna-se impensável.” (CW VIII, par. 957)
A questão do significado, que é crucial na classificação de um evento sincronístico, também pode causar confusões. Afirmar que a existência de um observador que dê significado ao evento é fundamental não quer dizer que os eventos sincronísticos e seu significado sejam produzidos pelo observador. Essa questão do significado também traz outros problemas. Pelo fato do significado ser subjetivo, como podemos saber se não estamos fantasiando um significado quando na realidade ele não existe? Tudo o que diz respeito a fenômenos arquetípicos tem uma “lógica” de asserção que Jung chama de “necessary statements” (“afirmações necessárias”). Estas não são criadas pelo ego, são “impostas” pelo arquétipo e são esperadas sempre que um arquétipo está constelado, como é o caso dos eventos sincronísticos, nos dando um parâmetro para saber se o evento é mesmo significativo ou não.
A ordenação acausal e o “conhecimento absoluto” que estão por trás dos eventos sincronísticos não devem ser confundidos com um “Deus” teológico. É possível postular um deus faber por trás destes eventos, mas isso vai além de qualquer possibilidade de prova e Jung nunca o fez.
Já que a constelação de um arquétipo é fundamental para a ocorrência de um evento sincronístico, é fácil incorrer no erro de considerar que foi o arquétipo que o ‘causou’. Jung diz que:

Eu me inclino, porém a admitir que a sincronicidade em sentido mais estrito é apenas um caso especial de organização geral, aquele da equivalência dos processos psíquicos e físicos onde o observador está em condição privilegiada de poder reconhecer o tertium comparationis. Mas logo que percebe o pano de fundo arquetípico, ele é tentado a atribuir a assimilação dos processos psíquicos e físicos independentes a um efeito (causal) do arquétipo, e assim, a ignorar o fato de que eles são meramente contingentes. Evitamos este perigo se considerarmos a sincronicidade como um caso especial de organização acausal geral. (...) ... devemos considerá-los [os acontecimentos acausais] como atos de criação no sentido de uma creatio continua (criação contínua) de um modelo que se repete esporadicamente desde toda a eternidade e não pode ser deduzido a partir de antecedentes conhecidos. (CW VIII, par. 516)

A organização arquetípica “aparece” ou torna-se “visível” em um evento sincronístico, mas não é a causa deste. O evento sincronístico é uma creatio, um surgimento espontâneo de algo inteiramente novo e que portanto não é predeterminado causalmente.
Embora Jung tenha sugerido que a ordenação acausal geral pode ser verificada experimentalmente através dos métodos de adivinhação, os eventos sincronísticos não são passíveis de serem investigados estatisticamente, uma vez que Jung é claro ao afirmar que os eventos sincronísticos são imprevisíveis, espontâneos e não podem ser repetidos.
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