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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

O Papa Francisco e as vacinas, agora tratada como meio de lucro de quem produz, transporta e distribuiu, e a caridade que humilha

 

“A vacina anti-Covid é o protótipo mais brilhante da “Klondike gold rush” da pandemia. Enquanto isso, ninguém mais fala da vacina como um “bem público global“. A vacina é um elemento que faz disparar para o alto, aliás para muito alto, o lucro de quem a produz, transporta e distribui. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades e não de acordo com os meios disponíveis. Mas acontece exatamente o oposto. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades das populações e não de acordo com os caprichos dos políticos. Mas, novamente, acontece exatamente o oposto”, escreve Alberto Bobbio, editor-chefe da revista Famiglia Cristiana, em artigo publicado por Eco di Bergamo, 05-01-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.



da Revista IHU On-line, republicado pelo GGN:

O Papa e as vacinas. A caridade que humilha


Eis o artigo.

As doses de vacinas desaparecem no conflito político ou não chegam em muitos países que não conseguem atender as garantias do mercado. Assim, no início de uma campanha global de vacinação nunca vista na face da terra, os problemas previstos parecem superar os benefícios esperados. Provavelmente o Papa Francisco está certo quando, ainda no domingo no Angelus, reiterou que as coisas vão melhorar se “trabalharmos juntos para o bem comum”. Ninguém, nem mesmo o Papa, sabe como tudo vai terminar, mas ele está absolutamente convencido de uma coisa: tudo irá bem se cada um de nós e todos juntos nos comprometemos a cuidar uns dos outros e da criação, que é a nossa casa comum. “Cuidar” será a palavra-chave para 2021, o segundo ano da pandemia.

No entanto, “cuidar” é um conceito que contrasta, para ficar no tema apenas da Covid-19, com outra desventura que muitas políticas de saúde e muitas regras econômicas impuseram e agora se espalham em nível global. Chama-se “nacionalismo sanitário“, uma espécie de corrida do ouro para garantir o melhor para si, fazendo tropeçar os vizinhos e mantendo distante os que já ficaram para trás. Bergoglio já vem dizendo isso há algum tempo, mas nos dias próximos ao Natal o repetiu com mais força.

vacina anti-Covid é o protótipo mais brilhante da “Klondike gold rush” da pandemia. Enquanto isso, ninguém mais fala da vacina como um “bem público global“. A vacina é um elemento que faz disparar para o alto, aliás para muito alto, o lucro de quem a produz, transporta e distribui. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades e não de acordo com os meios disponíveis. Mas acontece exatamente o oposto. Deveria ser distribuída de acordo com as necessidades das populações e não de acordo com os caprichos dos políticos. Mas, novamente, acontece exatamente o oposto.

No Peru, país da América Latina que registra um dos níveis mais altos de mortes em relação à população, as doses se perderam no embate político interno entre o ministério da saúde, o deposto presidente Vizcarra e o Congresso, que se acusam mutuamente de grandes confusões.

Nem um único frasco chegou à Nigéria, o maior país africano. Mas é toda a África que até agora está sendo deixada às margens: ela não tem garantias para oferecer ao mercado das Big Pharma.

A maneira de evitar acabar na areia movediça das finanças e, para muitos países, de ver sua dívida aumentar, seria desvincular todas as vacinas das propriedades intelectuais. Mas o petisco é saboroso demais para oferecê-lo de graça. A faixa de custo por dose é muito ampla, de US $ 2 a US $ 32 por dose. Mas ainda não se sabe quanto custam aquelas russas e chinesas. Depois, há custos e custos. São pagos em dinheiro vivo e influência geopolítica, sem regras ou com regras canalhas.

saúde é um bom negócio para investimentos colaterais de uma ampla cadeia de suprimentos, desde os transportes até a construção de edifícios e descontos sobre as matérias-primas. A logística é o setor que promete excelentes retornos. Como se mantém o controle de quem é vacinado em países onde não há nem mesmo registros de nascimentos? Já apareceram sujeitos garantindo a alguns países africanos resolver os dois problemas. Em troca de uma gorda compensação.

Aqueles que prometem vacinas gratuitas na ausência de uma autoridade de controle ​​supranacional costumam fazer o jogo do gato e da raposa contra o pobre Pinóquio. Um Ente internacional havia sido proposto por Bergoglio no Natal, pois a OMS estava com problemas a esse respeito mas ninguém, absolutamente ninguém, aceitou a sugestão, nem mesmo para criticá-lo. Sinal de que atingiu o ponto mais delicado. Isso não significa que os pobres não terão a vacina nos próximos meses. Significa apenas que a terão por esmola, caridade que humilha, e não pela solidariedade dos cuidados entre iguais.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

No Dia Nacional da Saúde, um tributo a Oswaldo Cruz, o cientista que enfrentou a ignorância do século passado




Oswaldo Cruz (Reprodução: Fiocruz)

PUBLICADO NO BRASIL DE FATO e no DCM
POR CAROLINE OLIVEIRA
No dia 5 de agosto se comemora o Dia Nacional da Saúde em referência à data de nascimento de Oswaldo Cruz. A escolha não é à toa: a contribuição do médico sanitarista alcança a pesquisa e o desenvolvimento científicos como ferramentas para o cuidado da população, principalmente quando o assunto são as vacinas.
Na década de 1910, dentro do Instituto Soroterápico Federal Cruz – a atual Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) –, fundado por ele em 1900, o médico passa a implementar um modelo francês de produção de soros e vacinas.
Os produtos desenvolvidos pela equipe de Oswaldo Cruz levaram, à época, à erradicação de doenças, como a varíola, no Rio de Janeiro, e à diminuição de surtos, como de malária e febre amarela.
Ao mesmo tempo em que tinha a preocupação com a vacinação da população e a erradicação de doenças, Oswaldo Cruz também se preocupava em formar novos e bons cientistas para o futuro. Por isso, o Instituto que já desenvolvia e produzia vacinas, realizava pesquisas científicas de peso, também passa a ter atividades de ensino.
Segundo Ana Luce Girão, historiadora e pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz e da Fiocruz, o médico também tinha a preocupação de construir redes de médicos e pesquisadoras em prol do desenvolvimento científico no Brasil, a partir da troca de informações. Exemplo disso foi a descoberta de como combater a febre amarela, após troca de informações com médicos cubanos.
Girão explica que, como pouco se sabia sobre a doença na época, discutia-se a possibilidade de transmissão por meio da atmosfera. Foi quando Oswaldo Cruz tomou conhecimento da experiência cubana e acabou com os surtos da doença combatendo os focos de mosquitos.
Intercâmbio entre cientistas. Na foto, Carlos Chagas, que sucedeu a Oswaldo Cruz na direção do Instituto após sua morte, e outros pesquisadores recebem a visita de Albert Einstein, em 1925. / Casa de Oswaldo Cruz
Intercâmbio entre cientistas. Na foto, Carlos Chagas, que sucedeu a Oswaldo Cruz na direção do Instituto após sua morte, e outros pesquisadores recebem a visita de Albert Einstein, em 1925. / Casa de Oswaldo Cruz
Conhecer as necessidades da população
Além de suas preocupações com desenvolvimento científico, Oswaldo Cruz empenhava-se em conhecer as condições de saúde da população brasileira para poder elaborar políticas que atendessem a população na totalidade de seus problemas.
“Isso vem a partir de Oswaldo cruz, mas isso é reproduzido pelas gerações seguintes. A partir de um posicionamento do que é a importância da ciência, da pesquisa e do conhecimento dos problemas de saúde da sociedade brasileira, é possível redirecionar as pesquisas. Acho que essa é a grande obra de pensar a ciência”, afirma a pesquisadora.
Nesse sentido, é possível dizer que o Sistema Único de Saúde (SUS) também nasce dessa ideia: da necessidade de atender a população como um todo. “Não significa só a assistência médica, mas também a oferta de vacina, produção de medicamentos, Atenção Primária à Saúde.”

Movimento anticiência

Hoje, o legado de Oswaldo Cruz para ciência e saúde pública se fazem mais importantes diante do discurso anticiência difundido por integrantes e apoiadores do governo de Jair Bolsonaro e da pandemia de covid-19, defende Ana Luce Girão. “Tem, por um lado, uma série de cientistas trabalhando em rede para que se possa, o mais rápido possível uma vacina. Por outro lado, uma influência política que nega a importância da ciência”, afirma a pesquisadora.
Ela também destaca, com preocupação, o movimento contra vacinação que levou o Brasil a ter novamente casos de doenças como o sarampo e poliomielite, que já haviam sido erradicadas. “Voltou a ser um problema sanitário no Brasil justamente por causa desses grupos contra a vacina. O sarampo, que já era um problema resolvido, volta a acontecer no País”, lamenta Girão. “É um absurdo voltar a se preocupar com essas doenças de novo.”
Oswaldo Cruz ao lado de seu filho Bento e Burle de Figueiredo, em 1910 / Casa de Oswaldo Cruz
Biografia
Oswaldo Cruz nasceu em São Luís do Paraitinga, no interior de São Paulo. Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de janeiro em 1892, seu interesse por microbiologia o levou a estudar o assunto, além de soroterapia e imunologia no Instituto Pasteur, em Paris, por dois anos. De volta ao Brasil, Cruz assumiu a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal e depois chegou ao comando da Diretoria-Geral de Saúde Pública (DGSP), em 1903.
Nesta posição, os desafios começaram a se avolumar. O médico sanitarista teve que realizar uma campanha de combate às doenças da época, como febre amarela, peste bubônica e varíola.
Muitos brasileiros se lembram de Oswaldo Cruz por sua posição central na Revolta da Vacina, em novembro de 1904, no Rio de Janeiro. O cenário era de agravamento dos surtos de varíola, o que levou Cruz a tentar promover a vacinação em massa da população. Resultado: rebeliões populares estouraram e a obrigatoriedade da vacina foi suspensa. Quatro anos depois, com uma epidemia de varíola, a população procurou os postos de vacinação.
Além da vacinação, Cruz também adotou métodos como o isolamento de doentes, notificação compulsória de casos positivos, extermínio de mosquitos e ratos e desinfecção de áreas de focos. Em poucos meses à frente do DGSP, a incidência de peste bubônica diminuiu expressivamente.

Código Sanitário

Depois dos problemas enfrentados com as doenças da época, Oswaldo Cruz realizou uma expedição ao redor do mundo para estabelecer um código sanitário baseado em regras internacionais. Ele também reestruturou todos os órgãos de saúde e higiene do País e, em 1910, ajudou a combater a malária. O reconhecimento de todo o seu trabalho veio em 1907, quando recebeu a medalha de ouro no 14º Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim, na Alemanha.

Quando voltou ao Brasil, foi recebido como herói e o Instituto Soroterápico Federal passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz (IOC), para o qual o médico passou a se dedicar, deixando o comando da Diretoria-Geral de Saúde Pública. Anos depois, em 1913, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Após dois anos, deixou o IOC por motivos de saúde e mudou-se para Petrópolis. Morreu em 1917, com somente 44 anos de idade em decorrência de complicações de insuficiência renal.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Em uma época de loucura coletiva, com 1% mais risco financiando a destruição ambiental e golpes e governos fascistas, o coronavírus pode ser um choque que faça a humanidade mudar na direção de uma nova civilização ou voltar de vez para a barbárie. Entrevista de Luis Nassif com Jamil Chade

O coronavirus trará uma nova civilização ou a volta à idade média, entrevista com Jamil Chade


Há tempos, Jamil Chade se tornou um dos principais correspondentes internacionais brasileiros, atuando em Genebra. Passou a cobrir as principais organizações multilaterais, da Organização Mundial de Saúde à FIFA.
Ao mesmo tempo, tem sido um jornalista permanentemente preocupado em defender os valores civilizatórios.
Na entrevista, ele discute as dúvidas em relação ao futuro do mundo. A coronavirus trará solidariedade ou acirrará o individualismo?
Na OMS, há convicção de que a única maneira de enfrentar a peste será com uma resposta coordenada de todos os países. Ao mesmo tempo, o caráter essencialmente democrático da coronavirus – atacando pessoas de todos os extratos sociais – mostra que a saúde das classes mais abastadas depende da saúde da periferia do mundo. E essa constatação implicará em fortalecimento das políticas públicas.
Segundo Chade, depois de ocupar posição de destaque nos organismos mundiais de saúde, o Brasil se tornou uma caricatura. Não apenas em função de Bolsonaro, mas da arrogância despreparada do Itamarati.

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