quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Xadrez de como o crime organizado se infiltrou no mercado financeiro brasileiro (incluindo bancos privados, especuladores da Bolsa de Valores e elites da Faria Lima) em artigo de Luis Nassif

 

Quando a participação criminosa se torna relevante economicamente, ela ganha poder político — através do mercado, da mídia e do Centrão.


Do Jornal GGN:


Xadrez de como o crime organizado se infiltrou no mercado financeiro brasileiro




Existe uma percepção simplista de que casos como o da Master envolvem apenas oportunistas que se aproveitaram de brechas regulatórias. A realidade é mais complexa e preocupante.

O entrelaçamento entre diferentes atores criou um sistema em que recursos de origem questionável tornaram-se relevantes para a liquidez de segmentos inteiros do mercado financeiro. Compreender essa dinâmica ajuda a explicar a intensidade dos ataques recentes contra instituições de controle, como o Supremo Tribunal Federal.

Não se trata de disputa partidária simples ou de defesa corporativa do Centrão. O que está em jogo é mais profundo.

A disputa real

Duas visões de país estão em confronto:

Modelo 1: Instituições reguladas e funcionais, segurança jurídica, respeito aos direitos fundamentais, combate efetivo ao crime organizado.

Modelo 2: Desregulação radical que beneficia desde milícias cariocas e o PCC paulista até setores do mercado financeiro dispostos a operar em zonas cinzentas. Um país loteado entre grupos de interesse, onde PMs da reserva dão ordem unida em escolas enquanto operadores tradicionais miram as grandes estatais.

Esta é a encruzilhada em que nos encontramos. Vejamos como chegamos aqui.

Peça 1: A mecânica do mercado financeirizado

Todo ciclo financeiro moderno passa por fases previsíveis:

Fase 1 – Excesso de liquidez: Cria-se uma economia circular em que a riqueza gerada no mercado financeiro precisa ser continuamente reciclada no próprio mercado. A Selic atrai mais dólares para o país, aquecendo ainda mais o mercado.

Fase 2 – Busca obsessiva por rentabilidade: A rentabilidade depende da diferença entre preço de compra e venda. Mesmo em mercados em alta, cada rodada exige valorização adicional.

Fase 3 – Inflação de ativos: Para sustentar o ciclo, há valorização excessiva de imóveis, recebíveis, precatórios, créditos judiciais, direitos futuros e tokens.

Fase 4 – Escassez de lastro: Esgotam-se os ativos de qualidade para originar novas operações. É quando o sistema se torna perigoso.

O cenário atual

Chegamos a uma situação instável, caracterizada por:

  • Créditos frágeis reembalados como “estruturados”
  • Ativos de difícil verificação
  • Avaliações “no modelo” (teóricas), não no mercado real
  • Intermediários dispostos a “resolver” documentação, lastro e liquidez por vias duvidosas

Esse ambiente é ideal para o capital criminoso, que não precisa ser eficiente — apenas entrar no fluxo.

Peça 2: As vantagens competitivas do crime organizado

O crime organizado prospera neste ambiente por três razões estruturais:

1. Capital paciente e opaco

  • Não precisa explicar origem dos recursos
  • Não sofre pressão de cotistas ou investidores
  • Tolera iliquidez prolongada e risco jurídico
  • Aceita retornos abaixo do mercado se houver lavagem de dinheiro

2. Oferta sob medida de ativos

Fornece exatamente o que o mercado sedento por papel precisa:

  • Créditos judiciais (reais ou forjados)
  • Empresas de fachada com faturamento “ajustável”
  • Imóveis superavaliáveis
  • Recebíveis recicláveis
  • Operações circulares

Quando o mercado precisa de papel, quem fabrica papel controla o jogo.

3. Assimetria regulatória

A regulação brasileira criou brechas sistêmicas:

  • Durante a gestão de Roberto Campos Neto no BC, houve afrouxamento generalizado dos mecanismos de controle
  • Gabriel Galípolo pratica regulação reativa, não preventiva
  • Persiste enorme vulnerabilidade em auditorias privadas, empresas de rating e processos declaratórios
  • O BC e a CVM aceitam declarações das instituições para conferir depois

Resultado: o crime sempre caminha à frente da regulação.

Peça 3: Os pontos de infiltração

1. Mercado de crédito estruturado

Instrumentos vulneráveis:

  • FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios)
  • Precatórios e créditos judiciais
  • Operações sem mercado secundário

Vulnerabilidades:

  • Valoração subjetiva
  • Due diligence terceirizada
  • Supervisão meramente documental

2. Mercado imobiliário financeiro

Instrumentos vulneráveis:

  • Fundos imobiliários opacos
  • SPEs (Sociedades de Propósito Específico) em cascata
  • Terrenos, galpões, multipropriedades
  • Avaliações infladas pela alavancagem

Característica: instrumentos clássicos de lavagem de dinheiro.

3. Bancos médios e plataformas de distribuição

Perfil de risco:

  • Instituições fora do radar público
  • Pressão por crescimento acelerado
  • Captação agressiva
  • Venda cruzada de produtos complexos

Resultado: campo fértil para associação criminosa.

4. Fintechs e criptoestruturas

Vulnerabilidades estruturais:

  • Originação pulverizada
  • KYC (identificação de clientes) terceirizado
  • Estruturas internacionais complexas
  • Dificuldade de rastrear o beneficiário final real

Peça 4: A desregulação como facilitadora

A desregulação raramente é explícita. Ela se manifesta em discursos aparentemente técnicos:

“Confie: o mercado se autorregula.”

Na prática, isso significa:

  • Regulador passa a confiar cegamente em modelos matemáticos
  • Fiscalização vira checklist burocrático
  • Punição só chega quando o dinheiro já foi movimentado
  • Baixíssima probabilidade de responsabilização efetiva

A captura política

O mais grave: quando a participação criminosa se torna relevante economicamente, ela ganha poder político — através do mercado, da mídia e do Centrão.

Compare a cobertura discreta dada às Operações Poyais (fraudes com criptoativos), Colossus e Carbono e campanha persistente e coordenada contra ministros do Supremo Tribunal Federal, valendo-se das brechas abertas pela ausência de um código de conduta.

Não se ficou apenas na denúncia – necessária – contra os Ministros, mas em uma campanha com o tom moralista da Lava Jato, com adesão de veículos de várias procedências.

A desproporção revela onde estão os interesses reais.

O que se vive  não é um caso isolado de corrupção ou oportunismo. É a captura gradual de segmentos do mercado financeiro por capital de origem criminosa, facilitada por desregulação intencional e protegida por poder político.

Reconhecer esse cenário é o primeiro passo para enfrentá-lo.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Olá... Aqui há um espaço para seus comentários, se assim o desejar. Postagens com agressões gratuitas ou infundados ataques não serão mais aceitas.