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domingo, 29 de dezembro de 2024

Natal: seremos julgados por uma criança... Artigo de Leonardo Boff

 

"O presépio com o menino Jesus tiritando de frio nos traz uma lição que quase sempre esquecemos: os pobrezinhos foram os escolhidos para serem os primeiros a acolherem Deus quando Ele quis entrar em nosso mundo."

Do site do Instituto Conhecimento Liberta - ICL:



Não é fácil celebrar o Natal, o nascimento do menino-Deus quando nos deparamos com o genocídio de milhares de crianças na
 Faixa de Gaza, por um Herodes moderno cruel e insensível. Elas bem poderiam ser os parentes deste menino-Deus. E contudo, não podemos deixar de cultivar discreta alegria no Natal em razão da mensagem tão humana e consoladora que ela nos comunica.

Quem viu isto mais e melhor que qualquer pregador ou teólogo foi o poeta português Fernando Pessoa, com conteúdo enternecedor. Escreveu estes versos que nos vão ao profundo da alma:

Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.

Ele é o humano que é natural,

Ele é o divino que sorri e que brinca.

É por isso que eu sei com toda a certeza

Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

É a criança tão humana que é divina.

Damo-nos tão bem um com o outro

Na companhia de tudo

Que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

Com um acordo íntimo

Como a mão direita e a esquerda

Quando eu morrer, filhinho,

Seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo

E leva-me para dentro de tua casa.

Despe meu ser cansado e humano

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias caso eu acorde,

Para eu tornar a adormecer.

E dá-me sonhos teus para eu brincar

Até que nasça qualquer dia

Que tu sabes qual é.

Essa eterna Criança não veio para divinizar o ser humano mas para humanizar Deus que ninguém jamais viu, como atestam todas as Escrituras. Mas na realidade deste menino que chora e ri, que molha as fraldas e busca faminto o seio materno Deus mostrou-se a si mesmo. Não como um ancião de barbas e rosto severo como quem perscruta tudo de nossas vidas para nos julgar. O Natal nos assegura: Deus é criança. Que alegria sabermos que seremos julgados e acolhidos por uma criança! Ela não quer julgar ninguém. Ela apenas quer ser amada e acolhida.

Do presépio nos vem uma voz que nos sussurra:

“Oh criatura humana, não tenhas medo de Deus! Não vês que sua mãe enfaixou seu corpinho frágil? Uma criança não ameaça ninguém. Nem condena ninguém. Mais que ajudar, ela precisa ser ajudada e carregada no colo”.

O presépio com o menino Jesus tiritando de frio nos traz uma lição que quase sempre esquecemos: os pobrezinhos foram os escolhidos para serem os primeiros a acolherem Deus quando Ele quis entrar em nosso mundo. Foram os pastores, na época, desprezados e tidos como pobres. Há um privilégio do pobres: Jesus quis ser um deles. Este fato confere uma dignidade única aos pobres. Por isso, Jesus mais tarde irá dizer: “o que fizerdes ou deixastes de fazer a esses meus irmãos e irmãs menores, os famintos, os sedentos, os encarcerados e nus, foi a mim que o fizestes ou deixastes de fazer”. Não há ofensa maior que desprezar um pobre, não ver seus olhos suplicantes de fome e mais de ternura e de dignidade. Lembremos: no momento supremo da história, são eles que nos vão julgar e vão decidir nosso destino.

Portanto, que neste Natal eles estejam presentes em nossa mente, aqueles da Faixa de Gaza, famintos e sedentos não sabendo como se esconder das bombas que tudo destroem e os ameaçados pelos sicários de aluguel na Síria recém-conquistada.

No dia do Natal, olhemos uns para os outros com olhos de bondade e de fraternidade. Olhemos fundo o nosso próximo e lembremo-nos que ele é um irmão de Jesus e um irmão nosso e uma irmã nossa.

Abracemos nossos filhos e filhas como se fôssemos abraçar o menino Jesus.

Depois que Deus se fez um de nós, ninguém tem mais motivos para ficar triste e desesperado. Agora o direito cabe à alegria e ao amor.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Então, é Natal…, por Dora Incontri

 Jesus dialogava com judeus, samaritanos e pagãos e não se fazia impositor de nada, apenas passava pelos caminhos, aberto ao amor

    Jesus Cristo, obra de arte do artista palestino Sliman Mansour


Então, é Natal…

por Dora Incontri, no Jornal GGN

Sempre gostei do Natal e nunca deixo de escrever um poema ou um texto para celebrar a data. Não que me aprazam o comércio, Papai Noel e saber que muitos não terão qualquer presente ou mesmo o que comer. Gosto pela tentativa – muitas vezes frustrada – de união de família, de aconchego dos afetos; gosto do impulso solidário e caritativo que as pessoas tendem a demonstrar nesta data e que bem poderia se estender pelo ano todo e, sobretudo, me conforta a busca minha e de alguns de maior conexão com Jesus.

Não que acredite na historinha da manjedoura, dos reis magos, da estrela de Belém, dos pastores… é um símbolo lindo, cheio de significados, reinventado por Francisquinho de Assis no presépio que montamos por aí. Jesus nasceu em Nazaré, filho carnal de Maria e José, no meio de muitos irmãos, numa família pobre, operária, num lugar pequeno e inexpressivo, mas que ficou marcado na história pela irradiação de sua luz.

E este homem, mestre de fraternidade, profeta do anúncio de um Reino, revolucionário sem armas, humanista pleno, amoroso com toda a humanidade, indignado com aqueles que lhe exploravam a fé e com as injustiças de seu tempo e de sempre, é este homem que celebramos, e que tem inspirado tantos santos, pensadores, ativistas a buscarem o seu Reino na Terra e no além.

Este homem que não foi traído por Judas com uma intencionalidade perversa, e sim por um equívoco de intenção de projetá-lo como messias coroado em Israel. Mas, sim, este homem foi traído ao longo dos séculos até os dias de hoje, por seus próprios seguidores. Por tantos que usam seu nome para matar, perseguir, descriminar, oprimir, explorar. Exatamente o contrário de tudo o que ensinou e exemplificou, este mestre que não aceitava submissão, ao invés, dizia que viera para servir; esse ser humano que se dizia “filho do homem” para afirmar sua humanidade e acolhia a todos, judeus e romanos, homens e mulheres, centuriões e marginalizados, entregando-lhes um amor sem medida.

Não Jesus como um salvador-Deus, que morreu pelos nossos pecados, mas como um irmão de caminhada, que abriu as trilhas para o mundo, da possibilidade de um amor universal, de uma reconciliação com adversários, de um perdão inédito na história e, sobretudo, pela utopia de um Reino de justiça e igualdade, que seus seguidores sinceros têm lutado por construir entre nós.

Também não, um Jesus de supremacia colonial, de imposição de fé, de chefe de igrejas dogmáticas e hierarquizadas – embora dentro de todas haja pessoas de boa vontade e que ensaiam comunhão com os seus ensinos. Mas um Jesus que dialoga com Buda e com Maomé, com Confúcio e com Lao-Tsé, com os Orixás e com os Xamãs. Pois em seu tempo, ele dialogava com judeus, samaritanos e pagãos e não se fazia impositor de nada, apenas passava pelos caminhos, aberto ao amor para com todos e todas.  

É esse Jesus que amo, que me inspira e que desejo seguir. Estou convencida de que sua mensagem de paz, solidariedade e esperança pode semear por nossas mãos, um novo mundo. E neste Natal, que para mim está entristecido por lutos pessoais, e que sempre me leva à compaixão e ao lamento pelos males sem conta deste planeta, de tanta violência, exploração, de tantas feridas pessoais e coletivas, neste Natal ainda e sempre, lembremos do aniversariante! Procuremos uma sintonia fina com sua presença amorosa, que nos conforta e nos atrai para destinos mais felizes! Façamos de seu exemplo um roteiro de vida e de suas palavras um refrigério de paz e uma possiblidade de esperança. Feliz Natal para todos e todas, que se sentem identificados com essa incomparável figura história, mas também para aqueles que se sentem traumatizados pelo que fizeram em seu nome! Feliz Natal, na medida do possível, nesta virada de um ano que se anuncia com muitos desafios, mas que haveremos de enfrentar com força e coragem! Amém, assim seja!

Dora Incontri – Graduada em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Mestre e doutora em História e Filosofia da Educação pela USP (Universidade de São Paulo). Pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP. Coordenadora geral da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do Pampédia Educação. Diretora da Editora Comenius. Coordena a Universidade Livre Pamédia. Mais de trinta livros publicados com o tema de educação, espiritualidade, filosofia e espiritismo, pela Editora Comenius, Ática, Scipione, entre outros.


Amém, Axé, Saravá: o significado do Natal para diferentes religiões no Brasil

 

Em entrevista ao ICL Notícias, lideranças do Candomblé, da Umbanda, do Catolicismo e de Igrejas Evangélicas fazem uma reflexão sobre a data



Por Amanda Prado

É Natal, uma das principais datas comemorativas do calendário ocidental, período marcado por celebrações entre os dias 24 e 25 de dezembro. Na cultura cristã, a festa relembra o nascimento de Jesus Cristo em Belém, atual Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel. A palavra Natal tem origem no idioma latino e faz referência à palavra “natalis”, que significa “nascer”.

É difícil estabelecer a origem exata do Natal devido à falta de fontes documentais precisas. A teoria mais aceita é a de que o Natal surgiu em festas pagãs da Roma antiga, em meados de dezembro. Enquanto festa cristã, entende-se que a cerimônia surgiu em algum momento entre o século II d.C. e IV d.C. Não se sabia exatamente o dia do nascimento de Cristo.

As celebrações romanas tinham relação direta com o solstício de inverno (no caso do hemisfério norte), um fenômeno astronômico caracterizado por iniciar a nova estação. Nesse período, costumava-se realizar grandes festas para atrair fertilidade e celebrar o “renascimento” do sol, já que o solstício de inverno é o dia de sol mais curto do ano. Vários povos festejavam essa época. Ao longo do tempo, o culto do sol passou a ser associado ao nascimento de Jesus de Nazaré – ou seja, “a luz do mundo”.

Em terras brasileiras, o sincretismo religioso associa Jesus Cristo a Oxalá. Nos terreiros de Umbanda, por exemplo, há imagens de Jesus e de Nossa Senhora nos congás, e também aparece o nome de Jesus em vários pontos cantados. Na cultura iorubá, Oxalá é uma das divindades mais antigas, Orixá responsável pela vida e pela criação dos seres humanos. O poder de Oxalá está simbolizado em suas vestes brancas, representando seu alto nível de moralidade e ética.

No Brasil, um território tão vasto e plural, o Natal é parte de celebrações sociais e culturais, indo muito além do sentido religioso. Nesta reportagem, o ICL Notícias ouviu lideranças do Candomblé, da Umbanda, do Catolicismo e de Igrejas Evangélicas para uma reflexão sobre o tema. Embora existam realidades semelhantes, as práticas são individuais de cada terreiro, de cada igreja, de cada templo. Não é possível generalizar. Em linhas gerais, a mensagem é de união e fortalecimento, na fé de Jesus Cristo e de Oxalá, tudo com respeito.

A relação do Natal com o Candomblé

Em entrevista, o Babalawô Ivanir dos Santos, pesquisador e coordenador de área de pesquisa no Laboratório de História das Experiências Religiosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LHER/UFRJ) e também colunista do ICL Notícias, falou sobre o Natal na perspectiva da sua religião.

“No Candomblé, na visão iorubá, de origem africana, a ritualística não tem a ver com o Cristianismo. Orixá é força da natureza. Sem natureza não tem Orixá. Sem folha não tem Orixá. Isso tudo é anterior a Jesus Cristo. Se fôssemos seguir o calendário iorubá, por exemplo, o ano novo nasce no primeiro domingo de junho. Mas a realidade é que estamos no Brasil, e naturalmente vivenciamos um candomblé construído no nosso território. Uma coisa é a tradição milenar que cultuamos: sagrado é a terra, a água, o ar e o fogo. Isso não tem sentido cristão. Mas precisamos lembrar que nos séculos 18 e 19, aqui no nosso país, a Igreja era o Estado e a data era feriado. Essa é uma representação de poder porque se trata de uma questão colonial. Nesse momento, os escravizados faziam suas reverências. Uma coisa dialoga com a outra. Era a licença que se tinha para dizer que Iansã é Santa Bárbara, mas Iansã é muito anterior. Uma coisa não tem a ver com a outra”, explica Ivanir.

Segundo o babalawô, levando em conta que o Candomblé é uma tradição afro-brasileira, a religião se configura em diálogo com a Igreja Católica, por isso o Natal é comemorado como uma forma de confraternização entre as pessoas, mas sem significado dentro do culto religioso.

“Temos nossas várias festas, como a festa do Boi de Oxóssi, a Fogueira de Xangô, o Balaio de Oxum, de Iemanjá, etc… mas o Natal em si remete mais a uma reunião familiar. Somos brasileiros, as famílias são muito plurais, isso está na nossa cultura, dizemos ‘Feliz Natal’ como uma saudação normal. É um momento de felicidade e solidariedade, mas apenas pela lógica cultural. Quando vira o ano, para ritualizar a passagem, fazemos o que chamamos de Osé da casa, que significa lavar a nossa casa, lavar o nosso terreiro para começar o ano bem”.

Feliz Natal

Foto: Agência Brasil

O Natal na visão dos umbandistas

Na Bahia, na cidade de Juazeiro, Tata Edson do Congá do Seu Zé explica que sua prática se baseia nas tradições africanas, especialmente na tradição bantu – povos que chegaram ao Brasil entre os séculos 16 e 17. Conforme a filosofia bantu, os ciclos são extremamente importantes para a vida. Há o entendimento de que é preciso crescer, construir comunidade, realizar objetivos pessoais em conexão com o coletivo e estar em harmonia com os ancestrais. “Não seguimos o calendário cristão e não comemoramos o Natal. No entanto, no final do ano, realizamos uma série de ritos porque entendemos que a virada de um ano para o outro é virada de um ciclo de vida”, diz.

“Para que o novo ciclo inicie de maneira positiva, com todo mudo bem de saúde, forte espiritualmente e em harmonia com os ancestrais, a gente cumpre um rito de fim de ano. Nos reunimos para rever o caminho percorrido até aqui e ter algum vislumbre do que precisa mudar. Realizamos consultas com os filhos da casa, limpezas espirituais, descarrego. Depois vem a conversa geral, com Seu Zé Pelintra, que fala com todos sobre o que precisa melhorar, como foi o ano, como cada um precisa trabalhar para se fortalecer e enfrentar os desafios. Depois do período de preceito, temos a nossa confraternização. E encerramos com o banho da virada, que é o banho de folhas que a gente prepara pro último dia do ano e pra virada também”, diz.

Além desses rituais, Tata Edson explica que, segundo a tradição africana bantu, o ano precisa fechar com o trabalho de Exus, Pombagiras, Pretos e Pretas Velhas. “Eles encerram os ciclos na nossa casa. Exus e Pombagiras fecham demandas de conflitos, de caminhos e de questões materiais; Pretos Velhos e Pretas Velhas fecham ciclos de demandas espirituais e afetivas.” No caso do início do ano, 2025 vai começar com a licença dos caboclos, conhecidos como “ancestrais da terra”. “Antes de qualquer coisa, os primeiros trabalhos do ano no nosso terreiro de Umbanda são em homenagem aos caboclos”, diz o Tata.

Ou seja, os rituais estão mais relacionados ao fim e ao início do ano, à transição, não ao dia do Natal em si. “A nossa sociedade vai parando, vai entrando em período de recesso, é feriado… então nos juntamos a esse calendário porque as pessoas vivem nessa lógica mesmo, precisam descansar, têm folga do trabalho… mas não nos apegamos ao sentido religioso da data. O que fazemos em seguida são oferendas a Oxóssi — para que o ano seja farto e próspero.”

Feliz Natal

Filhos do Congá do Seu Zé, terreiro de umbanda localizado em Juazeiro, na Bahia

No Rio de Janeiro, Paulo Júnior, Babalorixá do T.E.U. Choupana de Oxóssi, descreve como são feitos os trabalhos no terreiro nessa época do ano. “A nossa Umbanda tem Jesus como guia e o seu evangelho como instrumento de formação de caráter. Nesse momento, religiões cristãs festejam o Natal, a data da encarnação de Jesus. O período culmina também com o final de ano e o réveillon. Temos um recesso, mas não por causa do Natal, e sim pelo período de descanso e festividades. O nosso terreiro trabalha o ano inteiro com consultas, passes, projetos de assistência à comunidade, solidariedade aos irmãos em situação de vulnerabilidade… mas nesse período de fim de ano a gente faz uma pausa para os médiuns organizarem suas vidas, festejarem com suas famílias, descansarmos um pouquinho”, diz.

O terreiro ritualiza esse período com a última gira do ano. “É um momento de reflexão, de comunhão, de amizade e de amor, como é Jesus. É um momento de confraternização. Dentro da nossa liturgia, a gente faz a canjica de Oxalá ou, como alternativa à canjica, temos também o pão, o peixe e o vinho, simbolizando a Santa Ceia, que está no evangelho. São alimentos que fortalecem a nossa comunidade, junto das reflexões, com as palavras dentro do terreiro e um sentimento de muito amor”, relata o babalorixá.

“O encerramento é uma homenagem ao governador do nosso planeta, o Cristo Jesus, reavivando os seus ensinamentos, refletindo sobre como a gente pode por em prática tudo isso. É preciso destacar que, dentro da nossa fé umbandista, nós entendemos Jesus como um espírito de enorme evolução”, explica o babalorixá. E acrescenta que, mesmo para quem não tem religião, a história de Jesus é um grande manual de fraternidade. “Quando a gente diz que Jesus é a salvação, é a sua palavra que é a salvação, é o norte para todos nós encarnados aqui nessa terra. Porque a grande mensagem que ele deixou é de amizade, de perdão. A mensagem de que a única lei que deveria reger o nosso planeta é a lei do amor. Devemos caminhar para isso”.

Feliz Natal

Filhos da Choupana de Oxóssi, terreiro de umbanda na Zona Norte do Rio de Janeiro, na última gira do ano

O período do Natal nas igrejas evangélicas

Em Maceió, no estado de Alagoas, a pastora Odja Barros é a liderança à frente da Igreja Batista do Pinheiro há mais de 30 anos. Segundo ela, o evento natalino, assim como a Páscoa, é similar em todas as correntes cristãs. Cada igreja celebra de maneiras próprias, mas não há muito como divergir do sentido principal. “Nesse momento em que se celebra o Natal, dentro da tradição chamada cristã, há um encontro. A mensagem do Natal atravessa todos os fieis do Cristianismo. Natal é o momento em que Deus abraça a humanidade, se faz gente, criança, chega na história, se humaniza”, relata.

“Falando em nome da Igreja Batista ou dos protestantes e evangélicos, compreendemos um Deus que encarna numa criança vulnerabilizada na periferia do mundo. É um Natal vivido pelas mulheres através de uma jovem também periférica de Nazaré da Galileia, evocando a escolha de Deus de nascer no corpo de uma mulher, numa cultura muito pior do que a nossa. Esse corpo feminino gesta o Salvador por uma visitação divina. Isso é muito ainda para a nossa cultura, imagine para aquela época. Deus não nasceu de um imperador ou um rei. Ele nasceu no seio dos humanos mais massacrados pelas estruturas de poder e carrega uma mensagem não só política — mas de fé transformadora pra esse mundo”.

feliz natal

Culto de Natal na Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió, Alagoas

A igreja que Odja lidera se junta ecumenicamente no Natal para celebrar a data com protestantes e católicos. As cerimônias começam quatro semanas antes do Natal, no período chamado de “advento” (do primeiro domingo de novembro ao último), uma preparação ritualística que significa a espera da chegada da criança que vai nascer. Os fiéis se reúnem para cultos, leituras bíblicas e meditações, revivendo a cena do Natal na narrativa dos evangelhos.

“Isso é muito importante para nós. Buscamos não deixar jamais de viver a mensagem principal do Natal: esperança em um tempo difícil. Está na Bíblia, em Isaías 9:2: ‘o povo que andava em trevas viu uma grande luz’. A grande luz é a chegada de Jesus – iluminadora do mundo. Quem de nós não precisa esperançar a alma e o coração sempre? O Natal nos traz de novo essa luz que volta a brilhar dentro da gente, mesmo nas coisas mais simples. Ninguém sabia que aquela criança pobre se tornaria o Cristo. Precisamos diminuir o valor que damos ao consumo, aos presentes, e olhar mais pra mensagem que sinaliza: olha, tá escuro, tá nublado, tá difícil, mas o Natal nos lembra que há luz”, diz Odja.

feliz natal

Foto: Agência Brasil

No Rio de Janeiro, o pastor Valdemar Figueredo e também colunista do ICL Notícias destaca que as igrejas evangélicas têm múltiplas expressões. Em sua pregação de Natal em duas Igrejas Batistas diferentes, ele ressaltou a mensagem de que a vida vale mais do que as coisas. “Seguindo o exemplo de Jesus, devemos usar coisas e amar pessoas — não o contrário”, diz. O pastor citou referências ao despojamento de Jesus com exemplos de passagens da Bíblia — criando uma reflexão sobre um espírito de Natal que possa ir além de dezembro e do discurso religioso.

“O que foi emprestado a Jesus? A manjedoura em que Maria e José colocaram o bebê foi emprestada (Lucas 2.7). O pote para tirar água do fundo do poço para o sedento andarilho foi emprestado pela mulher samaritana (João 4.11). Os pães e peixes que multiplicou para alimentar a multidão foram emprestados por um menino (João 6.9). O barco que lhe serviu de plataforma para ensinar as multidões e fazer pequenas travessias foi emprestado pelo pescador Simão (Lucas 5.3).

Na sua entrada triunfal em Jerusalém, montava num jumentinho emprestado por um amigo oculto (Lucas 19.30, 31). O cenáculo onde comeu a última ceia de Páscoa com os seus amigos foi emprestado, pois ele não era proprietário, não tinha onde reclinar a cabeça (Lucas 22.10-12). O túmulo onde foi sepultado foi emprestado por José de Arimatéia (Lucas 23.50-53). Quando nasceu, não havia lugar para sua família na hospedaria. Maria o enfaixou, provavelmente, com panos improvisados e não mantas do enxoval de bebê (Lucas 2.7).

Quando morreu, o seu corpo foi tirado da cruz e envolto num lençol de linho. Na verdade, o último empréstimo de José de Arimatéia (Lucas 23.50-53). Maria Madalena e outras amigas foram ao túmulo para perfumar o lugar com aromas que haviam preparado. Perplexas, se deram conta de que a pedra que tampava o túmulo fora removida e não havia corpo morto para perfumar. Nada viram senão o lençol de linho (Lucas 24.1-12)”.

Valdemar busca mostrar que, quando nasceu, Jesus não tinha berço e quando morreu não tinha onde cair morto. “Que em 2025 desfrutemos experiências com o divino ao assumirmos a coragem de ser humanos, demasiadamente humanos. Que busquemos um fiapo dessa esperança que nasce num tempo de enorme fastio em que pessoas são coisificadas e patrimônios são cultuados”, finalizou.

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Foto: Agência Brasil

O Natal para os católicos

Frei David dos Santos, franciscano, fundador da rede de cursinhos Educafro, conversou com a nossa equipe sobre a representação da data. “O Natal representa o ponto mais alto do projeto de Deus através de Jesus. Ele carrega uma potência de ensinamentos para quem quer se sentir na missão de fazer o melhor para o mundo. É essa potente energia, que brotou em Luther King, Irmã Dulce e tantas outras pessoas extraordinárias, que passaram pelas mesmas realidades que passamos e tiraram o máximo de si para fazer acontecer o natal para muita gente”, descreve.

Para ele, a Igreja Católica está em crise. “O Natal se reduziu só a um ritual bonito, correndo o perigo de ser uma ofensa ao menino Deus do presépio. A igreja não atrai mais as crianças e a juventude. Já perdeu, há um bom tempo, o povo afro-brasileiro, por insistir em fazer e definir uma missa eurocêntrica, marginalizando culturas indígenas e afro-brasileiras”, diz. “O Natal é a concretização do máximo que a compreensão de doação existencial pelo outro pode chegar. Pena que a perversidade do capitalismo, para ganhar dinheiro, quebrou com o espírito do Natal. Precisamos criar, urgente, um capitalismo humano, um novo sistema mundial onde o social seja o centro ou iremos deixar a força perversa do capital destruir a humanidade”, finaliza.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Juan Arias, colunista do El País: Jesus existiu? O que restou das palavras do Jesus histórico?

 

"Nenhum outro movimento religioso e humanista, seguido hoje por um terço da humanidade, teve tanta influência não só no campo religioso, mas também na cultura e na arte, assim como nos costumes e na política. Afinal, Jesus significa o ideal da humanidade, a esperança de que a morte não acaba na sepultura, que o homem foi criado para a felicidade e não para a dor."


Do El País:


Jesus existiu? Era realmente Deus? Restou-nos alguma frase dele considerada autêntica?

Sua influência histórica é incontestável. Jesus significa o ideal da humanidade, a esperança de que a morte não acaba na sepultura, que o homem foi criado para a felicidade e não para a dor


Uma estátua de Jesus Cristo na Igreja de Gauhati, na Índia.ANUPAM NATH / A


A cada Natal surge a questão de saber se Jesus existiu. Foi realmente um personagem histórico ou criado com restos das velhas mitologias? Nada que influencie a vida dos cristãos ou provoque fissuras em sua fé, mas tampouco é pura curiosidade.

Onde nascem as dúvidas sobre a figura histórica de Jesus, cuja doutrina é professada por um terço da humanidade e é maioria absoluta no Brasil entre católicos e evangélicos? Do fato de que nenhum documento histórico de seu tempo fala de sua existência. Por exemplo, o filósofo Fílon de Alexandria, que morreu depois de Jesus, em nenhum de seus 50 escritos conservados mencionou Jesus, embora tenha se interessado pela grande atividade das seitas dentro do judaísmo daquela época.

Daí a alegria da Igreja ao descobrir que o famoso historiador judeu do final do século I, Flávio Josefo, fez alusões a Jesus, mas com tantos elogios que parece impossível que tenha sido escrito por um judeu. Daí as dúvidas de que o texto tenha podido ser modificado posteriormente pelos cristãos. De fato, o teólogo espanhol Juan José Tamayo em sua obra Por Eso lo Mataron, escreve: “Parece ser um texto muito modificado, sobre cuja autenticidade paira uma longa série de dúvidas”. E de fato o texto parece falso em sua totalidade, visto que reflete muito mais a pregação cristã de Jesus em uma chave totalmente apologética na linha dos evangelhos do que a visão de um historiador judeu da época de Jesus. No entanto, muitos pensam que embora possa ter sido manipulado mais tarde, na realidade é a única alusão à existência de Jesus.

E se dos historiadores judeus daquela época não sabemos praticamente nada sobre a historicidade da existência de Jesus, o que parece impossível é que tenha sido apenas um mito, pois a influência que aquele profeta que foi crucificado pelo poder religioso e civil da época como subversivo acabou tendo na história foi tanta que parece impossível que não tenha existido.

E os evangelhos que a Igreja considerou inspirados? É outra questão muito controvertida, pois havia dezenas de evangelhos cuja autenticidade é difícil de provar. Inclusive dos quatro evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, que a Igreja acabou considerando canônicos, o mais antigo é o de Marcos, escrito oitenta anos depois da morte de Jesus. Saber o que neles existe de realmente histórico e não de mitificação do personagem não é fácil.

Tanto é verdade que os especialistas em estudos bíblicos consideram que de tudo o que é atribuído nos evangelhos a Jesus apenas 12 frases seriam literais. O resto é difícil saber se eram dele ou dos evangelistas. Uma experiência feita por Robert Funk, do Westar Institute, fala muito claramente da dificuldade de poder fazer uma reconstrução das palavras pronunciadas literalmente por Jesus durante sua vida pública. Uma reunião internacional de especialistas católicos e protestantes foi convocada para tentar reconstruir as palavras realmente pronunciadas por Jesus. Os eruditos trabalharam em várias universidades durante cinco anos para separar as frases que consideravam pronunciadas literalmente por Jesus.

A tarefa desses especialistas foi desesperada, pois nem sequer eles conseguiram entrar em um acordo. O que fizeram então foi submeter a uma votação para que cada um com sua especialidade votasse nas frases que poderiam ser consideradas autênticas ou não. Votaram com bolas de quatro cores. A vermelha significava “Jesus disse isso”, a rosa que deveria ter dito “algo parecido”, a cinza “Jesus não disse isso, mas pertence à suas ideias”, e a preta “Jesus não disse isso de forma alguma” e foi fruto da catequese dos primeiros cristãos. Esse trabalho com as cores das bolas foi publicado em um grosso volume intitulado Five Gospels: What Did Jesus Really Say (Cinco Evangelhos: O Que Jesus Realmente Disse). Somente 12 frases foram votadas em vermelho, ou seja, foram consideradas autênticas. Entre elas a já famosa “Ninguém é profeta em sua terra”, a parábola do bom samaritano, pois é uma clara condenação dos fiéis. Quem realmente ajuda o homem ferido na rua é um ateu. O fiel passa ao largo. Outras duas consideradas autênticas são “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” e “É mais difícil um rico se salvar do que um camelo passar pelo fundo de uma agulha”. Também são consideradas autênticas as Bem-aventuranças devido à sua radicalidade.

Outro dos pontos mais delicados e controvertidos da história de Jesus era se ele era ou não Deus. Teólogos modernos, sejam católicos ou protestantes, hoje praticamente concordam que em nenhum momento Jesus se proclama Deus. Ao contrário, ele se chamava de “filho do homem”, que em seu dialeto aramaico significava simplesmente “homem”. Jamais se proclamava Deus. Além disso, no momento de sua morte, quando agonizava na cruz, se queixou a Deus por tê-lo abandonado.

Se tudo isso pode ser importante do ponto de vista puramente histórico, a verdade é que Jesus foi o personagem que mais influência teve na história. Sua revolução ética, sua defesa permanente dos últimos, seu senso de justiça, seus anátemas contra aqueles que desprezam e pisoteiam os mais desvalidos, sua visão sobre a vida e a morte, sua influência não só religiosa, mas secular na vida e na humanidade resistiram intactas nestes mais de dois mil anos.

Nenhum outro movimento religioso e humanista, seguido hoje por um terço da humanidade, teve tanta influência não só no campo religioso, mas também na cultura e na arte, assim como nos costumes e na política. Afinal, Jesus significa o ideal da humanidade, a esperança de que a morte não acaba na sepultura, que o homem foi criado para a felicidade e não para a dor.

Em nome do cristianismo travaram-se guerras, inquisições e extermínios, mas também milhões de ações em defesa dos últimos e em favor dos direitos humanos.

O Natal afinal nos dá, todos os anos, com a bela lenda do nascimento de Jesus, sentimentos de fraternidade, desejos de afeto, amor pela vida e a esperança de que os sentimentos de vida superem os da morte.

Parece-lhes pouco?

Juan Arias é jornalista e escritor, com obras traduzidas em mais de 15 idiomas. É autor de livros como ‘Madalena’, ‘Jesus esse Grande Desconhecido’, ‘José Saramago: o Amor Possível’, entre muitos outros. Trabalha no EL PAÍS desde 1976. Foi correspondente deste jornal no Vaticano e na Itália por quase duas décadas e, desde 1999, vive e escreve no Brasil. É colunista do EL PAÍS no Brasil desde 2013, quando a edição brasileira foi lançada, onde escreve semanalmente.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Podemos desejar feliz Natal nesse 2020? Por Dora Incontri

 

Poderíamos estender indefinidamente as multidões de seres humanos do bem, que estão alinhados com a ética de Jesus.

Jornal GGN:

Podemos desejar feliz Natal nesse 2020? Por Dora Incontri

Natal de 2020. Quisera ter braços e presença para abraçar todos os que amo, os amigos próximos e distantes e mesmo os supostos adversários. Pois somos todos humanos, frágeis, nesse barco terrestre, em meio a tempestades, nevoeiros e zonas de incerteza e obscuridade.

Quisera ter voz e escrita com o alcance da consolação e da esperança para todos os que estão adoecidos física ou psiquicamente com a pandemia, com o isolamento, com o empobrecimento, com a perplexidade que nos assola.

Quisera ter colo para oferecer a todas as crianças do mundo, as que estão trancafiadas em casa, as que estão refugiadas, as que estão em fome e necessidades tantas…

Quisera… quisera… poder anunciar aqui nesse texto notícias alvissareiras: o fim das violências contra qualquer ser humano, contra qualquer ser vivo, o cessar fogo contra a natureza que se arrebenta pela exploração, pelo desmatamento, pela terra arrasada.

Quisera poder falar da queda de todos os governos que aviltam o planeta, de todos os bancos que extorquem nossas vidas, de todos os privilégios de meia dúzia de bilionários do mundo e proclamar uma sociedade fraterna, justa, igualitária, universal… de mãos unidas entre todos os povos.

Quisera afinal poder desejar um feliz Natal… mas sabemos que não será feliz. Com tantas mortes, com tantos abusos, com tantas perversidades, com tantas más notícias… Será necessariamente um Natal enlutado. Mesmo assim, podemos transformá-lo numa experiência meditativa e espiritual, que nos reconforte.

Como? Em primeiro lugar, conectando nossos corações com o personagem central do Natal – aquele que a civilização dita cristã diz seguir, mas está longe de compreender e aplicar sua proposta ética. Uma ética de inclusão, de amor, de perdão, de solidariedade e paz.

Nessa ética, nessa mensagem, nesse exemplo está uma luz que nos mostra um caminho de solução para nossos impasses. Luz que muitos ainda consideram utópica. Tantos não conseguem nem se reconciliar com os que amam num espírito natalino, outros tantos não enxergam como possíveis caminhos para nosso planeta proposições que consideram piegas, como compaixão, fraternidade e acolhimento.

Mas, sim, é essa ética que propôs Jesus que pode nos salvar do caos, da barbárie, da injustiça. Jesus, um personagem histórico que não deve estar encarcerado aos dogmas e às interpretações sectárias das igrejas, mas pode ser entendido como um ser humano, cuja transcendência, renúncia, entrega e amor continuam sendo um alta inspiração para as almas que anseiam pelo Reino da bondade nesse mundo.

Desapego dos bens terrenos, reconciliação entre todos e todas, perdão irrestrito, compaixão para com os que estão em sofrimento, trabalho incessante de serviço ao próximo, mesmo com perda em interesses próprios e egoístas, lutas por causas humanitárias, ecológicas, para transformações estruturais da sociedade… eis a receita para superarmos o capitalismo, o patriarcado, a miséria e todas as mazelas do mundo.

A recente encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti (Todos irmãos) – finalmente um Papa que consegue falar com cristãos e não cristãos – faz um diagnóstico preciso e brilhante de todos os problemas que devastam a terra e a nossa humanidade. E apresenta justamente uma proposta de superação, com essa ética de Jesus, exemplificada por Francisco de Assis, grande inspirador das ideais de Francisco de Roma.

Que posso dizer então, nesse texto natalino? Ressaltar que em meio à avalanche de notícias pesadas que tivemos em 2020, foi publicada uma encíclica luminosa como essa, tivemos muitas lideranças no Brasil e no mundo na resistência contra o retrocesso da liberdade, da ciência, do amor ao próximo. Gente que sofreu, trabalhou, se entregou, fez a diferença. Cientistas, médicos e médicas, enfermeiros e enfermeiras e pessoas da saúde em geral, lutando de corpo e alma, para combater o Covid, para descobrir tratamentos, vacinas, ou mesmo para pegar nas mãos dos moribundos, afastados da família, para que sua morte não fosse totalmente solitária.

Artistas que se viraram do avesso para sobreviver à crise, iluminando lives de música, teatro, dança, poesia… e trazendo à nossas almas aquilo que realmente importa.

Professores que se esfolaram para aprender de última hora como mexer com o Zoom ou outras plataformas, outros tentando passar alguma coisa pelo mero Whatsapp, no caso das crianças que não têm acesso a computadores.

Jornalistas corajosos, que denunciaram, apontaram as calamidades, brigaram pela verdade, contra tantas Fake News que manipulam a população – mesmo enfrentando processos injustos e até ameaças de morte.

Pessoas de todas as profissões, exploradas por um capitalismo selvagem, como os entregadores de comida – só para citar um dos grupos em maior evidência no momento – que não só contribuíram para manutenção do funcionamento social, mas começaram a se organizar politicamente e ganharam consciência de classe.

Negros de todas as partes do planeta, mas sobretudo dos EUA e do Brasil, que apesar das violências inomináveis sofridas, não descansaram um minuto na missão de denunciar, reivindicar, lutar… #vidasnegrasimportam, encerrando o ano aqui com o emocionante filme AmarElo, do Emicida, uma verdadeiro libelo pela retificação histórica dessa vergonha nacional que foi a escravidão e continua sendo o racismo entre nós.

Psicólogos, terapeutas, psicanalistas – que trataram a preços módicos ou gratuitamente – as pessoas em depressão, em surto, em grandes urgências psíquicas, provocadas pela pandemia, pelos lutos complicados, pelas violências aumentadas.

Poderíamos estender indefinidamente as multidões de seres humanos do bem, que estão alinhados com a ética de Jesus.

Lamentamos por aqueles que não cumpriram seu dever humano, cívico, moral de cuidar, proteger, acudir, providenciar medidas que pudessem minimizar a desgraça da pandemia e ainda aprofundaram nossas dores com todo tipo de violência verbal e atos contrários à justiça e à dignidade humana.

Mas resistimos. Sobrevivemos. Para mim, que tenho convicção e fortes evidências de que a vida continua depois da morte, mesmo aqueles que se foram em meio a esse caos da pandemia, seguirão conosco, trabalhando em outro plano para mudarmos esse cenário terreno.

Por isso tudo, e apesar de tudo, desejo que nesse Natal, possamos ter pelo menos um pensamento de paz, uma oração sincera (para aqueles que creem) e uma vibração de amor por toda a humanidade!

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O Natal dos Herodes de hoje, por Leonardo Boff

  "Este é o contexto do Natal de 2019, agravado por uma política oficial que usa os meios perversos da mentira, do fake news, de muita raiva e de ódio visceral. Jesus nasceu pobre e pobre viveu a vida inteira. E surge um presidente que tem frequentemente Jesus em seus lábios e não em seu coração porque difunde ofensas a homoafetivos, a negros, a indígenas e a quilombolas e a mulheres." - Leonardo Boff


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O Natal dos Herodes de hoje



O Natal sempre possui o seu idílio. Não pode haver tristeza quando nasce a vida, especialmente quando vem ao mundo o puer aeternus, o Divino Infante, Jesus. Há anjos que cantam, a estrela de Belém que brilha, os pastores que velam à noite o seu rebanho. Mas lá estão principalmente Maria, o bom José e o Menino deitado numa manjedoura, “porque não havia lugar para eles na hospedaria”. E eis que apareceram também vindo do Oriente, uns sábios, chamados magos, que abriram seus cofres e ofereceram ouro, incenso e mirra, símbolos misteriosos.
Mas havia também um rei mau, Herodes, crudelíssimo a ponto de dizimar toda sua família. Ouviu que nascera na cidade de Davi, Belém, um menino que seria o Salvador. Temendo perder o trono, mandou matar em Belém e arredores, todos os meninos de dois anos para baixo.
Os textos sagrados conservam um lamento dos mais pungentes de todo o Novo Testamento: "Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e muito gemido. É Raquel que chora os filhos e não quer ser consolada porque os perdeu” (Evangelista Mateus 2,18).
O Natal deste ano nos traz à mente os atuais Herodes que estão dizimando nossas crianças e jovens. Entre 2007-2019, 57 crianças e jovens até 14 anos foram mortos no Brasil por balas perdidas, em ações policiais. Só neste ano de 2019 no Rio de Janeiro, 6 crianças e 19 adolescentes perderam a vida em ações policiais, informa a Plataforma Fogo Cruzado. Houve na região metropolitana do Rio 6.058 tiroteios com arma de fogo, com 2.301 pessoas baleadas das quais 1.213 foram mortas e 1.088 gravemente feridas.. O caso mais clamoroso foi da criança de 8 anos Aghata Félix morta por disparo de fuzil pelas costas dentro de uma kombi quando ia para casa com sua mãe.
Seus nomes merecem ser referidos. Embora com poucos anos a mais, tiveram o mesmo destino dos mortos por Herodes: Jenifer Gomes,11 anos; Kauan Peixoto 12 anos; Kauã Rozário 11 anos; Kauê dos Santos 12 anos; Agatha Félix 8 anos; Ketellen Gomes 5 anos.
O governador do Rio de Janeiro com sua polícia feroz vem sendo acusado de crime contra a humanidade pois manda atacar as comunidades com helicópteros e drones, aterrorizando a população. O prefeito Marcelo Crivella confessou que nas 436 escolas instaladas nas comunidades, devido às ações policiais, as crianças perderam 7000 horas de aula.
Junto com a mãe de Aghtata Félix, Vanessa Francisco Sales que carregava no enterro a boneca da Mônica que sua filhinha tanto gostava, fazem-se ouvir as mesmas vozes que a Raquel bíblica: As mães do Morro do Alemão, do Jacarezinho, da Chatuba de Mesquita, da Vila Moretti de Bangu, do Complexo do Chapadão, de Duque de Caxias, da Vila Cruzeiro no Complexo da Penha, de Maricá. Escutemos seus lamentos:
Ouvem-se muitas vozes, muito choro e muitos gemidos. As mães choram seus queridos, mortos por balas perdidas; não querem consolar-se porque perderam suas crianças para sempre. Pedem uma resposta que não lhes vem de nenhuma instância. Entre lágrimas e muitas lamentações suplicam: parem de matar nossas crianças. Parem, pelo amor de Deus. Queremos elas vivas. Queremos justiça”.
Este é o contexto do Natal de 2019, agravado por uma política oficial que usa os meios perversos da mentira, do fake news, de muita raiva e de ódio visceral. Jesus nasceu pobre e pobre viveu a vida inteira. E surge um presidente que tem frequentemente Jesus em seus lábios e não em seu coração porque difunde ofensas a homoafetivos, a negros, a indígenas e a quilombolas e a mulheres.
Diz abertamente que não gosta de pobres, quer dizer, não gosta daqueles que Jesus disse: “bem-aventurados os pobres” e e que os chamou “meus irmãos e irmãs menores” e que no ocaso da vida serão nossos juízes (Mt 25,40). Não gostar dos pobres significa que não quer governar para as maiorias dos brasileiros que são pobres e até miseráveis, para os quais deveria primeiramente governar e cuidá-los.
Apesar disso tudo, há que se celebrar o Natal. Faz escuro mas festejamos a humanidade e a jovialidade de nosso Deus. Ele se fez criança indefesa. Que felicidade em saber que seremos julgados por uma criança que apenas quer brincar, receber e dar carinho e amor.
Que o Natal nos conceda um pouco daquela luz que vem da Estrela que encheu de alegria os pastores dos campos de Belém e que orientou o sábios-magos para a gruta. “Sua luz ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(Jo 1,9), você e eu, todos, não só os batizados.
Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: sol da esperança, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2007.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Apesar das tribulações ainda é Natal, por Leonardo Boff



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Vivemos no mundo e no nosso país tempos sombrios. Há muita raiva e até ódio. Mais que tudo reina falta de sensibilidade para nossos semelhantes, especialmente para com as crianças, como o Menino Jesus, vivendo nas ruas e sofrendo abusos. Mesmo assim vivemos a humanidade de nosso Deus que assumiu nossa condição humana tão contraditória.
O cristianismo não anuncia a morte de Deus, mas a humanidade, a benevolência e o amor misericordioso de Deus. Olhemos para o Menino entre o boi e o asno: nele sorri a jovialidade e a eterna juventude do próprio Deus.
Passei por Belém de Judá e ouvi um sussurro terno. Era a voz de Maria embalando o filhinho:”Sol, meu filho, como vou cobrir-te de panos? Como vou amamentar-te, se és tu, que nutres todas as criaturas”?
Do presépio também veio uma voz angelical que me dizia: “Oh criatura humana, por que tens medo de Deus? Não vês que sua mãe enfaixou seu corpinho frágil? Uma criança não ameaça ninguém. Nem condena ninguém. Não escutas seu chorinho doce? Mais que ajudar, ela precisa ser ajudada e carregada no colo”.
Não deixemos que seja verdade o que escreveu o evangelista São João:“Ele veio para o que era seu e os seus não o receberam”. Nós queremos estar entre aqueles que O recebem como irmão e companheiro de caminhada.
A entrada de Deus no mundo não foi estrepitosa. Deu-se à margem da história oficial, fora da cidade, no meio da noite escura, numa gruta de animais. Em Roma, capital do império e em Jerusalém, o centro religioso do Povo de Israel, ninguém soube de nada. Quase ninguém o percebeu. Somente aqueles que tinham um coração simples como os pastores de Belém, estes seguiram até a gruta, onde tiritava de frio a Divina Criança.
O Natal nos oferece a chave para decifrar alguns mistérios insondáveis de nossa atribulada existência. Os seres humano sempre se perguntaram e perguntam: por que a fragilidade de nossa existência? Por que a humilhação e o sofrimento? E Deus silenciava. Eis que no Natal nos vem uma resposta: Ele se fez frágil como nós. Ele se humilhou e sofreu como os humanos. Esta foi a resposta de Deus: não por palavras mas por um gesto de identificação. Não estamos mais sós na nossa imensa solidão. Ele está conosco. Seu nome é Jesus.
O Natal nos descortina também uma resposta derradeira ao sentido do ser humano. Somos um projeto infinito. Só um Infinito pode realizar nossa plena humanidade. Eis que o Infinito se faz humano para que o humano realizasse seu projeto Infinito. O infinito se fez ser humano para que o ser humano se fizesse Infinito.
Para concluir nada mais comovedor do que estes versos de Fernando Pessoa, o grande poeta português, sobre o Menino Jesus::
Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
É por isso que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.
É a criança tão humana que é divina.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro.
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro de tua casa.
Despe meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.
Feliz Natal a todos e a todas. Confiemos: há uma Estrela como a de Belém a iluminar o nosso caminho por mais sombrio que se apresente. E se eu não souber o caminho, Menino, tu o sabes e bem certo.
Leonardo Boff é teólogo e escreveu Natal: a humanidade e a jovialidade de nosso Deus, Vozes, 8.edição 1976.