"(...) o fundamento religioso – evangélico – parte do uso instrumentalizado (no contexto da ascensão das Igrejas neopentecostais e afins), como condicionante imediato do fetichismo. Bem como o dinheiro se torna como aparência da forma autônoma e portadora dos predicados do capital (valor, trabalho etc.), na religiosidade então aparece como os predicados de Deus (prosperidade, pátria e família)."
Do Jornal GGN:
A religião, a plebe e a praga: o estertor político evangélico, por Wesley Sousa
A explicação do mundo é uma necessidade dos Homens (humanidade) também de explicarem sua vida, encontrarem sentido na sua cotidianidade, ainda que seja feita por “explicações falsas” do mundo que, no entanto, permitem esta ou aquela reprodução. Um exemplo é dado pelo filósofo György Lukács[2], em sua obra póstuma intitulada Para uma ontologia do ser social [Zur Ontologie des gesellschaftlichen Seins]. Segundo ele, para explicar como o geocentrismo servia para a orientação no mar (rotas marítimas etc.), mesmo que não fosse um conhecimento verdadeiro, essa teoria justificava algo da realidade factual dos homens em suas vidas.
Similarmente, a forma religiosa produz um mecanismo de explicação e de regulação social, exatamente porque aí está imbricado na conduta moral e na ética para o ser que faz dessas leis – religiosas – sua forma de vida. Desta maneira, a religião não é só algo simbólico, mas uma práxis social objetiva no conjunto cultural da vida.
Assim como as teorias e práticas decoloniais buscam um certo resgate ancestral, uma espécie de pátria transcendental, como visão de mundo rumo à certa emancipação dentro da caducidade do mundo liberal, o fundamento religioso – evangélico – parte do uso instrumentalizado (no contexto da ascensão das Igrejas neopentecostais e afins), como condicionante imediato do fetichismo. Bem como o dinheiro se torna como aparência da forma autônoma e portadora dos predicados do capital (valor, trabalho etc.), na religiosidade então aparece como os predicados de Deus (prosperidade, pátria e família).
A crítica, portanto, está em torno daquilo que Marx, em meados da década de 1840, já deixava claro na VII Tese ad Feuerbach: “Feuerbach não vê que o próprio ‘espírito religioso’ é um produto social e que o indivíduo abstrato, em que ele analisa, pertence na realidade a uma forma social determinada”[3]. Assim, Marx aponta que o homem produz a religião, e tal como produto dela, o fundamento de Deus não é quem cria a realidade, mas a realidade religiosa quem cria a representação de Deus.
No texto intitulado O livro de Apocalipse [The Book of Revelation] (originalmente publicado em 1883), Friedrich Engels afirma: “O cristianismo, como todo grande movimento revolucionário, foi feito pelas massas. Surgiu na Palestina, de uma maneira totalmente desconhecida para nós, em um tempo em que novas seitas, novas religiões, novos profetas surgiam aos montes”[4].
Sem adentrar em minúcias, no pequeno ensaio “Contribuições para a história do cristianismo primitivo” [Zur Geschichte des Urchristentums][5], publicado no periódico Die Neue Zeit [O novo tempo] (1894-95), Engels relembra também que o Cristianismo “era originalmente um movimento dos oprimidos, inicialmente parecia ser a religião dos escravos e dos libertos, dos pobres e dos homens sem direitos, dos povos subjugados e dispersos pelo Império Romano”[6].
É interessante aqui essa consideração de Engels. Embora não seja meu objetivo fazer uma análise histórico-filosófica do texto, a menção funciona para compreender como uma religiosidade menor foi transformada em religião oficial de Estado: uma ampliação cultural que nos diz muito para a problemática, em nosso tempo, na atualidade conjuntural brasileira.
De fato, pulverizam os “homens de fé”, junto às figuras políticas carimbadas que instrumentalizam o debate público em “nome de Deus”. Em seus interesses e projetos privados buscam convencer seus seguidores que há um destino e um mandamento que fala em “nome de Cristo” em face da desgraça social que eles mesmos sustentam.
A praga (a começar pela figura do ex-presidente J.B. e seus consortes), ao mesmo tempo em que trabalham como estelionatários da crença alheia, acusa aqueles que não aderem às ideias e movimentos (o verde-amarelismo contra a “ditadura do STF”, em favor da “anistia” para os recentes crimes políticos deles próprios etc.) de pecadores, traidores do evangelho e da igreja, ou mesmo de “comunistas” etc., fazendo a exposição caricatural de parcela significativa da comunidade civil que não partilham de tais práticas.
A plebe, cuja matriz se funda pela miséria espiritual, acaba de rebanho aderindo, por convicção ou ignorância, pela força real e simbólica, aos projetos políticos e “espirituais” de um mundo alienado; este conteúdo é um dos pilares do fenômeno da alienação no capitalismo. Os estertores políticos evangélicos se camuflam e revelam em passeatas, nas manifestações das redes sociais, bem como nas relações familiares e “afetivas” etc.
Nos últimos anos temos visto de modo vertiginoso o crescimento do evangelismo político, principalmente nos centros urbanos. (As mediações histórico-conceituais deixo para uma ocasião mais oportuna[7].) O sintoma político se revela na emergência do capitalismo em crise e de um horizonte social em retração. O imaginário real de grande parte da população é capturado pela doutrina neopentecostal que se fundou em objetivos políticos. A chamada “bancada evangélica”, uma de nossas pragas, ludibriam os interesses comuns, cuja tônica é dita como “opinião pública”. É essa gente quem determina os rumos institucionais de nosso país; essa gente quem delibera sobre corpos, mentes e corações de milhões e milhões de brasileiros todos os dias.
No entanto, vale lembrar que o protestantismo (vertente do catolicismo que se originou os evangélicos) surge da Reforma Protestante. O curioso é que a base do protestantismo tem como fundamento ideológico a ideia de que ninguém é representante oficial de Deus (embora as relações de poder e autoridade se reorganizaram dentro das igrejas reformadas). Seu pastor, líder, bispo etc., não tem autoridade para determinar em quem você deve ou não votar, qual ideário político seguir, e muito menos de definir quem é ou não um cristão; muito menos falar em “nome de Deus” referentes aos assuntos de interesse comum.
Além disso, como Marx apontava no núcleo, o problema é remetido inicialmente em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdução [Zur Kritik der hegelschen Rechtsphilosophie. Einleitung] (1843-44): “O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido. A religião é a teoria geral deste mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica em forma popular, seu point d’honneur espiritualista, seu entusiasmo, sua sanção moral, seu complemento solene, sua base geral de consolação e de justificação”[8].
Não se trata todavia de deslegitimar as crenças alheias, mas de submetê-las ao exame crítico de que a forma política não é isolada do fenômeno religioso (uma forma da consciência invertida). A plebe ergue a bandeira ideológica “em nome de Deus”, ou similar, reabre o assunto que, sem dúvidas, requer uma investida desmistificadora junto às ideias propagadas.
Em suma, diria que não é o ateísmo ou a ciência que irão acabar com a consciência religiosa das pessoas. Porém, é nesse mundo que provém a consciência em que elas vivem, a sua “teoria geral”. Como escreveu Engels, “O cristianismo se apoderou das massas, exatamente como o socialismo moderno, sob a forma de uma variedade de seitas e mais ainda de visões individuais conflitantes – algumas mais claras, outras mais confusas, estas últimas a grande maioria –, mas todas opostas ao sistema dominante para ‘os poderes que existem’”[9]. Noutras palavras, assim como o cristianismo se alastrou na sociedade como consciência real, o socialismo trata-se de superar os males reais da sociedade em que o cristianismo se fundamentou.
[1] Doutorando em Filosofia pela UFMG.
[2] LUKÁCS, György. Para uma ontologia do ser social II. 1° edição. Tradução Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2013
[3] MARX, Karl. Thesen über Feuerbach. In:___; ENGELS, Friedrich. Werke(MEGA). Berlim: Dietz, 1958. v. 3, p. 535.
[4] ENGELS, Friedrich. O Livro de Apocalipse. Tradução Lucas Parreira. Revisão Gabriel Perdigão. Notas Lucas Parreira e Gabriel Perdigão. Verinotio, Rio das Ostras-RJ, v. 26, n. 2, p. 299-304, 2020, p. 300.
[5] ENGELS, Friedrich. Contribuições para a história do comunismo primitivo. 1° edição. Prefácio Frei Betto. Expressão Popular/Perseu Abramo, 2023.
[6] ENGELS, 2023, p. 29.
[7] Entre outras recomendações possíveis, menciono aqui o livro de Iafet Leonardi Bricalli. Cf. BRICALLI, Iafet. O espírito neoliberal entre o diabo e o dinheiro: evangélicos, governamentalidades e lutas no Rio de Janeiro.São Paulo: Dialética, 2024.
[8] MARX, K. Introdução. In:__. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Tradução de Rubens Enderle
e Leonardo de Deus. 2ª edição. São Paulo, Boitempo, 2010, p. 145, grifos do autor.
[9] ENGELS, Friedrich, 2020, p. 300.

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