Ministros do STF criticam condução do inquérito, classificam exposição de mensagens pessoais como “absurdo” e avaliam cenário de imprevisibilidade
Condução do caso Master gera críticas e comparações com a Lava Jato no STF
A divulgação de mensagens atribuídas ao banqueiro Vorcaro e relacionadas à investigação sobre fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) provocou forte apreensão entre integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF). Ministros da Corte têm manifestado críticas à forma como o chamado caso Master vem sendo conduzido e avaliam que o episódio entrou em uma zona de imprevisibilidade, com potenciais impactos institucionais difíceis de medir. As informações são da jornalista Daniela Lima, do UOL.
Um conjunto de mensagens de Vorcaro foi encaminhado à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga irregularidades no INSS por determinação do Supremo, o que acabou levando à circulação pública de trechos das conversas nas redes sociais.
Entre os pontos mais sensíveis citados por integrantes do tribunal está o vazamento de mensagens íntimas atribuídas ao banqueiro Vorcaro, trocadas com sua ex-noiva e outras pessoas. Para dois ministros do STF ouvidos pela coluna, a divulgação desse conteúdo representa um grave problema.
Um dos magistrados classificou o episódio como um “absurdo” e destacou o impacto da exposição pública. “Em última instância”, afirmou, “trata-se de uma mulher, uma mãe, que teve sua intimidade absolutamente devassada para o país inteiro, passou a ser alvo de chacota e assédio às vésperas do 8 de março, sem que haja indício, até aqui, da eventual participação dela em qualquer ilícito”.
Nos bastidores do tribunal, ministros apontam que caberia ao relator do processo, André Mendonça, definir as diretrizes para que a Polícia Federal realizasse o envio do material à comissão parlamentar. A avaliação de alguns integrantes do STF é que a condução do procedimento abriu espaço para questionamentos e ampliou a repercussão do conteúdo das mensagens.
O episódio também despertou comparações internas com o período da extinta Operação Lava Jato. Nos corredores da Corte, voltou à pauta o debate sobre o que ministros classificam como possíveis “vazamentos seletivos”, tema que já foi alvo de críticas durante investigações anteriores de grande impacto político.
A preocupação ganhou força porque, até o momento, dois ministros do Supremo já teriam sido citados nos dados extraídos das mensagens de Vorcaro. A possibilidade de novos desdobramentos passou a gerar inquietação sobre os efeitos do caso na imagem institucional do STF e na trajetória pública de magistrados influentes, entre eles o ministro Alexandre de Moraes.
Um integrante da Corte resumiu o clima interno com uma metáfora: “Está todo mundo com um gosto de guarda-chuva na boca”. O mesmo ministro acrescentou que a situação é marcada por incerteza. “Nós estamos no terreno do imponderável. Jogaram um míssil cujo raio de ação ninguém conhece”, afirmou.
Como o processo tramita sob sigilo, as versões apresentadas por Alexandre de Moraes a respeito de mensagens que teria trocado com Vorcaro ainda não puderam ser confrontadas de maneira ampla pelos demais integrantes do tribunal. Assim, segundo relatos de ministros, o debate acabou reduzido a uma disputa de narrativas — o que dificulta uma avaliação mais conclusiva do episódio.
Até a noite da última sexta-feira, de acordo com a coluna do UOL, Moraes ainda não havia discutido o tema de forma aprofundada com colegas do plenário do Supremo. A falta de conversas diretas também contribuiu para ampliar o clima de cautela e especulação dentro da Corte.
A possibilidade de convocação de uma nova reunião reservada entre ministros para tratar do caso tampouco foi recebida com entusiasmo por todos. Questionado sobre a hipótese, um magistrado respondeu com ironia: “Com ou sem gravação?”. A frase fez referência à suspeita, mencionada nos bastidores, de que uma reunião anterior — realizada quando o ministro Dias Toffoli estava no centro de questionamentos — possa ter sido gravada.
Além das críticas internas, alguns ministros também avaliam de forma negativa a maneira como o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se posicionado sobre o caso. “Há, na minha avaliação, um erro de análise. O Planalto achou que poderia colar o caso no bolsonarismo, mas não é o que está acontecendo e a fatura está caindo no colo do Lula”, afirmou outro integrante do tribunal.

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