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quinta-feira, 12 de março de 2015

Mídia, Imprensa e Escândalos: entre diferentes pesos e medidas.... O Caso Swissleaks - HSBC e o Lava-Jato

   "O cuidado do jornal O Globo com os brasileiros envolvidos no escândalo internacional do HSBC se justifica pelo fato de que nem todos os correntistas são criminosos, mas levanta uma questão de método: por que essa mesma cautela, própria do bom jornalismo, não se aplica com equanimidade a outros escândalos, nos quais a imprensa transforma automaticamente em réus todos os citados?"


 O texto a seguir, de Luciano Martins Costa, foi retirado do Observatório da Imrensa:


IMPRENSA & ESCÂNDALOS

Swissleaks, um iceberg na Suíça

Por Luciano Martins Costa em 12/03/2015 na edição 841
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 12/3/15 

 Globo inicia na quinta-feira (12/3) uma série de reportagens sobre o caso conhecido como “Swissleaks”, ou seja, o vazamento de informações sobre contas mantidas por 106 mil clientes e 20 mil empresas na filial suíça do banco britânico HSBC. O trabalho do diário carioca vai focalizar parte dos 8.687 brasileiros que aparecem na lista como donos de pelo menos US$ 7 bilhões. Esse montante se refere apenas a um pacote de documentos revelado pelo engenheiro de software Hervé Falciani, que coletou os dados de 2006 e 2007.

Não é crime possuir uma conta no exterior, mas o caráter sigiloso desses contratos chama a atenção da Polícia Federal, conforme explica o jornal.Esse cuidado em não criminalizar a priori os proprietários do dinheiro se destaca na primeira reportagem, e nenhum dos que foram localizados pelos jornalistas admitiu ser titular das contas. No entanto, o jornal relacionou 23 deles a casos de corrupção, fraude e outros crimes investigados ou julgados nos últimos anos, o que significa que o que veio à tona pode ser apenas a ponta de um imenso iceberg.
Globo vincula esses nomes, entre outros, ao caso das licitações superfaturadas no sistema de trens e metrô de São Paulo, à “máfia da Previdência”, à falência fraudulenta do Banco Econômico, a dois esquemas ligados a compras de medicamentos no Ministério da Saúde, e a pelo menos um dos envolvidos na operação Lava Jato.
Não há como deixar de relacionar essas fortunas suspeitas também a casos ainda não citados pelo jornal, como o escândalo do Banestado, considerado por policiais e procuradores como a matriz dos esquemas de evasão de divisas no Brasil.
O cuidado do jornal se justifica pelo fato de que nem todos os correntistas são criminosos, mas levanta uma questão de método: por que essa mesma cautela, própria do bom jornalismo, não se aplica com equanimidade a outros escândalos, nos quais a imprensa transforma automaticamente em réus todos os citados?
No caso das contas suspeitas na Suíça, a primeira amostra da investigação jornalística pode impulsionar a ação policial, como observa o Globo, e daí pode nascer uma parceria capaz de fazer revelações importantes.
A questão das fontes
Qual a diferença entre o “Swissleaks” e os demais escândalos que pululam diariamente na imprensa brasileira? Basicamente, a diferença está na fonte das informações: o escândalo que nasce no banco britânico por iniciativa de um ex-funcionário está sendo destrinchado por um consórcio de centenas de jornalistas de várias nacionalidades, o que dificulta a manipulação seletiva dos dados. Uma “versão nacional” que viesse a destoar das publicações em outros países colocaria sob risco a reputação do jornal.
Nos casos de corrupção e fraudes investigados no Brasil, pode-se construir qualquer narrativa, ao sabor da vontade dos editores, porque as fontes são em geral vazamentos clandestinos de inquéritos que se desenvolvem sob sigilo oficial, mas que servem a propósitos políticos. E é isso exatamente que tem acontecido nos últimos anos, principalmente após as primeiras revelações do esquema de financiamento de campanha que resultou na Ação Penal 470.
Observe-se que, ao contrário dos períodos anteriores, os órgãos públicos de investigação e o sistema judiciário brasileiros têm atuado na última década com plena desenvoltura e sem interferências dos demais poderes. A Polícia Federal tem autonomia para conduzir seus inquéritos, a Procuradoria Geral da República simplesmente dá curso às denúncias que lhe compete conduzir e ninguém ouve falar, desde 2002, de manobras para ocultar, obstruir ou engavetar processos. Pelo contrário, é em certo gabinete do Supremo Tribunal Federal que se localiza o “triângulo das Bermudas” de alguns casos recolhidos para vistas e que em seguida desaparecem do noticiário.
Na quinta-feira (12), alguns comentaristas começam timidamente a alertar para o risco de confrontos nas manifestações marcadas para o próximo domingo, onde estarão misturadas expressões legítimas de insatisfação com o governo federal, oportunistas de todo tipo e aventureiros que defendem a volta da ditadura militar. O clima beligerante foi criado pela imprensa brasileira, ao convencer os midiotas de que a corrupção foi uma invenção do século 21.
A série de reportagens iniciada pelo Globo é o modelo que foi esquecido.
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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Do Observatório da Imprensa: a mídia e a receita de como manipular uma pesquisa eleitoral



ELEIÇÕES 2014

Como manipular uma pesquisa


Por Luciano Martins Costa em 16/10/2014 na edição 820

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 16/10/14  



  As duas pesquisas de intenção de voto divulgadas nesta quinta-feira (16/10) proporcionam um bom exemplo para a análise do protagonismo da imprensa na disputa eleitoral. O Estado de S. Paulo proclama: “Aécio e Dilma mantêm empate técnico, apontam pesquisas”. A Folha de S. Paulo anuncia: “A 11 dias da eleição, Aécio e Dilma mantêm empate”. O Globo afirma: “Disputa fica estável apesar de agressões”.

  Nas linhas finas, os três jornais procuram destacar uma suposta vantagem numérica do candidato do PSDB, sendo que o Globo faz uma relação direta entre as trocas de acusações nas propagandas eleitorais e o resultado das consultas do Ibope e do Datafolha.

  Também há análises observando que o apoio dado ao senador Aécio Neves pela ex-ministra Marina Silva e pela família do falecido ex-governador Eduardo Campos não ajudou muito o candidato. O Datafolha sugere, aliás, que o apoio de Marina mais atrapalha do que favorece o ex-governador de Minas.

  Pesquisas devem ser levadas a sério, porque são usadas intensamente pelos partidos políticos e alimentam a pauta da imprensa. No entanto, é preciso desconfiar quando duas consultas feitas em datas diferentes apresentam resultados iguais, principalmente se se considerar que entre uma e outra ocorreram fatos relevantes, capazes de mudar as convicções de muitos eleitores.

 O Ibope colheu seus dados entre os dias 12 e 14/10, antes do debate realizado pela TV Bandeirantes na noite de terça-feira (14), e o Datafolha saiu a campo no dia 14 e no dia seguinte, ou seja, sua amostragem foi parcialmente influenciada pelo debate.

  Os analistas da mídia reconhecem que esse foi um divisor de águas, por colocar os oponentes, pela primeira, questionando-se diretamente um ao outro, sem a intervenção de jornalistas e de outros candidatos.

  O Estado de S. Paulo apresenta um quadro onde considera o debate relevante para as escolhas dos eleitores, mas não explica por que ele foi parar ali, uma vez que o fato aconteceu depois da pesquisa Ibope. Portanto, seria de se esperar que o resultado do Datafolha viesse ao menos ligeiramente diferente dos indicadores do Ibope.

 Mas essa ainda é uma questão menor.

 A lavagem de factoides

  Nos anos 1980, jornalistas da revista Veja chamavam de “a mão peluda” as intervenções do então diretor de redação, Roberto Guzzo, em seus textos. Era uma forma bem-humorada de protestar contra a homogeneização do estilo, que, posteriormente, degenerou para o panfletarismo puro e simples.

 Pois a “mão peluda” pode ser flagrada na cobertura eleitoral dos principais veículos de comunicação do País, num jogo que começa na pauta e continua nas pesquisas de intenção de voto.

 Vejamos, então, como funciona: a imprensa hegemônica martela sem cessar um assunto que é desfavorável a um dos candidatos. Nem é preciso demonstrar, mas até mesmo o leitor mais fiel sabe que o noticiário é predominantemente negativo para a candidata do Partido dos Trabalhadores, enquanto seu oponente é poupado em nível de vassalagem. Então, o tema central do bombardeio contra a candidata petista vai parar nos formulários que os pesquisadores levam a campo. E muitas respostas, evidentemente, podem ser influenciadas.

 A manobra é denunciada por eleitores nas redes sociais, e o questionário inteiro da pesquisa pode ser conferido no site do Tribunal Superior Eleitoral (ver aqui).

 Na pergunta 22 da pesquisa Datafolha, por exemplo, o eleitor ouve o seguinte: “Você tomou conhecimento das denúncias de um ex-diretor da Petrobras que envolvem o pagamento de propinas em contratos da empresa para três partidos: PT, PP e PMDB?” Então, o pesquisador pergunta se o entrevistado acredita ter havido o pagamento de propinas, e depois questiona se essas denúncias deveriam ser divulgadas durante a campanha ou só depois do segundo turno. Nas duas perguntas seguintes, o pesquisador envolve diretamente a presidente da República no escândalo, com a seguinte pergunta (P.25): “Na sua opinião, a presidente Dilma Rousseff tem ou não responsabilidade no caso de corrupção em negócios da Petrobras?” E o pacote é fechado por uma questão sobre a eventual influência das denúncias na definição do voto do pesquisado.

 O escândalo montado pela imprensa a partir de declarações fragmentadas, vazadas seletivamente de um processo criminal, vai para a pesquisa e depois volta para o noticiário. É assim que funciona a “lavagem” de factoides.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"Estou desolada com São Paulo e preocupada com o Brasil", desabafa a historiadora Profa. Maria Victória Benevides, após o resultado das urnas

Extraído do Diário do Centro do Mundo:

"Estou desolada com São Paulo e preocupada com o Brasil", diz historiadora



O resultado da eleição no estado de São Paulo deve provocar uma reflexão de âmbito geral, sobre a vitória de Geraldo Alckmin. E em particular, no âmbito do PT, principal partido de oposição no estado, sobre o desempeno do candidato Alexandre Padilha. A avaliação é da cientista política e historiadora Maria Victória Benevides, professora aposentada da USP, que se disse “desolada e perplexa”.

“Estou desolada com São Paulo e preocupada com o Brasil”, resumiu.

A professora se diz intrigada com alguns resultados vistos pelo país, como a vitória do PSDB em São Paulo. “Se aqui foi um dos lugares do país onde mais se protestou no ano passado contra a corrupção e a falta de qualidade nos serviços públicos, como entender? Crise de água, crise de segurança, de saúde e educação de péssima qualidade, serviços péssimos”, enumera.

Durante algum tempo, como ela observa, se dizia que a classe política parecia não ter entendido os recados das ruas. “Agora me parece que tampouco as ruas entenderam o recados das ruas”, ironiza.

“Se fosse a indignação com a corrupção o problema, não teria sido o PT a principal vítima dos protestos, como acabou sendo. Em parte graças aos meios de comunicação, em parte à despolitização dos movimentos, que foram importantes, sobrou para Dilma, e sobrou para o Haddad, e só”, constata.

“O que diferencia Alckmin de Paulo Maluf quando ele se refere ao assunto segurança pública? Nada. É o mesmo discurso e a mesma prática da ditadura, que sufoca o conceito de direitos humanos, desloca o seu sentido de acesso a educação, moradia digna, acesso a empregos, para uma rotulação torta de que defender direitos humanos é defender bandido”, avalia.

Mas o mais grave, em sua opinião, foi a postura do PT em relação à candidatura do ex-ministro Alexandre Padilha. “Padilha teve um comportamento excepcional, mostrou que não é liderança política de se ressentir e tocou com seriedade e fidelidade sua campanha. O resultado surpreendente no final de votação, comparado com desempenho supostamente fraco nas pesquisas, revela o abandono a que foi submetida sua campanha. Foi uma irresponsabilidade do partido”, afirma a historiadora.

No plano nacional, a professora pretende avaliar nos próximos dias como irá de comportar o eleitorado de Marina Silva. “Vamos ver de que tamanho era o contingente de antipetistas que apostaram em sua candidatura, e se a maioria deles já bandeou para o lado do Aécio Neves já no primeiro turno, já que ele recebeu uma votação acima da esperada. Agora, tem o pessoal mais ligado a suas origens de esquerda, o ambientalismo, vamos ver para que lado irá”, diz

“O fato é que está dada mais uma vez a mesma polarização PT-PSDB dos últimos 20 anos. A diferença é que agora há uma candidato mais jovem, de fora de São Paulo, bem-sucedido em seu estado”, lembra Maria Victória.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Constrastes

Se as pessoas fossem mais sensíveis para com o próximo, os pensamentos seriam certamente mais nobres...

Carlos Antonio Fragoso Guimarães