quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A mescla do fascismo com o fanatismo e a hipocrisia da extrema-direita néscia brasileira: Entre armas, comprimidos e Bíblia Sagrada: o medo e a confiança no opressor, por Luís Delcides

 

O parlamento e o empate entre Flávio Bolsonaro e presidente Lula é um reflexo do momento tão indefinido e medroso da população brasileira


 Do Jornal GGN:

Entre armas, comprimidos e Bíblia Sagrada: o medo e a confiança no opressor, por Luís Delcides

    Arte na Rua - Nina Pandolfo


por Luís Delcides

Horácio com toda a sua história complicada é o resultado da opressão, fragilidade e dos traumas religiosos. Em vez de autonomia, dependência. Talvez isso explique as escolhas dos mais jovens travestidos de camisas canarinho da seleção brasileira.

Bíblia, cartela de comprimidos para pressão alta e um 38 no coldre. Assim era Horácio, ou “Irmão Horácio”. De corpo volumoso, andar trôpego e com seus 60 anos, circulava pela avenida Satélite aos domingos em direção a penúltima parada da antiga Estrada de Rodagem São Paulo- Ouro fino ( atualmente avenida Sapopemba) para embarcar no falecido Expresso Santa Rita, que vinha do jardim Santo André  em direção a Estação Santo André e depois pegava outro ônibus em direção a São Caetano para chegar a Igreja Batista da Vila Barcelona, localizada à avenida Goiás.

Horácio fazia esse trajeto dominicalmente, sempre às manhãs e no final da tarde e final de noite. Era nos anos 1980 – na época as celebrações religiosas dominicais protestantes noturnas começavam às 19h30 e terminavam 21h30. O Irmão Horácio chegava por volta das 23h00 em sua casa, localizada à Rua Deinos, uma travessa da antiga Rua Altair (atualmente Rua Cadência, na Cidade Satélite Santa Bárbara).

Na época, a avenida Satélite tinha muitos terrenos baldios, e ao final, tinha um espaço abandonado, que era um supermercado que não prosperou no bairro e com a extinção de uma linha que saia da Rua Deinos em direção ao Parque D. Pedro e a transferência de local da segunda linha que saia da mencionada via em direção a Estação Tatuapé do metrô para a Rua Calixto, na parte mais alta do bairro.

Assim, Horácio fazia esse trajeto sempre aos domingos. Logo a sua saúde começou a deixa-lo mais debilitado e ao comprar um veículo, uma WV Brasília marrom resolveu mudar de igreja. Passou a frequentar uma igreja batista próximo a sua casa, pertinho do Largo de São Mateus e na primeira travessa da avenida Mateo Bei.

Os problemas de Horácio começaram a agravar até falecer de forma bastante trágica aos 73 anos por um ataque fulminante do coração e seu filho não sabia dirigir o carro e acabou o colidindo no muro da garagem. Essa história é um retrato da imagem de um sujeito religioso, tradicional, que sentia inseguro ao caminhar pelas ruas do bairro e tinha a necessidade da arma e da bíblia para se apegar a alguma crença.

Horácio é um retrato do bolsonarismo-evangélico, que está muito distante do evangelho. Uma gente reacionária, tradicional, trabalhada pelo ódio. O personagem deste texto, ao transpor para o momento atual, é um reflexo do atraso, machismo e da ignominía. É um dos momentos mais trágicos da política brasileira e da falta de interesse do brasileiro.

Sim, o brasileiro está machucado, dolorido. Os jovens estão sem perspectiva e sem referência. Os jovens não se divertem, não flertam, não saem, não transam. Apenas vão para as igrejas, ficam em casa e os pais apenas colocam medo para que eles fujam das drogas ilícitas. Ao mesmo tempo, os pastores não incentivam e trabalham a autonomia dos sujeitos.

Portanto, o parlamento e o empate técnico entre Flávio Bolsonaro e presidente Lula é um reflexo do momento tão indefinido e medroso da população brasileira, endividada, estragada e tão religiosa.  As expressões do domingo são as mais trágicas possíveis. Em vez da alegria, a tristeza e a dor; ao invés da leveza, peso.

O Brasil está adoecido. Muito adoecido. Talvez tão adoecido quanto o “irmão Horácio”. O brasileiro prefere andar com a bíblia debaixo do braço, arma e uma cartelinha de psicotrópicos. Por medo, votam nos opressores e prestam total confiança aos opressores como os membros do Partido Liberal e Flávio Bolsonaro.

Luís Delcides – advogado e jornalista


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