'Um clã tão radical quanto disfuncional': o que diz a reportagem de capa do Financial Times sobre a família Bolsonaro
Revista do Financial Times dedica capa a disputas e escândalos da família Bolsonaro
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A família Bolsonaro é o tema de reportagem de capa da revista de fim de semana do Financial Times, um dos jornais de economia mais influentes do mundo. Com o título "Escândalo e sucessão na Casa dos Bolsonaro", o texto, assinado pelo chefe do escritório do jornal no Brasil, Michael Pooler, descreve o clã como uma família "tão radical quanto disfuncional", que pode estar à beira de um retorno ao poder com a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.
Segundo o FT, os Bolsonaro oscilam entre o conservadorismo e o caos e praticam um estilo paranoico de política. O jornal os compara à família Trump, afirmando que ambas encarnam o espírito político dos anos 2020, com a fusão entre celebridade, redes sociais e busca pelo poder.
A briga com Michelle
A reportagem abre com um episódio de junho, pouco antes de um jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo. Em um vídeo no Instagram, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acusou o enteado Flávio de humilhá-la em uma disputa interna do partido, e chamou a atitude dele de "uma facada nas costas".
Para o FT, os detalhes da briga, sobre alianças e candidaturas regionais, importavam pouco. O que chamou atenção foi a hostilidade aberta, que expôs uma fissura no centro da principal família da direita brasileira justamente quando ela planejava voltar ao poder.
Segundo um assessor da campanha ouvido pelo jornal, naquele momento a equipe de Flávio chegou a achar que estava tudo acabado.
Madrasta e enteado só fizeram as pazes publicamente em meados de agosto, depois de semanas de mediação de aliados. O jornal registra que a reconciliação, com orações e abraços, não convenceu todo mundo.
O pastor Silas Malafaia, aliado próximo da família e que celebrou o casamento de Jair e Michelle, disse ao FT que a disputa é sobre herança política. "A briga é sobre quem vai carregar o nome", afirmou.
O patriarca e os filhos
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, acompanhado de seus filhos Eduardo Bolsonaro (E) e Flávio Bolsonaro, acena para seus apoiadores durante um ato na praia de Copacabana em 21 de abril de 2024, no Rio de Janeiro, Brasil.
O jornal descreve Jair Bolsonaro como um "rei-sol em declínio", em torno do qual orbitam a mulher e os três filhos mais velhos. Condenado a 27 anos de prisão por tramar a permanência ilegal no poder, ele cumpre prisão domiciliar em Brasília, com visitas restritas e proibido de se comunicar publicamente.
Bispo católico critica Flávio Bolsonaro por ataque à CNBB; entidade reage ao candidato: ‘Mentira’
A nota afirma que "a CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas"
“A mentira não se combate com outra mentira.”
Assim termina a nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em resposta à acusação de Flávio Bolsonaro de que a entidade contribuiu para a disseminação de publicações que atribuíam a ele a intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
“O PT, eu sei hoje, já estava havia alguns dias tentando levantar essa fake news, conseguiu com a ajuda de gente de dentro da CNBB, infelizmente essa realidade”, disse Flávio, durante uma carreata em Goiânia, neste domingo 27.
A nota afirma que “a CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral” e diz que a entidade “não integra qualquer estrutura político-partidária, de partido ou candidatura”.
O texto defende que as manifestações da conferência sobre as eleições “decorrem de sua missão pastoral e de princípios públicos expressos em seus documentos, orientados pela dignidade humana, pelo bem comum, pela democracia e pela liberdade de consciência”.
Em uma postagem feita na manhã desta segunda-feira (28), Dom Vicente Ferreira, bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, e membro da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB criticou Flávio:.
“O pai disse que a CNBB é a parte podre da Igreja Católica. Inclusive, vigiou bispos. Agora, o filho declara que ajudamos a divulgar Fake News. Valei-nos, Mãe Aparecida! Nossa rainha e padroeira. Que ninguém roube de nós a vontade de lutar sempre pela justiça e paz. Rogai por nós!”, escreveu.
Leia abaixo a íntegra da nota da CNBB:
“Diante de informações e manifestações que circulam nas redes sociais envolvendo o nome da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), esclarecemos:
A CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral.
A Conferência repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar.
A CNBB não integra qualquer estrutura político-partidária, de partido ou candidatura.
Suas manifestações sobre as eleições decorrem de sua missão pastoral e de princípios públicos expressos em seus documentos, orientados pela dignidade humana, pelo bem comum, pela democracia e pela liberdade de consciência.
Atribuir à CNBB participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição e não contribui para a serenidade e a responsabilidade que devem caracterizar o processo eleitoral. A mentira não se combate com outra mentira.
A CNBB reafirma seu compromisso com a verdade, o diálogo e a paz.
Assessoria de Comunicação Conferência Nacional dos Bispos do Brasil”
Após pedido de Flávio, Mendonça censura até posts de perfis dedicados ao Santuário de Nossa Senhora
Por Juliana Dal Piva
Após um pedido dos advogados do candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube removam publicações, sem necessidade de nova decisão judicial, que tragam como conteúdo textos dizendo que o candidato do PL teria um plano para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil . A ordem vale inclusive para conteúdos futuros.
O ministro escreve que estariam fora desse alcance textos jornalísticos ou de sátira e humor. No entanto, uma série de postagens que apenas mencionam o tema sem reproduzir o suposto plano também foram removidos. O ICL Notícias verificou que posts da conta “santuarionacional”, dedicada a posts religiosos sobre Nossa Senhora e a Basílica, entrou na lista. O perfil não contém nenhum conteúdo político.
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Além disso, um post do advogado Lucas Mourão que simplesmente informou que o ex-presidente Jair Bolsonaro teve entre seus assessores na Presidência um ex-deputado que foi o autor do projeto de lei já arquivado que realmente propôs a retirada do título de padroeira para Nossa Senhora.
O tema que voltou a circular nos últimos dias foi alvo do PL 2.623/2007, já arquivado. Ele propunha substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” e foi rejeitado e arquivado pela Câmara em agosto de 2008. O autor é o ex-deputado Victório Galli Filho, que, após se aproximar do bolsonarismo, foi nomeado assessor especial da Presidência por Jair Bolsonaro em 2019. Flávio negou publicamente ter feito qualquer proposta nesse sentido.
Decisão de Mendonça
A ordem quer censurar a informação de que “Flavio Nantes Bolsonaro ou sua família propôs, articulou, apoiou, está comprometido com ou pretende promover a retirada de Nossa Senhora Aparecida da condição ou do título de Padroeira do Brasil”. Segundo a decisão, devem ser removidas também publicações “substancialmente equivalentes”, definidas como aquelas que, “embora empreguem redação, imagem, áudio, vídeo, meme ou formato diverso, transmitam esse mesmo núcleo factual”.
No entanto, quem fará a distinção são as empresas de tecnologia. Na prática, caberá às plataformas decidir o que se enquadra nessa definição. A decisão determina que os provedores, “uma vez cientes desta decisão”, removam essas publicações “independentemente de nova ordem judicial específica”.
O ministro acrescenta que novos posts poderão ser notificados diretamente às empresas pela campanha, “sem necessidade de nova decisão judicial específica”. O descumprimento gera multa de R$ 50 mil por dia para cada plataforma, que tem 48 horas para informar ao tribunal as providências adotadas e quantos conteúdos derrubou.
No texto, o ministro afirma que a atuação preventiva das plataformas “não pode converter-se em delegação genérica às plataformas para suprimir manifestações politicamente desfavoráveis ao candidato”. Não há na decisão, porém, previsão de controle judicial sobre o que as empresas efetivamente irão remover.
Quem está na lista
Além da regra geral para conteúdos futuros, Mendonça mandou remover uma extensa lista de endereços apresentada pela campanha. Entre os endereços aparecem publicações dos perfis do teólogo Leonardo Boff, da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), dos deputados federais Rogério Correia (PT-MG) e Ivan Valente (PSOL-SP), do ex-deputado Jean Wyllys e do MST. Constam também posts no Facebook de parlamentares petistas, como Tadeu Veneri e Jonas Reis, um vídeo do perfil de TikTok do frei carmelita Gilvander Moreira e um vídeo da conta @santuarionacional no TikTok, nome usado pelo Santuário Nacional de Aparecida.
Segundo o levantamento apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro e reproduzido na decisão, a narrativa circulou em 2.086 publicações de 1.674 contas. Esses posts somaram mais de 21 milhões de visualizações, cerca de 1,49 milhão de curtidas e 312 mil compartilhamentos, e 1.301 novas publicações surgiram depois do desmentido público.
Para Mendonça, a nova decisão se dá porque a remoção pontual de links não se mostrou suficiente. As plataformas também deverão usar ferramentas de correspondência de imagem para derrubar cópias idênticas de um card com o título “Para agradar evangélicos, Flávio Bolsonaro articula retirada de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil”.
O perfil da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no X é derrubado enquanto bispos e padres se mobilizam por 'votos em candidatos que defendam a democracia e a soberania nacional', informa a colunista Daniela Lima.
André Mendonça, ministro do STF, acabou assumindo que "família miliciana" se refere a Flávio Bolsonaro (PL) ao mandar retirar uma postagem do ator e humorista Antônio Tabet, avaliou o colunista Leonardo Sakamoto no UOL News - 2ª edição, do Canal UOL
A Igreja Católica Apostólica Romana parece ter mergulhado de cabeça na tentativa de impedir a eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL) como presidente do Brasil. Não, diferentemente do que nos querem fazer crer alguns posts de redes sociais, lideranças do grupo religioso ainda predominante no Brasil — aproximadamente 56% da população — não têm como candidato o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas tendem a perder bastante com aquele que seria o primeiro presidente evangélico brasileiro.
Isso porque o filho do golpista Jair Bolsonaro e “irmão” do ex-banqueiro Daniel Vorcaro tende, uma vez no poder, a apoiar a teologia do domínio tão apregoada por pastores e bispos protestantes, a qual feriria de morte os interesses materiais e espirituais do catolicismo no país.
Vários vídeos de prelados, como bispos e arcebispos, viralizaram nas redes nas últimas semanas. Cartilhas distribuídas em igrejas também vêm indicando o voto em quem defende a soberania e o compromisso com os mais pobres, bandeiras que automaticamente estão alinhadas com a única candidatura de centro-esquerda deste pleito: a chapa Lula-Alckmin.
O vídeo mais contundente apresenta o arcebispo emérito de Aparecida, Dom Orlando Brandes, numa homilia na Basílica Nacional erguida em homenagem à Padroeira do Brasil. Ao falar sobre as eleições, Brandes pediu aos fiéis que escolham seus candidatos de acordo com a consciência, mas pensando no bem comum. O religioso ainda afirmou que nenhum poder estrangeiro deve interferir no país, numa clara referência à defesa da soberania nacional, ameaçada sobretudo por Donald Trump e sua aliança com líderes de direita na América Latina.
No caso de continuidade da expansão da proporção de evangélicos entre os brasileiros, cabe também perguntar se o país não consolidará uma transição cultural rumo a um conservadorismo ainda mais rígido em relação aos costumes. Não falo isso fazendo um juízo de valor a priori, qualificando tal fenômeno como bom ou ruim, mas é inevitável pensar se o Brasil continuará a ser “Brasil” caso a maioria religiosa do país deixe de ser católica.
Por exemplo, o Carnaval, não obstante as contribuições africanas para a festa-símbolo do país, é originário dos países onde a Igreja de Roma tem predominância. Não à toa, candidatos evangélicos no Rio de Janeiro criticam o uso de recursos públicos para os desfiles de escolas de samba e até mesmo a própria realização deles embora sejam inegáveis os ganhos para o turismo e, portanto, para a cidade e o estado.
A julgar pelo fato de que há também segmentos conservadores no catolicismo, pode-se esperar uma aliança desses segmentos com os evangélicos em prol de Flávio. Mas, em regiões mais pobres do país, a tendência é que o catolicismo ainda seja um bastião contra as injustiças perpetradas pela sociedade, que, ironicamente, surgiram com a colonização que trouxe justamente o cristianismo para o coração da formação do país.
Por consequência, um domínio trumpista sobre a América Latina, região de maioria católica, também vai de encontro aos interesses da Igreja. O Brasil é o último pilar de resistência a Trump numa parte do mundo cuja potência principal — os Estados Unidos — são de maioria protestante em contraponto ao catolicismo exercido em boa parte dos territórios governados outrora por Portugal e Espanha. Se incluirmos o Hemisfério Ocidental como um todo, também fica claro o confronto religioso-ideológico no Canadá, que tem no Québec, sua maior província francófona, um bastião do catolicismo.
A aliança entre os direitistas latino-americanos e Trump não passa apenas por questões materiais, como o combate — ou suposto combate — ao crime organizado, que escamoteia ambições de tomar recursos naturais no âmbito de um novo imperialismo que quer transformar a América Latina em um protetorado dos EUA. Também temos aqui uma aliança cultural fundamentada na expansão evangélica pela América Latina, principalmente no Brasil, que ainda assim desfruta do status de maior país católico do mundo.
Dos estados mais desenvolvidos do país, aquele que possui maior concentração de católicos é Minas Gerais, uma síntese nacional em sua diversidade geográfica, cultural e econômica. Lula venceu Jair Bolsonaro por margem estreita em 2022. Se voltar a lograr isso contra o filho do golpista, será em grande parte devido aos católicos, que ainda são maioria absoluta em Minas.
Se a instituição, que já perdura há dois milênios — um quarto deles presente no Brasil —, vai derrotar Flávio Bolsonaro, não sabemos. Mas é uma reação que merece ser observada e que pode ser crucial, em uma eleição altamente disputada, para assegurar a vitória de Lula seja no primeiro turno, seja numa segunda volta cujo vencedor tende a ter margem mais estreita que os cerca de 2 milhões de votos que definiram o acirrado pleito de 2022.
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