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domingo, 15 de novembro de 2015

Crime ambiental da Samarco e da Vale privatizada: Quanto “vale” a morte de um rio para um país que é um mundo de interesses?



Chamar de tragédia um resultado que deveria e poderia ser previsto e evitado é o primeiro dos erros. O Brasil precisa, sim, achar e punir os culpados pelo fim de tanta vida
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil
Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil
Elder Dias

Fonte: Jornal Opção
No vídeo, não é o rio. É a lama, é só lama. Com a cor daquela das enxurradas que solapam o monte de terra que transborda da calçada da obra, mas multiplicando-se o fenômeno em escala gigantesca. Na beira do leito tomado por aquele líquido estranho (não só dejetos de minério de ferro, mas mercúrio, alumínio, boro, chumbo, enfim, “a tabela periódica inteira”, como tristemente definiu um técnico) que um dia foi água, à margem daquilo que um dia foi um rio, estão cascudos, peixes tradicionais dos rios daquela região e considerados de alta resistência. Todos mortos. Suas carcaças ancoradas ali, abatidos por uma força incontrolável.
Então, o homem do vídeo apanha um dos peixes para esfregar na tela de quem o assiste. Faz um depoimento que exala revolta. No fim de seu registro, misturando dor e impotência, professa um juramento: “A Vale não vai tirar nem mais um quilo de minério em Minas Gerais. Nos aguardem!”. Vale a pena falar da Vale, a Vale do Rio Doce. A ela voltaremos daqui a pouco — o Rio Doce, este não voltará.
É que a cena dos peixes mortos remete a uma experiência de infância. A um tio que então morava em São Luís de Montes Belos, a 120 quilômetros de Goiânia. Mecânico por profissão, pescador por paixão. Em uma de nossas idas até lá, saímos com ele de vara e humilde tralha: eu, meus irmãos, meu primo e meu pai. Destino: Rio Turvo, a algumas dezenas de quilômetros da cidade. Pescar era um passeio com uma emoção dúbia: de me deliciar fisgando os peixes e de sentir dó por meu prazer os matar. Foi por esse sentimento que um dia, com uns 7 ou 8 anos, resolvi devolver à água os peixes recém-fisgados — considerando-me, desde então, um precursor da pesca esportiva.
Mas a cena que marcou aquela tarde no Turvo foi nada prazerosa e toda aterradora. No momento em pescávamos — meu tio à parte, porque ele não gostava de nenhum barulho por perto —, uma quantidade incontável de peixes, principalmente piaus, desceu boiando. Um cardume inteiro morto. Tio Umbelino chegou e disse: “É veneno de plantação. Vamos embora”. E, com o curso do imponente rio servindo de rota àquele cortejo imprevisto, acabaram-se passeio e pescaria.
No crime do Rio Doce não são apenas peixes que estão mortos. É o próprio rio e tudo o que vivia dele: fauna, flora, patrimônio e gente. Lugares e suas histórias — a igrejinha multissecular, o restaurante tradicional, a praça de conversas e namoros — perdidos para sempre no meio da lama. Corpos de dezenas de pessoas que nunca mais serão encontradas. Espécies endêmicas que foram extintas em questão de horas. Outras que terão dias contados.
Peixes mortos pela falta de oxigênio e excesso de substâncias venenosas: e o desastre ainda não chegou ao mar | Divulgação/UOL
Peixes mortos pela falta de oxigênio e excesso de substâncias venenosas: e o desastre ainda não chegou ao mar | Divulgação/UOL
A tsunami de lama varreu do mapa um povoado, Bento Rodrigues. Um vídeo produzido pela TV Cultura, com menos de cinco minutos de duração, mostra como costumava ser a vida no subdistrito de Mariana (MG). A data da postagem no YouTube é de 5 de maio, exatos seis meses antes do crime ecológico. Um cenário bucólico, pessoas simples, o estilo rural mineiro, que nós goianos conhecemos tão bem, gente focada em produzir, como meta mais ambiciosa, uma boa geleia de pimenta para venda. Como diz o jornalista Alceu Luís Castilho, responsável por divulgar esse vídeo logo após a destruição provocada pelo rompimento das barragens, um povoado que “sintetizava um modo de vida tão esquecido pela imprensa quanto os impactos sociais e ambientais do mundo corporativo”.
Assistindo aquelas cenas embaladas pelo ponteado de uma viola caipira, não dá para deixar de imaginar o que é uma imensa onda de lama de dejetos tóxicos passando por cima de tudo aquilo, de todas as casas, levando animais e histórias que pertenceram a tantas vidas. Passando mesmo por cima das vidas, sem qualquer metáfora — moradores para sempre desaparecidos. A trajetória dessas pessoas foi sepultada. É construir outra, do zero, ou perderem o juízo. Quem teria sangue frio para tanto?
Mais abaixo, no curso maldito da lama que só vai parar no mar, uma cidade de quase 300 mil habitantes vive seus dias de pós-guerra. Governador Valadares perdeu o acesso à água potável, como tinha ocorrido com mais sete cidades mineiras até a sexta-feira, 13. A perspectiva sombria ao ver lama e não água passar debaixo da ponte leva alguns ao desespero e outros à oração. Galões e garrafões são motivo de tumulto. Donas de casa buscam água como quem garimpa ouro. O que vale para elas não é o que vale para a Vale.
O capital e a notícia
Do outro lado das barragens rompidas, uma empresa chamada Samarco. Produtora de pelotas de minério de ferro para exportação — a 10ª maior exportadora do País em mineração. Hoje seu capital é controlado por duas gigantes do setor de extração. Uma é a anglo-australiana BHP Billiton, que também tem negócios no Chile, na Colômbia e no Peru, além de outros países pelo mundo. Já foi multada por envenenar com cobre as terras peruanas e já tinha no currículo uma grave contaminação fluvial em Papua Nova Guiné, na Oceania. A outra é a Vale S.A., privatizada em 1997 no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e hoje controlada pela Valepar, que tem 53,9% do capital.
Vítimas instaladas em um ginásio em Mariana: solidariedade não pode se tornar uma forma de desviar o foco | Daniel Marenco / O Globo
Vítimas instaladas em um ginásio em Mariana: solidariedade não pode se tornar uma forma de desviar o foco | Daniel Marenco / O Globo
Resta saber quem manda na Valepar: 49% estão em fundos administrados pela Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ); a Bradespar, do Bradesco, tem 17,4%; a multinacional japonesa Mitsui, que participa de marcas como Sony, Yamaha e Toyota, 15%; e o BNDESpar, 9,5%. Por trás de toda a confusão de nomes e marcas, a certeza de que há muitos interesses poderosos envolvidos. E aqui outra observação importante: a imprensa brasileira não tem a prática de fiscalizar corporações da mesma forma com que faz com os governos.
É intrigante saber os rumos por que caminham as notícias e informações em casos como este. Por que dar tanta atenção à solidariedade e aos casos dramáticos (que são incontáveis), em vez de buscar investir na investigação? O que leva um veículo a buscar certa palavra (e não outra) para nomear tal ocorrência?
Uma imprensa que não trabalha como deveria torna difícil o acesso da informação relevante aos mais leigos. Como saber a diferença entre uma notícia sensacionalista/alarmista e outra realmente grave? Não seria difícil identificá-las e separá-las. A sensacionalista, quando surge o fato inicial, aparece estampada em uma manchete, toma um bloco do telejornal e, nos dias seguintes, tem seu espaço reduzido drasticamente. Uma notícia grave, mas realmente importante em seus desdobramentos, vai ocupar as primeiras páginas dos jornais e estar na chamada inicial dos âncoras durante dias e semanas. Mesmo que, num primeiro momento, não tenha sido levada em consideração. Simplesmente não tem como os veículos de imprensa fugirem dela, ainda que eles — ou seus anunciantes poderosos — não a queiram.
Mesmo com tanto capital envolvido que vem de anunciantes como Bradesco, Banco do Brasil, Sony, Toyota e outros, o malfeito está lá, tomando conta da água corrente. O rio de lama que matou o Rio Doce insiste em não sair das primeiras páginas dos jornais brasileiros. Em muitos deles, já esteve lá como uma notinha, uma foto-legenda na “dobra de baixo” (a metade inferior da capa); em outros, principalmente de Minas Gerais e do Espírito Santo, não há como fugir de ser manchete.
Interessante observar como o principal diário mineiro, “O Estado de Minas”, estampou o caso na capa desde o rompimento das barragens de rejeitos de mineração da Samarco S.A., ocorrido na quinta-feira, 5. No dia seguinte, o jornal colocou como manchete: “Tragédia em Mariana – Barragem se rompe e tsunami de lama arrasa vilarejo”. A partir da quarta-feira, 11, a retranca que abre o título foi trocada: virou “Tragédia em Minas”. Um pouco mais de crítica trocaria “tragédia” por “crime ambiental” ou algo similar.
Depois do dano cometido, poucos políticos no País correram para saber mais sobre esses bastidores. Mas muitos correram da responsabilidade. O senador Aécio Neves (PSDB), ex-governador de Minas, disse que não é hora de buscar culpados. Qual será a hora para os políticos mineiros, se estão quase todos atolados até a tampa em compromissos velados ou nem tanto com as mineradoras, que financiaram a campanha de toda uma bancada parlamentar?
A presidente Dilma Rousseff (PT) demorou uma semana para seguir até a região atingida. Com­portamento totalmente equivocado, que não repetiu na nota de repúdio ao atentado a Paris, na sexta-feira, 13, emitido minutos depois de confirmada a ação terrorista. Seria mais fácil enxergar a desgraça alheia do que a própria? Era hora de ao menos se postar como liderança, ainda que tenha dificuldade com isso.
O rabo preso de deputados e senadores fica nítido ao notar que uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) na Assembleia mineira para apurar o caso acabou abafada ainda com a lama escorrendo. Mais ainda ao ver o quanto cada partido recebeu, como doação de campanha, da Vale S.A. em 2014: do total de R$ 22,650 milhões, o PMDB — que controla o Ministério de Minas e Energia — ficou com R$ 11 milhões; o PT e o PSDB, com R$ 3,1 milhões; o PSB, com R$ 1,5 milhão; até o PCdoB se rendeu ao capital da Vale, embolsando R$ 1,1 milhão. Abaixo do milhão de reais, foram beneficiados com verbas da empresa também PP, Solidariedade, PPS, PSD, PR e PRB. Os dados foram divulgados pelo deputado Jean Wyllys (Psol-RJ), um dos poucos partidos que escaparam da lista. Não é à toa que outro deputado da sigla, o carioca Chico Alencar, seja também um dos que pedem punição. Bingo: assim explica-se à população mais despolitizada por que financiamento privado em um país como o Brasil serve para cobrir um mar de lama. De forma literal.
Banner virtual apresenta lista dos partidos que mais receberam doações de campanha da Vale em 2014; PMDB tem o Ministério das Minas e Energia
Banner virtual apresenta lista dos partidos que mais receberam doações de campanha da Vale em 2014; PMDB tem o Ministério das Minas e Energia
Não foi acidente. Não foi uma “tragédia”. Acidentes e tragédias assim o são quando o imponderável acontece: um ataque cardíaco no motorista do ônibus, um raio, um terremoto, um meteoro que cai. Não dá para falar em “acidente” quando havia laudos que alertavam para o comprometimento de várias barragens como as que ruíram, inclusive as próprias. Faltou fiscalização do poder público e sobrou negligência das empresas, sempre ávidas em lucrar o máximo e quase nunca animadas a gastar com o que pode “ficar para depois”.
A morte do Rio Doce, já dada como oficial por órgãos técnicos, é o maior crime ambiental da história brasileira. Basta dizer que é a primeira vez que uma bacia hidrográfica — totalmente formada na Região Sudeste — fica com seu principal manancial totalmente destruído.
Perto do que ocorreu em Minas, o “acidente” radiológico de Goiânia, com o césio 137 — um aparelho abandonado em meio a entulhos — é incrivelmente pequeno. Como goianiense, vivi nossa tragédia bem de perto. Lembramos todos nós do medo (eu era office-boy do escritório do meu pai e passava de ônibus quase todo dia perto de alguns dos pontos de contaminação). Os efeitos do césio, sabemos, foram terríveis para todos nós, mas principalmente para as famílias das vítimas e os militares que trabalharam diretamente. Mas, 28 anos depois, tudo ficou circunscrito ao estigma e ao depósito radioativo de Abadia. Se houve algo mais, ainda não ficou provado.
O caso que envolve a gigante multinacional Vale S.A. é muito mais abrangente e até o momento incontrolável. As consequências são imprevisíveis. Mas basta imaginar que o fornecimento de água de uma vasta região de Minas Gerais e do Espírito Santo foi cortado sem prazo para retorno para ter noção da gravidade. A imprensa, pouco crítica por vício próprio e um tanto de comprometimento econômico, prefere valorar o viés do drama e da necessidade de solidariedade. Não é a melhor informação de que precisamos.
Por ironia, na música do fone de ouvido enquanto escrevo este texto, a aleatoriedade do YouTube deixa rolar uma canção romântica do Maná: “Te Lloré Todo um Río”. “Chorar um rio inteiro”, deixar cair uma torrencial nuvem de lágrimas. É pouco mais do que isso o que podem fazer um senhorzinho de Bento Rodrigues ou uma dona de casa de Governador Valadares.
Sendo místico ou cético, as imagens do crime da Vale/Samarco são a materialização de um quadro: a violência das consequências (dejetos) do acúmulo do capital sobre os menos favorecidos. Aqueles que dele nunca usufruíram são os mais afetados. A natureza, em algum momento, cobra a fatura de todos. E chegou a hora. O Brasil teve de arcar com um rio inteiro desta vez. É pouco falar em crime de lesa-pátria. É algo que atenta contra o mar e, por ele, em seu caráter universal, contra a humanidade. Quem é que vai pagar por isso? E como vai pagar?

Mariana: Réquiem para uma terra morta em favor do Neoliberalismo privatarista



 "O Estado brasileiro, subserviente e fraco, vem sendo sequestrado historicamente por esse projeto neoliberal. E tem arrastado com ele vidas, mortes evitáveis e destruição. Neste momento, no entanto, os gritos mais verdadeiros já foram calados para sempre. É por eles que precisamos levantar nossa voz." - João Paulo Cunha

Réquiem para uma terra morta




Texto de João Paulo Cunha

Fonte: Brasil de Fato


Onde havia vida, hoje se procura um sinal, ainda que de confirmação da dor. No lugar em que pessoas viviam, hoje chafurda um grito que não vence a resistência do barro envenenado. Na cidade que viu nascer Minas Gerais, tudo regride a um estado mineral e sem brilho. Nada há de brotar tão cedo daquele solo. A matéria tóxica e plástica envolve todas as possibilidades imediatas de vida. Até a água, elemento primário do mundo, perde seu poder saneador para ser apenas veículo do que escorre como operoso fluxo de rejeitos. Fosse apenas o sofrimento, já seria demasiado. Mas há mais: o descaso.
A degradação do ambiente e do trabalho de homens e mulheres foi apontada sem trégua por movimentos sociais demonizados pelos meios de comunicação. São décadas de uma narrativa que conjuga a denúncia da exploração, a ausência de cuidado com a terra, a submissão sem constrangimento aos interesses do lucro.
Os distritos de Mariana se tornam símbolos de uma forma torpe de entrega. Da troca do futuro possível pela sobrevivência imediata e baça; da capitulação da dignidade pela urgência; do engodo da sustentabilidade que turvou as mentes antes de enlamear a paisagem.
Um jogo desigual, imundo, desonesto. A barganha da vida e de suas possibilidades pela oferta de um horizonte limitado no tempo. A vizinhança imposta da morte em forma de matéria incontível, de lama pútrida, do anúncio fatal.
Quando a morte cumpriu seu desígnio, mais que isso, quando mostrou sua trabalhosa construção do nada, o que se viu foi o jogo da mentira assumir a cena. Não foi a ganância que empilhou milhões de toneladas venenosas sobre as pessoas; não foi a necessidade de conter gastos que impediu o investimento em segurança; não foi a irresponsabilidade que armou a tragédia inevitável.
Foi o terremoto. A fatalidade. O risco incontornável do acaso.
Não foi uma empresa que nunca respeitou a vida, como a Vale, escondida em nome de subsidiárias; não foram pedidos de leniência na legislação ambiental que hoje correm no Legislativo; nem mesmo artifícios fiscais para aumentar o lucro e não deixar para a terra e seus habitantes nada além de crateras e lama química.
Foi a necessidade da economia. Foram as leis de mercado. Os arranjos modernos entre Estado e iniciativa privada.
A cidade, antes de chorar seus mortos com todas as lágrimas devidas, já teme o fechamento da Samarco. Um culto odioso à morte, uma derrocada de todos os valores em nome das conveniências e de um senso equivocado de futuro. Não há a posteridade no nada.
O Estado, ao aceitar a empresa como espaço para manifestar sua leitura do drama humano que testemunhava, trocou a legitimidade pela sombra da conivência.
Minas Gerais, cumprindo um destino funesto, abre seu caminho para o mar. Impulsionada pela dinâmica da economia que, sem metáforas, arranca a riqueza do chão e deixa seu rastro de monturos, opera a química inviável de transformar em lucro imediato o que a natureza demorou milhões de ano para criar. A diferença de tempos – geológico e econômico – está na raiz da tragédia. A ganância trabalha no horizonte de uma geração, já que os acionistas precisam ficar ricos; Gaia segue outra dinâmica e não se apieda de quem não cuida dela.
O Estado brasileiro, subserviente e fraco, vem sendo sequestrado historicamente por esse projeto. E tem, dia a dia, arrastado com ele vidas mal vividas, mortes evitáveis e destruição. Algumas vezes a resposta dos elementos se transforma em um som poderoso, ainda que difícil de suportar. Neste momento, no entanto, os gritos mais verdadeiros já foram calados para sempre. É por eles que precisamos levantar nossa voz.

*João Paulo Cunha é jornalista e colunista do Brasil de Fato MG.

sábado, 14 de novembro de 2015

Dos Atentados em Paris à tragédia do Vale de Lama em Mariana: ou do horror político à tentativa de acobertar o horror econômico



Os atentados em Paris e o crime ambiental em Mariana não são hierarquizáveis; o problema consiste em minimizar uma das tragédias por determinadas conveniências

De Paris ao Rio Doce: do horror político ao horror econômico

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho), do Blog do Castilho
Muita gente no Brasil está falando sobre os atentados em Paris, com mais de cem mortos, em comparação com a maior tragédia socioambiental brasileira do século XXI, o rompimento de barragens em Mariana (MG), com mais de 20 mortos e desaparecidos e uma destruição incalculável do ambiente, entre espécies extintas, impacto por décadas e ameaça direta à sobrevivência de um rio importante, o Rio Doce.
Existe a percepção de que a tragédia francesa abafará a tragédia brasileira. E a verbalização dessa percepção gera um ruído: como se quem dissesse isso fosse indiferente a cada francês morto e ao horror específico dos massacres em Paris, à covardia e ao fanatismo. Com isso se cria um falso problema. Ou, no mínimo, secundário: a nossa suposta insensibilidade. A dos cidadãos, a dos internautas.
E não, não somos nós os culpados. Existem dois horrores simultâneos acontecendo. Um deles é político, mais precisamente geopolítico: o horror que desemboca no massacre de Paris, nos atentados de 11 de setembro, no atentado ao Charles Hebdo, movido também a profundos abismos religiosos e culturais, potencializado por ações tresloucadas e cinicamente moralizantes do Ocidente. O outro horror é econômico.
“Horror Econômico” é o nome de um livro da escritora francesa Viviane Forrester, que dissecava com qualidade literária, em 1996, a lógica abominável de nosso sistema econômico, e as farsas discursivas utilizadas para perpetuá-lo. Era um libelo humanista em defesa dos trabalhadores, da vida e do ambiente, e sobre a planejada cegueira coletiva em relação às desigualdades inerentes ao nosso sistema de produção.
O economista francês Jacques Généreux respondeu no ano seguinte que o horror era político, e não econômico. E deu esse nome ao livro: “Horror Político”. Tanto pela estratégia de poder dos governos (em parceria com as grandes corporações) como pela aceitação dos cidadãos, pelo silêncio, pela incapacidade de reação, de se fazer outras escolhas.
HORRORES SIMULTÂNEOS
Os horrores coexistem e são simultâneos, muitas vezes convergentes. Mas há diferenças. Dos arredores da Torre Eiffel (feita de ferro) ao ferro extraído irresponsavelmente em Mariana há uma hierarquia de fatores, e não de dor, uma gama de responsabilidades específicas. O Estado Islâmico e a Vale não representam o mesmo campo ideológico; nem a mesma religião; nem têm os bolsos recheados com a mesma intensidade. Um aposta no desespero como recurso político; a outra aposta no amortecimento.
O Estado Islâmico é um inimigo conveniente para o sistema. O que não o exime de seus horrores. A Samarco, não. A Samarco é o próprio sistema. A Samarco é a brasileira Vale e a anglo-australiana Billinton. A Vale tem capital japonês, tem dedo do Estado brasileiro, tem fundo de pensão, tem o Bradesco. A Vale é o sistema que se perpetua diariamente nas páginas da imprensa – tanto as jornalísticas como as publicitárias.
E, portanto, essa mesma imprensa cantará com mais força o horror distante, com o inimigo consensual. Não há possibilidade de “acidente” em um massacre movido a metralhadoras, e fica decretada a impossibilidade de contextualização (nunca de justificação), de tentarmos entender o que acontece, por que acontece esse tipo de barbárie e qual o papel dos que não se julgam bárbaros na perpetuação dessa violência.
No Brasil, define-se uma lógica contrária. A morte de milhões de animais, a destruição de um povoado inteiro (que não mais existirá), as cinco crianças mortas ou desaparecidas e a incrível sequência de impactos ambientais (como a falta d’água em municípios inteiros de Minas) são tratadas como se fossem um mero detalhe, “desculpa aí, foi mal, mas nós geramos empregos na região e somos muito bem intencionados, nós somos o desenvolvimento”.
NÃO FOI UM ACIDENTE
O papel da imprensa graúda é o de reforçar a imagem de um “acidente” – como se esse acidente não fosse inerente a esse sistema econômico genocida. Não fosse também o horror. Alguns profissionais nos grandes jornais resistem e produzem notícias importantes. Mas o problema é o dimensionamento. Não haverá avalanche noticiosa sobre o desastre ambiental como o volume de exclamações sobre Paris. O efeito geral, a médio prazo, é o de minimização.
Um dos problemas desse noticiário é que ele só reporta os espasmos dos conflitos políticos e econômicos. Só as erupções. E não o rio diário de impactos sociais e ambientais. Precisaríamos criar uma cultura de acompanhar o sistema político e o sistema econômico de forma mais orgânica, para que não apenas enxuguemos gelo midiático a cada tragédia. E entendamos melhor o que leva a tudo isso. Sempre questionando o poder – e não as vítimas.
O mundo não está dividido entre “os loucos do Estado Islâmico” e “as necessárias empresas geradoras de emprego”. Que se multipliquem as nuances e os adjetivos. Sem ilusão de que nossa sociedade e nosso modo de vida seja superior. Nós também temos (e no poder) nossos fanáticos, nossos obsessivo-compulsivos e nossos psicopatas. Basta de naturalizar um modelo violento de apropriação dos recursos naturais sem que os trabalhadores e a sociedade possam dizer: “Não. Desengatilhem essa metralhadora”.