terça-feira, 13 de março de 2018

Thomas Piketty e a obviedade da desigualdade do capitalismo que midiotas não querem ver


"Ao que tudo indica, a desigualdade entre os ricos e o restante da população é um tipo particular de desigualdade, bem mais particular do que a diferença entre pobres e não pobres. Aquilo que tradicionalmente se usa para explicar as diferenças de renda entre os 99% mais pobres não explica tão bem a desigualdade entre o 1% mais rico e os demais." - Marcelo Medeiros

Do site crimideia.com.br:

POLÍTICA & ECONOMIA

Thomas Piketty e o óbvio ululante do capitalismo


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Texto de Maurício Angelo

Sobretudo, o grande mérito do economista francês Thomas Piketty é colocar no centro do debate mundial, extrapolando o gueto acadêmico da economia e sociologia – e qual área acadêmica não é um gueto? – a questão da desigualdade evidente do capitalismo, porquê ela existe e como chegamos à ela no contexto da economia contemporânea.
É o óbvio ululante sistematizado, bem estruturado, resultado de toda a carreira acadêmica de Piketty e seus muitos colegas, parceiros e colaboradores. As principais conclusões de “O Capital no Século XXI” circulam pela mídia mundial, pelas redes sociais num momento relevante, pós crise de 2008, pós Occupy Wall Street e pós um turbilhão de coisas que aconteceram nos últimos anos, direta ou indiretamente ligadas aos problemas intrínsecos do capital que não preciso elencar aqui.
Vendendo mais de 100 mil exemplares somente nos últimos 60 dias, Piketty se mantém nas listas dos mais vendidos dos Estados Unidos e foi lançado ao curioso status de economia pop. Entender suas origens, parece-me, é importante. Escreve Ivan Martins:
“Como estudioso de desigualdade mais respeitado da última década nos meios acadêmicos, é improvável que Piketty seja efêmero. Prodígio matemático, ele chegou aos Estados Unidos em 1993 para dar aulas de economia no Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), uma das universidades mais respeitadas do mundo. Tinha 22 anos. Três anos depois, voltou à França, convencido de que os americanos se preocupavam mais com matemática e teoria do que com o mundo real. Admirador do historiador Fernand Braudel e do antropólogo Claude Lévi-Strauss, sonhava testar com fatos as convicções que sobravam no seu meio. Mergulhou na pesquisa histórica sobre renda e patrimônio e criou, em 15 anos de trabalho, com ajuda de colaboradores no mundo todo, um banco de dados sobre a evolução da renda e da desigualdade que cobre 30 países. Esse acervo é a base de seu livro.”
“Alguns no pequeno círculo dos economistas respeitados da França dizem que Piketty pode ser melhor compreendido através de sua história pessoal. Ele vem de uma família da classe trabalhadora. Seus pais foram membros ativos do radical partido trotskista Lutte Ouvrière (Luta dos Trabalhadores). Após concluir o ensino médio numa escola pública, aos 16 anos, ele foi aceito na Ecole Normale Supérieure, a mais seletiva das superseletivas grandes faculdades francesas. Ele terminou o doutorado aos 22 anos, tendo recebido um prêmio da Associação Francesa de Economia pela melhor tese do ano. O tema: a redistribuição da riqueza.
Em suma, Piketty é algo cada vez mais raro: um produto puro da meritocracia francesa, um jovem da classe trabalhadora que frequentou escola pública, conseguiu entrar numa faculdade de elite e acabou numa área prestigiada do serviço público (ele ajudou a fundar e liderou a Escola de Economia de Paris). Esse foi o modelo responsável por reviver a França no pós-guerra, mas que agora está em frangalhos.”
Se Piketty não é tão radical quanto parece – já que se opôs à última medida do governo socialista francês, as famosas 35 horas de trabalho por semana, e defendeu cortes nos impostos trabalhistas – é um alívio que não seja. Uma das premissas do radicalismo, especialmente o tipo de radicalismo caduco e viciado que (felizmente) uma parte cada vez menor da esquerda mundial conserva, é que ele fica restrito a pouquíssima gente e tem falhas clamorosas já na fonte.
Não é o caso do francês e esta é ótima notícia. O que ele apresenta?
Afirma que a distribuição de renda, marca da prosperidade no século XX, estancou e hoje regride. Desde os anos 1970, as curvas de desigualdade começaram a subir na Europa e nos Estados Unidos. Na última contagem, em 2010, o 1% mais rico dos EUA detinha 20% da renda total, percentual equivalente ao da Europa em 1910 – época de privilégios hereditários, em que a mobilidade social era pífia; a meritocracia, mínima; e os mais pobres, estruturalmente condenados a continuar assim – a menos que casassem com a fortuna.
(…)
Com a desaceleração das economias ocidentais e a suspensão dos controles sobre as finanças, Piketty afirma que a força da concentração voltou a prevalecer – e sugere, polidamente, que a tendência é piorar no século XXI. Se alguma providência não for tomada, diz ele, poderemos chegar rapidamente a um cenário em que 0,1% da população mundial – cerca de 4,5 milhões de pessoas – detenha entre 40% e 60% da riqueza global. Seria a volta ao mundo econômico de Charles Dickens e Machado de Assis, em que herdeiros afortunados viviam cercados de aproveitadores ou dependentes. Nesse universo, havia pouco espaço para o mérito pessoal, para a iniciativa empreendedora ou para uma vida estável de classe média.
Os supersalários e/ou a brutal diferença entre a remuneração dos mais ricos – nas mais diversas formas do capitalismo videofinanceiro – faria o resto. Não é novidade e estamos rodeados de exemplos suficientes que corroboram a tese. É só olhar ao redor, acompanhar as notícias e o mercado mundial, o óbvio ululante de Piketty, graças a alguma coisa, embalado com verniz inteligível, chega disponível para uma parcela maior de pessoas e chama atenção para o problema.
Em excelente (e longo) artigo na Piauí, Marcelo Medeiros traz alguns recortes interessantes:
Como a concentração da riqueza afeta a dinâmica política e as oportunidades econômicas, seus resultados de longo prazo são difíceis de prever.
Piketty argumenta que os mercados não possuem nem os mecanismos nem os incentivos para frear esse processo. Ele precisa ser controlado por instituições, a começar pelo Estado. Em apoio a esse raciocínio, Piketty invoca a história de mais de vinte países: nos períodos em que os mercados são desregulados, a desigualdade aumenta; nos períodos em que são regulados, cai. Um debate que era antes travado de forma acalorada no terreno da especulação e da ideologia agora tem mais de 100 anos de estatísticas exaustivas como critério de desempate.
 Uh-oh, olha o Estado aí novamente. O Estado que foi chamado para limpar a sujeira que a crise de 2008 gerou. Em resumo, para salvar da bancarrota completa centenas de empresas, bancos, etc. Para tirar do bolso do contribuinte o que a falta de regulação gerou, devolvendo os ativos podres que esse mesmo sistema nos vendeu.
Explica Marcelo:
Temos um Estado com razoável capacidade para fazer investimentos em políticas públicas. Mas que usa uma parte pequena dessa capacidade para promover a igualdade. Proporcionalmente, o poder público contribui mais para as rendas dos 5% mais ricos do que para as rendas dos 50% mais pobres, mesmo depois de considerar as transferências da assistência social. Ou seja, por não ser suficientemente igualitarista, o Estado contribui para aumentar a desigualdade, em vez de minorá-la. Serviços públicos, como os de educação e saúde,  melhoram o cenário, é verdade, mas não são suficientes para revertê-lo.
O imposto de renda, que no Brasil tem alíquotas ainda menores que as dos Estados Unidos, ajuda a frear os níveis de desigualdade, mas pouco. O imposto de renda brasileiro é bastante progressivo, mas limitado. Isso porque a carga do imposto de renda no país é baixa, ao contrário do que se costuma anunciar. “Escorchante” é um adjetivo que só se usa para tributos. Os dados de Piketty mostram que de escorchante o imposto de renda não tem nada: países desenvolvidos optaram por ter uma carga de impostos muito maior do que a nossa quando ainda estavam no nível em que estamos hoje. Além disso, enquanto esses países sempre taxaram patrimônio e heranças, no Brasil esses tributos são de pouca importância. Nos Estados Unidos, boa parte da educação pública é financiada com o equivalente do nosso iptu,e a prática de doações a fundações é disseminada porque os impostos sobre heranças são expressivos.
Ao que tudo indica, a desigualdade entre os ricos e o restante da população é um tipo particular de desigualdade, bem mais particular do que a diferença entre pobres e não pobres. Aquilo que tradicionalmente se usa para explicar as diferenças de renda entre os 99% mais pobres não explica tão bem a desigualdade entre o 1% mais rico e os demais.
“Todos os homens são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”, lembram? É ótima notícia que isso esteja, em todas as esferas e de todas as maneiras, sendo finalmente posto em cheque.

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Bob Fernandes sobre Temer, Carmem Lúcia, militares.. o que é legal, ilegal, hipócrita, trágico...


"É dever das Mídias investigar ilegalidades a Temer & Cia.
Mas é bom lembrar: antes, mesmo já sabendo, omitiram quem eram Temer. E quem eram Eduardo Cunha & bandos...
"...Quando, em nome da legalidade, apoiaram ilegalidades fantasiadas de legalidade.
"Não é bom quem se esgoelava contra a corrupção agora esconder-se, calado.
"É hipocrisia e cinismo os que instigaram fascistas agora fingirem nada ter a ver com isso e com aquilo. E ainda buscarem re-faturar agora criticando fascistas.
"Não é legal ver militar, de novo, defendendo ditadura. Não é legal militar esquecer: militares da ditadura argentina foram condenados. E presos.
"É preciso lembrar: Mandela, De Gaulle, Menachen Beguin, por exemplo, foram chamados de e tratados como "terroristas" e "guerrilheiros".
"Depois seriam reverenciados pelos como Estadistas, ou heróis."

Do Canal do Jornal da Gazeta:



É bom lembrar: a Constituição impede responsabilizar presidente da República por atos anteriores ao mandato.
Temer é investigado por dois supostos crimes de antes do mandato. É bom lembrar: Temer é presidente por conta de impeachment forjado com gambiarras.
Não é ilegal presidentes da República e do Supremo se encontrarem, como fizeram Temer e Carmen Lucia...
...Mas isso não é bom quando, apesar de obstáculo legal, o Supremo está investigando o presidente.
É dever das Mídias investigar ilegalidades a Temer & Cia.
Mas é bom lembrar: antes, mesmo já sabendo, omitiram quem eram Temer. E quem eram Eduardo Cunha & bandos...
...Quando, em nome da legalidade, apoiaram ilegalidades fantasiadas de legalidade.
Não é bom quem se esgoelava contra a corrupção agora esconder-se, calado.
É hipocrisia e cinismo os que instigaram fascistas agora fingirem nada ter a ver com isso e com aquilo. E ainda buscarem re-faturar agora criticando fascistas.
Não é legal ver militar, de novo, defendendo ditadura. Não é legal militar esquecer: militares da ditadura argentina foram condenados. E presos.
É preciso lembrar: Mandela, De Gaulle, Menachen Beguin, por exemplo, foram chamados de e tratados como "terroristas" e "guerrilheiros".
Depois seriam reverenciados pelos como Estadistas, ou heróis.
Assim como, entre tantos outros, os partisans, partigianos, republicanos ou anti-stalinistas. Na França, Itália, Espanha, União Soviética...
...Por quê? Porque enfrentaram forças ou Estados nascidos ou tornados fora-da-lei. Mesmo quando fantasiados de legais.
Vivemos uma ditadura de 21 anos para impedir o quê? Uma ditadura que supostamente viria...
Uma ditadura para evitar uma ditadura!!! Imprescindível pensar a respeito dessa lógica e fato.
É péssimo ver a ONU, de novo, advertindo o Brasil por conta de militarização.
É trágico uma sociedade produzir 60 mil homicídios ao ano, 1,5 milhão em três décadas e meia. E como se tanta matança fosse produto do nada.
Indica muito a pregação "O Mercado, "O Mercado", "O Mercado"...como se fossem papagaios. E em meio a tanto morticínio no entorno.
Matança, fome, miséria, militares de volta, cada vez mais humanos morando nas ruas... Nada disso é legal.

domingo, 11 de março de 2018

Nós somos o ‘Big Brother’: o que Byung-Chul Han escreve sobre as redes sociais


Do El País

Indignação digital não serve para nada, porque preferimos teclar em vez de agir

“Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização.” Com esta frase o EL PAÍS intitulou sua reportagem sobre a conferência do filósofo sul-coreanoByung-Chul Han em Barcelona. Não se trata de uma frase provocadora, pensada para chamar a atenção da plateia, e sim de uma ideia que se repete em seus livros.
Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, já publicou uma dezena de títulos centrados na sociedade atual e nos efeitos da tecnologia. O último é Die Austreibung des Anderen (“a expulsão do diferente”). Todos eles são breves, densos, mas não difíceis, e com muitas ideias em comum.
Um dos temas que trata com frequência é o das redes sociais, com as quais é muito crítico. Quando fala desses assuntos, “Han não se interessa tanto pela análise das causas, e sim pela mudança que produziram em nossas vidas, com o que é muito fácil que o leitor se identifique imediatamente”, diz Manuel Cruz, catedrático de Filosofia e diretor da coleção Pensamento, da editoria Herder, que publicou os livros de Han em espanhol.
Assim, em A Sociedade da Transparência (editora Vozes), ele fala sobre a inclinação a nos expormos nas redes, um hábito que Han compara à pornografia e que é “contagioso e fictício”. Porque essa transparência na verdade é enganosa. Alinhado com a teoria do filtro-bolha de Eli Pariser, Han recorda que as redes só se dispõem a nos apresentar aquelas partes do mundo que nos agradam. Ou seja, essa interconexão digital, afinal, não facilita o contato com outros, pois serve apenas “para encontrar pessoas iguais e que pensam igual, nos fazendo passar longe dos desconhecidos e de quem é diferente de nós”, escreve em A Expulsão do Diferente. A consequência é que nosso horizonte de experiências “se torna cada vez mais estreito”.

Vigiamo-nos mutuamente

Outro efeito dessa exposição constante é que criamos um panóptico digital. Com seu panóptico, Jeremy Bentham propôs um modelo de prisão em que o vigilante sempre podia observar todos os detentos. Em sua versão digital, todos somos ao mesmo tempo vigilantes e vigiados: “O Grande Irmão digital transfere seu trabalho aos reclusos”.
As redes “geram um efeito de conformidade, como se cada um vigiasse o outro, e isso previamente a qualquer vigilância e controle por serviços secretos”, escreve em Psychopolitik (“psicopolítica”). Não necessitamos da Agência de Segurança Nacional dos EUA para procurar e expor tuítes alheios que nos pareçam inadequados e submetê-los ao que, na sua opinião, é o “autêntico fenômeno da comunicação digital”: os linchamentos.

A indignação sem discurso

Essa vigilância acaba gerando ondas de indignação que “são muito eficientes para mobilizar e aglutinar a atenção”. Mas que também são “muito incontroláveis, incalculáveis, instáveis, efêmeras e amorfas” para “configurar o discurso público”, escreve em Im Schwarm (“no enxame”).
Nesta mobilização não há comunicação real nem nenhuma identificação com a comunidade. Tampouco se desenvolve “nenhuma força poderosa de ação”. Gera muito ruído, mas nenhuma voz, nenhum público articulado. As multidões indignadas são fugazes e dispersas, “enxames de unidades simples”.
A indignação não dá em nada, porque “o novo homem tecla em vez de agir”. Somos consumidores e, perante a política ou os movimentos sociais, só reagimos de forma passiva. E, como se de qualquer serviço ou produto se tratasse, nos limitamos a resmungar e a nos queixar, sem ir além.

Uma sucessão de instantes

Compartilhamos todo tipo de informação nas redes: nossas opiniões, nossas fotos, nosso currículo… “Sem saber quem, nem o que, nem quando, nem em que lugar se sabe de nós”, recorda em Psicopolítica. Tudo o que publicamos é passível de ser empacotado e vendido em forma de dados. Ou seja, somos explorados não só durante o tempo de trabalho; o que cedemos é “toda a pessoa, a atenção total, inclusive a própria vida”. Fazemos isso, além do mais, de forma voluntária e gratuita.
big data pode ser até pior que o big brother, pois não esquece nada. Qualquer erro ou indiscrição continuará aparecendo no Google daqui a décadas.
Talvez não pensemos no que ocorrerá dentro de décadas porque também mudou a forma de vivenciarmos o tempo. Não é que tenha se acelerado, como às vezes se diz, e sim que se trata de um tempo atomizado, no qual “todos os momentos são iguais entre si” e “destrói-se a experiência da continuidade”, explica em Ein Duft der Zeit (“um aroma do tempo”). Vivemos em um “choque do presente”, como apontava o ensaísta Douglas Rushkoff: nosso dia a dia se organiza em torno das notificações do celular, sem nos permitir nem um só momento vazio.
Nossos tuítes não narram “nenhuma história de vida, nenhuma biografia”. É só adição sem narração. O mesmo acontece com tudo o que acumulamos no Facebook: fotos, publicações, comentários... Essa memória digital se parece com um armário onde amontoamos tudo o que não usamos, nem jogamos fora. Ou seja, afinal de contas não somos capazes nem de esquecer nem de recordar.
Esses instantes não têm nenhum elemento em comum, “nenhum processo vital além da busca pela excitação contínua”, diz Cruz. E daí procede o ritmo nervoso que caracteriza a vida atual. Volta-se repetidamente a começar, zapeia-se entre as “opções vitais”. Temos pressa em passar de um presente a outro sem aprender com o vivido nem planejar o futuro. “Assim é como o indivíduo envelhece sem acumular idade”, escreve Han. E acrescenta, para concluir, “por isso a morte, hoje em dia, é mais difícil”.
Embora Han não seja muito otimista, ele oferece uma solução: a contemplação, o silêncio. Mas não se refere a distanciar-se do mundo nem recuar a uma sociedade pré-moderna, esclarece Cruz, “e sim parar para pensar, para olhar”, para assim poder refletir a respeito de nossas vidas e lhes dar esse sentido, essa narrativa que se corre o risco de perder. E, também, para evitar incorrer em erros, como quando confundimos a autoexploração com a realização pessoal, ou quando esquecemos que o trabalho é só um meio e não um fim em si mesmo.

Do El País: Filosofia - Byung-Chul Han, o filósofo coreano que ataca as redes e se tornou viral


Do El País:

Entenda os motivos do sucesso de Byung Chul-Han, um dos maiores críticos do uso excessivo da Internet e da sociedade contemporânea


Byung Chul-Han em Barcelona.
Byung Chul-Han em Barcelona.  (EL PAÍS)

Fala da alienação e dominação, do inferno do igual, da sociedade do cansaço e da exploração a que nos submetemos. É um filósofo de origem sul-coreana que fez sua carreira na Alemanha e em alemão, inspirado na obra de alguns dos mais célebres – e mais difíceis – pensadores desse país, de Hegel a Martin Heidegger. Tem um livro, inclusive, chamado No Enxame: reflexões sobre o digital, que é uma crítica demolidora do papel das redes sociais na sociedade atual. Não parecem argumentos para o sucesso viral e, entretanto, a matéria sobre o pensamento de Byung Chul-Han publicada na quarta-feira pelo EL PAÍS teve mais de meio milhão de usuários únicos nos dois primeiros dias e foi o conteúdo mais visto do site durante mais de 30 horas. A versão em português também se transformou na matéria mais lida do jornal em toda a América Latina. Conversamos com outros filósofos e escritores para falar dos motivos do sucesso do pensamento de um autor cujas principais obras – A Sociedade do CansaçoA Sociedade da Transparência e a Agonia do Eros – estão traduzidas ao português.
Algo parecido já aconteceu à época com a morte de Zygmunt Bauman e o surgimento de Slavoj Zižek, conhecido como o filósofo viral. Em maior ou menor grau, são todos eruditos, controversos e politicamente incorretos. “É uma leitura crítica do mundo acelerado que tem a ver com a transparência e as tecnologias e isso para ele funciona e gera cumplicidade. É o tipo de pensamento que acompanha as solidões”, explica o filósofo e jornalista Josep Ramoneda.
“Existem quatro aspectos essenciais”, comenta o professor de Filosofia Contemporânea da Universidade de Barcelona Manuel Cruz. “Por um lado, acertou no formato. Esses textos de intervenção curta e clara são fundamentais. Além disso, há o estilo. Tem um modo de colocar as coisas especialmente atrativo. Parte de um conceito intuitivamente aparente – a transparência, por exemplo – ou uma metáfora – a sociedade do cansaço – e consegue um grau de acessibilidade muito grande. Também está muito preocupado pela experiência. Por último, afiança solvência. Você pode ou não gostar, mas não pode dizer que ele é um charlatão”.

Contra o mito das redes

Quase sete em cada dez leitores da matéria do EL PAÍS, tanto em espanhol como em português, chegaram a ela através das redes sociais, fundamentalmente o Facebook. É quase uma ironia, porque Han ataca com dureza o papel das redes e se pergunta se no final será o algoritmo a construir o homem e não o inverso.
A ensaísta Remedios Zafra, autora de El Entusiasmo (O Entusiasmo), um estudo sobre a precariedade e a desilusão, reflete sobre a pertinência da análise de Han: “Na vida contemporânea (online) são tão poucos os tempos vazios que não é fácil ativar a consciência, o que prima é a inércia. A vida tal como a conhecíamos parece estar em risco, fagocitada por trabalhos e tarefas derivados da conexão permanente. Que grande parte dessas tarefas tenham a ver com a própria visibilidade e com o protagonismo do eu na vida digital está muito relacionado com o mecanismo que faz a conexão. O que não tenho claro é até que ponto essa “autoexploração” sugerida por Han é promovida pelo próprio indivíduo”.
A aparente simplicidade é outra de suas virtudes. “Han utiliza uma linguagem inteligível, também simplificando muito. Daí a enganosa sensação de que tudo pode ser explicado, algo que reconforta muito. Acho que o sucesso de Han se deve em boa parte a esse fator reconfortante”, afirma Cecilia Dreymüller, tradutora especializada em literatura alemã e escritora. “São livros muito curtos, isso é importante nos tempos atuais. Bastante contundentes e fáceis de se ler”, acrescenta Ramoneda. “É uma mistura de profundidade filosófica (principalmente à base de citações indiscriminadas de toda a filosofia ocidental) com questões da cotidianidade mais comum. Tudo reconhecível. E esse é outro grande fator de seu sucesso”, diz Dreymüller.
Por trás da fama de Byung Chul-Han há uma carreira de fundo contra a lógica da vida. Nascido em 1959 em Seul, Han decidiu ir à Alemanha após abandonar seus estudos de metalurgia. Em 1994 se doutorou pela Universidade de Munique com uma tese sobre Heidegger e pouco depois começou a trabalhar como professor universitário. Surpreendente para alguém que não dominava o alemão quando chegou. “É assombroso o domínio do idioma de Han, verdadeiramente. Mas uma pessoa disciplinada e inteligente como ele consegue fazê-lo com muita aplicação. Parece ter uma enorme força de vontade. Ele adora poesia, recita Goethe de memória assim como Leopardi – em italiano”, afirma Dreymüller.

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