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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Doutrina Donroe ou Frankenstein neoliberal? Por Claudia Henschel de Lima e Antonio José Alves Junior

 

Exame da nova Doutrina de Segurança Nacional dos EUA. A Crítica às elites, ao globalismo e às instituições internacionais “usurpadoras” não esconde o essencial: a aposta na força, ideia de que não há alternativas e crença na primazia dos mercados acima de tudo e de todos



Título original: A Doutrina Donroe e o desenho de uma nova ordem global neoliberal: America First

Estamos longe de ser especialistas em Venezuela e em relações internacionais. Mas os acontecimentos que atravessaram a América Latina — porque é de América Latina que se trata neste momento em que assistimos ao sequestro do presidente Nicolás Maduro — no quadro da governamentalidade Trump 2.0, nos colocaram, mais uma vez, diante da relação entre neoliberalismo e crise; e de uma pergunta: ainda é neoliberalismo? O ataque militar Trump 2.0 à Venezuela é orientado pelo espectro do neoliberalismo, classicamente entendido como globalismo?

A leitura do documento National Security Strategyof the United States of America — que contém o Trump Corollary to the Monroe Doctrine, ou simplesmente, Doutrina Donroe,e que fora publicado em novembro de 2025 — parece indicar a complexidade dessas perguntas, que não podem ser respondidas por meio de uma alternativa “sim ou não”. É um documento que reestrutura a ordem internacional, desenhada a partir de 1945, no pós-Guerra, para a centralização dos Estados Unidos na geopolítica, como nação forte e respeitada, que garante a paz em todo o mundo — o America First (“America is strong and respected again-and because of that, we are making peace all over the world” — p.2 / “Os Estados Unidos estão fortes e novamente respeitados — e, por causa disso, estamos promovendo a paz em todo o mundo”).

Este ensaio não propõe uma genealogia que responderia de forma definitiva à complexidade dos dias atuais; ele visa apenas oferecer uma primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0. E essa escalada se manifesta pela virulência do niilismo do America First: típico de uma torção discursiva imanente ao neoliberalismo globalista que funde liberdade e autoritarismo, que rejeita os limites institucionais e a autodeterminação dos povos em nome da centralização dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Ignora, assim, a relevância da Carta da ONU na garantia da estabilidade e equilíbrio de poder entre os países. Essa torção, que faz com que o neoliberalismo se funde ao autoritarismo, foi o que Wendy Brown denominou como o Frankenstein do Neoliberalismo.

O caso da Venezuela se encaixa nessa virulência niilista. Sabemos que a intervenção dos Estados Unidos na região é conhecida, desde 2002, com a aprovação da tentativa de golpe de Estado contra o então presidente Hugo Chávez.

De lá para cá, a Venezuela vem sendo posicionada como ameaça à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos. Em Trump 2.0, testemunhamos a escalada desse niilismo, com a rejeição do artigo 2 da Carta da ONU e a aplicação do Peace Through Strength desde junho de 2025: a redução de Nicolás Maduro, de presidente da Venezuela a narcoterrorista internacional, chefe do Cartel de Los Soles, ameaçador da segurança americana, foragido e procurado pela justiça americana com recompensa de 25 milhões de dólares pela captura; e a ação da força militar na Venezuela, de sequestro e prisão de Nicolás Maduro. É essa centralização dos Estados Unidos na geopolítica que justifica também a ameaça de anexação da Groenlândia para garantir a defesa nacional e a invasão à Colômbia com uma nova redução no horizonte: a de Gustavo Petro, presidente da Colômbia, a um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos.

Para construir essa primeira incursão no que pode se configurar como uma escalada do neoliberalismo com Trump 2.0., com a virulência do niilismo do America First, propomos destacar os eixos estruturantes da Doutrina Donroe — ela substitui a Doutrina Monroe (“The Monroe Doctrine is a big deal, but we’ve superseded it by a lot, by a real lot. They now call it the Donroe document”/ “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos — e muito, muito mesmo. Agora eles chamam isso de Documento Donroe” — declaração de Donald Trump em 3 de janeiro de 2026): uma visão ampliada, integrada e centralizada de poder, que articula segurança, liderança tecnológica, economia, cultura, moral e identidade nacional. E que entendemos estar organizada em oito eixos estruturantes:

  1. Redefinição do conceito de estratégia nacional.
  2. Centralidade da soberania, do nacionalismo e do America First.
  3. Segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura.
  4. Economia no fundamento da segurança nacional.
  5. Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.
  6. Concorrência estratégica com a China, Rússia e Irã.
  7. Organização regional da estratégia global.
  8. Crítica às elites e às ideologias contemporâneas.

I. Os eixos estruturantes da Doutrina Donroe

O primeiro eixo do documento se refere à redefinição do conceito de estratégia nacional à luz da crítica direcionada à política do pós-Guerra Fria — caracterizada como difusa, idealista e divorciada dos interesses nacionais concretos: ou seja, uma lista de desejos, platitudes vagas, que não definem clara e objetivamente o que os Estados Unidos querem (p.5). Essa redefinição está alicerçada em três perguntas: 1. O que os Estados Unidos deveriam querer?; 2. Quais são os meios disponíveis para alcançá-lo?; 3. Como podemos conectar fins e meios em uma estratégia de segurança nacional viável?

Essas perguntas mostram como a concepção de estratégia nacional deve se fundamentar em uma posição clara a respeito do que os Estados Unidos querem para si e de uma articulação precisa entre fins e meios, baseada em prioridades explícitas e na limitação do escopo da ação externa. Tudo em nome do America First e não da autodeterminação dos povos, defendida pela Carta da ONU.

O que nos leva diretamente ao segundo eixo estruturante da Doutrina Donroe: centralidade da soberania, do nacionalismo — pilares do America First.

O National Security Strategyof the United States of America reafirma a soberania nacional como princípio organizador da política externa e de segurança, rejeitando o multilateralismo e as agendas globais (ambos considerados ameaças à autonomia dos Estados). Sendo pilares do America First, a defesa da soberania e do nacionalismo criam um muro de proteção contra tudo o que representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, visando: garantir sua continuidade como república soberana e independente; proteger a população, o território, a propriedade intelectual, a economia e o american way of life (por exemplo, a família tradicional americana) de ameaças internacionais/globalistas; enfrentar as ameaças militares e não militares (migrações em massa, espionagem, narcotráfico, influência estrangeira, propaganda).

O que nos leva, diretamente, ao terceiro eixo estruturante da Doutrina Donroe — a segurança nacional ampliada: fronteiras, economia e cultura. É importante destacar a centralidade tecnológica para as forças armadas, tornando-a a mais avançada do mundo, com vistas à dissuasão de conflitos e a vencer guerras de forma rápida e decisiva. Essa centralidade tecnológica se manifesta na superioridade nuclear e no desenvolvimento de sistemas de defesa antimísseis (incluindo o Golden Dome). Mas a defesa da soberania e do nacionalismo compõe uma compreensão ampliada do que vem a ser a segurança nacional, pois integra o enfrentamento às ameaças militares e não militares externas à proteção da economia, do território e do american way of life. Para isso, a segurança nacional ampliada deve cobrir: o encerramento da era das migrações em massa; o controle total das fronteiras e das redes de transporte; a defesa de liberdades fundamentais (especialmente, a liberdade de expressão e de religião) em oposição a agendas, definidas no documento, como elitistas ou tecnocráticas (principalmente, o multiculturalismo, as políticas identitárias e de diversidade e a agenda climática e regulatória).

No escopo da segurança nacional ampliada, chegamos ao quarto eixo estruturante da Doutrina Donroe: a economia no fundamento da segurança nacional.

O documento sustenta que a segurança econômica é a segurança nacional. Para isso, é fundamental que a política econômica seja orientada pela lógica da segurança nacional e se concentre: 1) na garantia de economia forte com uma política comercial baseada na reciprocidade, tarifas e combate a práticas “predatórias”; 2) na proteção das cadeias produtivas e minerais críticos; 3) no fortalecimento da indústria nacional, especialmente a vinculada à defesa; 4) na edificação do setor energético como ativo geopolítico (energy dominance), inseparável da rejeição à agenda climática global; 5) na associação direta entre prosperidade econômica interna, poder global e capacidade militar.

Essa associação direta nos conduz ao quinto eixo: Peace Through Strength e predisposição ao não-intervencionismo.Ele não se reduz a um slogan militar; mas se constitui como um princípio organizador da política externa americana, em que a paz deriva da assimetria de poder claramente reconhecida, e não da confiança em normas e instituições. Neste sentido, o eixo situa a força como fundamento da dissuasão, ou seja, os atores estatais ou não estatais, suficientemente dissuadidos, não ameaçam os interesses americanos. Para isso, a Doutrina Donroe defende o forte investimento militar. Os princípios incluem: a superioridade militar articulada à superioridade econômica, tecnológica, nuclear e de propriedade intelectual; a capacidade de solucionar conflitos com rapidez,evitando sua extensão por tempo indeterminado; realinhamento da diplomacia para a força como condição para a paz; ênfase em burden-sharing, ou seja, os aliados devem assumir maior responsabilidade por sua própria defesa; articulação direta entre força externa e coesão interna por meio de valores como meritocracia e confiança nacional, que garantem a unidade dos Estados Unidos frente a comunidade internacional.

O Peace Through Strengthnos conduz ao sexto eixo: concorrência econômica, tecnológica e infraestrutural com China, Rússia e Irã (que fornece armas e drones para países como Venezuela, que ameaçam a segurança do território continental dos EUA). O documento destaca, ainda, a China como principal concorrente no plano econômico, tecnológico e de inovação. O que nos coloca no sétimo eixo: a organização regional da estratégia global.

Esse eixo, na verdade, apresenta a reestruturação da ordem global a partir da centralidade geopolítica dos Estados Unidos — com capilaridade na América Latina. Segundo o documento, após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental, e para proteger os Estados Unidos e seu acesso a geografias-chave em toda a região. Este “Corolário Trump” à Doutrina Monroe é uma restauração do poder e da centralidade das prioridades americanas em termos de segurança ampliada. Essa organização regional da estratégia global exige uma avaliação crítica das elites e ideologias contemporâneas — o oitavo eixo da Doutrina Donroe.

Trata-se de um dos eixos estruturantes da Doutrina Donroe. O documento diagnostica que as elites intelectuais, desde o fim da Guerra Fria, têm ficado aquém do esperado, com listas intermináveis ​​de desejos ou estados finais almejados; não definiram claramente o que os Estados Unidos queriam; em vez disso, proferiram platitudes vagas. Elites econômicas, políticas e intelectuais teriam produzido um desvio estratégico profundo ao calcularem muito mal a disposição dos Estados Unidos em arcar para sempre com fardos globais, em relação aos quais o povo americano não tinha sinergia alguma. O documento afirma que tais elites superestimaram a capacidade econômica e política dos Estados Unidos de manter simultaneamente um Estado administrativo expansivo e um complexo militar-diplomático global, além de terem aceitado passivamente a transferência de encargos de defesa para os EUA por parte de aliados. Associada a essa avaliação crítica, o documento situa ainda a rejeição das ideologias contemporâneas. Em primeiro lugar, a ideologia da diversidade, equidade e inclusão (DEI) — considerada tóxica aos valores dos Estados Unidos — defende a reinstauração de uma cultura do mérito e da competência. Em segundo lugar, a ideologia do transnacionalismo, que desloca o centro decisório para além do Estado-nação e enfraquece a coragem, a força de vontade e o patriotismo. Essa crítica às ideologias contemporâneas converge para uma leitura mais ampla de declínio moral, cultural e político, em que a perda de confiança nas tradições nacionais, na história e na identidade civilizacional teria enfraquecido tanto a política interna quanto a projeção internacional dos Estados Unidos.

A primeira impressão, após a exposição dos oito eixos da Doutrina Donroe, é que configuram uma escalada do neoliberalismo, fundindo liberdade e autoritarismo, rejeitando os limites institucionais e a autodeterminação dos povos, em nome da centralidade dos Estados Unidos na geopolítica mundial. Isso é feito por meio do exercício unilateral de poder, legitimado por uma gramática moral esvaziada de limites normativos — fusão essa denominada por Wendy Brown de Frankenstein do Neoliberalismo. O traço distintivo da Doutrina Donroe reside nessa fusão niilista da liberdade e do autoritarismo, que corrói a própria ideia de ordem internacional, substituindo-a por uma geopolítica na qual a ausência de limites institucionais deixa de ser exceção e se converte em princípio organizador da política global no século XXI.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Como o capital (do capitalismo selvagem e neoliberal) tudo descarta – inclusive o humano, por Dora Incontri

 

O cenário do capitalismo é esse. Tudo é mercadoria. Tudo é descartável. Mesmo, e até principalmente, o ser humano.

Jornal GGN:




Como o capital tudo descarta – inclusive o humano

por Dora Incontri

Recentemente, tenho acompanhado a saga de uma amiga ameaçada de desligamento, leia-se de descarte – de um trabalho de 25 anos numa empresa de porte internacional. E tive a experiência em minha própria casa, com um familiar de alto nível, que depois de se dedicar durante décadas ao mundo corporativo, recebeu uma oferta inaceitável na transnacional em que atuava há 20 anos – uma espécie de cargo figurativo, de consolação, com uma remuneração abaixo de qualquer possibilidade de aceitar… e teve que pedir demissão, perdendo assim os benefícios de uma longa carreira, inclusive a sua aposentadoria privada.

Ao mesmo tempo, acompanho jovens que estão ativos nesse mercado coorporativo, a maioria com ansiedade, depressão, burn out – consumidores diários de medicamentos psiquiátricos e, às vezes, de outras drogas, não tão lícitas. E assim é o roteiro de todos os empregos no mercado: primeiro se espreme, se suga, se explora, se adoece a pessoa. Depois se descarta, às vezes por um e-mail, mas sempre com indiferença e desfaçatez.

E isso são empregos, com carteira assinada, nos moldes tradicionais, cada vez mais raros, porque agora trata-se de ser empreendedor de si mesmo ou assumir trabalhos como PJ, em que não se tem nenhuma garantia de continuidade e nenhum direito a nada… Nos empregos ainda em formato de CLT, não há também, por outro lado, mais nenhum respeito às regras de horários, fins de semana. Todos os anos dou aula para os trabalhadores de um sindicato de um setor financeiro e invariavelmente pergunto: quem de vocês sai na hora estipulada para o fim do expediente? Ninguém! É até malvisto alguém que fecha o computador quando termina seu horário de trabalho. Todos ficam a mais (sem remuneração extra). E dependendo do cargo, o expediente se estende para a noite, para o fim de semana, através do e-mail, do WhatsApp… alcança as férias, quando férias há. Todos se exploram mutuamente. E se auto exploram também. Um ciclo de loucura. E depois de todo esse desgaste, a demissão sumária.

O cenário do capitalismo é esse. Tudo é mercadoria. Tudo é descartável. Mesmo, e até principalmente, o ser humano. Há a obsolescência programada de um celular, como há a descartabilidade programada do trabalhador. Esse molde desumano se mantém por uma estrutura de violência geral sobre todas as classes, que não são detentoras dos meios de produção. E o que é pior, as vítimas do sistema se tornam seus reprodutores, porque agem com seus colegas e subalternos, com a violência e a desconsideração com que são tratados, talvez na ilusão de que estejam acima do outro, porque são detentores de privilégios. São como os capatazes negros, na época da escravidão.

Nas classes mais desfavorecidas, onde o trabalho é ainda mais precário, na maioria das vezes com uma entrada completamente insuficiente para uma vida digna, há hoje no Brasil, um fator de contenção de qualquer revolta e tomada de consciência. As igrejas evangélicas, dentro das ideias protestantes de valorização cega do trabalho – o que alimenta o espírito do capitalismo (como bem analisou Max Weber), ajudam na submissão ao sistema, na glorificação a Deus, diante da exploração. E, entre as neopentecostais, ainda se arranca do pouco que o povo ganha, o dízimo (às vezes mais que o dízimo) que dá vida luxuosa para os pastores.

Esse é o sistema capitalista que nos engrada, nos oprime (e deprime) fortalecido pelos avanços da extrema direita no mundo, cuja ideologia é diminuir qualquer pouca garantia de proteção a quem trabalha, deixar passar toda boiada, sem preocupação com o meio ambiente, num negacionismo doentio da crise climática que vivemos.

Onde vamos parar? Não há alternativa a não ser nos tornarmos críticos radicais do capitalismo, sem concessões à ideologia neoliberal e irmos despertando a consciência do povo, numa educação das massas. É claro que isso é muito difícil, quando a mídia corporativa, a que chega de fato à maioria das pessoas, faz parte desse sistema e pratica uma doutrinação diária.

Enchamo-nos de coragem, em primeiro lugar, para não colaborarmos com esse cenário, fazendo resistência diária. Evitemos cair nos meios de manipulação das nossas consciências, com os medos que nos impigem, com os desejos consumistas que nos despertam, com o anestésico de uma religiosidade fundamentalista. É preciso acreditar na possibilidade de uma transformação profunda de como nos relacionamos econômica, social e politicamente. E como vivenciamos nossa espiritualidade – para que seja de forma crítica e aberta, como âncora dos necessários avanços neste mundo.

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.