Mostrando postagens com marcador simulacro da realidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador simulacro da realidade. Mostrar todas as postagens

domingo, 1 de março de 2015

Luciano Martins Costa sobre o Quarto Poder (da Mídia, especialmente a TV e os jornais acessórios a ela associados) e o fim da política real em prol de simulacros e simulações onde o Estado passou a ser, de fato, mero meio pelo qual elites e seus protagonistas buscam o poder


  "Uma das hipóteses que podem ser facilmente constatadas é a de que a realidade foi substituída por simulacros, no sentido que o filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) deu ao termo: praticamente tudo que compõe o noticiário e as opiniões veiculadas pela mídia tradicional são cópias de elementos que não existem mais na realidade."

 Texto extraído do Observatório da Imprensa:

O fim da Política


Luciano Martins Costa


  O olhar sobre o cotidiano da imprensa no Brasil, por meio da qual o cidadão pode acompanhar o desempenho de suas representações institucionais, tende a esconder uma realidade espantosa: a extinção da política. Esse fenômeno alcança outros campos que compõem tradicionalmente o chamado espaço público, como a cultura, a economia, a religião e outras formas pelas quais os indivíduos se interligam em comunidades no mundo contemporâneo.
 O ambiente midiático nacional se oferece como um imenso laboratório para teses sobre a relação entre a sociedade e seus símbolos. Os perfis ideológicos são substituídos pelas pesquisas de opinião sobre cada tema da agenda pública.
 Uma das hipóteses que podem ser facilmente constatadas é a de que a realidade foi substituída por simulacros, no sentido que o filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) deu ao termo: praticamente tudo que compõe o noticiário e as opiniões veiculadas pela mídia tradicional são cópias de elementos que não existem mais na realidade.
 A política, por exemplo, desapareceu completamente de seu habitat natural – os corredores do Congresso Nacional, as sedes de entidades republicanas e ainda que suas projeções no território comunicacional continuam lá, mas lá já não se faz política. Em seu lugar se desenvolve um jogo com características de um comércio que simula a realidade das negociações de poder. O Estado, cujo controle representava o objeto final desse jogo, passou a ser um meio pelo qual os protagonistas buscam um novo objetivo: o de ganhar o poder de permanecer no poder.
 Nesse universo-simulacro, também a cultura, a religião, a economia, assim como a sexualidade, a individualidade e as autonomias, são substituídas por símbolos e signos que formam uma realidade paralela, distanciando cada vez mais o ser humano da vida real. Tudo se transformou num programa de “realidade virtual”, e o que a mídia nos apresenta é esse conjunto que se tenta passar por real.
 O tema abrange toda a complexidade da vida cotidiana, por isso temos que restringir nossa observação, por enquanto, ao campo da política. Já analisamos simulacros da economia e poderemos observar também simulacros da cultura, da religião e de outros aspectos da vida comum.
  A dança das siglas
 Os partidos jogam para a imprensa, que faz o agenciamento da opinião pública. Eventualmente, uma ou outra dessas agremiações, criadas sem o respaldo de um programa capaz de sensibilizar grandes contingentes de eleitores, perde o volume de apoios necessário para se manter no jogo. O que fazem seus controladores? Criam nova sigla, adaptando-se ao que lhes parece ser um nome com mais potencial para arregimentar agentes capazes de conquistar correligionários.
 No fundo, o sistema funciona como um grande esquema de pirâmide, que periodicamente precisa quebrar aqui e ali, deixando muitos protagonistas sem teto. Os mais espertos se movem rapidamente para a casa mais próxima, de preferência uma que possua em sua sigla a letra que combina com seus posicionamentos anteriores.

 A legislação favorece escancaradamente a criação de partidos por quem já está no jogo, e dificulta o surgimento de agremiações com origem mais autêntica na própria sociedade. O caso da Rede Sustentabilidade, projeto da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva, é típico: formulado no seio do movimento ambientalista, que evoluiu para um conceito mais amplo de sistema que inclui a busca da sustentabilidade econômica e social, além da ambiental, o sonho de Marina Silva foi contaminado pelo pragmatismo dos partidos que participam do simulacro de política. O que se viu foi uma candidata idealista emaranhada em contradições e apanhada em posicionamentos conservadores que decepcionaram muitos de seus apoiadores.
  E o que a imprensa tem com isso?
 O papel da mídia tradicional é fundamental nesse processo, porque é no ecossistema midiático que se constrói esse simulacro e é a imprensa que conduz o jogo. Esse processo evolui na medida em que corrompe as bases do sistema representativo, até o ponto em que a mídia substitui a sociedade e os partidos passam a ser tributários do sistema da comunicação.
 Ao contrário do que nos faz crer, o sistema da imprensa não interpreta a realidade – ele cria um simulacro, que se torna verossímil porque seus signos fazem sentido. Quem sonha em representar a sociedade – ou uma parcela significativa dela – precisa ter coragem de romper essa dependência, comunicar-se diretamente com o público e esquecer a imprensa.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Religião, Carnaval, Futebol e Mídia: o conflito fomentado por um jornalismo de aparências



Segue texto de Luciano Martins Costa, extraído do Observatório da Imprensa:

CARNAVAL, FUTEBOL & RELIGIÃO

Detalhes tão pequenos

Por Luciano Martins Costa em 18/02/2015 na edição 838
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 18/2/2015

 Há quem diga que o carnaval e o futebol fazem a melhor síntese do Brasil. Pode-se acrescentar, com os mesmos argumentos, que o quadro fica mais completo e equilibrado se incluirmos nessa moldura a religião. Porém, sempre é bom lembrar que não estamos observando diretamente a sociedade brasileira, mas sua expressão na mídia, o que se torna essencial porque, como sabemos, todo o conteúdo do ambiente comunicacional está se transformando progressivamente num simulacro da realidade.
Há, portanto, um carnaval real, que se passa na interação entre o estado de espírito que vai da alegria exagerada, pura sensação, a suas expressões corporais através da dança, dos saltos, dos rodopios, da disposição para o prazer. Há também o futebol real, que acontece na expectativa de cada partida, na tensão das jogadas extremas, na explosão do gol – evento feliz para uns, tristeza para outros. Da mesma forma, a religião possui uma realidade, que se resume na busca íntima de uma relação privilegiada com a divindade e se realiza socialmente nas comunidades de crentes.
Mas aqui falamos dessas realidades quando passam pelo filtro da mídia, pois é nesse processo que se constrói o simulacro de sociedade através do qual tentamos entender a sociedade em si. Nesse ambiente específico, que funciona como uma outra dimensão da vida, carnaval, futebol e religião sintetizam o gosto brasileiro pelas sensações extremadas, mas são meras alegorias do carnaval, do futebol e da religião reais.
A questão é: quando a mídia interpreta essas alegorias, devolve uma versão distorcida ao campo da realidade, num processo contínuo que, em algum momento, vai provocar rupturas. Na vida real, não no simulacro.
Há muitos exemplos na rotina da imprensa. Na quarta-feira (18/2), podemos apanhar uma reportagem de página inteira publicada pela Folha de S. Paulo para ilustrar esse fenômeno. O assunto é a manchete do jornal, que diz o seguinte: “Impunidade é regra em brigas de torcidas em SP”. O pano de fundo é a partida entre Sport Club Corinthians Paulista e São Paulo Futebol Clube, em torno da qual se discute a conveniência de promover jogos com uma só torcida no estádio.
Estimulando os valentões
O texto faz um apanhado das mortes produzidas em confrontos de torcidas organizadas, no território paulista, para demonstrar que a Justiça não alcança os brigões nem mesmo quando eles produzem vítimas fatais: apenas três torcedores, dos milhares que se envolveram em centenas de casos nos últimos dez anos, estão na cadeia. Todos os três são corintianos, acusados de participar do assassinato de um torcedor do Palmeiras, ocorrido em agosto do ano passado, e estão em prisão preventiva aguardando julgamento.
O último caso grave que resultou em condenação ocorreu em 1995, e colocou um palmeirense na cadeia, em 1998, pela morte de um torcedor do São Paulo. Ele cumpriu pouco mais da metade de uma sentença de doze anos de prisão e foi colocado em liberdade.
A reportagem parece movida pela ótima intenção de alertar as autoridades e dirigentes esportivos para o risco da partida marcada para a noite de quarta-feira, quando Corinthians e São Paulo se defrontam pela primeira vez em um jogo da Copa Libertadores da América. O jogo abre a fase de grupos, e apenas um dos dois times prosseguirá na competição.
Estão dados, portanto, os requisitos para uma disputa acirrada dentro de campo, mas é fora dele que se desenrola o outro enredo, do qual trata o jornal paulista.
O ponto central da reportagem questiona: os organizadores deveriam permitir apenas torcedores do Corinthians, mandante da partida, no estádio? Como a imprensa considera que todo assunto tem apenas dois lados, há um artigo a favor, outro artigo contra a proposta.
Mas a realidade tem outros elementos. A começar da verdadeira dimensão da violência entre torcedores: em dez anos, brigas envolvendo torcidas organizadas no estado de São Paulo provocaram “ao menos onze mortes”, diz o jornal. Ou seja, a letalidade desses conflitos é relativa, comparada a outras causas. Por exemplo, morrem mais pessoas em quatro dias de carnaval do que em um ano com duas partidas de futebol por semana. No entanto, o assunto ganha muita repercussão na mídia e tem valido proveitosas carreiras políticas a autoridades que defendem medidas restritivas à liberdade de expressão e associação.
Há recursos tecnológicos e legais para identificar e controlar os indivíduos propensos à violência, sem estragar o espetáculo do futebol. Outra questão subjacente nasce da própria manchete: ao anunciar que ninguém é punido por causa de brigas entre torcedores, a Folha não estaria estimulando os valentões?
Como se vê, detalhes tão pequenos mostram que a imprensa já não dá conta de retratar a sociedade.