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sexta-feira, 11 de outubro de 2024

O patriarcado (machismo) e as estruturas históricas de poder que perpetuam a desigualdade

 

Entenda como o patriarcado, um sistema de dominação enraizado na sociedade, perpetua desigualdades de gênero, limita a autonomia feminina e influencia as relações de poder.

Do site Icl notícias:



O patriarcado é um sistema de dominação baseado na ideia de que os homens detêm a autoridade moral, privilégio social, controle das propriedades e funções de liderança. No ambiente familiar ou doméstico, o pai ou figura paterna são a autoridade e assumem a responsabilidade total sobre as mulheres e as crianças.

Essa estrutura de poder profundamente enraizada em nossas instituições, costumes, valores e comportamentos se perpetua há séculos. Ele se manifesta de forma invisível, moldando as relações de gênero e reproduzindo desigualdades entre homens e mulheres, limitando o acesso das mulheres ao poder, à autonomia e à liberdade.

O que é patriarcado?

Patriarcado, significado segundo o dicionário:

  1. Dignidade ou jurisdição de patriarca;
  2. Exercício das funções de patriarca;
  3. Diocese dirigida por um patriarca;
  4. Tipo de organização social que se caracteriza pela sucessão patrilinear, pela autoridade paterna e pela subordinação das mulheres e dos filhos.

Ou seja, o patriarcado é um sistema social em que os homens detêm o poder e a autoridade sobre as mulheres e se baseia na ideia da superioridade masculina e da inferioridade feminina. Esse desequillíbrio permite que os homens tenham direito a uma posição dominante na sociedade.

O termo “patriarcado” deriva da palavra grega “pater”, que significa “pai”, e reflete a ideia de que o pai é a figura de autoridade e poder na família e na sociedade.

A diferença entre machismo e patriarcado

Machismo e patriarcado são conceitos relacionados, mas não são sinônimos. Enquanto o machismo é uma manifestação do patriarcado em nível individual, o patriarcado é um sistema social de opressão que sempre necessita do vínculo para existir – seja o pai ou o marido.

O machismo é o conjunto de atitudes e comportamentos que expressam a crença na superioridade masculina e na inferioridade feminina, uma espécie de manifestação do patriarcado no nível individual.

Já o patriarcado é um sistema social que estrutura as relações de poder entre homens e mulheres de forma hierárquica, favorecendo os homens, sejam nas relações familiares ou conjugais. É uma estrutura de dominação que se manifesta em leis, costumes, valores e comportamentos, sempre eliminando direitos e liberdades das mulheres em favor do desejo masculino.

A sociedade patriarcal

Uma sociedade patriarcal é uma sociedade organizada em torno de um sistema de poder masculino. Nessa sociedade, as mulheres estão subordinadas aos homens em todos os aspectos da vida, desde a família até o trabalho, a política e a cultura. Mas é importante lembrar que os homens a quem elas devem responder são pessoas com quem têm vínculos, como familiares ou cônjuges.

Na sociedade patriarcal,  o controle do corpo feminino se dá por meio de diversos mecanismos, incluindo leis, costumes e valores, todos pensados para limitar a autonomia da mulher sobre seu próprio corpo. O patriarcado define como as mulheres devem se vestir, os ideais que devem seguir e quais comportamentos são esperados delas – o que inclui o exercício da sexualidade.

Como um sistema de poder masculino, o patriarcado limita o acesso e a atuação das mulheres em todos os aspectos da vida comum, da política aos ambientes sociais. Isso significa que mulheres vão enfrentar dificuldades para ocupar cargos de liderança, ter acesso a recursos financeiros (como conta em bancos, cartão de créditos e até empréstimos) e participar ativamente das decisões que afetam a sociedade.

É importante lembrar que, no Brasil, por muito tempo o único lugar possível para uma mulher era o ambiente doméstico. Por isso, o acesso a diversos ambientes tidos como naturais para os homens foi conquistado tardia e com muita batalha pelas mulheres.

A disparidade de direitos continua desigual entre os gêneros, se pensarmos que existe um intervalo enorme de tempo entre as conquistas femininas e masculinas. Crédito: Sesc RJ

A disparidade de direitos continua desigual entre os gêneros, se pensarmos que existe um intervalo enorme de tempo entre as conquistas femininas e masculinas. Crédito: Sesc RJ

As barreiras invisíveis do patriarcado

Parte da herança dessa superioridade masculina – hipotética, já que não há nenhuma evidência científica de que os gêneros representam diferenças fisiológicas de habilidade ou capacidade -, o patriarcado perpetua estereótipos de gênero.

Segundo esse ideal patriarcal, as mulheres estão sempre associadas à fragilidade, à submissão e aos cuidados domésticos, enquanto os homens são sinônimo de força, autoridade e competitividade. Esses estereótipos limitam as oportunidades e influenciam as relações entre homens e mulheres.

O patriarcado perpetua a violência contra as mulheres em todas as suas formas, implementando uma espécie de cultura da violência contra a mulher. Entre essas violências estão a violência doméstica, a importunação e o assédio sexual, o estupro e o feminicídio. A cultura da violência é uma consequência direta da estrutura de poder masculina tão característica do patriarcado.

Quais as diferenças entre matriarcado e patriarcado?

O matriarcado é um sistema social em que as mulheres detêm o poder e a autoridade sobre os homens (mesmo que seja matriarcado seja um conceito teórico e não exista nenhuma sociedade que seja completamente matriarcal).

A comparação é útil para compreender as dinâmicas de poder que se estabelecem em uma sociedade. A principal diferença entre matriarcado e patriarcado é a estrutura de poder. No patriarcado, os homens detêm o poder, enquanto no matriarcado as mulheres detêm o poder.

O conceito de matriarcado é usado principalmente como um contraponto ao patriarcado, para representar um sistema social hipotético em que as mulheres tenham o poder.

A relação intrínseca e histórica entre patriarcado e religião

O patriarcado tem influenciado profundamente as religiões ao longo da história, e vice-versa, considerando que muitas delas têm uma estrutura hierárquica e patriarcal, com homens ocupando posições de liderança e de autoridade sobre as mulheres.

A interpretação de textos religiosos muitas vezes reforçou (e ainda o faz) os estereótipos de gênero e a subordinação feminina, justificando a discriminação contra as mulheres, a violência doméstica e a limitação dos direitos reprodutivos.

O combate ao patriarcado requer, obrigatoriamente, o debate e a luta por uma religião mais igualitária e justa entre homens e mulheres. É preciso repensar, de forma crítica, a leitura dos textos ecumênicos e os dogmas religiosos para eliminar preconceitos, interpretações tendenciosas e outros vieses que prejudiquem majoritariamente o sexo feminino.

A crise da masculinidade na sociedade moderna

A violência do patriarcado não se restringe às mulheres, mas também se estende negativamente a diversos aspectos da vida dos homens.

Algumas dessas expressões estão relacionadas à forma como os homens demonstram sentimento – ou não o fazem de forma alguma, com receio de que isso os torne “menos masculinos”. Essa barreira limita também as possibilidades de construir relações de igualdade e respeito com as mulheres, e tem levado à uma crise da masculinidade que se manifesta em diversos aspectos:

A pressão por ser “homem de verdade”

A sociedade patriarcal impõe um modelo de masculinidade que já é considerado tóxico, por associar a identidade masculina total e exclusivamente à força, à competitividade, à dominação e à repressão das emoções. Essa pressão para ser “homem com H” impede que homens, crianças ou adultos, possam lidar com seus sentimentos, o que gera sofrimento e ansiedade, levando a comportamentos violentos e autodestrutivos.

A dificuldade de expressar emoções

O modelo patriarcal de masculinidade bloqueia tudo associado ao feminino, incluindo sentimentos como a tristeza, o medo e a vulnerabilidade. Essa repressão emocional afeta a saúde mental dos homens, dificultando o processo de reconhecimento e cura de traumas – começando pela busca por ajuda profissional em situações de sofrimento.

A impossibilidade de construir relações de igualdade

O patriarcado impossibilita a construção de relações de igualdade e respeito entre homens e mulheres, já que os homens são educados e socializados para serem dominantes e subjugarem as mulheres em todas as relações. O resultado, para a sociedade, é um ciclo de desigualdade que se perpetua ao longo das gerações.

A luta contra o patriarcado e por uma sociedade mais igualitária

O combate ao patriarcado é uma luta fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, e começa pela desconstrução desse sistema de opressão masculina.

Construir uma sociedade em que homens e mulheres tenham oportunidades iguais de realização pessoal e social requer, obrigatoriamente, uma educação feminista para desconstruir os estereótipos de gênero e permitir a quebra dos paradigmas machistas e patriarcais tão arraigados nos comportamentos atuais. Crianças e jovens devem ser educados para respeitar a igualdade de gênero e para construir relações de igualdade e respeito mútuo.

A violência contra as mulheres é uma das maiores expressões do patriarcado e seu combate exige a mobilização de toda a sociedade. De um lado, o trabalho inclui garantir que as mulheres tenham acesso à justiça, à proteção e à assistência necessárias. Do outro, é preciso atenção e educação constante para desconstruir preconceitos que atrapalham essa justiça e proteção.

Por isso, é essencial que os homens se engajem na luta contra o patriarcado. Da mesma forma que pessoas brancas fazem parte do combate ao racismo, os homens devem reconhecer seus privilégios e se comprometer a combater a violência de gênero.

Manifestação do Bloco das Mulheres na Luta Contra a Violência do Estado no Dia Internacional da Mulher de 2013, Belo Horizonte. 

Manifestação do Bloco das Mulheres na Luta Contra a Violência do Estado no Dia Internacional da Mulher de 2013, Belo Horizonte.

Combater a desigualdade de poder requer tempo, paciência e determinação

O patriarcado é um sistema de opressão que tem moldado a sociedade há séculos e é responsável por inúmeras desigualdades e injustiças que afetam as mulheres e os homens. É fundamental que a sociedade se mobilize para combater o patriarcado, desconstruindo estereótipos, promovendo a igualdade de oportunidades e combatendo a violência de gênero.

A luta contra o patriarcado é uma luta por um futuro em que todos os indivíduos tenham oportunidades iguais de realização pessoal e social, independentemente do gênero, e requer um pacto coletivo para, pouco a pouco, eliminar as pequenas atitudes e manifestações do preconceito.


segunda-feira, 15 de março de 2021

A Bíblia subversiva que a Record ultracoservadora não mostra

 


Novela Gênesis, inspirada no Antigo Testamento, provavelmente não mostrará a história de Tamar, mulher que ousou se insurgir contra a cultura patriarcal. Mas suas engenhosas estratégias podem, ainda hoje, inspirar lutas contra a opressão

A novela Gênesis, da Rede Record, é assistida por milhões de pessoas todas as noites. Não apenas ela, como as suas antecessoras com temática bíblica conseguiram uma grande audiência ao mesclarem as histórias do livro seminal para judeus e cristãos com um toque ficcional. É importante lembrar que a Bíblia foi utilizada para manter os invasores europeus no poder por séculos e justificar os genocídios indígena e negro. Apenas com a Teologia da Libertação e a interpretação da sua narrativa pelo viés histórico foi possível ver as razões políticas e econômicas sem as manipulações argumentativas do passado. Infelizmente, esta corrente teológica vem sendo bombardeada pelas forças conservadoras religiosas e seus aliados há décadas e o resultado todos estamos testemunhando neste momento político do Brasil. Não imagino a novela Gênesis, ou qualquer outra desta mesma linha, se valendo da Teologia da Libertação para mostrar nas telas como algumas personagens bíblicas a exemplo de mulheres como Tamar, Rute, Ester ou Débora, utilizaram estratégias para vencer o opressor e ajudar um povo oprimido a vencer os inimigos. Veja-se o caso da primeira mulher que citei e a sua luta para ter os seus direitos garantidos.

É possível que você saiba que existe uma figura bíblica no Antigo Testamento chamada Tamar, mas não exatamente o que aconteceu com ela. É bem provável que a leitura sobre Tamar não tenha sido feita nas celebrações religiosas que você frequentou, ou tenha sido feita de forma fragmentada e isso teria uma razão: a subversão moral e econômica exemplificada pela sua coragem para se livrar da condição de oprimida imposta pelo pela sociedade patriarcal em que vivia. Para os que querem conhecer a história de Tamar, recomendo a leitura do capítulo 38 do livro de Gênesis, o que não levará muito tempo. De qualquer forma, segue abaixo um resumo da história desta mulher que, com a sua estratégia de luta, evitou viver oprimida por toda a vida, algo tão comum às mulheres de então e de muitas ainda hoje.

Judá escolheu a canaanita Tamar como esposa para o seu filho Her (casamentos arranjados eram parte da cultura da época por motivos religiosos ou econômicos). Her morreu antes que Tamar engravidasse, o que era problemático em uma sociedade rural que necessitava de mão de obra para o pastoreio e a agricultura e uma mulher viúva e sem filhos estava condenada à própria sorte. Judá, seguindo a Lei do Levirato1, força o seu outro filho Onã a casar com Tamar para gerar descendentes, mas este decide ejacular fora do corpo da esposa para impedir a gravidez do que seria considerado, naquela tradição, um rebento do irmão falecido e daria direito à herança para Tamar e seus filhos. Para piorar, Onã também morre. Sobra então o outro filho de Judá, o jovem Sela. Já tendo perdido dois filhos, Judá decide enganar Tamar dizendo-lhe que ela devia voltar para a casa dos pais e esperar que Sela chegasse a idade ideal para juntar-se a ela2. Na verdade, a sua intenção era não realizar o casamento por acreditar que a culpa pelas mortes dos outros dois filhos era dela e para não lhe dar direito à herança no futuro. Tamar o obedece, como era de se esperar para uma mulher em uma sociedade patriarcal. Passam-se os anos e nada de Judá providenciar o casamento de Tamar com Sela. Isso equivalia a condená-la a uma espécie de prisão domiciliar e à pobreza, já que por não ter um homem ao lado, ela teria que esconder-se em casa, pedir esmolas ou vender o corpo. Eis que Judá enviúva e algum tempo depois decide ir até as montanhas para tosquiar as ovelhas. Alguém (atentem para este fato) avisa a Tamar que o sogro passará por sua região. Ela então veste uma roupa típica para as prostitutas do seu tempo (rosto totalmente coberto), vai para a beira do caminho onde passará Judá com uma comitiva e assim consegue ver que Sela já está pronto para as bodas, percebendo que foi enganada pelo sogro. Judá vendo aquela mulher, enxerga uma oportunidade para o seu prazer sexual e a convida para um “programa”. Tamar o questiona sobre o pagamento. Sem ter como pagar pelo serviço oferecido pela falsa prostitua naquele momento, ele promete enviar um cabrito nos próximos dias, mas Tamar de forma esperta exige uma garantia de que será paga (atentem para este outro fato) e pede que ele lhe dê o anel, o cordão e o cajado e assim ele o faz. Dias depois Judá envia o cabrito para o pagamento da dívida e ela não é mais encontrada pelo seu enviado no lugar onde ele a viu. O que Judá não sabia é que aquela única relação sexual a engravidou. Três meses depois chega aos ouvidos de Judá que a nora havia se prostituído e estava grávida. Enraivecido pela desonra que julgava ter sofrido, Judá ordena que a tragam para que seja queimada viva. Ao chegar ela confirma a gravidez e diz que pode dizer a todos quem é o pai da criança que carregava no ventre. Mostra então a todos os presentes o cajado, o cordão e o anel que ganhou de Judá. Desnorteado pela esperteza da nora, Judá percebe que na verdade ele é quem tinha sido o desonesto por não casar Tamar com o seu filho, Sela, como lhe havia prometido e era parte da tradição. A narrativa não conta se Judá assumiu para a sua comunidade que ele era o pai da criança e se Tamar se casou com Sela, apenas que ela deu à lua a gêmeos tornando-se uma ancestral de Davi e de Jesus.

Eu quero chamar a atenção para algumas questões na história de Tamar, principalmente para as suas estratégias de luta como uma mulher oprimida. É bem possível que ela tenha sido taxada de amaldiçoada perante a comunidade por Judá por ter enviuvado dos seus dois filhos. Tornar a pessoa oprimida vulnerável emocionalmente é uma das primeiras estratégias do opressor. Por não pertencer ao povo hebreu e sendo uma canaanita, o que a enfraquecia ainda mais, sua situação de vulnerabilidade era maior. Esta foi a primeira estratégia de Tamar: ela não protagonizou um confronto direto, exigindo ficar morando com a família do sogro até que Sela estivesse pronto para o casamento. Em momentos em que a oprimida tem pouca força para a briga, é preciso se preservar e as vezes fingir submissão. Muitas vezes isso é necessário não porque signifique uma derrota, mas para ganhar tempo e se fortalecer para as futuras táticas de embate. Assim como a pessoa oprimida tem as suas estratégias para a libertação, o opressor também tem as dele para perpetuar o seu poder. Ao mandar Tamar de volta para a casa dos pais, a sua intenção era se desfazer da responsabilidade da partilha da herança com ela, como já mencionei. Voltar para a sua terra foi a única possibilidade para ela naquele momento, mas isso não se traduziu em ficar esperando pelo cumprimento da promessa do opressor, como veremos mais adiante.

Lembram que eu pedi para ficassem atentos ao fato de que alguém foi avisar a Tamar que o sogro passaria por suas terras? Isso mostra que Tamar não confiou na promessa do sogro e tinha aliadas observando os acontecimentos no lado do opressor. Em ocasiões de desespero é muito comum esquecer a busca por pessoas/organizações aliadas. Não dá para confiar nas promessas dos poderosos. A segunda estratégia de Tamar foi ter aliadas, pois ela sabia que isso era essencial para a luta pelos seus direitos. Se a Bíblia diz que ela viu que Sela já era um homem pronto para o casamento enquanto ele subia a montanha com o pai, é possível que alguma aliada já tivesse passado esta informação anteriormente ou então ela não teria arriscado a vida indo para a beira daquele caminho para se passar por prostituta.

Ao ser avisada sobre a ida do sogro para a montanha, ela percebeu que era o momento ideal para agir. Em um artigo sobre Tamar, Altamir C. de Andrade (2011, p. 2) comenta que saber que foi traída era o que ela precisava como alavanca para a sua ação e “É diante dessa situação que Tamar arquiteta um plano para obter um filho de Judá, seu sogro, e, desse modo, garantir a sua genealogia. Isso torna o relato bastante singular na Bíblia, inaugurando uma das mais surpreendentes estratégias de sobrevivência elaborada por uma mulher”. A terceira estratégia utilizada por Tamar foi a ação ousada de seduzir o sogro se passando por prostituta. Esta tática não foi fruto de um impulso, mas exigiu planejamento e disciplina. Ousadia não significa agir de forma despreparada e alimentada pelo ódio com a situação opressiva. Tamar provavelmente procurou vestir a roupa adequada, calculou o momento certo que Judá passaria caminhando para a montanha e, quem sabe, teve que mudar a voz para não ser reconhecida pelo sogro no momento da negociação para o pagamento do sexo. Também deve ter refletido como garantiria a derrota do sogro perante a comunidade por ele liderada com uma decisão que, embora pareça tomada de forma instantânea, foi bem calculada. Pedir aqueles objetos como garantia do pagamento com o cabrito não foi por acaso, pois eram objetos que simbolizavam poder. Segundo Andrade (2011, p. 5) “Ao invés de ser trocada por um cabrito, vem a ser possuidora de um selo (hotam), de um cinto (patîl) e de um cajado (mateh), símbolos do poder masculino.”

Tamar também faz algo que muitas vezes não é lembrado pelas pessoas oprimidas: buscar as fraquezas do opressor. Esta foi a sua quarta estratégia. Todo opressor tem um ponto fraco. É preciso analisar e esperar a ocasião apropriada para atingi-lo. Isso exige reflexão, estudo e paciência ativa (não confundir com passividade). Mesmo não pertencendo ao povo hebreu, Tamar conhecia a cultura do sogro e ela sabia que atingir a honra de Judá seria o ponto de fraqueza do seu opressor. Conhecer o inimigo requer estudo meticuloso que muitas vezes está ausente nas lutas, mas é essencial para a vitória.

Sobre Tamar, bem nos lembra o rabino Nilton Bonder (1998, p. 92) “A transgressão, imposta mais uma vez pela mulher, restabelece a possibilidade de continuidade. A lei é cumprida pela desobediência e traição.” Que a ação transgressora e vitoriosa de Tamar em busca dos seus direitos inspire as pessoas oprimidas com estratégias de luta criativas em uma sociedade patriarcal, neoliberal e, cada vez, mais desigual. Que o seu exemplo fortaleça todas as pessoas em situação de opressão, especialmente as mulheres.

Bibliografia

ANDRADE, Altamir Celio de. Exílio, deslocamento e estratégias de sobrevivência: questões literárias e culturais na narrativa bíblica de Tamar. XII Congresso Internacional da ABRALIC. UFPR – Curitiba. 18 a 22 de julho de 2011. Acessível em https://abralic.org.br/eventos/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0797-1.pdf

BONDER, Nilton. A alma imoral. Rio de Janeiro: Rocco. 1998.


1 “De acordo com esta antiga lei, se um homem casado viesse a morrer sem deixar filhos, seu irmão (ou parente mais próximo) deveria tomar a viúva como esposa e fazer dar à luz a descendência do primeiro marido falecido.” (BONDER, 1998, p. 91-92).

2 “Sua condição de mulher lhe confere traços de moeda de troca, sendo passada de mão em mão.” (ANDRADE, 2011, p. 2)


terça-feira, 19 de novembro de 2019

Polarização Política: A necessidade da Democracia contra Racismo, Misoginia, Homofobia e Fascismo, por Fernando Nogueira da Costa



Acabou a Era do Direito Masculino Inquestionável e Incontestável. Este livro de Kimmel é sobre aqueles homens ainda não cientes disso ou aqueles capazes de sentirem “a mudança no vento”, mas determinados a “conter a maré”.

Polarização Política: Democracia contra Racismo, Misoginia, Homofobia e Fascismo

por Fernando Nogueira da Costa

GGN.- Política é a ação coletiva para reivindicar direitos da cidadania: civis, políticos, sociais, econômicos, de minorias, etc. Segundo os diagnósticos apresentados nos livros lançados recentemente, estamos vivendo Era do Fim do Machismo, Era da Morte ou Fim das Democracias, Era do Populismo de Direita, Era do Neofascismo, Era da Mente Americana Mimada, Era da Pós-Verdade (Morte da Verdade) e/ou a Era Pós-Políticas Identitárias.
Michael Kimmel, no livro “Angry White Men: American Masculinity At The End Of An Era” (2013), indica: os acusados de defesa da Supremacia Branca com raiva doentia colocam a culpa do mal-estar sentido por eles em corporações gananciosas, legislaturas impassíveis, governos locais e estaduais complacentes. Há mudanças culturais capazes de enfurecerem os autodenominados nativos norte-americanos, isto é, os descendentes dos WASP responsáveis pelo genocídio dos nativos indígenas.  Furiosos denunciam:
  1. as mulheres estão mais seguras hoje em comparação a qualquer outra época de nossa sociedade, 
  2. os LGBT são mais aceitos e livres para amar quem amam, e 
  3. as minorias raciais e étnicas enfrentam menos obstáculos em seus esforços para se integrarem plenamente na sociedade americana.
Acabou a Era do Direito Masculino Inquestionável e Incontestável. Este livro de Kimmel é sobre aqueles homens ainda não cientes disso ou aqueles capazes de sentirem “a mudança no vento”, mas determinados a “conter a maré”.
A questão-chave para Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, no livro “Como a democracias morrem” (2018), é outra: democracias tradicionais entram em colapso? Respondem: democracias ainda morrem, mas por meios diferentes. Desde o final da Guerra Fria, a maior parte dos colapsos democráticos não foi causada por generais e soldados, mas pelos próprios governos eleitos. 
Líderes eleitos subverteram as instituições democráticas em países como Geórgia, Hungria, Filipinas, Polônia, Rússia, Sri Lanka, Turquia, Ucrânia, Nicarágua, Peru, Venezuela, Bolívia. O Brasil assumiu esse risco a partir da eleição em 2018 sem debate público de um programa governamental e posterior anúncio de um programa ultraliberal dos Chicago’s Oldies. A recessão democrática hoje começa nas urnas.
São quatro principais indicadores de comportamento autoritário:
  1. Compromisso débil com as regras democráticas do jogo: sugerem a necessidade de medidas antidemocráticas, como cancelar eleições, emendar, violar ou suspender a Constituição, proibir certas organizações ou restringir direitos civis ou políticos básicos; 
  2. Negação da legitimidade dos oponentes políticos: acusa seus rivais constituírem uma ameaça, seja à segurança nacional, seja ao modo de vida predominante;
  3. Tolerância ou encorajamento à violência: laços com gangues armadas, forças paramilitares, milícias, guerrilhas ou outras organizações envolvidas em violência ilícita;
  4. Propensão a restringir liberdades civis de oponentes, inclusive a mídia: leis para impor restrições aos protestos e às críticas ao governo em partidos rivais, na sociedade civil ou na mídia.
David Runciman, no livro “Como a democracia chega ao fim” (2018), alerta para os três maiores riscos vivenciados atualmente:
  1. o risco de golpes de Estado: tomada das instituições democráticas pela via armada ainda é hipótese realista.
  2. o risco de uma catástrofe: a democracia entrará em colapso se todo o resto desmoronar por guerra atômica, mudança climática calamitosa, bioterrorismo, surgimento de inteligência artificial e desemprego tecnológico, provocado por robôs, qualquer um desses fatores pode acabar com a política democrática.
  3. a ameaça da tecnologia: robôs inteligentes ainda estão longe de existir, mas máquinas semi-inteligentes, encarregadas de minerar dados ou influenciar a tomada decisões em nosso nome, aos poucos estão se infiltrando em boa parte das nossas vidas, indo contra a privacidade e manipulando a opinião de segmentos sociais pela investigação de seus comportamentos habituais – em uma privacidade hackeadapara interferir em eleição.
Jan-Werner Muller se pergunta: “O que é o populismo?” (2016). O termo “populista” tem sido usado regularmente como sinônimo de “antiestablishment”, de maneira independente de qualquer ideia política. Os populistas se apresentam como “zangados” ou “raivosos” para atrair eleitores “frustrados” ou sofrendo de “ressentimento”. Todo político eleito, especialmente em democracias dirigidas por pesquisas de opinião, apela para falar em nome de “o povo”, isto é, a eventual maioria eleitoral em uma circunstância política ou comportamental ultrapassada.
É possível reconhecer e lidar com o populismo de três maneiras:
  1. o populista é crítico às elites, não só as econômicas, mas as intelectuais, incentivando o anti-intelectualismo;
  2. os populistas são sempre contra as minorias, desafiando: “Somos o povo. Quem é você?!”
  3. o populismo tende a representar um perigo para a democracia, porque esta requer o pluralismo e o reconhecimento de precisarmos tolerar termos justos de vida juntos como cidadãos livres, iguais, mas também irredutivelmente diversos.
Yascha Mounk, no livro “O Povo Contra A Democracia” (2018), afirma: o que define o populismo é a reivindicação de representação exclusiva do povo — e a relutância em 
tolerar a oposição ou respeitar a necessidade de instituições independentes.  Por isso, com tamanha frequência ela põe os populistas em rota de colisão direta com a democracia liberal. A probabilidade de um populista causar um estrago duradouro à democracia é quatro vezes maior em lugar de outros tipos de governantes eleitos. Porém, em muitos casos, uma oposição disciplinada e atuante tem conseguido fazer frente às tentativas do governo de expandir seus poderes além das leis.
A experiência de outros países sugere três lições principais:
  1. a oposição sempre subestima o populistadeixando de enxergar a astúcia sob suas bravatas: com frequência, esse desdém pela figura de proa do populismo vem acompanhado de arrogante depreciação de seus partidários.
  2. os opositores dos populistas muitas vezes deixam de trabalhar unidos até se verem juntos na impotência: aflitos e apavorados, os adversários do populista começam a fazer o jogo político da pureza, impondo testes ainda mais decisivos a seus potenciais parceiros e recusando-se a abraçar antigos aliados hoje dissidentes do populista.
  3. os oponentes dos populistas muitas vezes deixam de planejar uma perspectiva positiva para um país melhor: em vez de tentar convencer seus colegas cidadãos de eles poderem oferecer benefícios tangíveis, concentram-se apenas em denunciar as falhas de seu inimigo – e os eleitores anti-establishment pouco importam com os maus hábitos de quem elegeram.
A oposição necessita aprender a lidar com os socialmente ressentidos. A maioria dos partidários dos populistas tem plena consciência de seu líder mentir, disseminar mensagens de ódio e não passar de um bronco. Mas, convencidos de os políticos tradicionais nada terem a lhes oferecer, é precisamente essa postura antissistema o atraente nele, por exemplo, o capitão de modo toscos contra a inteligência. 
Sempre existe a chance, dizem a si mesmos, de o populista realizar uma fração de suas promessas irreais. Pelo menos, o populista vai poupá-los da hipocrisia envaidecida da velha-guarda. Jovens desqualificados pelo mercado de trabalho exigente de preparação mais adequada à atual revolução tecnológica se tornam anti-establishment.
Madeleine Albright, ex-Secretária do Estado no governo Clinton, no livro “Fascismo: Um alerta” (2018), relembra uma experiência vivenciada. O fascismo ganhou vida no início do século XX, quando o nacionalismo ressurgiu, somando-se à ampla decepção com o fracasso da democracia representativa em manter-se no compasso de uma revolução industrial impulsionada pela tecnologia. Muitas pessoas não conseguiam achar trabalho. Com a aristocracia desacreditada, a religião sob escrutínio e velhas estruturas políticas se dividindo, a doutrina de autodeterminação nacional dava esperança.
A doutrina fascista é vinculada a um nacionalismo populista fanático e à reversão do contrato social: em vez de cidadãos darem poder ao Estado em troca da proteção de seus direitos, o poder emana do líder e as pessoas não têm direitos. Sob o fascismo, a missão dos cidadãos é servir; o trabalho dos governantes, ditar as regras; e o de milícias paramilitares, atacar com poder de fogo.
Em próximo post, continuaremos com essas breves sinopses de livros políticos recentes para reflexão sobre a atual Zeitgeist. Significa espírito de época, espírito do tempo ou sinal dos tempos.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018).http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

sexta-feira, 8 de março de 2019

Mulheres de todos os países, uni-vos!



Nova greve feminista marcará, em dezenas de países, o 8 de Março. Por que o movimento de mulheres cresceu e mudou tanto, em poucos anos. Como superou a onda individualista e volta-se, agora, contra as próprias lógicas do capitalismo?
Por Marisa Kohan | Tradução: Rôney Rodrigues
Há quem discorda que estamos em uma terceira ou quarta onda do feminismo. Quem pensa que a mera classificação do movimento em ondas não tem sentido ou, inclusive, possa ser contraproducente. O que ninguém discute é o fato de que estamos assistindo a um ressurgimento da luta feminista que, pela primeira vez na história, aglutina mulheres de todas as idades, classes sociais, raças, identidades e lugares. Meninas de 12 anos e ativistas com várias décadas de luta nos bastidores compartilham uma visão de mundo e uma batalha travada nas casas, nas ruas, nas empresas, nos parlamentos, nas cortes de justiça e nas redes sociais.
Seja qual for o número dessa onda, estamos diante de um verdadeiro tsunami que não se conforma com a exigência de direitos específicos, mas que questiona a raiz toda e cada uma das violências machistas: de gênero, a econômica, a judicial, a educativa, a trabalhista, a cultural, a ambiental… “No momento, a luta pelo acesso à uma moradia é feminista, assim como a luta pelos direitos trabalhistas, pelo fechamento dos centros de detenção de imigrantes… E isso é algo novo. Não se trata de reivindicações para as mulheres ou para determinado tipo de mulheres, mas de questionar o modelo. O feminismo vê que a desigualdade da mulher não é um erro do sistema, mas o próprio sistema”, aponta a advogada e ativista Pastora Filigrana.
Para poder analisar a quarta onda do feminismo convém recordar alguns elementos que caracterizam as anteriores. A primeira onda, que as pensadoras europeias situam na época do Iluminismo, serviu para colocar em evidência que os recém-lançados direitos do homem deixavam de lado a mulher. A essa onda pertencem obras como a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, de Olimpia de Gouges, publicada em resposta à a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa, que negava às mulheres a condição de cidadãs e direitos tão básicos como o voto, a educação ou o trabalho. Na Inglaterra, Mary Wollstonecraftt publicava também sua Reivindicação dos direitos da mulher.
A onda seguinte, que a tradição anglo-saxã considera como a primeira, se produziu nos finais do século XIX e em princípios dos século XX. Foi protagonizada, sobretudo, pelo movimento das sufragistas e sua reivindicação de direito ao voto feminino. Depois de algumas décadas de avanço progressivo em todos os âmbitos da vida pública e privada, o auge dos fascismos em boa parte da Europa foi um importante freio e um retrocesso para milhões de mulheres.

Questionando os pilares do sistema

A terceira onda do feminismo (que é a segunda para as anglo-saxãs) começou entre os anos 60 e 70 do século passado e é considerada por muitos como uma onda de feminismo radical. Um movimento que se viu estimulado por obras fundamentais do pensamento como O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, ou A mística da feminina, de Betty Friedan. A luta pelos direitos da mulher começa, por fim, a questionar os pilares do sistema patriarcal, incindindo em todas as suas manifestações: desde a violência sexual até os estereótipos sobre o que é ou não é feminino.
A frase mais emblemática dessa etapa é a de que “o privado é político”, que enfatiza a necessidade de ter poder político real para poder mudar as estruturas que perpetuavam a discriminação da mulher. O avanço não é, no entanto, linear. “A cada onda segue uma reação do patriarcado que é, às vezes, fonte de outra reação feminista – e assim sucessivamente”, explica a filósofa e professora da Universidade Complutense, Luisa Posada. Uma dinâmica na qual, depois de se conseguir avanços importantes, às vezes se produzem retrocessos e perdas de direitos que já se consideravam adquiridos.
Como explica graficamente Cristina Sánchez, filósofa e diretora do Instituto Universitário de Estudos da Mulher da Universidade Autônoma de Madri, as onda “se caracterizam por atirar, como pedras que na lagoa provocam ondas expansivas, novas demandas no espaço público, que provocam por sua vez ações – e também reações”.
Para a especialista, as reações aos avanços de mulheres com as quais o patriarcado contra-ataca costumam ter um mesmo padrão de comportamento: “O negacionismo das questões; reações violentas, tanto no terreno simbólico como no discurso político e social; a criação de imaginários e discursos que alertam sobre os perigos e desordem que supõem as demandas feministas em termos de destruição da ordem patriarcal”.

O romantismo, Doris Day e os hormônios

Muitas destas reações são tão sutis que se tornam difíceis de identificar. Rosa Cobo, teórica feminista e professora de Sociologia da Universidade de A Coruña, detalha algumas delas: “Depois da primeira onda do feminismo iluminista surgiu o Romantismo, a misoginia romântica. A resposta a segunda onda foi uma psicoanálise, como assinala Kate Miller. A reação a terceira onda foram Doris Day, Grace Kelly e a publicidade que reforçava o estereotipo da mulher perfeita que prefere ficar em casa”.
Doris Day, atriz e cantora estadunidense. “A reação a terceira onda foram Doris Day, Grace Kelly e a publicidade que reforçava o estereotipo da mulher perfeita que prefere ficar em casa”.
“A reação patriarcal que temos tido tem sido duríssima”, assinala Cobo. “A publicidade, a conversão da prostituição em um negócio internacional, a ideologia que gera a mercantilização e a coisificação dos corpos das mulheres. Acredito que tudo isso formou parte da reação patriarcal e do neocapitalismo do século XXI: a prostituição, as barrigas de aluguel… e acredito que isso é uma afirmação amplamente aceita, independentemente se você é abolicionista ou regulacionista”.
A historiadora da Universidade do País Vasco, Nerea Aresti, destaca como o movimento sufragista não só trouxe consigo campanhas de rechaço frontal ao voto feminino, mas também fez ressurgir muitas teorias misóginas. Algumas criadas no sagrado nome da ciência. “No princípio do século XX surgem teorias que defendem a inferioridade da mulher com argumentos científicos e empíricos de todo tipo. Utilizaram argumentos retirados da craniologia, da endocrinologia e da neurologia. Ideias encaminhadas para demonstrar que o organismo, o corpo e o cérebro das mulheres são inferiores por natureza. Argumentos usados em nome da ciência e que penetravam no debate público”. No meio desse movimento constante de ação e reação, podemos afirmar que estamos na quarta onda? Segundo Posada, sem dúvida estamos. “Se vê isso no movimento MeToo, nas mobilizações contra a sentença de La Manada, na Argentina pelo aborto, nas marchas contra Trump e Bolsonaro, nos cordões de mulheres na Índia, no feminismo africano, que está muito ativo em Uganda ou em Burquina Faso…” Uma onda que, na opinião da filósofa, tem características muito específicas. “É uma onda que foi ativada contra a violência, que aglutina de maneira especial a muitas jovens e que tem um caráter transnacional, próprio do momento de globalização em que vivemos. Não me refiro só à violência sexual, mas também à desigualdade econômica e trabalhista, a não redistribuição de cuidados, a pornografia, às barrigas de aluguel, a prostituição. Essas são as coisas especificas contra a qual a onda se levantou”, explica Posada.
Para Nerea Aresti, não é realmente tão importante determinar se estamos ou não diante de uma nova onda. “O que sim está claro é que estamos diante de um ressurgimento do feminismo que não ocorria há anos”. Segundo Aresti, diante dos avanços dos anos 70 e 80, “parecia que se havia conquistado importantes níveis de igualdade. Na Espanha, diante do franquismo, se conquistaram mudanças legislativas, sociais e de mentalidade que levaram muitas pessoas a pensar que o feminismo havia deixado de ter sentido. Além disso, o feminismo não foi a causa ou o motivo dessas mudanças. Para muitas jovens, essas mudanças pareciam somente frutos de uma evolução progressiva para a igualdade e não o resultado de uma luta”.

O feminismo domesticado dos anos 80 e 90

A feminista e antropóloga argentina Andrea D’Atri incide também nesses pontos ao analisar os anos 80 e 90. “Houve uma política por parte dos regimes de incorporar demandas levantadas nos anos 70, mas retirando os aspectos mais subversivos ou radicalizados e incorporando o feminismo às instituições do regime. É quando nascem os institutos da mulher, os departamentos de gênero das instituições do Estado ou as grandes instituições financeiras internacionais como o Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional. Se cria assim o que algumas feministas definem como uma tecnocracia de gênero”.
O questionamento dessa falsa sensação de igualdade e da perda de radicalidade junto a uma virulenta reação do patriarcado são, para muitas especialistas, alguns dos elementos que explicam o surgimento dessa nova onda. Para Aresti existem dois fatores essenciais que acabaram com essa ilusão de igualdade: a violência sexual e a violência econômica, agravada notavelmente com a crise que eclodiu no ano de 2008.
Para Cristina Sánchez está claro que estamos assistindo a um movimento social transformador que, mais que rótulos, pressupõe um “salto qualitativo na presença massiva de um movimento intergeracional, internacionalista e interclassista que, em todas as partes, em quase todos os países, enfrenta o status quo patriarcal, tornando visíveis os pilares em que se sustenta: a violência e a exclusão das mulheres dos lugares de tomada de decisões”.
“Neste caso, já faz alguns anos que estamos vivendo o surgimento em muitos países de movimento de mulheres que reivindicam seus direitos, seu lugar na vida social e política ou uma justiça que as escute e acredite nelas”.
A pesquisadora Cecilia Cienfuegos concorda que assistimos a uma momento de “efervescência feminista”, mas alerta sobre o fato de que apresentar esse movimento em forma de ondas pode ser contraproducente. “Essa ideia de onda tende a ser simplificadora e busca uma uniformidade que não existe no feminismo em geral. E é saudável que não exista”. Cienfuegos explica que quem coloca nome e número às onda é quem controla o discurso dominante em cada momento. “Como temos nomeado essas onda corresponde a uma história que é eminentemente branca e ocidental”, destaca.
Identificar cada onda com a conquista de um direito específico supõe também “como se fosse um objetivo único. O direito ao voto, modificar a lei do aborto… Uma vez conseguido esse direito, que mais querem? Pode ter um efeito desmobilizador. Implica também uma ideia de ruptura, como se rompesse com a anterior e fechasse os debates que vieram antes”, acrescenta Cienfuegos.

Enfrentar o neoliberalismo

Um dos elementos que mais caracteriza essa onda do feminismo é a crítica feroz a um modelo capitalista neoliberal que se sustenta firmemente sobre os pilares do patriarcado. Para que o sistema funcione, uma condição necessária é contar com o trabalho não-remunerado de milhares de mulheres e meninas. Mulheres que também ocupam os empregos mais precários, inseguros e com pior remuneração. A cara mais machista do capitalismo tem aflorado com força depois da crise que estourou há dez anos atrás e que trouxe consigo mais precarização do emprego, sobretudo o feminino, e cortes significativos no gasto social que, sistematicamente, resultam em menos apoio e mais trabalho e responsabilidade para as mulheres.
Segundo Posada, “muitas jovens estão chegando ao anticapitalismo através do feminismo, não através de outras teorias políticas como ocorria há algumas décadas atrás. Então, introduzir o tema do feminismo é muito complicado na esquerda. Mas essas jovens estão chegando ao anticapitalismo ou ao antineoliberalismo através do sentimento de que são tratadas como mercadorias”.
Nesse contexto, alguns movimentos feministas muito ligados às lutas de classes que surgiram com força na década de 60 e 70 do século passado, e que durante décadas pareciam estar em silêncio, ressurgiram com força. É o caso do chamado feminismo 99%, nascido no calor do movimento Ocupy Wall Street, no Estados Unidos. Uma de suas representantes máximas, Nancy Fraser, afirma que durante as últimas décadas o feminismo tomou um rumo neoliberal e manteve com ele um flerte perigoso.
Conforme descreve Fraser, o feminismo renunciou a uma concepção mais ampla e sólida do que significa igualdade de gênero ou igualdade social em geral, em favor da meritocracia. Ou seja, em “derrubar barreiras que permitam a um reduzido grupo de mulheres talentosas avançar a postos mais altos das organizações ao invés de abolir as hierarquias”. Esse feminismo de “teto de vidro” saltou pelos ares com o advento da crise econômica, o que evidenciou a falácia da suposta igualdade alcançada.

Não voltar para as trincheiras

Atingido esse ponto, para onde caminha o feminismo? Segundo muitas das especialistas consultadas, para uma mobilização permanente, transversal e internacional que já não se conforma em reclamar determinadas mudanças do sistema político, econômico, social e cultural, mas que questiona elementos essenciais do sistema.
Pastora Filigrana assegura que “defender os direitos conquistados vem em primeiro lugar. Mas nos conformarmos só com isso, não é possível. O sistema está nos expulsando, então vamos ter que defender o que conquistamos, conquistando mais coisas. Temos que organizar uma resistência que comece a mudar as regras do jogo”, destaca.
Para Cecilia Cienfuegos está claro que “tem que sair das trincheiras em que nos querem colocar. Tem que evitar cair na lógica de resistência e não voltar para a defesa do básico e do irrevogável. O feminismo está agora em posição de enfrentar o sistema de igual para igual e propor um projeto alternativo”.
No momento em que é frequentemente dito que o feminismo está no alvo dos neofascistas do todo o mundo, Cienfuegos aponta que “o feminismo não foi posto no centro dos ataques. Nós ganhamos essa centralidade”. E tem milhões de mulheres em todo o mundo que não estão dispostas a ceder essa centralidade que tanto custou conquistar.
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