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sexta-feira, 6 de maio de 2016

O papel da mineradora Samarco na Lista de Furnas e em outros escândalos em MG

Advogado que trabalhou para a Samarco disse possuir gravações comprometiam Aécio Neves
A lista de Furnas tem cinco páginas e seu conteúdo pode ser separado em duas faces. Nas páginas 1, 2, 3 e 4, estão relacionados os nomes dos 156 políticos que receberam dinheiro para a campanha eleitoral de 2002. Eram todos da base aliada do então presidente Fernando Henrique Cardoso. É o que se poderia chamar de a lista dos corruptos.

No final da página 4 e na página 5, estão relacionados os nomes de 101 empresas, as que deram dinheiro para financiar os candidatos. É o que se poderia chamar de a lista dos corruptores.

Nesta lista , estão fornecedores diretos da estatal Furnas e empresas com as quais o então diretor de Planejamento, Engenharia e Construção, Dimas Toledo, mantinha contatos, como operador que administrava os interesses de seus políticos protetores, rol em que Aécio Neves era o destaque.

Na relação dos corruptores, estão nomes conhecidos como a Alstom e a Siemens, no grupo das fornecedoras de equipamentos, a Camargo Correa, a Odebrecht e a Mendes Júnior, no grupo das empreiteiras, a Baurense, no grupo das prestadoras de serviço, e a Samarco Mineradora, no grupo das grandes consumidoras de energia (veja na página 4 da lista abaixo).

Com o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, interior de Minas, na última quinta-feira, a lama que destruiu casas, matou pelo menos uma pessoa e provocou o desaparecimento de outras 13, traz à tona uma relação estreita entre a Samarco e as administrações do PSDB em Minas Gerais e também no Espírito Santo, não só no caso da Lista de Furnas.

No ano 2000, uma operação de compra de créditos do ICMS, no valor à época de R$ 67 milhões, resultou num escândalo que levou à prisão o presidente da Assembleia Legislativa do Estado e colocou no banco dos réus o então governador, José Ignácio, do PSDB, a mulher dele, Maria Helena Ferreira, e o ex-ministro Aníbal Teixeira.

Os créditos do ICMS eram da Samarco, que os vendeu para a estatal de energia do Espírito Santo, Escelsa, sem que houvesse aprovação da Procuradoria do Estado. Um dos intermediários era o lobista Nílton Monteiro, que mais tarde denunciaria a Lista de Furnas.

Passado para trás na negociação dos créditos de ICMS da Samarco, ficou sem receber a comissão e denunciou o esquema. Uma investigação da Polícia Federal descobriu que parte do dinheiro recebido pela Samarco foi parar na conta de laranjas de deputados estaduais e ajudaram a comprar a eleição do deputado José Carlos Gratz a presidente da Assembleia. Gratz acabou preso e José Ignácio, nove anos depois, foi condenado a oito anos de cadeia. Ele recorreu da sentença e até hoje não foi preso.

O escândalo, que resultou na CPI da Propina, jogou luzes sobre a movimentação de Nílton Monteiro, o da Lista de Furnas, pelo submundo da política. Depois da propina no Espírito Santo, denunciou o Mensalão de Minas e a Lista de Furnas.

Nos três casos, o da Propina, o do Mensalão e da Lista, os documentos que apresentou tiveram autenticidade comprovada.

Em Minas, onde morava, Nílton respondeu a um inquérito movido pelos diretores da Samarco, por causa da denúncia no Espírito Santo. No curso da investigação, de denunciante a Samarco passou à denunciada, por apresentar provas falsas contra Nílton Monteiro.

Em 2010, um advogado que trabalhou tanto para o lobista Nílton Monteiro quanto para a Samarco prestou um depoimento considerado bombástico, em que confirmou possuir gravações que comprometiam a empresa Samarco e integrantes do primeiro escalão do governo de Minas, entre os quais o próprio governador Aécio Neves.

Depois disso, o inquérito desapareceu num trânsito entre a Delegacia e o Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Peças foram reapresentadas, na remontagem dos autos, como manda a lei, mas a versão final não inclui o depoimento bombástico desse advogado, além de outros documentos considerados importantes.

Nesta semana, dois dias antes da barragem da Samarco rachar, o delegado João Otacílio, que tomou o depoimento daquele advogado – chamado Joaquim Engler Filho – confirmou em juízo o teor do depoimento e reiterou que foi afastado por causa da investigação que se aproximava do governador Aécio Neves.

Um advogado que acompanha este caso de perto é Dino Miraglia, o primeiro a denunciar o desaparecimento do inquérito e a fraude na remontagem do processo. Depois disso, teve a casa e o escritório invadidos pela Polícia Civil, numa operação com mandado judicial, obtido por policiais que o acusavam de pertencer a uma quadrilha de estelionatários.

A operação contou com cães e movimentou um helicóptero, com voos rasantes sobre o condomínio onde o advogado morava. Dino Miraglia viu um investigador arrombar a porta do banheiro quando a esposa, chorando, se refugiou ali. Perdeu o casamento e muitos clientes.

Dino Miraglia, que já foi chamado de Cidadão Mais Você, no programa de Ana Maria Braga, por tirar da cadeia um homem condenado injustamente, hoje evita dar entrevista, e fala com poucos amigos. A um deles, disse que, se o governo de Minas remover a lama da Samarco, vai encontrar, além de vítimas, esqueletos no armário do governo de Aécio Neves/Antônio Anastasia, com casos de truculência policial, manipulação da justiça e corrupção.

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Joaquim de Carvalho
No DCM

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Cunha e Temer fazem PMDB de sanfona do impeachment em proveito próprio

  "De um lado, os sócios políticos Eduardo Cunha e Michel Temer, conseguindo 35 votos na bancada do partido para fazer de Leonardo Quintão (deputado que, segundo a BBC noticiou anteontem, mandou fazer o relatório do Código de Mineração no escritório dos advogados das donas da Samarco, a Vale e a BHP). De outro, com a volta de deputados federais que estavam licenciados para exercerem o cargo de Secretários, é possível que outra maioria se forme, ao inverso. " -  Fernando Brito

escorpitemer

 Em lugar de “unidade”, Cunha e Temer fazem PMDB de sanfona do impeachment


Texto de Fernando Brito - Tijolaço.com.br
Tudo indica que, nos próximos dias, vamos assistir o PMDB virar uma verdadeira safona política.
De um lado, os sócios políticos Eduardo Cunha e Michel Temer, conseguindo 35 votos na bancada do partido para fazer de Leonardo Quintão (deputado que, segundo a BBC noticiou anteontem, mandou fazer o relatório do Código de Mineração no escritório dos advogados das donas da Samarco, a Vale e a BHP)
Nos próximos dias, com a volta de deputados federais que estavam licenciados para exercerem o cargo de Secretários, é possível que outra maioria se forme, ao inverso.
Enquanto isso, a oposição promete paralisar as votações da Câmara, para que nada ande e a crise piore.
Vejam a que se reduziu a discussão do impeachment.
Os 30 juristas que foram oferecer seus pareceres em defesa do mandato de Dilma parecem ter jogado tempo e dinheiro fora.
A questão jurídica, se houve ou não crime de responsabilidade, absolutamente “não vem ao caso”.
A questão não é “eminentemente política”, mas “exclusivamente política”.
E da mais baixa política.
E assim será enquanto não se apostar na mobilização em defesa da Constituição ameaçada.
Que tem o nome de quem a ela comanda o ataque, do qual Temer e tucanos são cúmplices, por seus apetites.
É Cunha, o “Fora Cunha” que precisa ser brandido como estandarte da legalidade democrática sobre a qual ele projeta a sombra e as bicadas de corvo.
Todos os outros, para serevirem-se dele, a ele servem.

domingo, 15 de novembro de 2015

Crime ambiental da Samarco e da Vale privatizada: Quanto “vale” a morte de um rio para um país que é um mundo de interesses?



Chamar de tragédia um resultado que deveria e poderia ser previsto e evitado é o primeiro dos erros. O Brasil precisa, sim, achar e punir os culpados pelo fim de tanta vida
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil
Elder Dias

Fonte: Jornal Opção
No vídeo, não é o rio. É a lama, é só lama. Com a cor daquela das enxurradas que solapam o monte de terra que transborda da calçada da obra, mas multiplicando-se o fenômeno em escala gigantesca. Na beira do leito tomado por aquele líquido estranho (não só dejetos de minério de ferro, mas mercúrio, alumínio, boro, chumbo, enfim, “a tabela periódica inteira”, como tristemente definiu um técnico) que um dia foi água, à margem daquilo que um dia foi um rio, estão cascudos, peixes tradicionais dos rios daquela região e considerados de alta resistência. Todos mortos. Suas carcaças ancoradas ali, abatidos por uma força incontrolável.
Então, o homem do vídeo apanha um dos peixes para esfregar na tela de quem o assiste. Faz um depoimento que exala revolta. No fim de seu registro, misturando dor e impotência, professa um juramento: “A Vale não vai tirar nem mais um quilo de minério em Minas Gerais. Nos aguardem!”. Vale a pena falar da Vale, a Vale do Rio Doce. A ela voltaremos daqui a pouco — o Rio Doce, este não voltará.
É que a cena dos peixes mortos remete a uma experiência de infância. A um tio que então morava em São Luís de Montes Belos, a 120 quilômetros de Goiânia. Mecânico por profissão, pescador por paixão. Em uma de nossas idas até lá, saímos com ele de vara e humilde tralha: eu, meus irmãos, meu primo e meu pai. Destino: Rio Turvo, a algumas dezenas de quilômetros da cidade. Pescar era um passeio com uma emoção dúbia: de me deliciar fisgando os peixes e de sentir dó por meu prazer os matar. Foi por esse sentimento que um dia, com uns 7 ou 8 anos, resolvi devolver à água os peixes recém-fisgados — considerando-me, desde então, um precursor da pesca esportiva.
Mas a cena que marcou aquela tarde no Turvo foi nada prazerosa e toda aterradora. No momento em pescávamos — meu tio à parte, porque ele não gostava de nenhum barulho por perto —, uma quantidade incontável de peixes, principalmente piaus, desceu boiando. Um cardume inteiro morto. Tio Umbelino chegou e disse: “É veneno de plantação. Vamos embora”. E, com o curso do imponente rio servindo de rota àquele cortejo imprevisto, acabaram-se passeio e pescaria.
No crime do Rio Doce não são apenas peixes que estão mortos. É o próprio rio e tudo o que vivia dele: fauna, flora, patrimônio e gente. Lugares e suas histórias — a igrejinha multissecular, o restaurante tradicional, a praça de conversas e namoros — perdidos para sempre no meio da lama. Corpos de dezenas de pessoas que nunca mais serão encontradas. Espécies endêmicas que foram extintas em questão de horas. Outras que terão dias contados.
Peixes mortos pela falta de oxigênio e excesso de substâncias venenosas: e o desastre ainda não chegou ao mar | Divulgação/UOL
Peixes mortos pela falta de oxigênio e excesso de substâncias venenosas: e o desastre ainda não chegou ao mar | Divulgação/UOL
A tsunami de lama varreu do mapa um povoado, Bento Rodrigues. Um vídeo produzido pela TV Cultura, com menos de cinco minutos de duração, mostra como costumava ser a vida no subdistrito de Mariana (MG). A data da postagem no YouTube é de 5 de maio, exatos seis meses antes do crime ecológico. Um cenário bucólico, pessoas simples, o estilo rural mineiro, que nós goianos conhecemos tão bem, gente focada em produzir, como meta mais ambiciosa, uma boa geleia de pimenta para venda. Como diz o jornalista Alceu Luís Castilho, responsável por divulgar esse vídeo logo após a destruição provocada pelo rompimento das barragens, um povoado que “sintetizava um modo de vida tão esquecido pela imprensa quanto os impactos sociais e ambientais do mundo corporativo”.
Assistindo aquelas cenas embaladas pelo ponteado de uma viola caipira, não dá para deixar de imaginar o que é uma imensa onda de lama de dejetos tóxicos passando por cima de tudo aquilo, de todas as casas, levando animais e histórias que pertenceram a tantas vidas. Passando mesmo por cima das vidas, sem qualquer metáfora — moradores para sempre desaparecidos. A trajetória dessas pessoas foi sepultada. É construir outra, do zero, ou perderem o juízo. Quem teria sangue frio para tanto?
Mais abaixo, no curso maldito da lama que só vai parar no mar, uma cidade de quase 300 mil habitantes vive seus dias de pós-guerra. Governador Valadares perdeu o acesso à água potável, como tinha ocorrido com mais sete cidades mineiras até a sexta-feira, 13. A perspectiva sombria ao ver lama e não água passar debaixo da ponte leva alguns ao desespero e outros à oração. Galões e garrafões são motivo de tumulto. Donas de casa buscam água como quem garimpa ouro. O que vale para elas não é o que vale para a Vale.
O capital e a notícia
Do outro lado das barragens rompidas, uma empresa chamada Samarco. Produtora de pelotas de minério de ferro para exportação — a 10ª maior exportadora do País em mineração. Hoje seu capital é controlado por duas gigantes do setor de extração. Uma é a anglo-australiana BHP Billiton, que também tem negócios no Chile, na Colômbia e no Peru, além de outros países pelo mundo. Já foi multada por envenenar com cobre as terras peruanas e já tinha no currículo uma grave contaminação fluvial em Papua Nova Guiné, na Oceania. A outra é a Vale S.A., privatizada em 1997 no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e hoje controlada pela Valepar, que tem 53,9% do capital.
Vítimas instaladas em um ginásio em Mariana: solidariedade não pode se tornar uma forma de desviar o foco | Daniel Marenco / O Globo
Vítimas instaladas em um ginásio em Mariana: solidariedade não pode se tornar uma forma de desviar o foco | Daniel Marenco / O Globo
Resta saber quem manda na Valepar: 49% estão em fundos administrados pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ); a Bradespar, do Bradesco, tem 17,4%; a multinacional japonesa Mitsui, que participa de marcas como Sony, Yamaha e Toyota, 15%; e o BNDESpar, 9,5%. Por trás de toda a confusão de nomes e marcas, a certeza de que há muitos interesses poderosos envolvidos. E aqui outra observação importante: a imprensa brasileira não tem a prática de fiscalizar corporações da mesma forma com que faz com os governos.
É intrigante saber os rumos por que caminham as notícias e informações em casos como este. Por que dar tanta atenção à solidariedade e aos casos dramáticos (que são incontáveis), em vez de buscar investir na investigação? O que leva um veículo a buscar certa palavra (e não outra) para nomear tal ocorrência?
Uma imprensa que não trabalha como deveria torna difícil o acesso da informação relevante aos mais leigos. Como saber a diferença entre uma notícia sensacionalista/alarmista e outra realmente grave? Não seria difícil identificá-las e separá-las. A sensacionalista, quando surge o fato inicial, aparece estampada em uma manchete, toma um bloco do telejornal e, nos dias seguintes, tem seu espaço reduzido drasticamente. Uma notícia grave, mas realmente importante em seus desdobramentos, vai ocupar as primeiras páginas dos jornais e estar na chamada inicial dos âncoras durante dias e semanas. Mesmo que, num primeiro momento, não tenha sido levada em consideração. Simplesmente não tem como os veículos de imprensa fugirem dela, ainda que eles — ou seus anunciantes poderosos — não a queiram.
Mesmo com tanto capital envolvido que vem de anunciantes como Bradesco, Banco do Brasil, Sony, Toyota e outros, o malfeito está lá, tomando conta da água corrente. O rio de lama que matou o Rio Doce insiste em não sair das primeiras páginas dos jornais brasileiros. Em muitos deles, já esteve lá como uma notinha, uma foto-legenda na “dobra de baixo” (a metade inferior da capa); em outros, principalmente de Minas Gerais e do Espírito Santo, não há como fugir de ser manchete.
Interessante observar como o principal diário mineiro, “O Estado de Minas”, estampou o caso na capa desde o rompimento das barragens de rejeitos de mineração da Samarco S.A., ocorrido na quinta-feira, 5. No dia seguinte, o jornal colocou como manchete: “Tragédia em Mariana – Barragem se rompe e tsunami de lama arrasa vilarejo”. A partir da quarta-feira, 11, a retranca que abre o título foi trocada: virou “Tragédia em Minas”. Um pouco mais de crítica trocaria “tragédia” por “crime ambiental” ou algo similar.
Depois do dano cometido, poucos políticos no País correram para saber mais sobre esses bastidores. Mas muitos correram da responsabilidade. O senador Aécio Neves (PSDB), ex-governador de Minas, disse que não é hora de buscar culpados. Qual será a hora para os políticos mineiros, se estão quase todos atolados até a tampa em compromissos velados ou nem tanto com as mineradoras, que financiaram a campanha de toda uma bancada parlamentar?
A presidente Dilma Rousseff (PT) demorou uma semana para seguir até a região atingida. Com­portamento totalmente equivocado, que não repetiu na nota de repúdio ao atentado a Paris, na sexta-feira, 13, emitido minutos depois de confirmada a ação terrorista. Seria mais fácil enxergar a desgraça alheia do que a própria? Era hora de ao menos se postar como liderança, ainda que tenha dificuldade com isso.
O rabo preso de deputados e senadores fica nítido ao notar que uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) na Assembleia mineira para apurar o caso acabou abafada ainda com a lama escorrendo. Mais ainda ao ver o quanto cada partido recebeu, como doação de campanha, da Vale S.A. em 2014: do total de R$ 22,650 milhões, o PMDB — que controla o Ministério de Minas e Energia — ficou com R$ 11 milhões; o PT e o PSDB, com R$ 3,1 milhões; o PSB, com R$ 1,5 milhão; até o PCdoB se rendeu ao capital da Vale, embolsando R$ 1,1 milhão. Abaixo do milhão de reais, foram beneficiados com verbas da empresa também PP, Solidariedade, PPS, PSD, PR e PRB. Os dados foram divulgados pelo deputado Jean Wyllys (Psol-RJ), um dos poucos partidos que escaparam da lista. Não é à toa que outro deputado da sigla, o carioca Chico Alencar, seja também um dos que pedem punição. Bingo: assim explica-se à população mais despolitizada por que financiamento privado em um país como o Brasil serve para cobrir um mar de lama. De forma literal.
Banner virtual apresenta lista dos partidos que mais receberam doações de campanha da Vale em 2014; PMDB tem o Ministério das Minas e Energia
Banner virtual apresenta lista dos partidos que mais receberam doações de campanha da Vale em 2014; PMDB tem o Ministério das Minas e Energia
Não foi acidente. Não foi uma “tragédia”. Acidentes e tragédias assim o são quando o imponderável acontece: um ataque cardíaco no motorista do ônibus, um raio, um terremoto, um meteoro que cai. Não dá para falar em “acidente” quando havia laudos que alertavam para o comprometimento de várias barragens como as que ruíram, inclusive as próprias. Faltou fiscalização do poder público e sobrou negligência das empresas, sempre ávidas em lucrar o máximo e quase nunca animadas a gastar com o que pode “ficar para depois”.
A morte do Rio Doce, já dada como oficial por órgãos técnicos, é o maior crime ambiental da história brasileira. Basta dizer que é a primeira vez que uma bacia hidrográfica — totalmente formada na Região Sudeste — fica com seu principal manancial totalmente destruído.
Perto do que ocorreu em Minas, o “acidente” radiológico de Goiânia, com o césio 137 — um aparelho abandonado em meio a entulhos — é incrivelmente pequeno. Como goianiense, vivi nossa tragédia bem de perto. Lembramos todos nós do medo (eu era office-boy do escritório do meu pai e passava de ônibus quase todo dia perto de alguns dos pontos de contaminação). Os efeitos do césio, sabemos, foram terríveis para todos nós, mas principalmente para as famílias das vítimas e os militares que trabalharam diretamente. Mas, 28 anos depois, tudo ficou circunscrito ao estigma e ao depósito radioativo de Abadia. Se houve algo mais, ainda não ficou provado.
O caso que envolve a gigante multinacional Vale S.A. é muito mais abrangente e até o momento incontrolável. As consequências são imprevisíveis. Mas basta imaginar que o fornecimento de água de uma vasta região de Minas Gerais e do Espírito Santo foi cortado sem prazo para retorno para ter noção da gravidade. A imprensa, pouco crítica por vício próprio e um tanto de comprometimento econômico, prefere valorar o viés do drama e da necessidade de solidariedade. Não é a melhor informação de que precisamos.
Por ironia, na música do fone de ouvido enquanto escrevo este texto, a aleatoriedade do YouTube deixa rolar uma canção romântica do Maná: “Te Lloré Todo um Río”. “Chorar um rio inteiro”, deixar cair uma torrencial nuvem de lágrimas. É pouco mais do que isso o que podem fazer um senhorzinho de Bento Rodrigues ou uma dona de casa de Governador Valadares.
Sendo místico ou cético, as imagens do crime da Vale/Samarco são a materialização de um quadro: a violência das consequências (dejetos) do acúmulo do capital sobre os menos favorecidos. Aqueles que dele nunca usufruíram são os mais afetados. A natureza, em algum momento, cobra a fatura de todos. E chegou a hora. O Brasil teve de arcar com um rio inteiro desta vez. É pouco falar em crime de lesa-pátria. É algo que atenta contra o mar e, por ele, em seu caráter universal, contra a humanidade. Quem é que vai pagar por isso? E como vai pagar?

Mariana: Réquiem para uma terra morta em favor do Neoliberalismo privatarista



 "O Estado brasileiro, subserviente e fraco, vem sendo sequestrado historicamente por esse projeto neoliberal. E tem arrastado com ele vidas, mortes evitáveis e destruição. Neste momento, no entanto, os gritos mais verdadeiros já foram calados para sempre. É por eles que precisamos levantar nossa voz." - João Paulo Cunha

Réquiem para uma terra morta




Texto de João Paulo Cunha

Fonte: Brasil de Fato


Onde havia vida, hoje se procura um sinal, ainda que de confirmação da dor. No lugar em que pessoas viviam, hoje chafurda um grito que não vence a resistência do barro envenenado. Na cidade que viu nascer Minas Gerais, tudo regride a um estado mineral e sem brilho. Nada há de brotar tão cedo daquele solo. A matéria tóxica e plástica envolve todas as possibilidades imediatas de vida. Até a água, elemento primário do mundo, perde seu poder saneador para ser apenas veículo do que escorre como operoso fluxo de rejeitos. Fosse apenas o sofrimento, já seria demasiado. Mas há mais: o descaso.
A degradação do ambiente e do trabalho de homens e mulheres foi apontada sem trégua por movimentos sociais demonizados pelos meios de comunicação. São décadas de uma narrativa que conjuga a denúncia da exploração, a ausência de cuidado com a terra, a submissão sem constrangimento aos interesses do lucro.
Os distritos de Mariana se tornam símbolos de uma forma torpe de entrega. Da troca do futuro possível pela sobrevivência imediata e baça; da capitulação da dignidade pela urgência; do engodo da sustentabilidade que turvou as mentes antes de enlamear a paisagem.
Um jogo desigual, imundo, desonesto. A barganha da vida e de suas possibilidades pela oferta de um horizonte limitado no tempo. A vizinhança imposta da morte em forma de matéria incontível, de lama pútrida, do anúncio fatal.
Quando a morte cumpriu seu desígnio, mais que isso, quando mostrou sua trabalhosa construção do nada, o que se viu foi o jogo da mentira assumir a cena. Não foi a ganância que empilhou milhões de toneladas venenosas sobre as pessoas; não foi a necessidade de conter gastos que impediu o investimento em segurança; não foi a irresponsabilidade que armou a tragédia inevitável.
Foi o terremoto. A fatalidade. O risco incontornável do acaso.
Não foi uma empresa que nunca respeitou a vida, como a Vale, escondida em nome de subsidiárias; não foram pedidos de leniência na legislação ambiental que hoje correm no Legislativo; nem mesmo artifícios fiscais para aumentar o lucro e não deixar para a terra e seus habitantes nada além de crateras e lama química.
Foi a necessidade da economia. Foram as leis de mercado. Os arranjos modernos entre Estado e iniciativa privada.
A cidade, antes de chorar seus mortos com todas as lágrimas devidas, já teme o fechamento da Samarco. Um culto odioso à morte, uma derrocada de todos os valores em nome das conveniências e de um senso equivocado de futuro. Não há a posteridade no nada.
O Estado, ao aceitar a empresa como espaço para manifestar sua leitura do drama humano que testemunhava, trocou a legitimidade pela sombra da conivência.
Minas Gerais, cumprindo um destino funesto, abre seu caminho para o mar. Impulsionada pela dinâmica da economia que, sem metáforas, arranca a riqueza do chão e deixa seu rastro de monturos, opera a química inviável de transformar em lucro imediato o que a natureza demorou milhões de ano para criar. A diferença de tempos – geológico e econômico – está na raiz da tragédia. A ganância trabalha no horizonte de uma geração, já que os acionistas precisam ficar ricos; Gaia segue outra dinâmica e não se apieda de quem não cuida dela.
O Estado brasileiro, subserviente e fraco, vem sendo sequestrado historicamente por esse projeto. E tem, dia a dia, arrastado com ele vidas mal vividas, mortes evitáveis e destruição. Algumas vezes a resposta dos elementos se transforma em um som poderoso, ainda que difícil de suportar. Neste momento, no entanto, os gritos mais verdadeiros já foram calados para sempre. É por eles que precisamos levantar nossa voz.

*João Paulo Cunha é jornalista e colunista do Brasil de Fato MG.