sexta-feira, 9 de abril de 2021

Os pobres não são dignos de livros, segundo o desgoverno do Brasil, por Urariano Mota

 


“Receita Federal diz que pobres não leem e defende aumentar tributação sobre os livros”



Do Jornal GGN:


Os pobres não são dignos de livros, segundo o desgoverno do Brasil

por Urariano Mota

Veio da notícia esta semana:

“Receita Federal diz que pobres não leem e defende aumentar tributação sobre os livros”

Notem que tamanha “descoberta” dos economistas de Bolsonaro deseja destruir todo o imenso trabalho de civilização dos professores de escolas públicas. A frase anterior merecia além de pontos de exclamação, coquetéis molotov e bombas sobre os gabinetes ministeriais em Brasília na forma petardos em palavras. Percebem a gravidade do que ruminam e defecam as políticas da presidência?  

Mas continuemos a notícia:

“A Receita usa dados do IBGE para justificar que a isenção sobre esses itens acaba beneficiando a camada mais rica da população.

‘De acordo com dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2019, famílias com renda de até dois salários mínimos não consomem livros não didáticos e a maior parte desses livros é consumida pelas famílias com renda superior a dez salários mínimos’, diz o documento”.

Compreendem? A canalha avança sobre conquistas sociais com os argumentos mais falsos, descabidos e demagógicos. O que fazem no emprego, quando liberam patrões de seus deveres, “para a criação de mais empregos”, para escravos, deveriam dizer, ou quando estimulam a repressão sobre o pensamento livre, porque defendem a família, deles hipócritas, agora contra os livros alegam que só os ricos leem, e por isso, tributemos os ricos! O que vale dizer, acabemos com o direito ao acesso universal da cultura.

Mas analisemos de perto o que falam os engravatados tecnocratas:   

“famílias com renda de até dois salários mínimos não consomem livros não didáticos….”

Para a canalha no poder, consumir é o mesmo que comprar. Os animais não sabem – nem querem saber – que os pobres leem livros que não podem comprar, a saber, consomem livros das bibliotecas, nas bibliotecas, ou emprestados. Mas continuam os magníficos de costas para a população:  

“… a maior parte desses livros é consumida pelas famílias com renda superior a dez salários mínimos”,

Olhem só: fica um vácuo de brasileiros entre 2 e 10 salários mínimos. Isto é,  os ricos, os muito ricos que ganham a fábula de 3 salários mínimos, devem pagar um livro com tributos dignos da renda de gangsters no Planalto.

Eu leio semelhante notícia e fico estarrecido diante da falta de experiência humana dos tecnocratas. Eles não sabem que os ricos não gostam de ler. Mesmo. Sério. Os burgueses chegam a decorar bibliotecas com livros que somente possuem lombadas de autores clássicos, e dentro dos livros, assim como nos próprios cérebros, os conteúdos são páginas em branco. Mais: do ponto de vista da compra de livros, a leitura no Brasil é comprada pela classe média, a baixa classe média. Mas os pobres leem, e como leem de modo distinto!, e como fazem disso uma experiência vital, maior, como o primeiro beijo, a primeira namorada em suas vidas.

Para não ir longe, e contar experiências com os livros desde a minha infância de morador de becos no Recife, ou de livros que persegui durante muito tempo  para ter nas mãos maduras, como o “Pequenos poemas em prosa” de Baudelaire, eu me pergunto: o que diria, diante da patada e coice da Receita Federal,  o mestre Arlindo Albuquerque, professor de escola pública? Fale, mestre, por favor e para sempre:

O mestre nos escolhia como o público ideal para ouvir Jean-Jacques Rousseau. Acreditam nisso, meninos pobres em uma escola pública a ouvir um mestre em voz alta nos contar sobre o prazer de andar a pé?

“Je n’ai pas besoin de choisir des chemins tout faits, des routes commodes; je passe partout où un homme peut passer; je vois tout ce qu’un homme peut voir; et, ne dépendant que de moi-même, je jouis de toute la liberté dont un homme peut jouir”.

Com frequência, muitas vezes repetimos um texto que ele nos mandava ler com este gozo: “Sur la liberté de la conscience”. Eram anos de ditadura, sabíamos, e comentava-se, aos murmúrios, que o professor em 1964 fora espancado, preso, porque fizera parte da direção do Serviço Social contra o Mocambo. O texto no livro vinha sempre a calhar, e era em estado de êxtase que o mestre nos fazia ler “Sobre a liberdade da consciência”.

– Vejam a beleza. Repitam esta frase. O título é uma coisa extraordinária — e silabava em ritmo lento “sur la liberté de la conscience”.

Esse francês a gente lembra porque uma lição mais funda vinha naquelas aulas do professor Arlindo Albuquerque. Em lugar da conjugação mecânica de verbos ele nos legava um valor permanente de humanidade. Sem trombetas, de bata azul, em um subúrbio que hoje chamam de periférico, de nome Água Fria, ninguém nunca nos falou tão bem sobre a felicidade que é a liberdade de consciência.

E mais não digo por enquanto, porque para escrever temos que serenar a raiva, e filtrar em seu lugar uma prosa madura e refletida. Mas por ora, diante de “os pobres não gostam de ler…” só me ocorre escrever:

– Canalhas, calem as suas latrinas! *Vermelho https://vermelho.org.br/coluna/os-pobres-nao-sao-dignos-de-livros-segundo-o-desgoverno-do-brasil/

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Indignação, fatalismo, fé, esperança e aprendizado: Covid-19. Texto de Leonardo Boff

 

"A esperança nos faz compreender que o invisível é parte do visível. A realidade empírica e dada não é toda a realidade. Ela esconde algo invisível que pertence à nossa condição humana: as incontáveis possibilidades e virtualidades escondidas dentro de nós", escreve o teólogo Leonardo Boff



Por Leonardo Boff

O intrusão do Covid-19 trouxe grandes questionamentos para a existência humana. Para frear sua propagação se impuseram várias medidas restritivas que provocaram impaciência, indignação,desesperança e fatalismo. Mas também criaram a oportunidade de fé, de esperança e sobretudo de reflexão sobre o sentido de nossa presença neste planeta e de um aprendizado para a vida que deve seguir melhor, mais terna e fraterna.

O vírus invisível desmascarou a arrogância do ser humano moderno que se julgava um pequeno deus, capaz de, com a tecnociência, dominar as forças da natureza e submetê-las ao seu serviço. O Covid-19 demonstrou que somente nos assenhoreamos da natureza se obedecermos a ela.  Não somos donos mas parte da natureza junto e não em cima dos demais seres.

 O Covid-19 nos revelou como seres expostos à imprevisilidade e à vulnerabilidade, quer dizer, não dominamos as condições que garantem ou ameaçam nossa vida.  Quem, afora alguns epidemiologistas, como um dos maiores, David Qammen, previu a chegada ameaçadora do vírus? São poucos países que tem um SUS (Sistema Único de Saúde) como nós no Brasil. Não o tinham os USA, a Itália, a Espanha, o México entre otros. Ademais somos seres que não possuem nenhum órgão especializado (Mangelwesende Arnold Gehlen) que assegure a nossa existência nem possuímos um habitat próprio, como cada espécie da natureza possui. Precisamos construir pela interação com a natureza e pelo trabalho o nosso habitat, vale dizer, um lugar hospitaleiro no qual podemos viver com sem maiores ameaças e em paz.

O vírus ataca as pessoas, ricas e pobres, as classes, as religiões e todas as nações do planeta. As armas de destruição em massa sobre as quais se funda o poder dos impérios atuais em busca de hegemonia mundial e até de dominação sobre outros povos, se tornaram ineficazes e até ridículas. O que nos está salvando não são os mantras da cultura do capital (o lucro, a concorrência, o individualismo, o assalto aos bens e serviços da natureza, o domínio do mercado sobre a sociedade) mas os valores quase ausentes nesse sistema capitalista e neoliberal: a centralidade da vida, a interdependência entre todos, a solidariedade, a generosidade, o cuidado de uns para com os outros e para com os bens naturais escassos, as relações sociais mais amigáveis contra a voracidade insaciável do mercado, um estado social que cuida das demandas básicas de seus cidadãos.Eis um aprendizado que estamos fazendo e que deve ser internalizado e fundar um novo paradigma de comportamento, para que não se traduza   apenas por alguns atos mas se torne uma atitude permanente, pois é essa que transforma.

A indignação e a impaciência são compreensíveis, pois somos seres sociais. Não poder conviver, abraçar e beijar nossos entes queridos e amigos é penoso e entristecedor. Assumimos as renúncias como o cuidado para conosco mesmos e como solidariedade para com os demais para não contaminá-los ou nós mesmos não  sermos contaminados. A indignação importa que se transforme em empatia para os que sofrem, seja nos hospitais, seja com as famílias que perderam seus entes queridos.

O fatalismo significa aceitar um fato como inevitável face ao qual nada podemos fazer. Essa é uma visão negacionista que nos leva à inércia e ao tédio. Esquece que o ser humano foi criado criador; possui dentro de si energias escondidas que são mais fortes do que a dureza dos acontecimentos. Podemos resistir a eles, evitá-los e, mesmo acontecidos, sempre é possível tirar lições deles e assim superá-los. Nada é fatal nesse mundo. Somente o é a morte. Mas a morte não precisa significar o fim de nossa peregrinação mas o momento de transfiguração, o exercício da suprema liberdade ao não permitir que a vida nos seja tirada, mas entregá-la a um Maior e despedir-se deste mundo, agradecidos pelo fato de termos existido. É inspiradora a última palavra de Santa Clara, a companheira de São Francisco de Assis:”Senhor, te agradeço por me teres criado”. Inclinou a cabeça ao lado e expirou e assim caiu nos braços de Deus-Pai-e-Mãe de bondade que  a esperavam.

Face à avassaladora pandemia urge suscitar a fé e alimentar a esperança. Fé, em seu sentido bíblico, significa mais que acolher verdades e  aderir a doutrinas. É antes de tudo uma confiança em Alguém que acompanha nossos passos, conhece todos os nossos altos e baixos e que sabe do pó do qual somos feitos e tem piedade de nós. Por isso, como diz de forma consoladora, o salmo 103:”Ele não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre; como um pai sente compaixão por seus filhos, assim o Senhor tem compaixão por aqueles que a Ele se confiam porque conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó”(v.9-14). Ter fé significa que a vida, por mais penosa que seja, tem sentido e vale a pena assumi-la e amá-la. Hoje a assumimos em sua fragilidade e confiamos que esse Alguém pode se compadecer de nós e nos salvar do vírus letal.

A esperança nos faz compreender que o invisível é parte do visível. A realidade empírica e dada não é toda a realidade. Ela esconde algo invisível que pertence à nossa condição humana: as incontáveis possibilidades e virtualidades escondidas dentro de nós. Podemos desentranhá-las inventar uma solução nova aos nossos problemas. É a esperança que nos permite sonhar e pensar em mundos ainda não vividos e ensaiados mas que somos desafiados a moldá-los. Enquanto houver esperança, jamais existirão becos sem saída. Pela esperança nos convencemos a nós mesmos de que o Covid-19 não representará o “Next Big One”, o grande vírus terminal, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e que poderia liquidar grande parte da biosfera e levar milhões da humanidade a um desfecho trágico. Mas ele é misterioso, não conhecemos as colnsequências e sua possível permanência endêmica entre os humanos. Tudo indica que o mundo pré-pandemia, passou definitivamente. Devemos nos preparar para algo novo na humanidade:um novo modo de viver e conviver entre nós humanos e com a natureza a ser regenerada.

Nossa esperança é que ainda temos futuro. Nascidos no coração das grandes estrelas vermelhas, há bilhões de anos, seguiremos irradiando. Alimenta nossa esperança uma das últimas frases da Laudato Si: como cuidar da Casa Comum do Papa Francisco:”Caminhemos cantando; que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”(n.244).

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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Bob Fernandes: Brasil: 19 milhões com fome, 116 milhões com pouca comida, mais 17 mi de pobres e 4 mil mortes/dia no Brasil militarizado e de extrema direita

 

Do Canal do analista político Bob Fernandes:



CRÉDITOS Direção Geral: Bob Fernandes Direção Executiva: Antonio Prada Produção: Daniel Yazbek Edição: Yuri Rosat Arte e Vinhetas: Lorota Música de abertura e encerramento: Gabriel Edé Este vídeo é do canal de Bob Fernandes. Vídeos novos todas terças e quintas, sempre, e demais postagens a qualquer momento necessário.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

O Jesus de todos e de todas na Páscoa! Por Dora Incontri

 

 E é possível ainda que conversemos com essas diversas concepções: para mim, Jesus é um profeta sim, iluminado, que atingiu a perfeição possível que conhecemos, mas claro, também um desestabilizador da ordem estabelecida, crítico das injustiças, indignado com a hipocrisia farisaica, e por isso foi morto por judeus e romanos. E sim, também, em certa medida posso vê-lo como uma manifestação da divindade, porque Deus está em todas as suas criaturas e o processo de ascensão humana é uma gradativa descoberta e realização de Deus em nós.


        Do Jornal GGN:

    Este homem que dividiu a história do Ocidente entre antes e depois dele, tem as mais diversas representações por diferentes grupos de crença e abordagens históricas e filosóficas. Para católicos, protestantes, ortodoxos gregos ou russos, ele é Deus que se fez homem e habitou entre nós, para nos livrar do pecado e trazer a ressurreição e a vida. Para muçulmanos, ele é um grande profeta, ao lado de Moisés e Maomé, e sua mãe Maria tem um capítulo dedicado a ela no Alcorão. Para judeus, poderia ter sido um profeta incorporado na Bíblia judaica, mas como se tornou um ser divinizado e, portanto, uma pessoa da Trindade, não poderia ser aceito por uma tradição espiritual (assim como o islamismo) que sequer representa pictoricamente o ser humano e muito menos Deus… Para judeus e muçulmanos, a ideia da Trindade (pai, filho e Espírito Santo, três pessoas num único ser) beira o politeísmo.

        Para espíritas kardecistas, cuja definição de Deus é a de um Ser cósmico, que rege os mundos infinitos, muitos dos quais habitados, sendo o universo uma vasta morada de humanidades. Um Deus transcendente e imanente ao mundo, legislador e mantenedor de todas as coisas, é impensável em sua encarnação humana. Portanto, trata-se de um Espírito puro, iluminado, perfeito, mas criatura de Deus, como todos nós.

        Nada impede que um hindu, como Gandhi ou Tagore faziam, ou um budista, considerem-no um ser que atingiu a iluminação.

        Anarquistas, socialistas, comunistas podem vê-lo como um revolucionário político, alguém que se opôs aos poderosos da época, colocando-se ao lado dos fracos e dos vulneráveis e por isso teve sua vida arrancada muito cedo, depois de ter sido condenado e torturado.

        E é possível ainda que conversemos com essas diversas concepções: para mim, Jesus é um profeta sim, iluminado, que atingiu a perfeição possível que conhecemos, mas claro, também um desestabilizador da ordem estabelecida, crítico das injustiças, indignado com a hipocrisia farisaica, e por isso foi morto por judeus e romanos. E sim, também, em certa medida posso vê-lo como uma manifestação da divindade, porque Deus está em todas as suas criaturas e o processo de ascensão humana é uma gradativa descoberta e realização de Deus em nós. Lembrando a prece de Fernando Pessoa:

        “Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.”

        Entretanto, como quer que consideremos Jesus, ninguém pode discordar de que seu ensino e seu exemplo foram o “de amar ao próximo como a si mesmo”, o “de perdoar setenta vezes sete”, o “de dar o pão a quem tem fome e visitar o prisioneiro”, o “de buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça”,  o “de servir e não buscar ser servido”, o “de amar aos próprios inimigos” – ideias e práticas de amor incondicional, de justiça, de verdade, de moralidade plena. E por que todos aqueles que dizem segui-lo, que afirmam admirá-lo e prestam cultos para louvá-lo, simplesmente fazem ouvidos moucos para essas diretrizes? No fundo, palavras bonitas, mas utópicas, para fingir que se cumpre, enquanto o ódio, o sadismo, a injustiça e a banalidade do mal andam às soltas no planeta e fazem morada no Brasil!

        Mas a Páscoa é símbolo de esperança. Porque nela, Jesus se demonstrou imortal – do ponto de vista da ressurreição da carne, para os cristãos tradicionais; do ponto de vista espiritual para nós, espíritas; e do ponto de vista histórico, porque depois de 2 mil anos de seu martírio, continua tão vivo como sempre em tantos corações, como uma âncora de conforto e como uma bússola de bondade.

    Por isso, boa Páscoa a todos e todas!

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Da BBC: A Paixão e morte de Cristo, segundo a Ciência

 

Vitral de igreja britânica
Legenda da foto,

Desconsiderando-se a religiosidade decorrente da figura de Jesus, ele foi um condenado político

Religiosidade à parte, poucos duvidam que tenha vivido há 2 mil anos um homem chamado Jesus, em parte do que hoje é Israel.

E que ele foi um judeu dissidente que acabou liderando um grupo de seguidores. Sua atuação acabou incomodando o Império Romano. E, às vésperas da Páscoa judaica, ele acabou condenado, torturado e morto por crucificação — uma prática de pena capital comum na época.

Depois de sua morte, seguidores se encarregaram de espalhar seus ensinamentos. Terminava a história e começava o mito, a religião, a teologia.

Essa transição ocorreu principalmente graças a um profícuo escritor da época, pioneiro da Igreja Cristã e autor de muitos textos que hoje estão na Bíblia: Paulo de Tarso (c. 5-67). Na década de 50 do primeiro século da nossa era, cerca de 20 anos depois da morte de Jesus, ele produziu sete cartas cujos textos sobreviveram ao tempo.

"Nessas cartas reparamos que há uma mudança de enfoque. Paulo não mais trabalha com o Jesus histórico, ele trabalha com o Jesus da fé", explica o historiador André Leonardo Chevitarese, autor de, entre outros, Jesus de Nazaré: Uma Outra História, e professor do Programa de Pós-Graduação em História Comparada do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Diante disso, a primeira conclusão é que, desconsiderando a religiosidade decorrente da figura de Jesus, ele foi um condenado político.

"Jesus histórico conheceu uma morte política. Religião e política são coisas muito unidas, principalmente quando estamos tratando de uma liderança popular", acrescenta Chevitarese.

"Não há como separar as andanças [de Jesus] como algo só político ou só religioso. As fronteiras são muito fluidas. E isso acaba sendo chave para compreender o movimento de Jesus com Jesus [ainda vivo] e o movimento de Jesus sem Jesus [depois da morte dele, com as pregações dos primeiros seguidores]."

Paixão e morte

A morte na cruz, cujo simbolismo acabou se confundindo com a própria religiosidade cristã, não era um acontecimento raro naquela época.

"A crucificação era a pena de morte usada pelos romanos desde o ano 217 a.C. para escravos e todos aqueles que não eram cidadãos do Império", explica o cientista político, historiador especializado em Oriente Médio e escritor italiano Gerardo Ferrara, da Pontifícia Universidade da Santa Cruz, de Roma.

"Era uma tortura tão cruel e humilhante que não era reservada a um cidadão romano. Era precedida pelo açoite, infligido com vários instrumentos, conforme a origem e a proveniência social dos condenados."

"A crucificação não foi invenção romana mas estava amplamente disseminada no Império Romano. Fazia parte de uma rotina dentro dos territórios que hoje chamamos de Israel", pontua Chevitarese. "Mais ou menos uns 40 anos depois da morte de Jesus, quando houve a tomada de Jerusalém, milhares de judeus foram crucificados."

Jesus sendo erguido na cruz, de Rubens

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Legenda da foto,

A crucificação não foi invenção romana mas estava amplamente disseminada no Império Romano, diz pesquisador/ acima, obra de Jesus sendo erguido na cruz, de Rubens

Os Evangelhos dedicam-se também a narrar as últimas horas de Jesus, detalhando seu sofrimento. De acordo com as escrituras sagradas, ele teria sido levado de uma instância a outra nessas horas de julgamento, com certa hesitação entre as autoridades. Chevitarese diz que historicamente isso não pode ser verdade.

Isto porque, a julgar pelos relatos, Jesus foi morto na antevéspera da Páscoa judaica. "A festa da Páscoa é uma festa política, pois é quando se celebra a passagem da escravidão para a liberdade, a saída do povo hebreu do Egito para a 'terra onde corre o leite e o mel'", lembra o historiador.

"Então imaginemos: uma cidade abarrotada de judeus, como a autoridade romana vai botar um judeu para carregar uma cruz pela cidade, no meio de tantos judeus? Seria um convite à rebelião. Com uma pessoa como Jesus ninguém poderia perder tempo. Foi pego e imediatamente crucificado." Para Chevitarese, os relatos que existem dando conta de acontecimentos entre a prisão de Jesus, na madrugada de quinta para sexta, e sua crucificação, horas mais tarde, não são históricos; são teologia.

Alguns dias antes, no que acabou se eternizando como Domingo de Ramos, Jesus tinha entrado em Jerusalém. Foi uma rara aparição dele em uma grande cidade, o que teria transformado-o em alvo fácil das autoridades.

Mas por que ele incomodava? Porque liderava um grupo justamente proclamando um novo reino, o Reino dos Céus, ou reino de seu pai. E seu discurso era de um reino diametralmente oposto ao Império Romano, segundo quatro pilares básicos. "Ele se torna messias por conta dessa ideia", defende Chevitarese.

O primeiro pilar do reino defendido por Jesus era a justiça. Não qualquer justiça, mas a justiça divina. "E ele se referia a Deus como papai, seu pai celestial. Essa justiça tão equilibrada, era claro, se opunha a outro reino, aquele que já estava instalado e que controlava a Judeia: o dos romanos", compara o historiador. "Ele está dizendo: aqui no meu reino tem justiça; o do César é o reino da injustiça."

O segundo ponto é que Jesus proclamava um reino de paz, também em oposição ao estado bélico do governo imposto pelos romanos, um império que avançava sobre outros povos.

O terceiro pilar é comensalidade: comida, bebida, fartura na mesa dos pobres, dos camponeses. "O grupo que acompanhava Jesus ouvia sua pregação e, de alguma maneira, achava interessante o que ele estava dizendo", diz Chevitarese. Por fim, Jesus falava de um reino de igualdade, com a coparticipação de todos. "O ministério de Jesus é de homens e mulheres, iguais", nota o historiador.

"O importante é que [nesses discursos] política, religião, economia, sociedade, tudo isso se inseria num programa messiânico. Não estava claro onde começava a política e terminava a religião, nem onde terminava a religião e começavam as questões sociais. Tudo estava interligado", completa.

"Jesus morre por causa de um reino, o reino de Deus. Esse é o movimento de Jesus com Jesus. A geração seguinte, o movimento de Jesus sem Jesus, ressignifica a morte dele como uma morte sacrificial, que ganha dimensão estritamente religiosa."

As autoridades romanas que serviam na região já estava mapeando os movimentos de Jesus. E encontraram a oportunidade perfeita quando ele resolveu entrar em Jerusalém. "Viram-no criando confusão no templo, às vésperas da Páscoa, com a cidade cheia de judeus vindos das mais diferentes regiões e pensaram: rapidamente esse homem tem de ser preso, crucificado", diz o historiador.

'Jesus carregando a cruz', de Ticiano

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

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Discurso de Cristo era de um reino diametralmente oposto ao do Império Romano; acima, ele retratado em obra de Ticiano

"Todos os evangelistas concordam em situar a morte de Jesus em uma sexta-feira, dentro do feriado da Páscoa", comenta Ferrara. Autor do livro Vita di Gesù Cristo, o padre, biblista e arqueólogo italiano Giuseppe Ricciotti (1890-1964) reuniu várias informações históricas, cruzou-as e concluiu que o mais provável é que a execução tenha ocorrido no equivalente ao 7 de abril do ano 30.

A morte na cruz

Eram três as maneiras de se executar um condenado na Roma antiga. Segundo explica o historiador, um objetivo as unia: não permitir a preservação de vestígios de memória — em outras palavras, impossibilitar que restos mortais fossem sepultados.

Geralmente aos circos romanos eram destinados os condenados por crimes como assassinato, parricídio, crimes contra o Estado e estupros. Na arena, esses criminosos enfrentavam feras até a morte — seus restos eram devorados pelos bichos. Uma segunda forma de execução era a fogueira, que também não deixava muitos resíduos do corpo.

A crucificação era a pena destinada a escravos que atentavam contra a vida dos seus senhores e aqueles que se envolviam em rebeliões. Além de todos os que não eram cidadãos romanos, caso de Jesus. "Ainda vivos, na cruz, aves de rapina já começavam a comer o condenado. Três ou quatro dias depois, a carne desse indivíduo, apodrecendo, caía da cruz e cães e outros animais terminavam de fazer o serviço", contextualiza Chevitarese.

No início dos anos 2000, o médico legista norte-americano Frederick Thomas Zugibe (1928-2013), professor da Universidade de Columbia e ex-patologista-chefe do Instituto Médico Legal, fez uma série de experimentos com voluntários para monitorar os efeitos que uma crucificação teria sobre o corpo humano. Os resultados foram publicados no livro The Crucifixion of Jesus: A Forensic Inquiry (A crucificação de Jesus: uma investigação forense, em tradução livre)

Para seus estudos, ele utilizou uma cruz de madeira com 2,34 metros na vertical e 2 metros na horizontal. Indivíduos — todos adultos jovens, na faixa dos 30 anos — foram suspensos nela e tiveram suas reações monitoradas eletronicamente, com eletrocardiograma, medição de pulsação e aferição de pressão sanguínea.

Atados assim, os voluntários não conseguiam encostar as costas na cruz e relataram fortes cãibras causadas pelo desconforto da posição, além de formigamentos constantes nas panturrilhas e nas coxas.

Na época de Jesus diferentes formas de cruz eram utilizadas nas execuções. As principais eram a em forma de T e a em forma de punhal. Não há consenso entre pesquisadores sobre qual teria sido a utilizada por Jesus. Ferrara acredita que a segunda.

'Jesus na cruz entre os dois ladrões', 1619-1620, de Rubens

CRÉDITO,DOMÍNIO PÚBLICO

Legenda da foto,

"Detalhes da punição são confirmados pelo uso romano e por documentos históricos: os condenados eram amarrados ou pregados no patíbulo com os braços estendidos e erguidos no mastro vertical já fixado"; acima, crucificação retratada pelo artista Rubens

Para o médico Zugibe, Jesus carregou, em seu caminho até o local da execução, apenas a parte horizontal. Ele escreveu que a estaca vertical costumava ser mantida no local das crucificações, fora da cidade.

E baseou-se no fato de que a parte horizontal pesava cerca de 22 quilos. A soma de ambas as partes tinha entre 80 e 90 quilos, o que tornaria impossível de ser carregada em uma longa caminhada — que, conforme seus estudos, teria sido de 8 quilômetros no caso de Jesus.

"Detalhes da punição são confirmados pelo uso romano e por documentos históricos: os condenados eram amarrados ou pregados no patíbulo com os braços estendidos e erguidos no mastro vertical já fixado", esclarece Ferrara.

"Os pés eram amarrados ou pregados, por outro lado, ao poste vertical, sobre o qual uma espécie de assento de apoio se projetava na altura das nádegas. A morte era lenta, muito lenta, e acompanhada por um sofrimento terrível. A vítima, levantada do solo a não mais de meio metro, estava completamente nua e podia ficar pendurada por horas, senão dias, sacudida por espasmos de dor, náuseas e a impossibilidade de respirar corretamente, já que o sangue nem sequer podia fluir para os membros que estavam tensos a ponto de exaustão."

O que é um entendimento quase unânime entre os pesquisadores é que as cravas eram pregadas nos pulsos, e não nas palmas das mãos — por conta da compleição óssea, as mãos "se rasgariam" com o peso do corpo. "A estrutura das mãos e a ausência de ossos importantes impediriam o suporte de um peso tão grande e a carne das mãos seria dilacerada", ressalta Ferrara.

O médico Zugibe concluiu que os pregos tinham 12,5 centímetros de comprimento. Ele defendia que Jesus tinha sido pregado, sim, nas mãos, mas não no centro da palma e sim pouco abaixo do polegar. Já suspenso na cruz, os pés de Jesus também foram fixados com cravas — segundo o médico, um ao lado do outro, e não sobrepostos como o imaginário consagrou. Essas perfurações, por atingirem nervos importantes, teriam sido causadoras de dores insuportáveis e contínuas.

"Quanto tempo um indivíduo leva para morrer assim? Morre-se de cãibra, que vai atrofiando seus músculos e levando-o a morrer por falta de ar, com muitas dores, dores gigantescas no corpo todo", narra Chevitarese. Ferrara, por sua vez, defende que Jesus tenha morrido por infarto do miocárdio, em decorrência do esforço exaustivo.

Por meio de seus experimentos, Zugibe analisou as três hipóteses mais aceitas para a morte de Jesus: asfixia, ataque cardíaco e choque hemorrágico. Sua conclusão é que Jesus teve parada cardíaca em virtude da hipovolemia, ou seja, a diminuição considerável do volume sanguíneo depois de toda a tortura e das horas pregado na cruz. Teria morrido, portanto, de choque hemorrágico.

"[A morte na cruz] é uma morte de violência física absurda. O tempo dependia das condições físicas em que se encontrava o crucificado. Se a tortura anterior tivesse sido muito intensa, isso de certa forma poderia fazer com que ele morresse mais rápido", diz Chevitarese. Ferrara acredita que "a agonia de Jesus não tenha durado mais do que algumas horas, talvez até menos do que duas, provavelmente devido à enorme perda de sangue devido à flagelação [anterior]".

Torturas

'A flagelação de Cristo', de Caravaggio

CRÉDITO,DOMÍNO PÚBLICO

Legenda da foto,

A morte na cruz é uma morte de violência física absurda, lembra pesquisador/ acima, 'A flagelação de Cristo', de Caravaggio

Se o condenado à morte de cruz era visto pelos romanos como parte de uma "escória", um não cidadão considerado criminoso e oriundo dos estratos sociais mais baixos, é de supor que os carrascos não poupassem esses indivíduos de toda sorte de agressões. Para tanto, o instrumento utilizado era um chicote específico chamado de azorrague.

No caso de Jesus, Ferrara acredita que tenha sido utilizado um com bolas de metal com pontas feitas de osso, capaz de rasgar a pele e arrancar pedaços de carne. "Justamente por ele ser um 'criminoso' de baixa classe social e de origem não nobre, no caso um judeu de pequena província oriental do império", justifica ele.

De acordo com as pesquisas realizadas pelo médico Zugibe, o modelo de chicote utilizado para o açoitamento de Jesus era feito com três tiras. Condenados assim costumavam receber 39 golpes com o instrumento — na prática, portanto, era como se fossem 117 chibatadas, já que essas pontas feitas de osso de carneiro funcionavam como objetos perfurocortantes.

Isso, segundo explicações do médico, resultaria em tremores e até desmaios, e um quadro de hemorragias intensas, danos no fígado e no baço e acúmulo de sangue e líquidos nos pulmões.

No caminho até o local de crucificação, não havia limites para as torturas. Eram espancados, ridicularizados, vítimas de intensa violência. Relatos bíblicos afirmam que, por sarcasmo, uma coroa de espinhos teria sido cravada na cabeça de Jesus.

Zugibe queria descobrir qual era a planta utilizada para a tal coroa. Depois de entrevistar botânicos e estudiosos de biomas do Oriente Médio, chegou a duas possíveis espécies que seriam capazes de fornecer espinhos grandes o suficiente. Conseguiu as sementes e cultivou ele próprio os arbustos para, depois, analisá-los.

Acabou concluindo que foi utilizado o hoje conhecido como espinheiro-de-cristo-sírio. Segundo o legista, os ferimentos causados por esse espinho na cabeça seriam capazes de, mais do que provocar intenso sangramento na face e no couro cabeludo, atingir nervos da cabeça — causando dores imensas.

Sepultamento

Chevitarese defende que a crucificação de Jesus, ao contrário do que narra a Bíblia, tenha ocorrido longe de testemunhas oculares, justamente porque tudo teria sido feito rapidamente e de modo a não provocar uma revolta da população.

E que, também ao contrário do relato religioso, não houve sepultamento de Jesus, tampouco restos mortais preservados. "Crucificados não eram enterrados. Ficavam na cruz e, ainda vivos, aves de rapina já sabiam que eles não podiam se mexer. E comiam olhos, nariz, bochecha, aquilo ficava abarrotado de aves de rapina comendo o corpo ainda vivo", explica ele.

"[O corpo] passava alguns dias ali, quatro, cinco dias, pendurado. A carne começava a apodrecer. Caía. Despencava. Cães e outros animais se aproveitavam desses restos humanos para fazer seu banquete", relata.

Para ele, o que prova essa tese é que foram milhares de escravos crucificados no período e não há registros de cemitérios ou mesmo de ossadas descobertas dos mesmos. "Historicamente, crucificado não era enterrado", crava. "Teologicamente, é claro que Jesus precisava ser enterrado — para depois ressuscitar."

Espiritismo não combina com armas, autoritarismo, punitivismo, pena de morte, violência e discurso de ódios. Artigo Franklin Félix, extraído da CartaCapital

 

Ver espíritas em marcha com o atraso, com o preconceito, com a ruptura democrática, com a retirada de direitos e com o ódio e fundamentalismo, me faz acreditar que essas pessoas estão bem distantes dos postulados de Kardec e dos ensinamentos de Jesus.

Artigo extraído da CartaCapital:


Espiritismo não combina com armas, pena de morte, violência e discurso de ódio

A Doutrina Espírita, essencialmente educativa, tem como objetivo libertar e proclamar o reino de Deus - de justiça, amor e paz – para todos.



“Jesus respondeu: Amarás o Senhor teu Deus

de todo o teu coração, de toda a tua alma,

e de todo o teu entendimento!

Esse é o maior e o primeiro mandamento.

O segundo é semelhante a esse:

Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.

Toda a Lei e os profetas.

dependem desses dois mandamentos.”

Matheus 22:34-40


É raro o dia em que não recebo – de amigos/as ou anônimos, no privado ou público – mensagens de desencanto com o movimento espírita, com dirigentes, médiuns famosos ou palestrantes popstars. São sempre depoimentos muito doloridos, relatando perseguições, censuras e até expulsões.

Uma companheira partilhou que durante o passe – prática amplamente difundida entre os espíritas e que consiste na imposição de mãos, visando promover a doação de bioenergias de um indivíduo ao outro – o passista (que é a pessoa que aplica o passe) pediu a espiritualidade que “livrasse a irmãzinha das influências do comunismo”. Outra companheira desabafou que foi retirada de todos os trabalhos espirituais do centro espírita (que ela ajudou fundar) por conta de suas ideias sociais e progressistas. Um casal de amigos abandonou o centro espírita depois que foram impedidos pelos dirigentes de continuarem atuando na evangelização infantil (uma espécie de catecismo) para não influenciarem as crianças “com essas ideias esquerdistas anti-doutrinárias".  Nós mesmos fomos expulsos da rádio espírita que fazíamos programa a mais de 13 anos por dizermos que o presidente – na época candidato – era machista, racista, LGBTfóbico e violento (continuamos afirmando e agora com mais motivos).

A sensação que tenho é que todos os violentos, hipócritas, cruéis, incluindo aí os religiosos, resolveram sair, de uma só vez, dos seus armários e tumbas. Estão se sentindo empoderados.

Ver espíritas em marcha com o atraso, com o preconceito, com a ruptura democrática, com a retirada de direitos e com o ódio e fundamentalismo, me faz acreditar que essas pessoas estão bem distantes dos postulados de Kardec e dos ensinamentos de Jesus.

Kardec foi ainda mais enfático na questão 350 de O Livro dos Médiuns: “De que serve acreditar na existência dos Espíritos, se essa crença não torna o ser humano melhor, mais benevolente e mais indulgente para com seus semelhantes, mais humilde, mais paciente na adversidade?”

Ele entendia que desde que uma pessoa se intitulasse espírita, ela já teria motivos suficientes para iniciar essa transformação e reforma íntima (que é um compromisso consigo mesma), passando a se esforçar para se tornar melhor e contribuir, assim, para o adiantamento da humanidade.

Mas também é verdade que na mesma proporção que os odiosos deixaram suas máscaras caírem, espíritas de todos os cantos do País e de fora dele tem se reunido, presencialmente ou virtualmente, incomodados/as com essa captura do movimento espírita brasileiro.

O espírita, autointitulado “cidadão de bem”, limpinho e cheiroso (como diz aquela jornalista), que dita normas como um general nas entidades que deveriam se conectar fraternalmente, mas ao contrário prega o ódio e a intolerância, sabe que está condenado, e se desespera por isso, porque sabe que afronta as leis divinas e naturais. Porque sabe que a consciência libertadora o inquieta e o aprisiona.

Há cristãos – mal-intencionados – que utilizam argumentos religiosos para defender a barbárie e a violência. Uma das passagens preferidas dessa “gente de bem” é a em que Jesus disse não ter vindo trazer a paz, mas a espada.

Não há paz sem voz e Jesus já sabia disso. Quando usou a analogia da espada, Jesus estava se referindo ao império romano (dominação) e que a pacificação só seria possível se houvesse conflito e divisão às hierarquias e poderes estabelecidos, rompendo com a política de morte da época. Jesus tornou-se o centro da separação e rompe com a manutenção das relações estabelecidas pelo legalismo.

Uma das possibilidades que a Doutrina Espírita apresenta para o enfrentamento da violência é a educação em suas múltiplas interfaces. O Espiritismo, essencialmente educativo, tem como objetivo libertar e proclamar o reino de Deus – de justiça, amor e e paz – para todos/as, mas a sua missão não poderá ser realizada em um ambiente de acomodação “paz” que só atendem a alguns poucos.

Uma das possibilidades que a Doutrina Espírita apresenta para o enfrentamento da violência é a educação em suas múltiplas interfaces. O Espiritismo, essencialmente educativo, tem como objetivo libertar e proclamar o reino de Deus – de justiça, amor e paz – para todos/as, mas a sua missão não poderá ser realizada em um ambiente de acomodação “paz” que só atendem a alguns poucos.

O impulso de transformação presente na doutrina espírita – para além dos fundamentalismos e articulações reacionárias que infelizmente disputam os ensinamentos de Kardec – defende que uma sociedade justa e livre se dará por meio da implantação de políticas públicas que valorizem a cultura da não-violência, o respeito à diversidade e a todas as pessoas como portadoras de direitos.

A apologia ao porte de armas, o aumento da repressão institucional e armada contra a população de forma indiscriminada não é o caminho.

As forças progressistas dentro da doutrina espírita serão o futuro de uma doutrina livre e que cada vez mais estará integrada com o povo e suas conquistas sociais.


FRANKLIN FÉLIX

É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos.

Sobre Jesus de Nazaré e sua entrega pelo ideal de amor e justiça social na semana da Páscoa, a condenação de um inocente e justo pelas elites pré-fascista e hipócritas de sua época. Do Canal Paz e Bem de Mauro Lopes, programa Boas Palavras para um Bom Dia, com Dora Incontri

 

Do Canal Paz e Bem, de Mauro Lopes:


Vídeo 01 - A Entrega de Jesus:



Vídeo 02 - Jesus na Última Ceia:


Vídeo 03 - O que o drama do Calvário e a tragédia da cruz nos ensina: