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terça-feira, 22 de julho de 2025

A estúpida má vontade sobre o documentário “Apocalipse nos Trópicos”, por Luís Nassif

 

    "(...) tudo o que a crítica diz que o documentário não tem, o documentário tem. A diretora optou por montar um roteiro – com um texto muito bem elaborado – abordando o uso da religião por um pastor megalomaníaco, Silas Malafaia, visando eleger um presidente joguete, Jair Bolsonaro."


Do Jornal GGN:


A má vontade sobre o documentário “Apocalipse nos Trópicos”, por Luís Nassif

Não era intenção do documentário discutir todas as nuances dos evangélicos, e os ângulos da religião não ligados ao jogo político.

    Divulgação


Quando li, na Folha, o artigo “´Apocalipse nos Trópicos´ ignora catolicismo e reforça estereótipos”, de Tabata Tesser, Mestre em ciência da religião (PUC-SP), julguei que era uma crítica correta sobre o filme. Isso, antes de assistir o documentário.

O que dizia o artigo:

Ponto 1 – o documentário não menciona o declínio da religião católica, como um dos motivos para a ascensão da religião evangélica.

Ponto 2 – reforça um dualismo simplista, que os católicos são bons, porque defendem os pobres, e os evangélicos são maus.

Ponto 3 –  Ao eleger Malafaia como figura central, quase como o “sindicalista” dos evangélicos, o documentário exagera sua influência, ignora o jogo partidário e a complexidade das bases evangélicas: suas múltiplas vertentes, redes de solidariedade, disputas locais em Conselhos Tutelares e espaços participativos — e os múltiplos sentidos da fé em contextos populares.

Ponto 4 – Por fim, ao adotar uma estética e narrativa apocalíptica, o documentário sugere que vivemos uma distopia religiosa que foi “pausada” com a vitória de Lula em 2022.

Depois de assistir o documentário, a impressão é de uma crítica de má vontade.

Ponto 1 – no documentário mostra-se, claramente, a ruptura na Igreja católica com o fim da teologia da libertação. Primeiro, mostra Dom Pedro Casaldáliga. Depois, menciona Henry Kissinger convencendo o Departamento de Estado de que o movimento era contra os Estados Unidos, e recomendando o estímulo aos neopentecostais. As cenas com Dom Pedro Casaldáliga simbolizam a Igreja antes do fim da Teologia da Libertação. A sequência é clara para mostrar a ruptura da Igreja com a Teologia da Libertação como passo inicial de seu afastamento dos pobres.

Ponto 2 – com exceção de Casaldáliga não há uma menção sequer à Igreja Católica.o contraponto à visão catastrofista de Malafaia, e o discurso de que Jesus é amor, são feitos por outros pastor evangélico, não por um padre católico.

Ponto 3 – o destaque a Malafaia é jornalisticamente correto. Ele foi o elo central do apoio dos evangélicos a Bolsonaro. E o documentário é sobre a ascensão de um candidato que usa a religião como bandeira, não uma proposta de discutir todas as nuances do neopentecostalismo.

Ponto 4 – o documentário foi sutil, ao colocar, primeiro, Lula criticando o uso político das igrejas. Depois, ironizando o discurso dos sindicalistas e da Igreja católica, em comparação com o dos pastores evangélicos. Depois, Lula indo a um templo e desdizendo seu discurso inicial e endossando a bobagem sobre banheiros unissex, criticando o aborto. Tudo isso para a conclusão final: o retrocesso civilizatório, com o domínio da religião sobre o estado laico.

Ou seja, tudo o que a crítica diz que o documentário não tem, o documentário tem. A diretora optou por montar um roteiro – com um texto muito bem elaborado – abordando o uso da religião por um pastor megalomaníaco, Silas Malafaia, visando eleger um presidente joguete, Jair Bolsonaro.

Não era intenção do documentário, nem caberia em 90 minutos, discutir todas as nuances dos evangélicos, e os ângulos da religião não ligados diretamente ao jogo político.

Mas, aí, a professora recorre a um truque habitual da crítica ligeira: em vez de criticar o que o documentário diz, prefere se concentrar no que ele não se propôs a dizer. Com esse critério, nenhuma obra literária ou cinematográfica escaparia ilesa. O papel do crítico precisa ser entender a proposta do autor e discutir o conteúdo dentro do que foi proposto.

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domingo, 20 de julho de 2025

A Teologia da Libertação x o Apocalipse nos Trópicos da fundamentalista e mercantil Teologia da Prosperidade e do Domínio, por Gustavo Tapioca

 No documentário Apocalipse nos Trópicos, a diretora Petra Costa lança luz sobre uma das mudanças mais profundas e silenciosas do panorama político-religioso brasileiro: A substituição progressiva da teologia da libertação por uma teologia de orientação conservadora, importada dos Estados Unidos...

                                                                Foto: Reprodução/Internet

A Teologia da Libertação e o Apocalipse nos Trópicos

por Gustavo Tapioca, no Jornal GGN 

No documentário Apocalipse nos Trópicos, a diretora Petra Costa lança luz sobre uma das mudanças mais profundas e silenciosas do panorama político-religioso brasileiro. A substituição progressiva da teologia da libertação por uma teologia de orientação conservadora, importada dos Estados Unidos, que ficou conhecida como teologia do domínio.

Longe de ser apenas uma transformação interna das igrejas, esse processo representa uma inflexão geopolítica de peso, que marca o abandono de um projeto de evangelho comprometido com a organização popular, em favor de um cristianismo de guerra cultural, moralismo punitivo e busca desenfreada por poder.A teologia da fé e justiça social

Nascida na América Latina no final dos anos 1960, a teologia da libertação foi uma resposta teológica e pastoral à realidade de opressão, miséria e desigualdade que assolava os povos latino-americanos. Inspirada por uma leitura engajada do Evangelho e pelas análises sociais progressistas, essa corrente propôs uma nova forma de vivenciar o cristianismo ao lado dos que lutavam contra os mecanismos estruturais de exclusão.

No Brasil, a teologia da libertação ganhou corpo nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), articuladas dentro da Igreja Católica sob a liderança de figuras como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns, Frei Betto, Leonardo Boff, entre outros. Essas comunidades criaram redes de solidariedade, organização popular e resistência durante a ditadura militar. Foram uma força viva de educação popular, mobilização social e formação política dos setores marginalizados.

Diferentemente da religiosidade de templo e hierarquia, as CEBs encarnavam um cristianismo comunitário, horizontal, profundamente ligado às lutas concretas do povo. A fé era indissociável da justiça social. O Evangelho não era só promessa de salvação futura, mas exigência de transformação do presente.

O contra-ataque veio Washington

O impacto político da teologia da libertação não passou despercebido. Nos bastidores da Guerra Fria, a Igreja latino-americana progressista começou a ser vista por Washington como um obstáculo geopolítico. Sob o governo Reagan, os Estados Unidos passaram a investir pesadamente na contenção dessa teologia, apoiando o avanço de igrejas evangélicas neopentecostais, majoritariamente vindas dos EUA, com uma nova doutrina: a teologia do domínio (ou da prosperidade).

A teologia do domínio se opunha frontalmente à libertação dos pobres. Em vez de denunciar estruturas injustas, ela pregava que a fé leva ao sucesso individual, que a pobreza é sinal de fracasso espiritual e que os “fiéis” devem conquistar todas as esferas do poder — governo, mídia, economia, educação, família e cultura — para “restaurar” a sociedade cristã. Em suma, uma doutrina de dominação política mascarada de espiritualidade.

A teologia do domínio chegou ao Brasil por meio de igrejas como a Universal do Reino de Deus e outras denominações pentecostais e neopentecostais, rapidamente organizadas em redes nacionais com suporte estrangeiro. Ao contrário da organização comunitária da teologia da libertação, as novas igrejas criaram impérios midiáticos, bancadas parlamentares e alianças com o poder econômico e militar.

O desmonte da teologia da libertação

A partir dos anos 1990, a teologia da libertação começou a perder espaço tanto na Igreja quanto na esfera pública. Enfrentou repressão interna (com a intervenção do Vaticano, sobretudo sob João Paulo II e Bento XVI), abandono institucional, e uma campanha difamatória que a rotulava de “comunista”, “herética” ou “inimiga da fé”.

Ao mesmo tempo, a ascensão das igrejas evangélicas conservadoras conquistou corações, votos e poder político. O moralismo sexual, o anti-intelectualismo, a demonização da esquerda e o culto à obediência foram alçados ao centro do discurso religioso popular. O neopentecostalismo tornou-se um dos principais pilares do bolsonarismo e da extrema direita, fornecendo base ideológica e militância ativa.
Enquanto isso, os ideais da teologia da libertação foram confinados às margens, ainda vivos em algumas pastorais sociais, movimentos de base e iniciativas progressistas dentro e fora da Igreja, mas sem o mesmo protagonismo de décadas anteriores.

A disputa pelo futuro

O que Petra Costa revela em Apocalipse nos Trópicos é que essa mudança religiosa não é um mero detalhe cultural. Ela está no cerne do projeto de dominação neoliberal e autoritária que se espalhou pelo Brasil e pela América Latina. A derrota da teologia da libertação é, em parte, a derrota de uma utopia democrática, solidária, plural — e a ascensão de uma lógica de poder que mistura mercado, fé e repressão.

Mas a história não está encerrada. Diante de um mundo em colapso social, ambiental e espiritual, a mensagem da teologia da libertação volta a fazer sentido. Em tempos de destruição e apatia, ela nos recorda que a fé pode ser força de esperança ativa, de luta por justiça e de reinvenção da convivência humana. Sua voz persiste, ainda que abafada, como semente em solo seco. E talvez, como ensinam os profetas, o tempo da colheita volte a chegar.

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

A cineasta Petra Costa fala sobre novo documentário “Apocalipse nos Trópicos”, sobre o avanço do fundamentalismo evangélico e seu plano de poder político e econômico

 

Do Canal Brasil de Fato:

Estreou nesta segunda-feira, 14 de julho, o novo documentário da cineasta brasileira, Petra Costa, “Apocalipse nos Trópicos”. O filme começou a ser realizado durante o processo de produção do aclamado documentário anterior dela, “Democracia em Vertigem”.  Em “Apocalipse nos Trópicos”, a influência das igrejas e pastores evangélicos na política brasileira e o entrelaçamento com a extrema direita no país são temas abordados. O filme também resgata as origens da religião no país e o papel fundamental dos Estados Unidos nessa chegada, durante a ditadura militar. Na China, Petra concedeu entrevista exclusiva ao repórter Mauro Ramos, do Brasil de Fato, em junho. A cineasta foi convidada pela primeira vez para ser jurada na categoria “Documentários” do 27º Festival Internacional de Cinema de Shanghai.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Petra Costa: o que está acontecendo nos EUA, a tentativa de golpe da extrema direita, pode acontecer no Brasil em 2022

 

“Estamos nos preparando para defender a democracia e impedir que o minúsculo imite seu mestre e feche de vez as portas do inferno com a gente dentro?”, questionou a cineasta Petra Costa referindo-se a Jair Bolsonaro, aliado submisso de Trump


(Foto: Reuters | Divulgação)

247 - A cineasta Petra Costa, diretora do documentário Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar, afirmou que “as imagens estarrecedoras dos EUA de hoje podem se repetir no Brasil em 2022”, ao comentar a invasão do Capitólio por apoiadores de Donald Trump para impedir a certificação da vitória eleitoral de Joe Biden.

“Estamos nos preparando para defender a democracia e impedir que o minúsculo imite seu mestre e feche de vez as portas do inferno com a gente dentro?”, questionou referindo-se a Jair Bolsonaro, aliado submisso de Trump.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

“É um crime ser imparcial diante da morte. Somos todos Petra Costa!”, diz Pedro Cardoso sobre “Democracia em Vertigem”



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Publicado no Instagram de Pedro Cardoso
Bom dia.
Eu gosto do filme Democracia em Vertigem. Sugiro que todo mundo assista.
Gosto da intenção de quem o fez de expor o que, ao q tudo indica, foi um golpe de estado parlamentar, operado nas imperfeições da legalidade, contra a democracia nossa.
Admito que se possa fazer ressalvas ao filme – como a tudo -, principalmente no que pouparia o PT de suas responsabilidades nas irresponsabilidades que cometeu, ao q tudo também indica.
Mas, mesmo considerando alguma parcialidade, eu adoro o filme justamente por esta mesma possível parcialidade q nele criticam.
Amo o filme pela intenção de quem o vez de proteger o Brasil desse inferno nazifascista fundamentalista falso religioso criminoso e medíocre que bandidos apoiados por 57 milhões de imprudentes concidadãos meus colocaram na gerencia do executivo.
Quando meu colega Pedro Bial diz, em irada crítica ao filme, que “Quando a direita ganha, então a democracia está em risco” (aspas colhidas no Diário de Pernambuco) ele comete o gravíssimo erro de considerar Messias e os seus como direita.
Direita é o PSDB atual. O grupo q tramou o golpe é nazifascista. Não é de modo algum a mesma coisa.
Nós, democratas de esquerda, conviveremos pacificamente bem em oposição construtiva com administrações honestas de direita; mas haveremos de nos opor absolutamente contra o fundamentalismo falso religioso do nazifascismo em vigor.
Nós somos todos Petra Costa! e sua imensa coragem de elogiar a luta dos pais, e de tantos, contra o nazifascismo brasileiro. O ataque ao PT nunca se deveu a um desejo de honestidade na política.
Foi movido pelo sórdido interesse de se apossar do Estado para roubar. As evidências desse objetivo estão demonstradas nos escândalos de Flávios, Queirozes, Moros e Dellanhoes, Marcelos turistas, Alvins…
Ainda crê nessas pessoas quem precisa fugir da vergonha do seu engano ou é igual a eles. A parcialidade discutível de Petra é o que me faz adora-la ainda mais! É um crime ser imparcial diante da morte.
Imparcialidade é para tempos de plena liberdade. Tudo deve ser dito contra o nazifascismo, até mesmo a versão idealizada da nossa esperança. ❤Petra!

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Mais um tapa bolsonarista na Constituição: Governo ligado a milicianos e entreguistas chama Petra Costa de ‘militante anti-Brasil’




A função da Secom é dar publicidade à gestão federal e amplificar a informação de interesse público, não é ofender nem expor qualquer pessoa por sua opinião pessoal.

Jornal GGN – Petra Costa, indicada ao Oscar de melhor documentário por seu trabalho ‘Democracia em Vertigem’ virou a pedra no sapato do governo Bolsonaro. A cineasta apresentou uma obra que alerta as democracias para os riscos atuais, tendo como pano de fundo o impeachment da presidente Dilma Rousseff.
Fabio Wajngarten, chefe da Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República) e que muito tem a explicar sobre a distribuição de verbas publicitárias da pasta, tuitou furiosamente atacando a cineasta. Num deles, chama Petra Costa de ‘militante anti-Brasil’. O furor de Wajngarten acontece por entrevistas que a cineasta concedeu a emissoras nos Estados Unidos.
Mas a Secom não fez um recadinho doméstico, escreveu em inglês para alcançar o público internacional.
“Sem a menor noção de respeito por sua nação e pelo povo brasileiro, Petra afirmou num roteiro irracional que a Amazônia vai virar uma savana e que o presidente Bolsonaro ordena o assassinato de afroamericanos [provavelmente a ideia era escrever afrobrasileiros] e homossexuais”, afirma o post. “É inacreditável que uma cineasta possa criar uma narrativa cheia de mentiras.”
A Secom também se esmerou, e postou um vídeo rebatendo o que considera errado. Isso vale para o que foi dito sobre a Amazônia, desmatamento, Inpe.
A especialista em direito administrativo entrevistada pela Folha afirma que os tuítes da Secom ferem a Constituição. Ela evoca o artigo 37 da Carta: “Ele deixa claro que a Administração Pública se submete aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência, e determina ainda que a publicidade dos governos terá caráter educativo, informativo ou de orientação social”.
Isso significa que a função da Secom é dar publicidade à gestão federal e amplificar a informação de interesse público. “Nunca deve se comportar como um instrumento de opinião sobre determinada obra cultural, até porque no Brasil a liberdade de expressão é um pilar constitucional”, diz a advogada.
Ou seja, ofender e expor desafetos ao governo não é algo autorizado à administração pública. Mais um tapa na Constituição.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Petra Costa, diretora do filme documentário Democracia em Vertigem, no The Washington Post, discorre sobre a guerra de Bolsonaro contra a verdade





A guerra de Bolsonaro contra a verdade, por Petra Costa

O Brasil está imerso em um drama sem fim, enquanto o governo leva a democracia à beira do abismo
Por Petra Costa
Na semana passada, meu documentário Democracia em Vertigem foi indicado ao Oscar na categoria melhor documentário. No filme, entrelaço a ascensão e queda dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro com a minha própria história familiar — tenho a mesma idade da democracia brasileira e, em grande parte, a divisão do país está refletida na minha família.
Após a nomeação, minha equipe foi inundada por mensagens nas mídias sociais nos parabenizando pela conquista. Já o governo reagiu de forma diferente. O então Secretário de Cultura, Roberto Alvim disse: “se fosse na categoria de ficção, a nomeação seria correta”.
Em 2016, eu entrevistei Bolsonaro sobre seus planos para o setor cultural e ele reclamou que nenhum filme brasileiro era bom o suficiente para ser premiado com uma indicação ao Oscar. Na semana passada, no entanto, ele desprezou nossa indicação dizendo “para quem gosta do que urubu come, é um bom filme”. Em seguida, ele admitiu não ter visto o filme, mas isso não impediu que a legião de trolls que o seguem nas redes sociais de papaguear a acusação de que o filme era fake news.
Na quinta-feira, era Roberto Alvim quem estava nas manchetes. Em um vídeo postado nas redes sociais para promover um prêmio nacional de arte, ele proclamou que “a arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional”, “será dotada de uma grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que é profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo — o então não será nada”. O discurso repete frases do ministro da propaganda nazista Joseph Goebbels, proclamadas em maio de 1933. Um retrato de Bolsonaro aparecia atrás de Alvim, enquanto Lohengrin — uma ópera do compositor favorito de Adolf Hitler, Richard Wagner — podia ser ouvida ao fundo.
Alvim foi deposto um dia depois, após um clamor público que incluiu a veemente condenação das embaixadas da Alemanha e de Israel. Mas creio que ele foi demitido não porque o governo condena suas opiniões e sim porque foi demasiado explícito sobre opiniões que ambos compartilham. Este é apenas um exemplo de como a democracia brasileira se aproxima do abismo.
O assalto sistemático do governo Bolsonaro à verdade tomou agora um rumo preocupante. Na terça-feira, os promotores federais acusaram o jornalista americano Glenn Greenwald de crimes cibernéticos. As acusações decorrem de uma série de artigos publicados no site The Intercept Brasil, que ele co-fundou, expondo o que parecia ser conluio entre os principais atores da Operação Lava Jato, uma investigação anti-corrupção.
Nos últimos cinco anos, o Brasil tem estado atolado em um drama contínuo, repleto de reviravoltas inesperadas. Em 2016, Dilma Rousseff, nossa primeira mulher presidente, foi alvo de um impeachment por conta uma questão técnica ininteligível para a maioria da população. A imprensa e mídias sociais propagaram a percepção de que ela estava sendo alvo de impeachment por corrupção, o que um grande setor da população estava satisfeita em acreditar. Na semana do seu impeachment, três das cinco notícias mais compartilhadas no Facebook eram falsas.
Dois anos depois, Lula, candidato favorito para as eleições presidenciais de 2018, foi preso e impedido de concorrer, no que pareceu ser a conclusão perfeita para um longo reality show.
Sérgio Moro, o juiz responsável pela prisão de Lula, foi premiado com o cargo de ministro da Justiça depois que Jair Bolsonaro foi eleito. A eleição de Bolsonaro, um deputado do baixo clero, homofóbico e misógino, foi o resultado de uma extraordinária campanha baseada na disseminação de fake news nas redes sociais. Mais de 98 por cento dos seus eleitores foram expostos a uma ou mais manchetes falsas durante a campanha e quase 90 por cento acreditavam que elas eram verdadeiras, segundo estudo da organização Avaaz. O seu governo dominou a arte de manipular a verdade.
Em Democracia em Vertigem, eu entrecorto as últimas décadas da história política brasileira com a minha história familiar. Meu avô co-fundou uma das maiores construtoras do país, uma das empresas investigadas pela Operação Lava Jato. Meus pais foram militantes de esquerda durante a ditadura (1964-1985), chegaram a ser presos e passaram anos no Sul do país fazendo trabalho de base com estudantes e trabalhadores. Os ideais deles me fizeram acreditar que um Brasil melhor, menos desigual e que não fosse governado por elites corruptas e autoritárias, era possível. Eu votei em Lula com a esperança de que ele faria as mudança políticas tão necessárias. Mas logo o vi formar alianças com as velhas oligarquias do país.
Espectadores do mundo inteiro se identificaram com minha tentativa de discernir os fatos em meio a tanta ficção que está moldando o futuro do Brasil. Acredito que as pessoas se conectam com nosso filme porque sentem que suas democracias estão sob um tipo de ataque semelhante. O que inicialmente pareciam ser casos isolados (na Índia, Brasil e Turquia) se transformou em uma epidemia global. O filme critica os líderes que tentam silenciar pensamentos divergentes. Talvez esta seja a razão pela qual alguns políticos autoritários de extrema-direita, no Brasil e no exterior, queiram classificar os esforços artísticos e jornalísticos para desvendar a verdade como ficção e fake news.
É interessante que Lügenpresse, ou “imprensa mentirosa”, foi um slogan amplamente usado na Alemanha durante o terceiro Reich para descreditar qualquer jornalista que discordasse da posição do governo.
Esforços para descreditar a imprensa e as artes tem sido particularmente devastadores no Brasil. A sua influência vai muito além da política partidária. Desde 2019, as elites de extrema-direita e os grupos conservadores religiosos têm travado uma guerra cultural a níveis que não se viam desde os anos mais duros da ditadura militar.
O líder do governo caracterizou o Carnaval brasileiro, uma grande fonte de orgulho em nossa cultura, como uma festa degenerada. Alguns de nossos maiores artistas foram atacados, livros escolares estão sendo reescritos e recursos foram cortados para séries e projetos cinematográficos sobre temas L.G.B.T.Q. Mais de 30 obras de arte foram censuradas, auto-censuradas ou canceladas. Essa guerra cultural atingiu novos patamares em dezembro quando a produtora, Porta dos Fundos, foi atacada com coquetéis Molotov por conta de seu episódio satírico A Primeira Tentação de Cristo, que retrata Jesus como homosexual.
Não há luz visível no fim do túnel desta guerra cultural que procura censurar os valores liberais e progressistas e desconstruir a verdade para impor um fascismo tropical. Como aponto em Democracia em Vertigem, a elite se cansou do jogo da democracia. A história do nazismo mostra que as elites que se calaram diante do avanço do autoritarismo acabaram sendo engolidas por ele. A extinção é o preço da omissão.
Petra Costa é cineasta. Seu último filme, Democracia em Vertigem, foi indicado para o Oscar de melhor documentário

terça-feira, 25 de junho de 2019

Vamos refletir sobre o que a Vaza Jato e o filme Democracia em Vertigem têm em comum?, por Eduardo Ramos


E assistimos dia após dia o que a nós pareceu SEMPRE, um filme de terror, de tão destoante da VERDADE, de tudo o que aprendemos a conhecer como justo, digno, civilizatório.


Publicado no Jornal GGN:



O que a Vaza Jato e o filme Democracia em Vertigem têm em comum?

por Eduardo Ramos

Ambos são uma explosão redentora da Verdade!
Como me atrevo a falar de um filme que ainda não vi?
Ah, sei que é necessário e assistirei em breve. Mas diante de tantos relatos pungentes e testemunhais do que o filme causou (impactante, estarrecedor, doloroso, são termos que resumem essas resenhas tão humanas…) nos tantos amigos que sobre ele escreveram, já sei exatamente o que vou encontrar – e tudo me remete à mesma essência do que sentimos ao ver um novo vazamento das falas e ações sórdidas de Moro e Deltan em seu crime continuado contra o Brasil, sua democracia e soberania – trata-se de um mergulho sofrido mas libertador nas entranhas das verdades semi-ocultas desse tempo sombrio.
Refletindo um pouco sobre a importância da verdade na existência humana, faço primeiro uma advertência: os dois conceitos famosos que trago ao texto, apesar de sua origem no cristianismo, aqui, nada têm de religiosos. O mais empedernido dos ateus neles encontraria beleza e sentido, por se tratarem de conceitos universais.
O primeiro deles, “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”
Que, de tão perfeito em sua essência, nos lembra essa fonte única de libertação mental, psíquica, existencial – a lucidez, a cognição com a realidade, ou “a verdade”.
O segundo, uma das mais magníficas sentenças sobre o poder da verdade, escrito há dois mil anos pelo apóstolo Paulo:
“Porque nada podemos contra verdade, senão a favor da própria verdade.”
Uma das fontes de nosso desespero constante nos últimos anos é sem dúvida o fato de estarmos vivendo em um país que se tornou, quase que em sua totalidade, uma FARSA ABSOLUTA, sentimo-nos como que presentes não no mundo real, onde as coisas seguem uma certa lógica aceitável à razão, esse chão basilar nos foi retirado de modo selvagem: a vida passou a ser algo semelhante a um “MUNDO-MATRIX”, onde o discurso oficial, o discurso midiático e o discurso do nosso cotidiano (amigos, familiares, colegas de trabalho, vizinhos…) sistematicamente FERIAM A VERDADE DE MORTE, de tão nonsenses esses discursos paralelos, no fundo, convergindo para um único discurso, monocórdico e com “ares de absoluto” – basta nos lembrarmos das expressões corporais, os olhares de compaixão ou perplexidade (às vezes irritação ou raiva…), quando ousávamos confrontar esse discurso do “mundo-matrix”.
“Como assim, Lula não é o chefe de uma quadrilha?”
“Como assim, Dilma é inocente?”
“Como assim, a Lava Jato é uma farsa levada adiante por motivos políticos e sórdidos?”
“Como assim, Moro é um psicopata injusto e perverso, massacrando Lula injustamente?”
E só faltavam nos perguntar “que droga estávamos usando” para pensarmos/falarmos “tantas asneiras absurdas”…
E assistimos dia após dia o que a nós pareceu SEMPRE, um filme de terror, de tão destoante da VERDADE, de tudo o que aprendemos a conhecer como justo, digno, civilizatório. Quantas vezes não ouvimos de um amigo: “Isso parece um pesadelo, de tão tenebroso…”?
E eles, o que muitas vezes parecia ser “o mundo todo à nossa volta”, insistindo, o(s) mesmo(s) discurso(s), as mesmas ladainhas, os mesmos mantras, os mesmos heróis… – agora, inacreditavelmente, acrescendo à sua galeria, um demente-selvagem colocado na presidência da República, enquanto Lula seguia massacrado e perseguido na cadeia… – Se alguém lúcido pôde atravessar tudo isso sem momentos de desespero, “normal” não é…
Indo finalmente à premissa dessa reflexão, penso que a “graça” que estamos finalmente recebendo nos últimos dias, é isso a que chamo de “redenção que vem pela Verdade!” – Não éramos nós oa loucos, afinal! Não éramos nós “esquerdopatas fanáticos com bandidos de estimação” (sic….). Não éramos nós os que não enxergávamos a realidade, o horror, os pântanos fétidos em que uma sociedade rasa, ignara, obscurecida, tornada num trágico rebanho tosco e fanático, nos atirou a todos… Glenn Greenwald e Petra Costa, o primeiro, com FATOS JORNALÍSTICOS, a segunda, COM UMA OBRA DE ARTE PUNGENTE E VERDADEIRA, nos trouxeram a esse lugar de “remissão de nós mesmos” – um lugar do qual podemos gritar aliviados, “que os loucos eram eles”…
Ambos os eventos – o jornalístico e o artístico – não trazem novidade alguma, eis o paradoxo! Mas sintetizam e ao mesmo tempo trazem detalhes, minúcias, recordações e certezas que, alinhavados finalmente EM UM DISCURSO VERDADEIRO, nos comovem, nos lembram “de que lado da História queremos estar”, nos “resgatam para nós mesmos” e ao nosso desejo de luta e resistência.
Parafraseando uma frase já famosa do filme, eu diria que, “Após as revelações de Glenn Greenwald e Petra Costa, nós jamais seremos os mesmos.”
E nem o Brasil, eis a nossa luta!