sábado, 10 de maio de 2025

O mercado da fé, por Izaías Almada

 

Fiquei me perguntando, talvez ingenuamente, por qual razão os fiéis e seguidores de tantas religiões se esquecem dos principais ensinamentos




O mercado da fé, por Izaías Almada

publicado no Jornal GGN:

As dezenas ou centenas de igrejas petencostais e outras denominações protestantes espalhadas pelo mundo,  milhares de igrejas católicas, pessoas tementes a Deus, bem como os seguidores de outras divindades, como Buda ou Alá, dão o que pensar nos dias de hoje, já vencido o primeiro quarto do século XXI. Por qual motivo?

A necessidade verdadeira ou imposta por quase todas as religiões aos seus seguidores fiéis ou ocasionais em sua grande parte, ou mesmo totalidade, sempre procuraram ao longo dos anos dizerem que “política e religião” não se misturam.

Outro lugar comum é “religião e política” não se discute.

Feitas essas pequenas considerações comecei a pensar sobre o genocídio na Faixa de Gaza, sobre a irresponsabilidade e megalomania do presidente Trump e suas tarifas, sobre o Vaticano e a eleição do novo papa, sobre a ascensional estripulia da extrema direita internacional e suas saudades do nazifascismo que levou o mundo à Segunda Guerra Mundial, sobre a guerra comercial e por aí afora…

Fiquei me perguntando, talvez ingenuamente, por qual razão os fiéis e seguidores de tantas religiões se esquecem dos principais ensinamentos que, no seu conjunto, chamam o homem para uma convivência pacífica, tolerante e harmoniosa, respeitando as diferenças culturais de cada um dos povos que adotam tais ensinamentos.

As Sagradas Escrituras, o Torá e o Talmude, a Tripitka e o Alcorão, são textos em que milhões e milhões de seres humanos bebem os conhecimentos da integridade, da igualdade, do respeito ao próximo, de uma nova vida após a morte… E, no entanto… A humanidade parece ir se acostumando com o nobre mercado da fé…

La Nave Va…

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

Especialistas analisam a forma do trágico ataque de Israel aos palestinos de Gaza como “reality de genocídio”

 


Pesquisadores afirmam que a ofensiva israelense é parte de uma política deliberada de limpeza étnica, com apoio financeiro internacional

Do Jornal GGN:

Especialistas analisam conflito em Gaza como “reality de genocídio”


    Legenda: Protestos na Faixa de Gaza no dia 14 de maio de 2018. Foto: OCHA


Por 

Na última terça-feira (6), a TVGGN exibiu mais uma edição do programa Observatório de Geopolítica, desta vez com foco no Oriente Médio. O debate contou com a participação de pesquisadores que classificaram a ofensiva israelense contra Gaza como um genocídio, motivado por interesses econômicos e estratégicos. Eles apontaram ainda para a existência de uma política deliberada de limpeza étnica.

Os participantes foram unânimes em afirmar que os acontecimentos em Gaza desde 7 de outubro de 2023 — embora com raízes históricas anteriores — configuram, sob diversos aspectos do direito internacional, um genocídio.

“Não somos apenas nós que chegamos a essa conclusão. Diversas organizações internacionais já deixaram claro que o que ocorre na Palestina é, no mínimo, um crime contra a humanidade. Há elementos evidentes de que se trata de um deslocamento forçado da população”, afirmou o pesquisador Robson Kardochi.

Com mais de dez semanas sem a entrada de mantimentos em Gaza, os efeitos de uma “punição coletiva” tornaram-se visíveis. A situação é agravada por uma política de desassistência programada, cujo objetivo seria dificultar o acesso da população a itens básicos de sobrevivência, como alimentos, medicamentos e, de forma crítica, água potável, além de roupas e outros recursos essenciais à vida.

“É uma estratégia de enfraquecimento de toda uma população, e, antes de mais nada, uma estratégia de limpeza étnica”, afirmou o professor Sami El Jundi. “Dificultar o acesso da população a itens básicos é parte central dessa política.”

Para os especialistas, o que se vê em Gaza é o “primeiro genocídio televisionado” da história, transmitido em tempo real para o mundo. “As pessoas assistem como se fosse um reality show, de maneira absolutamente bizarra”, destacou Sami.

Segundo os pesquisadores, o processo genocida conta não apenas com o envolvimento direto do governo de Israel e de uma parcela significativa da sociedade israelense, mas também com apoio financeiro expressivo. Estima-se que, em menos de dois anos de conflito, cerca de 20 bilhões de dólares tenham sido investidos.

Além disso, Kardochi destacou o papel de outras potências na legitimação da ofensiva. Ele afirmou que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem se aproveitado de forma pragmática desse apoio internacional.

“O apoio já era evidente durante o governo Biden, que buscava justificar o injustificável. Agora, com o retorno de Donald Trump, que é declaradamente favorável à ofensiva, a retórica genocida ganha ainda mais força. As declarações de Trump sobre a expulsão dos moradores de Gaza apenas reforçam esse discurso de limpeza étnica”, concluiu Kardochi.

Veja a debate completo na íntegra em:

LEIA MAIS:

ESPIRITISMO, SEXUALIDADE E DEBATE POLÍTICO: UMA EQUAÇÃO TENSA ENTRE CONSERVADORES E PROGRESSISTAS. Entrevista com Célia da Graça Arribas

 

Do Canal Fronteiras do Pensamento Espírita:

A conversa com Célia Arribas aborda o campo de debates espíritas sobre gênero e sexualidade, discussões acirradas no contexto das disputas políticas mundiais. Ela examina as tensões sobre o modo como se constroem e se articulam as respostas às transformações culturais específicas das relações afetivas e eróticas.



STF forma maioria contra decisão inconstitucional da Câmara dos deputados que pretendia suspender ação contra Ramagem e que poderia ajudar ajudar Bolsonaro

 

 

Do UOL:

A maioria da Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) votou por derrubar a decisão da Câmara dos Deputados que suspende a ação penal contra o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) por tentativa de golpe de Estado.



sexta-feira, 9 de maio de 2025

Antes de se tornar papa Leão XIV, Robert Prevost compartilhou artigos que criticam Trump e J. D. Vance

 Já em 2017, Robert Prevost compartilhou uma mensagem que criticava o uso por Trump de termo racista para se referir a imigrantes

Do ICL Notícias:

INTERNACIONAL

Antes de se tornar papa, Leão XIV compartilhou artigos que criticam Trump e Vance


Por AFP

Meses antes de ser eleito sumo pontífice, o papa Leão XIV compartilhou na rede social X artigos que criticam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu vice-presidente JD Vance, principalmente por suas políticas de imigração.

Em fevereiro, o então cardeal Robert Francis Prevost compartilhou no X um link para o artigo “JD Vance está errado: Jesus não nos pede que classifiquemos nosso amor pelos outros”.

O Vaticano confirmou que a conta é autêntica e pertence a Prevost, nascido em Chicago, mas também com nacionalidade peruana.

O texto, publicado no site National Catholic Reporter, questiona Vance por usar a doutrina católica para apoiar o cancelamento da ajuda externa dos EUA.

Citanto um preceito conhecido como “ordo amoris” (a ordem do amor), o vice-presidente, convertido ao catolicismo em 2019, afirmou que a caridade de um cristão deve beneficiar sobretudo os seus familiares e concidadãos, e não os estrangeiros.

papa

JD Vance foi criticado nas redes por Prevost

Novo papa criticou Trump em 2017

O falecido papa Francisco já havia criticado publicamente esta interpretação nacionalista.

A última mensagem na conta no X do novo chefe da Igreja católica, publicada em 14 de abril, está ligada ao texto de um bispo auxiliar de Washington, de origem salvadorenha.

Este prelado, Evelio Menjívar-Ayala, critica duramente a política de expulsões em massa de imigrantes do governo americano.

Nos últimos anos, Prevost foi muito esporádico no uso do X, anteriormente Twitter. Limitou-se a compartilhar mensagens ou links para sites.

Em 4 de setembro de 2017, por exemplo, compartilhou uma mensagem que criticava o uso por Trump, então em seu primeiro mandato, do termo “bad hombres” (homens maus) para se referir a imigrantes, um vocabulário que poderia fomentar “o racismo”.

Este compartilhamento de artigos e publicações chamou a atenção de uma polêmica influenciadora de extrema direita, Laura Loomer, próxima a Trump.

O novo papa é “woke”, escreveu Loomer no X, usando um termo pejorativo da direita radical para designar as políticas de promoção da diversidade.


quinta-feira, 8 de maio de 2025

Frei Betto analisa o que esperar do novo Papa, o Leão XIV

 

Da TV GGN:




UOL: Papa Leão 14 será figura importante no diálogo contra avanço da extrema direita cristã; veja análise

 

Do UOL:

O norte-americano Robert Prevost, 69, é o novo papa. O nome dele, escolhido hoje no conclave e foi anunciado ao mundo da sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano, após quatro escrutínios.



UOL: Novo papa: Quem é Robert Prevost, o papa Leão 14, que é agostiano e contra política de Trump

 

Do UOL:

O americano Robert Prevost, 69, é o novo papa. O nome dele, escolhido hoje no conclave e foi anunciado ao mundo da sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano, após quatro escrutínios.



Portal do José: PAPA LEÃO: VEM COISA AÍ! DIREITA FESTEJA ANISTIA A BOLSONARO (EM MARTE)! GLOBO QUER CONGELAR MÍNIMO!

 

Do Portal do José:

08/05/25 - NOVO PAPA SURGE EM MEIO A UM MUNDO REPLETO DE ANTICRISTOS. EXTREMISTAS NÃO DEMORARÃO A ATACÁ-LO. AQUI NO BRASIL O DELÍRIO NÃO PARA. BOLSONARISTAS IMAGINAM QUE O PROCESSO CONTRA BOLSONARO SERÁ PARALISADO. SÓ SE FOR EM MARTE. SIGAMOS.




quarta-feira, 7 de maio de 2025

Extrema direita e golpismo fardado: Comando Militar do Planalto agiu como autoridade civil paralela para manter palanque golpista

 

Documentos mostram que Exército impôs regras de ocupação, barrou comerciantes e legitimou uso político do QG

Do ICL Notícias:

País

Comando Militar do Planalto agiu como autoridade civil paralela para manter palanque golpista



Por Cleber Lourenço

Uma série de ofícios obtidos pelo ICL Notícias revela que o Comando Militar do Planalto (CMP) assumiu, na prática, o controle administrativo e normativo da região do Setor Militar Urbano (SMU), em Brasília, durante os dois meses de ocupação golpista em frente ao Quartel-General do Exército (QGEx). Em documentos oficiais enviados a órgãos do GDF e a civis, o CMP determinava quem podia ou não permanecer na área, como deveria ser feito o controle de veículos, som e barracas, e tomava decisões semelhantes às de uma prefeitura. Essa postura configurou, na prática, uma gestão militarizada de um espaço público, sem qualquer base legal civil para tais determinações.

O acampamento em frente ao QG se consolidou não apenas como ponto de encontro de manifestantes, mas como um palanque permanente de discursos contra o resultado da eleição presidencial, sem qualquer tentativa do Exército de coibir sua continuidade. Ao contrário: o que mostram os documentos é que a área sob jurisdição militar passou a ser gerida com regras próprias. Tudo isso sem qualquer menção a riscos à ordem constitucional, mesmo com alertas reiterados de autoridades civis.

No Ofício nº 2114, de 7 de dezembro de 2022, o CMP responde a um comerciante que solicitava autorização para vender produtos na região da Praça dos Cristais, no SMU. O documento é direto: “Informo que tal permanência não está autorizada, bem como todos os demais comerciantes que desenvolvem comércio irregular na região do Setor Militar Urbano”. No mesmo texto, o Comando Militar do Planalto alerta que o material do solicitante poderia ser apreendido a qualquer momento e que medidas administrativas seriam tomadas. A resposta demonstra que o Exército agia como instância fiscalizatória sem qualquer delegação legal externa, definindo o que era ou não permitido dentro de um espaço público ocupado.

Planalto

Dias antes, em 6 de dezembro, o Ofício nº 2113 solicitava a atuação da Secretaria DF Legal para remover ambulantes e estruturas comerciais irregulares. O mesmo ofício pede a retirada de ligações de energia, água e internet feitas sem autorização formal, que estavam sendo utilizadas para sustentar a estrutura montada pelos manifestantes. Apesar disso, não há qualquer indício de que o Exército tenha efetivamente interditado ou impedido o funcionamento do acampamento com base nesses abusos. A solicitação de retirada parece ter tido caráter mais simbólico do que efetivo, dado que os acampamentos seguiram operando com toda a estrutura necessária nos dias seguintes.

No Ofício nº 2115, de 12 de dezembro, um civil solicita o cadastramento de um veículo com caixas de som, estacionado na Praça dos Cristais. A resposta do Exército é semelhante: não autoriza a permanência, mas também não informa que houve remoção. Com isso, evidencia-se que o Comando fazia uma distinção entre os usos “permitidos” do espaço, com base em critérios não divulgados, mas alinhados com a tolerância ao movimento golpista. Nenhum dos documentos deixa claro o critério objetivo utilizado para diferenciar ocupantes, o que reforça a percepção de seletividade institucional.

Comando Militar do Planalto geriu a ocupação golpista

As comunicações oficiais analisadas pela reportagem demonstram que o Exército brasileiro, por meio do Comando Militar do Planalto, não apenas tolerou a ocupação golpista em frente ao QG, mas a geriu de forma ativa e seletiva. Ao definir regras de convivência, restringir atividades econômicas e determinar usos específicos para o espaço urbano militarizado, o Exército ultrapassou sua função constitucional e assumiu papel semelhante ao de um ente civil regulador. Isso gerou uma situação anômala, em que o Estado brasileiro, através de uma instituição armada, exerceu poder regulatório sobre um ambiente cívico-político, sem base em qualquer instrumento jurídico democrático.

Enquanto barrava comerciantes e estruturas independentes, o Comando mantinha intacta a estrutura simbólica do acampamento, que incluiu tendas, caminhões, equipamentos de som e discursos abertamente contrários à democracia. O palanque político funcionava com visibilidade, acesso e proteção, amparado por normas que garantiam sua continuidade, mesmo diante de alertas do Ministério Público, da Justiça e da imprensa. Além disso, a presença constante de militares no entorno do QG servia como escudo simbólico e tático contra qualquer tentativa de desmobilização externa, criando uma espécie de bolha de proteção institucional.

O uso do Quartel-General do Exército como centro político informal durante dois meses, sem qualquer ação para sua desativação, representa um marco na relação entre Forças Armadas e radicalização política no Brasil. Ao assumir o papel de gestão do espaço e legitimar o discurso golpista pela omissão ou pela seleção de quem poderia ser reprimido, ou expulso, o Comando Militar do Planalto atuou como agente ativo de um processo de ruptura com os limites institucionais estabelecidos pela Constituição. Essa atuação, ao não ser responsabilizada interna ou externamente, contribui para um perigoso precedente de uso militar de espaços para fins políticos e de ruptura.

Bob Fernandes: Direita tramou atirar bombas e matar no show de Lady Gaga. Direita militariza escolas públicas em SP


Como a direita fortalece a extrema direita neofascista em análise de Bob Fernandes




segunda-feira, 5 de maio de 2025

Bolsonarismo e Igreja Evangélica: como a fé virou plataforma de poder no Brasil

 

Como o bolsonarismo se infiltrou nas igrejas evangélicas e transformou a fé em plataforma de poder

Do ICL Notícias:


Conhecimento

Bolsonarismo e Igreja Evangélica: como a fé virou plataforma de poder no Brasil




Você já percebeu como o bolsonarismo usou a fé para ampliar seu poder político? A relação entre Jair Bolsonaro e parte expressiva das igrejas evangélicas no Brasil não começou por acaso. Ela foi construída com estratégia, interesses e promessas.

O que parecia ser apenas uma aliança eleitoral virou um projeto teológico e político de longo prazo. Nesse cenário, líderes religiosos passaram a atuar como cabos eleitorais, donos de partidos, articuladores parlamentares e, em muitos casos, empresários da fé.

A formação da bancada da Bíblia

A ocupação dos espaços de poder por figuras religiosas não é nova. A diferença, no caso do bolsonarismo, é a centralidade que os pastores midiáticos assumiram no comando do projeto. Eles não só apoiaram a candidatura de Bolsonaro em 2018 e 2022 — como também direcionaram parte do seu discurso.

A promessa de defender a “família cristã” serviu de isca. O dízimo virou capital político. Os cultos, comícios.

Entre os mais ativos estavam:

  • Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo
  • José Wellington Bezerra da Costa, do Ministério do Belém
  • Samuel Câmara, da Assembleia de Deus em Belém (PA)
  • Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus
  • R.R. Soares, da Igreja Internacional da Graça de Deus
  • Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus
  • Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo
  • Bispo Rodovalho, da Sara Nossa Terra

Esses nomes controlam redes de televisão, rádio, editoras e canais no YouTube. Alguns têm representação direta no Congresso com familiares eleitos. Outros influenciam bancadas inteiras. A maioria atuou para transformar o bolsonarismo em doutrina e Bolsonaro em figura ungida.

O bolsonarismo como religião paralela

A ideia de Bolsonaro como um enviado divino se espalhou. As redes sociais impulsionaram vídeos com supostas profecias, revelações e chamados à intervenção militar. Pastores passaram a falar do ex-presidente como se fosse um novo Davi.

O bolsonarismo virou um tipo de fé: quem questionava, era tratado como pecador. Não havia mais debate político. Havia guerra espiritual.

A mistura entre religião e bolsonarismo criou uma igreja paralela. Ela exorciza o “espírito de Paulo Freire”, despreza a Constituição de 1988 e celebra a autoridade de militares, pastores e empresários. A Bíblia deu lugar a banners com fotos de torturadores, gurus da internet e candidatos da extrema direita.

Teologia do domínio: a estratégia por trás da cruz

Esse movimento não é só brasileiro. Ele tem nome e método: teologia do domínio. É uma corrente fundamentalista que defende que cristãos devem governar todas as esferas da vida — política, justiça, economia, cultura. Michelle Bolsonaro disse isso com todas as letras: “Fomos negligentes, deixamos o mal ocupar o espaço”.

O que ela chama de “mal” é qualquer pensamento diferente da visão que ela defende. A consequência disso é clara: se quem pensa diferente é mau, então não há mais adversários. Há inimigos. A democracia vira obstáculo. A negociação vira pecado. A política vira guerra santa.

Silas Malafaia: pastor, empresário e general do bolsonarismo

Entre os líderes religiosos que abraçaram esse projeto, Silas Malafaia talvez seja o mais barulhento. Ele é presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, comanda programas de TV, influencia parlamentares e tem linha direta com Bolsonaro. Ele ajudou a articular o comando da Frente Parlamentar Evangélica, agindo para impedir que o grupo se aproximasse de Lula.

Malafaia também é um dos principais defensores da anistia aos golpistas de 8 de janeiro. Nos seus cultos, diz que o apoio a Bolsonaro é feito em nome de Jesus. Em entrevistas, critica o ex-presidente quando convém, mas não deixa de agir como seu aliado. Em São Paulo e no Paraná, chamou Bolsonaro de covarde por não se posicionar firmemente nas eleições municipais.

Mas isso não foi um rompimento. Foi cobrança. Pastor e político têm uma relação de troca. Um ajuda a manter o outro em cena.

Assembleia de Deus Vitória em Cristo e o projeto político

A igreja liderada por Malafaia funciona como base de apoio direto ao bolsonarismo. A conexão com Sóstenes Cavalcante, deputado federal e líder do PL na Câmara, garante presença no Congresso. A igreja não só apoia projetos como também interfere nas decisões políticas do país, seja para garantir isenção de impostos, seja para pressionar por leis que favoreçam seus interesses.

O púlpito é usado para defender anistia aos golpistas, atacar o STF, deslegitimar eleições. As mensagens são transmitidas em nome da fé. O dízimo financia a campanha. O rebanho vira eleitor.

Publicação do pastor Silas Malafaia mostra os bastidores da marcha bolsonarista do dia 7 de setembro de 2021

A estrutura do bolsonarismo religioso

O bolsonarismo dentro das igrejas evangélicas não funciona no improviso. Existe uma lógica de funcionamento que combina fé, mercado e poder. Você pode observar isso em cinco frentes principais:

  • Controle territorial: os templos estão presentes onde o Estado quase não chega. Favelas, bairros periféricos, cidades pequenas. O pastor assume o papel de conselheiro, juiz, psicólogo e autoridade local. A igreja substitui o serviço público. É ali que se formam lealdades duradouras.
  • Mídia própria: os principais líderes bolsonaristas são donos de canais de TV aberta, rádios comunitárias, jornais impressos e redes sociais com milhões de seguidores. A mensagem circula em ciclos fechados: quem está dentro só ouve quem pensa igual.
  • Empresas paralelas: a fé virou negócio. Gravadoras, editoras, escolas, selos de certificação teológica, agências de turismo religioso e até serviços de coaching cristão compõem o ecossistema. Cada braço alimenta o outro. O dinheiro que entra na igreja não volta pra base. Gira entre os mesmos.
  • Representação política: filhos de pastores viram deputados. Líderes locais viram vereadores. E as candidaturas são lançadas no púlpito, como missão divina. O voto é apresentado como obediência espiritual. E a eleição, como cumprimento de propósito.
  • Influência legislativa: a bancada evangélica no Congresso atua em blocos. Em votações importantes, fecha questão. Pressiona o governo. Negocia cargos. Troca apoio por benefícios institucionais, como emendas, isenções e nomeações.

Essa estrutura garante estabilidade ao projeto. E permite que o bolsonarismo religioso funcione mesmo fora do governo. Enquanto houver púlpito, haverá base. Enquanto houver base, haverá força eleitoral. O discurso fala em salvação. Mas o mecanismo é de dominação. E ele não depende de fé para funcionar.

A fé como escudo para o discurso de ódio

Muitos pastores bolsonaristas fazem dos seus microfones instrumentos de ataque. Criticam direitos humanos, defendem torturadores, atacam o STF, espalham desinformação. Dizem que falam em nome de Jesus, mas o conteúdo lembra mais um panfleto de campanha do que uma pregação religiosa.

Para João Cezar de Castro Rocha, a eleição virou apenas mais um episódio da guerra cultural transformada em modo de vida. Se Bolsonaro perde, o problema não é político. É espiritual. Quem não aceita, vira traidor. Quem pensa diferente, deve ser eliminado.

O 8 de janeiro não surgiu do nada

Os ataques aos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, não foram um surto isolado. Eles foram preparados por meses.

Nos cultos, nas lives, nas mensagens de WhatsApp, os fiéis foram sendo levados a acreditar que Bolsonaro era o último obstáculo contra o mal. Oraram na frente dos quartéis. Levaram a Bíblia para justificar atos violentos. Alguns rezaram para pneus. Outros declararam: “Bolsonaro é o meu pastor e nada me faltará”.

A violência foi sendo normalizada. A mentira virou verdade. A fé virou escudo.

Atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 (Foto: Joédson Alves/Agencia Brasil)

Reações internas

Nem todo mundo ficou calado. Pastores como Aquias Santarém criticaram publicamente a transformação da igreja em comitê político. Ele apontou o que muita gente já sentia: que o cristianismo pregado por esses líderes não tem nada a ver com Jesus. É um cristianismo de poder, de dinheiro, de vaidade. Onde só os filhos dos pastores viram deputados. Onde o pobre serve para votar e ofertar.

Outras lideranças começaram a denunciar o uso da igreja como negócio. Mostraram como pastores viraram empresários que abrem templos como quem monta franquias e faz da fé um produto.

Nacionalismo cristão: o próximo passo

Michelle Bolsonaro deixou claro que o projeto continua. A aposta agora é no nacionalismo cristão. Um discurso que mistura Bíblia, militarismo e política. Ela disse que a separação entre política e religião foi um erro. E que agora é hora de “retomar o espaço que o mal ocupou”.

Na prática, isso significa ampliar o domínio evangélico nas escolas, nos conselhos tutelares, nas câmaras municipais e no Congresso. Já há mobilização para as eleições de 2026. O objetivo é restaurar Bolsonaro ou alguém do seu círculo — como Michelle — como opção eleitoral com apoio maciço das igrejas.

E onde fica o Estado laico?

A pergunta que você precisa fazer é: onde entra o Estado nisso tudo? Quando pastores tentam convencer outras pessoas a apoiarem uma determinada ideologia, partido político ou candidato nos cultos, recebem isenção fiscal e, ainda assim, operam como partidos — o que sobra de separação entre Igreja e Estado?

O risco é claro: a fé virou instrumento de poder. E esse poder atua contra a democracia.

O que você pode fazer?

  • Questione o uso político da sua fé
  • Converse com pessoas próximas que foram capturadas pelo discurso religioso bolsonarista
    Estude sobre teologia do domínio e nacionalismo cristão
  • Apoie movimentos religiosos que defendem a democracia e os direitos humanos
  • Exija do Estado o cumprimento da laicidade

Não se trata só de religião

O bolsonarismo evangélico é mais do que uma aliança eleitoral. É um projeto de poder com base teológica, estrutura de comunicação, apoio popular e objetivos políticos claros. Ele não pretende apenas influenciar. Ele quer governar.

Você não precisa ser evangélico para entender o que está em jogo. Quando a fé é usada para justificar violência, mentiras, golpes e retrocessos, todo mundo é afetado. É disso que se trata. O que está em disputa é o futuro da democracia.

Vídeo para entender, de modo informal, os perigos do fundamentalismo evangélico, novos vendilhões e hipócritas ligados ao bolsonaro-extremismo de direita e a verdade sobre os ditos legendários e os crentes "premium" no Brasil

 

Do Canal dos Galãs Feios:

Se novos ricos e influencers se convertem em função do fato da Teologia da Prosperidade legitimar seu modo de vida jeca, cafona e perdulário, para grande parte dos brasileiros se tornar crente representa dar um jeito em uma vida danificada. Bezzi comenta.


Roteiro po Deusdete Negarestani Edição por Roberta Salles (@robertasalles_) Capa por bocamiuda.com

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Papa Francisco, a mídia e a (falta de) Ética, por Dora Incontri

 


Escolho hoje para falar do trecho de entrevista, que está tanto no Youtube, quanto nas redes sociais, “Los quatro pecados del periodismo”.


Jornal GGN:


    screenshot


Papa Francisco, a mídia e a (falta de) Ética

por Dora Incontri

Correm na internet incontáveis textos, frases, entrevistas, sermões, manifestações do já saudoso Papa Francisco e que devem ressoar (assim esperamos) por muitos anos, para iluminar caminhos neste mundo tão cheio de sombras. Escolho hoje para falar do trecho de uma entrevista, que está tanto no Youtube, quanto nas redes sociais, “Los quatro pecados del periodismo”. No final deste texto, direi por que escolhi tratar este tema.

Quando me formei em Jornalismo, na Cásper Líbero, no início dos anos 80, já recusei de saída um cobiçadíssimo emprego na maior revista brasileira, porque via como a mídia corporativa cometia o primeiro pecado apontado por Francisco: a desinformação. Ele se refere a dar uma notícia pela metade, omitir informações. E para que isso? Para manipular, para direcionar o leitor aos interesses defendidos pela linha editorial do órgão em questão. Um exemplo bem concreto nos últimos dias: os grandes veículos de comunicação, que nem é preciso mencionar, não puderam escapar, por conta da repercussão, de noticiar a greve de fome de Glauber Braga, contra o seu pedido de cassação do mantado de deputado. Mas, como davam a notícia? Que ele havia agredido o representante do MBL. Mas não diziam o motivo: que esse sujeito o estava assediando há tempos, com ofensas pessoais à sua mãe, naquele momento no leito de morte. Essa parte da história não aparecia. A manipulação contribuiu para o resultado, por enquanto negativo, da reversão da cassação.

O segundo mal da mídia é a calúnia. Gravíssima, desumana e crime previsto no Código Penal. Lançada tantas vezes com objetivos de destruição de alguma pessoa pública ou mesmo apenas para vender o jornal, o canal ou angariar mais likes. Mesmo se houver desmentido, mesmo se houver processo, demorado, o estrago já foi feito, às vezes até com o suicídio do caluniado.

Como terceira infração à ética jornalística, Papa Francisco aponta a difamação. Ele cita como exemplo, pessoas que tiveram algum deslize no passado e já pagaram por isso, e que têm direito a uma imagem sem mancha, mas a mídia não perdoa. Podemos estender isso para exemplos de divulgação de notícias que prejudicam a vida e a imagem de alguém, sem nenhuma necessidade, apenas, mais uma vez, por motivos sórdidos de lucro.

E por fim, Francisco evoca a cropofilia e traduz com graça: amor ao cocô. É o prazer mórbido e comercial de publicar escândalos, crimes sangrentos, notícias sujas, verdadeiras ou não. No meu tempo de faculdade, isso se chamava imprensa marrom. Mas hoje, mesmo grandes veículos de comunicação que se arrogam seriedade e, às vezes até se propõem como de esquerda, cometem esse pecado repulsivo.

O leitor, o ouvinte, a massa que não sabe se orientar no meio de tantos desvios, fica à mercê da manipulação desses órgãos. E assim, pessoas têm reputações assassinadas, entre calúnias, difamações ou meias verdades. Factóides são criados, lawfares são perpetrados, com o apoio irrestrito dessa mídia tão “pecadora”, nos termos do querido Francisco. E o povo é inclinado aos ventos políticos opressores, de extrema direita, que desatendem suas reais necessidades.

Dedico esse texto ao meu grande amigo Alysson Leandro Mascaro. O vídeo do Papa lhe foi enviado, com o seguinte comentário: “Você tem sido alvo desses quatro males. Mas há de superar.” Assino embaixo. Quem quiser saber mais, assista à entrevista de Alysson Mascaro ao 247, publicada no dia 25 de abril último.

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.

Papa Francisco buscava uma nova economia focada na natureza e humanidade, resgatando a harmonia entre o humano e a natureza e, assim, em harmonia com Deus

 Desde 2013, o papa Francisco mobilizava ações em defesa da floresta e das populações ribeirinhas, como a criação do Barco Hospital

Do Jornal GGN:

    Foto: Vatican News


Milleny Ferreira

Durante um encontro com jovens economistas e empresários em Assis, em setembro de 2022, o papa Francisco recebeu os participantes sob um painel que dizia: “Não é utopia”. A frase resume a essência de sua proposta — uma economia que tenha como finalidade o bem comum, o cuidado com a natureza e a promoção do desenvolvimento sustentável. O episódio foi relembrado pela repórter Edla Lula, do Correio Braziliense.

Para o pontífice, a missão da economia deveria ser atender às necessidades básicas das pessoas. No entanto, como denuncia na Encíclica Laudato Si (2015), esse propósito tem sido distorcido por um modelo de desenvolvimento predador, centrado no lucro, no consumo excessivo e no individualismo. “A finança sufoca a economia real. Não se aprendeu a lição da crise financeira mundial e, muito lentamente, aprende-se a lição do deterioramento ambiental”, alerta o documento.

Francisco propõe o conceito de “ecologia integral”, que considera o ser humano e a natureza como partes indissociáveis de um mesmo sistema. Para ele, “tudo está interligado. Por isso, exige-se uma preocupação pelo meio ambiente, unida ao amor sincero pelos seres humanos e a um compromisso constante com os problemas da sociedade”.

A ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, inclusive, destaca a atuação do papa como reveladora e inspiradora. “Ele trouxe palavras bastante integradas com as necessidades e buscou percorrer caminhos que procuraram apontar soluções”, afirmou, citando a defesa da transição energética como “um novo ciclo de prosperidade”. Marina ainda reforça: “Prosperidade não é sinônimo de riqueza. Um indivíduo pode ser próspero sem ser rico e ser rico sem ser próspero.”Em trechos mais incisivos, Francisco condena os mecanismos que priorizam o sistema financeiro em detrimento da vida humana: “A salvação dos bancos a todo o custo, fazendo pagar o preço à população, (…) reafirma um domínio absoluto da finança que não tem futuro e só poderá gerar novas crises.”

A preocupação com a Amazônia foi constante em seu pontificado, desde 2013, quando visitou o Brasil e fez um apelo direto para que os franciscanos atuassem na região.

A resposta veio com a criação de iniciativas como o Barco Hospital Papa Francisco, que percorre comunidades ribeirinhas oferecendo atendimento médico gratuito. A ação nasceu após conversa com o frei Francisco Belotti, presidente da Associação e Fraternidade São Francisco de Assis na Providência de Deus.

Nos documentos Querida Amazônia e Laudate Deum, Francisco apresenta seus quatro sonhos para a região: defender os mais pobres, preservar a riqueza cultural, proteger a natureza e fortalecer o papel dos cristãos na Amazônia.

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